terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os primórdios de um desenvolvimento saudável


 
É na relação mais precoce entre a mãe e o seu bebé que se inicia toda a vida psicológica e se traçam os primeiros caminhos de vida do indivíduo. Na gravidez, a ligação entre a mãe e o feto estabelece-se desde muito cedo, sendo por isso que gestações conturbadas muitas vezes estão na origem de alguns problemas relacionais futuros. Quando o bebé vem ao mundo, os primeiros contactos estabelecidos são igualmente de muita importância. O primeiro olhar entre a mãe e o seu filho, e as interacções que a pouco e pouco se vão desenvolvendo, marcam a vida desta criança de forma inquestionável. A amamentação é um momento fundamental na vida do bebé, quer pelas reconhecidas propriedades benéficas do leite materno, quer pela criação da proximidade relacional entre mãe e filho, que atinge um dos seus expoentes máximos durante a amamentação. A amamentação deve, assim, ser prolongada o máximo de tempo possível. Uma boa relação entre mãe e bebé tem também por base a capacidade desta mãe de conter as angústias do bebé, de o fazer sentir-se seguro e protegido e de compreender as suas necessidades, colmatando-as. Esta mãe suficientemente boa não deixa que o seu filho se sinta em desamparo mas também não o sufoca e, a pouco e pouco este bebé vai conseguindo lidar cada vez melhor com o mundo e com as ausências da sua mãe, graduais. Originará uma criança com uma auto-estima positiva, auto-confiante e segura, mais autónoma e mais capaz de explorar o mundo.
A qualidade do vínculo que se estabelece nesta dupla relaciona-se também com a forma como a mãe olha o seu bebé. O rosto da mãe funciona para o bebé como um espelho e na forma como a mãe o olha ele começa a perceber quem é. O bebé vê-se da forma que a mãe o vê. Quando ele olha para a sua mãe e vê reflectido o amor e o encantamento, vive uma experiência positiva e começa a construir uma saudável imagem de si próprio. Por outro lado, o bebé que olha para o rosto da mãe e vê desilusão, frustração ou desamor, estará certamente mais exposto a um crescimento em que a imagem de si próprio é menos positiva. Pode dizer-se, essencialmente, que a receita mágica para uma relação saudável entre mãe e filho assenta no amor que se estabelece entre os dois. Esse é o ponto de partida sem o qual nenhuma outra estratégia fará sentido, pois é nesse amor que surge a capacidade de compreender, conter, securizar, educar, e é esse amor o responsável pela sensação indispensável de que não estamos sozinhos.

Pedrinha

O cérebro alimenta-se de informação. A alma, de relação.
(António Coimbra de Matos)

Mãe, não quero ir à Escola..!




Desde meados dos anos 80 que o conceito de bullying se tornou foco de interesse de psicólogos e outros técnicos mas, foi há poucos anos que o seu significado chegou ao cidadão comum. O bullying é uma forma de agressão na qual há um desequilíbrio de poder entre agressor e vítima. Assume várias formas e pode ocorrer nos mais variados contextos, sendo que o mais comum é entre crianças ou jovens, em contexto escolar.
Sob a forma de violência física ou psicológica, isto é, quer através de agressões físicas ou verbais (humilhações, insultos, chantagens, perseguições, exclusão), o bullying pode ter severas consequências, quer a curto, quer a longo prazo, na vida da criança e, posteriormente, do jovem e do adulto. Os casos de bullying ultrapassam em larga escala o que por norma se possa imaginar, sendo que muitas as crianças ganham pânico à escola devido à existência de algum tipo de abuso por parte de colegas, normalmente mais velhos ou, pelo menos, de alguma forma mais poderosos. Este pânico, traduzido tantas vezes num discreto “Mãe, não quero ir à escola” que tem como resposta um descuidado “Não sejas preguiçoso”, é muitas vezes camuflado também por dores e outras manifestações sintomáticas e possivelmente acompanhado de ansiedade, medos e pesadelos. Geralmente, as verdadeiras razões desta fobia escolar não são reveladas aos pais, nem a outros responsáveis, por medo de represálias.
Esta forma de violência infantil tem normalmente como vítima uma criança emocionalmente mais frágil, que se deixa amedrontar e se fecha no silêncio. Este medo alimenta o desejo do agressor (ou grupo de agressores) devido à sensação de poder sobre a criança assustada. Poderá ter, como consequência extrema, o suicídio, de tal forma a auto-estima da criança ou adolescente é destruída.
Exige-se a continuação da divulgação desta forma de violência. Exige-se um olhar atento por parte dos professores e funcionários das escolas, que são elementos privilegiados na descoberta da ocorrência destes episódios, nunca esquecendo que a subtil violência psicológica não deixa marcas visíveis, mas deixa marcas igualmente profundas. Exige-se ainda um cuidado especial por parte dos pais, que devem estar sempre atentos e disponíveis para investigar e ajudar caso suspeitem que um filho seu esteja nesta situação.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ver os filhos partir




Assiste-se, actualmente, a um adiamento da saída dos filhos da casa dos seus pais. O prolongamento dos estudos, o desemprego, a dificuldade em arranjar casa, a necessidade de maior maturidade para o casamento e para a paternidade, os problemas económicos, representam os factores responsáveis por esse adiamento. Esta é, por vezes, uma fase de difícil gestão, tendo em conta que os filhos já atingiram o estatuto de adultos mas, no entanto, têm que cumprir algumas regras familiares que os pais também têm de continuar a impor. Contudo, a família deve facilitar a saída dos filhos de casa antes da sua concretização.
Esta atitude começa por promover a individualidade e autonomia dos filhos num contexto de respeito mútuo. Há espaços da vida do jovem adulto que já não poderão ser invadidos e a convivência começa a assentar numa espécie de negociação de parte a parte. O facto de o jovem poder ainda estar economicamente dependente dos seus pais, não lhe retira o estatuto de adulto, pelo que este não se sentirá bem se continuar a ser tratado como uma criança, revelando ainda mais dificuldade em adaptar-se no dia em que finalmente sair de casa.
Após a saída efectiva de casa, nascem outras questões para gerir. Um novo equilíbrio é necessário, porque agora os pais devem estar atentos mas não vigilantes, disponíveis para ouvir a ajudar mas com a capacidade de tolerar que outras soluções possam ser preferidas e, capazes de aceitar que as relações familiares se expandam a novos elementos provenientes da inserção de novos parentes.
            Quanto aos filhos, agora indivíduos independentes, cabe-lhes a tarefa essencial de manter uma fronteira saudável entre si (ou a sua nova família marido/mulher) e a família de origem, não estabelecendo limites demasiados rígidos nem demasiado permissivos na convivência e influência da família.

Referência: Alarcão, M. (2006). (Des)equilíbrios Familiares. Editora Quarteto. 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Primeiros Passos


        Iniciando uma aventura na blogosfera, nasce o Pedra de Toque. Deve a sua existência a uma coluna de artigos de opinião, homónima, num semanário local, onde durante mais de um ano tenho expressado opiniões e conhecimentos sobre uma área apaixonante, a Psicologia. Para quem aprecia saber mais e perceber melhor. Sobre nós, sobre os outros, sobre nós e os outros.