domingo, 17 de abril de 2011

Pedrinha (Post Scriptum, de A. Coimbra de Matos)


A crueldade – sadismo, na mais pura conceptualização e linguagem psicanalítica (a aliança da agressão com a libido) é um fenómeno do poder: da sua aquisição, da sua posse e do seu exercício. E esta é a violência que mais nos preocupa – a violência do poder, a violência de quem detêm o poder, sobretudo quando o seu detentor é um grupo organizado, tem um credo e promulga as suas leis – o exemplo mais perfeito é a violência do Estado.

António Coimbra de Matos

sábado, 16 de abril de 2011

Psicanálise de Frida Kahlo

“Encontramos na obra de Frida Kahlo, a meu ver, uma força imperiosa que a impelia a desenvolver um sentimento de existência própria, que lhe permitisse suprir buracos psíquicos causadores de muita dor. Sua arte lhe servia como ponte para a sobrevivência psíquica. Ao lado disso, contava com um desejo de viver e uma criatividade que podia ser vista nas cores vibrantes de suas obras e no humor e ironia de suas cartas, assim como em seus momentos de irreverência. Nesses movimentos pode-se identificar o viver criativo e único que caracteriza sua vida e produção artística, e que nos impressiona pelo seu impacto afetivo.
Suas palavras falam por si:
Não me permitiram preencher os desejos que a maioria das pessoas considera normal, e nada me pareceu mais natural do que pintar o que não foi preenchido (…) Minhas pinturas são (…) a mais franca expressão de mim mesma, sem levar em consideração julgamentos ou preconceitos de quem quer que seja (…) Muitas vidas não seriam suficientes para pintar da forma como eu desejaria e tudo que eu gostaria.”

(excerto do trabalho Frida Kahlo: a pintura como processo de busca de si mesmo, de Gina Khafif Levinzon, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo)

Coisas Boas

Frida Kahlo
Viva La Vida

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pedrinha (Do Erro de Descartes)

Comecei a escrever este livro com o intuito de propor que a razão pode não ser tão pura quanto a maioria de nós pensa que é ou desejaria que fosse, e que as emoções e os sentimentos podem não ser de todo uns intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior.

António Damásio (in O Erro de Descartes)

domingo, 10 de abril de 2011

Pedrinha (De Freud)

Freud se é expulso pela porta, reentra pela janela.

Carlos Amaral Dias (in Freud para além de Freud)

Dependências


No século passado, o consumo de drogas representava uma forma de libertação, numa sociedade que se apresentava castradora. As drogas fizeram parte de uma revolução ideológica mas, actualmente, são sustentadas e alimentadas por outros e diferentes factores. Hoje, a toxicodependência pode ser encarada como um sintoma do mal-estar social, nomeadamente, das dificuldades económicas, do desemprego e da crise da habitação. O consumo de substâncias funciona agora muitas vezes como válvula de escape de uma sociedade, nada castradora, mas competitiva e cada vez mais exigente. Mais, representa um sintoma da crise de valores vigente, reflectindo a passagem de uma sociedade centrada no cumprimento do dever para uma sociedade virada para a procura do prazer. É ainda, inquestionavelmente, resultado da sociedade consumista, que compensa, através do consumo (num sentido alargado), as frustrações e as dificuldades. O contexto sócio-cultural mudou, mas parece que as drogas vieram para ficar. Permanecem, reinventando-se, plásticas e maleáveis às exigências da evolução.
Também interessa perceber que os factores sociais por si só não bastam para compreender o fenómeno das dependências. Eles actuam em conjunto com as especificidades psicológicas de cada indivíduo. Considera-se que a toxicodependência é representativa de um conflito intrapsíquico, inconsciente, associado a relações familiares patológicas (onde a análise dos vínculos estabelecidos entre o indivíduo e os seus progenitores desempenha papel central na compreensão da dependência) e relacionado com debilidades nos processos de individuação e autonomização, como se observa tantas vezes pela análise da história de vida do indivíduo.
Existem ainda diferentes formas de consumo, com diferentes significados. Como tal, as razões que levam as pessoas a experimentar são diferentes das razões que as levam a ficar dependentes. Inicialmente, numa fase de experimentação, há um conjunto de factores que explicam o consumo (curiosidade, vontade de testar os limites, de pertencer a um grupo, desejo de diversão, medo da exclusão do grupo, disponibilidade da droga, ilusão da resolução de problemas). Depois, o indivíduo até pode manter-se num consumo recreativo, associado ao lazer e à diversão. Contudo, como se sabe, pode igualmente tornar-se numa dependência, último estádio dos consumos. O problema fundamental é que quando uma pessoa psicologicamente vulnerável se inicia nos consumos de substâncias altamente aditivas, o consumo passa a ser a motivação central na vida do indivíduo.
Nenhum tratamento de dependências é feito sem intervenção psicológica. Descobrir os factores que alimentam a adição é essencial. Trabalhá-los. E como objectivo último, diminuir a ligação à substância e aumentar a ligação à vida, devolvendo ao indivíduo a sua a liberdade, dignidade e autonomia.

domingo, 3 de abril de 2011

Falando de Saúde Mental

"Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais. Dois milhões de pessoas sofrem de depressão, a maioria mulheres. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que, em 2020, será a patologia que mais despesas acarretará para o Estado."

(in Visão, 31 de Março de 2011)

Pedrinha (Da psicanálise)

(...) A análise, a cura analítica, muito mais que recriar o que foi — isso será tão-só a necessária base de dados para o mais importante e nobre trabalho ulterior —, a análise, dizíamos, é criar “aquilo que não foi mas podia ter sido” (como fala o eloquente verso do poeta brasileiro Manuel Bandeira); quero dizer, criar — porque de criação se trata — um novo crescimento mental; no local vazio ou desértico do crescimento anulado ou abortado, lá e outrