domingo, 30 de janeiro de 2011

Pedrinha (Das perspectivas)

Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é.
(William James)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Love, by The Beatles

Incapacidade Maternal

 “Ser mulher não é equivalente a ter a capacidade para ser mãe (…) Se a mulher tem útero logo pode procriar. Como se não se tratasse de útero e mente. Corpo e alma para fabricar um ser humano também com direito a alma”, nas palavras de Teresa Ferreira. O conceito de incapacidade maternal não implica uma patologia, mas sim uma característica da personalidade de algumas mulheres. E embora sendo uma limitação do ser humano como outra qualquer, carrega um preconceito tão acentuado que não é convenientemente pensada. Uma mulher com capacidade reprodutora que opte por não ter filhos nem sempre é compreendida.
A função materna implica uma capacidade contentora que se manifesta logo durante a gravidez. Conter significa possuir qualidade nos afectos e uma sensibilidade muito particular relativamente ao seu filho. Estar disponível para amar e empatizar com ele. Conseguir ser uma segunda pele, amparando e elaborando as suas angústias e devolvendo-as, devidamente resolvidas. Ter a capacidade de manter uma posição flexível e dinâmica ao longo dos seus estádios evolutivos, com vista ao desenvolvimento gradual da autonomia da criança.
Não se trata de ser exigente com as mães. Pelo contrário, poucas mulheres serão a mãe modelo e Winnicott foi extremamente certeiro quando designou a mãe necessária ao bom desenvolvimento do bebé como uma “mãe suficientemente boa”. Falamos, sim, de casos de incapacidade destrutiva. De mulheres cuja paixão exclusiva é o seu trabalho, a arte ou a ciência. De mulheres, outras, que vivem condicionadas pela dependência de substâncias, negligenciando os filhos para alimentarem outro “amor”. De mulheres da vida que “fabricam”, literalmente, filhos, espalhando-os por amas, instituições e famílias de acolhimento. Falamos também de mulheres que apenas não sentem um instinto maternal. Simplesmente não sentem.
Depois, há as crianças que nascem para salvar relações (falta de informação, seguramente, pois a parentalidade é uma das mais difíceis provas numa relação entre homem e mulher). Há as que nascem para preencher vazios emocionais (usadas, as pobres, como objectos de amor possessivo) e há as que nascem por um acaso (acidentes de percurso) e que nunca chegam a ser desejadas.
E mais tarde, demasiado tarde, há mães que abanam os filhos como se abana um caixote (no melhor dos casos) quando o choro se torna incessante, porque aquela mulher não tem dentro de si a capacidade materna, o entendimento, a disponibilidade e o amor necessário. E nunca pensou sobre isso.
Há mulheres que, simplesmente, não têm na sua vida o espaço emocional necessário para um filho. O reconhecimento das nossas próprias limitações é a maior manifestação de inteligência. Ser mãe não é um dever, é uma escolha. Uma escolha em consciência. Uma promessa de amor eterno. 



Referência: Ferreira, T. (2002). Em defesa da criança. Assírio & Alvim.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pedrinha (Do amor no Inverno)

 “Claro o inverno estreita. Como a sorte o
acolhamos. Haja inverno na terra e não
na mente, e amor a amor, ou livro a
livro, amemos a nossa Lareira breve”. 

Ricardo Reis

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sensibilidade e bom senso


Educar é uma arte que exige bom senso e muito amor. Quando educamos uma criança, estamos não só a ensinar-lhe as regras básicas de funcionamento em sociedade, mas também a vincar-lhe o carácter e a moldar o seu desenvolvimento, cognitivo, social e afectivo. Na área da Psicologia da Família, fala-se comummente em estilos parentais educativos. Baumrind (1971) propôs uma categorização em três estilos que, embora seja uma generalização, abrange os padrões mais comuns de exercer a parentalidade: estilo autoritário, estilo permissivo (indulgente ou negligente) e estilo autoritativo.
O estilo autoritário implica um controlo rígido das atitudes da criança (associado ao uso de medidas punitivas verbais ou físicas), sem negociação, numa atmosfera de pouco envolvimento emocional. Exige-se obediência absoluta, no entanto, o apoio e suporte emocional fornecido é habitualmente fraco.
O estilo permissivo, na versão indulgente, caracteriza-se pela ausência de normas, apesar de o ambiente familiar ser geralmente muito rico em afectos. Os desejos dos filhos assumem um papel central na família. Há, portanto, um baixo nível de controlo e são feitas poucas exigências aos filhos, nomeadamente a nível da obediência, da responsabilidade e da maturidade. Na versão negligente verificamos a mesma ausência de limites e estruturação mas, neste caso, aliada a um desinteresse e demissão das funções parentais. São, no fundo, pais ausentes em todos os sentidos.
O estilo autoritativo (ou estilo participativo) é exercido com partes aproximadamente iguais de controlo e apoio familiar, impondo regras mas estimulando simultaneamente a independência dos filhos, através de um nível médio e adaptativo de exigências ao nível da responsabilidade e crescimento. Quando a circunstância o permite, há negociações e comunicação familiar, contudo, noutros contextos, verifica-se uma maior rigidez e assertividade, devendo assentar este equilíbrio na especificidade de cada criança no que respeita à sua idade, maturidade e motivações.
A investigação tem demonstrado que, de uma forma geral, o estilo parental autoritário conduz a um desenvolvimento com base na obediência e responsabilidade, produzindo, contudo, maiores níveis de ansiedade, insegurança e sentimentos de infelicidade, bem como uma baixa auto-estima e um índice elevado de depressão. Por outro lado, o estilo permissivo está habitualmente associado a problemas de comportamento, devido à falta de estruturação, sendo o impacto ainda maior nos casos de negligência, tendo em conta o défice nos afectos. Os estudos apontam, assim, para que seja o estilo autoritativo que conduz a um maior sucesso ao nível do desenvolvimento emocional, escolar e social.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Pedrinha (De reflexão)

Reflectir é voltar a pensar: com nova informação, de outros pontos de vista, comparando e cruzando diferentes conhecimentos e diversas experiências, construindo novos conceitos, criando novos aparelhos pensantes.
(António Coimbra de Matos)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Profissionalmente exaustos


O trabalho representa uma larga fatia das nossas vidas. São horas e horas, dias, meses e anos gastos a trabalhar. Imagine-se que, certo dia, acordamos e pensamos que aquele nosso trabalho se tornou um verdadeiro massacre. Pior, parece que, gradualmente, o desespero se torna maior. E, subitamente, já nada do que se faz parece bem feito. A paciência para determinadas situações ou indivíduos esgotou-se.
Este sentimento de fracasso e exaustão decorrente de um excessivo desgaste de energia, resultando numa forma de esgotamento, decepção e perda de interesse pelo trabalho, tem um nome. O burnout, também conhecido como síndrome de exaustão, é um fenómeno que atravessa várias classes profissionais. O termo, com maior projecção a partir da década de 70, tem origem numa expressão inglesa para designar “aquilo que deixa de funcionar por exaustão de energia”. Mais detalhadamente, a síndrome de burnout é um estado de exaustão física e emocional persistente, com origem no trabalho, caracterizado também por sentimentos de reduzida eficácia, diminuição da motivação e atitudes e comportamentos laborais disfuncionais (Schaufeli & Buunk, 2003).
Surge com maior incidência em profissionais das ciências humanas, médicas e sociais. Os estudos mostram que, no topo, se encontram os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, entre outras semelhantes. Porquê nestas áreas em particular? Por serem profissões cujas rotinas implicam grandes cargas de stress decorrentes do contacto diário, intenso e contínuo com utilizadores de serviços, geralmente com uma ou mais formas de sofrimento. Os professores pertencem igualmente a uma classe profissional que implica elevadas cargas de stress e desgaste, tendo em conta a exigência de desenvolver trabalho no seio do croché de relações humanas que se desenvolvem numa sala de aula. Principalmente numa escola do novo milénio. Outras profissões aqui não contempladas também não estão livres e o tema ainda exige mais estudo.
Claro está que cada indivíduo tem a sua forma particular de sentir o stress. Uns mais resilientes que outros, desenvolvem estratégias fantásticas para não colapsar. Contudo, ninguém está livre de, num momento mais frágil, perder a força. Depende de cada um, da vida de cada um, do trabalho de cada um e das circunstâncias em causa. Parece uma desculpa preguiçosa da civilização moderna para não trabalhar, mas não é. O stress da vida actual não é semelhante ao stress de antigamente. Há quem trabalhe muito e em mais que um emprego, para sobreviver. Há quem já quase não tenha tempo para si mesmo. O mundo está a mudar. É necessário oferecer estruturas de apoio aos profissionais mais sujeitos, para que a qualidade dos serviços e também da vida de cada um se mantenha.

Pedrinha (Do amor)

Quanto mais amor temos, tanto mais fácil fazemos a nossa passagem pelo mundo.
(Immanuel Kant)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pedrinha (Dos caminhos)



"Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente."

Milan Kundera, in "A Imortalidade"

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Odeio-te, Pai!"




Alienação Parental. O conceito é relativamente recente mas representa uma realidade que muitas pessoas já viveram, presenciaram ou tiveram conhecimento. Só não sabem, talvez, que até tem um nome. É um fenómeno em que um dos progenitores manipula e 'programa' um filho para odiar o outro progenitor, conduzindo a uma ruptura desse vínculo parental.
Em Portugal, e na altura sem uma designação, a questão ganhou relevo após a aprovação da lei do divórcio para os casamentos católicos, no pós-25 de Abril, quando, naturalmente, aumentaram também as disputas litigiosas pela custódia dos filhos. Em 1985, Richard Gardner descreveu inclusivamente um conjunto de 'sintomas' a que chamou: Síndrome de Alienação Parental. É o quadro completo e instalado. A criança, vítima de uma profunda “lavagem cerebral”, acaba por eliminar, pelo menos temporariamente, todos os laços afectivos que a uniam a esse progenitor, outrora amado. Sim, desaparece o amor. Desaparece a saudade. Por vezes o impacto é mais moderado e a criança não chega a sentir ódio mas pode ser levada a sentir vergonha, incómodo ou indiferença relativamente ao progenitor lesado.
É uma forma de mau-trato. É considerado abuso psicológico. Levar uma criança a odiar, por si só, é mau. Levar uma criança a odiar um dos seus próprios pais, é terrível. Uma criança que sofra uma realidade assim terá, naturalmente, o seu desenvolvimento psicológico e social comprometido. O direito a amar um pai e uma mãe foi boicotado. O ódio, a mentira e a manipulação foram ensinados. As suas relações futuras poderão ficar comprometidas, assentes em padrões disfuncionais. Mais tarde, também o seu papel de mãe ou de pai poderá sofrer ainda das consequências da manipulação de que foi vítima.
Com o progenitor alienador, sendo mais comum a mãe alienar os filhos contra o pai do que o inverso, a criança cria um vínculo de dependência afectiva, normalmente pautado pela ansiedade e pelo medo. Um pacto de lealdade inconsciente foi estabelecido. A criança coopera em tudo, identifica-se ao alienador e usa a racionalização para lidar com a situação. Existem casos de crianças vítimas de SAP que chegam a prestar sombrios falsos testemunhos relativamente ao progenitor, agora persona non grata. Perante tudo isto e naturalmente incapaz de juízo crítico sobre as palavras do adulto manipulador, a criança não se sente ambivalente e vive mesmo sem culpa. Essa, chega bem mais tarde, às vezes já em adultos, e é destrutiva. Acontece também com frequência que o progenitor alienador não descanse enquanto não se munir de um rol de testemunhas que consiga igualmente alienar, nomeadamente, profissionais de saúde mental que atestem toda a sua teoria. 
Não há ainda consenso no que respeita a alguns contornos da SAP. Na verdade, se a saúde mental e o bom-senso imperassem, não precisaríamos de um nome tão pomposo para algo tão evidentemente danoso, mas às vezes é preciso dar nome às coisas para que elas se façam ouvir.  É um acto de terrorismo psicológico e chega aos tribunais e à vida das crianças com demasiada frequência. É preciso muita atenção. É preciso ouvir ambos os pais. Enquanto técnicos de saúde mental, somos obrigados a zelar pela verdade, em primeiro lugar. Em casos de separação e divórcio, deparamo-nos muitas vezes com teatros de toda a espécie e com muita vitimização de uma das partes e por isso os olhos têm de estar bem abertos. No superior interesse da criança.

Pedrinha (Do viver)

"Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda as marcas nosupermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos. Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar. Estejamos vivos, então!"

Pablo Neruda

Feliz Ano Novo

domingo, 26 de dezembro de 2010

Doença Crónica


Uma criança doente vive as suas tarefas de desenvolvimento num patamar de exigência muito superior ao de uma criança saudável. O funcionamento familiar ressente-se também. A doença crónica é geralmente um factor de stress que afecta o desenvolvimento normal da criança e que atinge as relações sociais dentro do sistema familiar.
 Como se define uma doença crónica? É uma doença de curso prolongado, com evolução gradual dos sintomas e com aspectos multidimensionais, potencialmente incapacitante, que afecta, de forma prolongada, as funções psicológica, fisiológica ou anatómica. No leque das doenças crónicas estão incluídas doenças orgânicas (diabetes, fibrose cística, cardiopatias congénitas, insuficiência renal crónica, cancro, hemofilia, SIDA, entre outras), deficiências físicas (deformações ou falta de algum membro do corpo, deficiência visual e auditiva, entre outras), doenças neurológicas (epilepsia, paralisia cerebral, entre outras), doenças psicossomáticas (asma, obesidade, entre outras) e ainda algumas doenças mentais.
Uma criança doente exige cuidados especiais e rotinas exigentes. No que respeita aos pais, todo o stress aliado aos tratamentos ou cuidados paliativos e ainda os receios naturais que uma doença implica, conduz a papéis parentais muito mais exigentes. E, naturalmente, os pais sentem isso. Contudo, é importante que sejam sempre encorajados, desde cedo, a participar nas rotinas de cuidados com a criança.
Encontra-se frequentemente um isolamento social da família, situação que pode deixar a criança doente ainda mais vulnerável a perturbações emocionais, podendo contribuir para perpetuar o estigma da doença e criar dificuldades na forma de lidar com ela. Por isso, o papel da família como elemento atenuante dos efeitos negativos da doença é fundamental, sendo essencial proporcionar à criança um ambiente facilitador do envolvimento em actividades sociais.
Mais ainda. Quanto melhor a rede de apoio social da família, menor a sensação se stress vivida pela mesma. O suporte social recebido pelos progenitores da criança (família, amigos, profissionais de saúde e existência de recursos na sociedade) é essencial para o bem-estar da criança, visto que diminui os níveis de stress dos pais, possibilitando, consequentemente, uma vinculação mais adequada com seu filho.
Nos casos de doença crónica exige-se uma abordagem multidisciplinar, que envolva não só os seus aspectos clínicos, mas também as vertentes psicológica e social, quer em relação à criança, quer no apoio à família. Exige-se também que os recursos e apoios sociais existam e sejam acessíveis para que se minimize o impacto da doença nas famílias. E, já agora, exige-se a prevenção, sempre que possível. Quão longe estaremos disso?

Pedrinha (Do amor e do ódio)


“Amor e ódio são cornos da mesma cabra.“
(Albano Moreira da Silva)









[No extremo oposto ao amor não encontramos raiva, mas sim indiferença.]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pedrinha (Dos vôos)

"-Era como se ele me cortasse as pernas e depois me mandasse correr..!"
"-Mas isso era só porque ele sabia que tu podes voar!"
(Cacica, 2005)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mudanças


De que forma a nossa infância influencia quem somos e como funcionamos? Influencia muito. Durante o percurso de vida, vamos sendo condicionados por acontecimentos e vivências, que nos conduzem por determinados caminhos. Contudo, há um molde inicial que se constrói desde os primeiros momentos e que formata os nossos comportamentos, atitudes e valores de forma bem vincada.
O objectivo de compreender as raízes do nosso funcionamento vai muito além de procurar um bode expiatório para o sofrimento humano. Durante uma análise ou outra terapia, procura-se compreender para transformar e nunca, jamais, compreender para acusar e julgar. Através da compreensão dos porquês surge a capacidade de transformar certos padrões de funcionamento, ciclicamente repetidos.
Por norma, qualquer mãe-ou-pai-digno-desse-nome faz o seu melhor e, quando age, age na melhor das intenções. No entanto, criar uma criança é uma tarefa árdua. E aceitar a falibilidade humana é tarefa crucial para o desenvolvimento emocional (a nossa e a dos outros). Em acréscimo, cada progenitor traz também consigo uma bagagem emocional, legado dos seus próprios pais e das suas vivências, que condicionaram igualmente a sua personalidade e funcionamento perante os filhos. Estamos perante um fenómeno transgeracional. Sim, a nossa família molda-nos. E molda-nos a vida emocional, molda-nos a vida profissional, molda-nos a vida familiar…! Molda o nosso pensamento, as nossas acções, reacções e relações.
“Então, os meus pais (ou educadores, outros) tiveram influência na minha personalidade? E também na minha forma de encarar a vida? E já agora, porque fracassam todas as minhas relações amorosas?! Porque sou assim? Será que o problema é meu ou será que escolho as pessoas erradas?” Ora, que boas perguntas! Sim, o meio familiar (com todas as suas variáveis) influencia garantidamente a personalidade. Sim, condiciona a nossa forma de olhar a vida (e o mundo). E sobre as relações, muito mais se pode descobrir, pois num sistema (nós e o outro) não só existem as nossas características como também as características do outro. Um verdadeiro cocktail...! Poderá, sim, haver uma falha na forma de se relacionar com o parceiro. Poderá, sim, por outro lado, haver uma escolha viciada e inconsciente de pessoas problemáticas (problemáticas na relação connosco e não necessariamente problemáticas "de fundo") como parceiro. Poderá ainda haver um bloqueio na relação em função do choque de personalidades, choque esse que eventualmente se ultrapassa se ambas as partes reconhecerem a raiz dos conflitos e a trabalharem, bem como trabalharem na sua evolução pessoal. Ou então não se ultrapassa, mas pelo menos o indivíduo fica a perceber porque falhou a relação e seguramente aprenderá algo útil à sua próxima escolha. Quanto melhor nos conhecermos, mais fácil ser feliz.
Com ajuda, em terapia, tudo isso se trabalha. Tudo se muda, tudo se transforma. De dia para dia. E se falar numa mudança absoluta é algo utópico, uma mudança suficiente é perfeitamente alcançável. Começa com um exercício conjunto de descoberta dos padrões de funcionamento. Fazem-se as pazes com o passado, quando necessário. Depois do entendimento, um novo exercício, algumas vezes penoso e prolongado, de tentar contrariar e modificar a questão problemática.
Iniciar uma terapia não implica doença mental. A existência de um sofrimento ou limitação é motivo suficiente para procurar a mudança. Ter a capacidade de reconhecer que uma ou mais áreas da nossa vida não estão a fluir como deveriam, procurar compreender as causas e as perspectivas de mudança, demonstra inteligência e capacidade de insight. Há quem diga que viemos ao mundo para sofrer. Não é um bom princípio. Se a nossa evolução pessoal nos trouxer menos sofrimento, porque não?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pedrinha (Da trilogia do sucesso)

Amor, determinação, acção – eis a trilogia do sucesso. Não fora o Homem um bicho extraordinariamente emotivo e relacional (de inteligência social), neofílico – interessado nos acontecimentos que decorrem no seu largo mundo –, poiético (sonhador) e construtor, o autêntico Arquitecto Supremo de que os maçons falam.

António Coimbra de Matos (Comunicação de abertura do Seminário Amor em Tempos de Inverno, Outubro 2010)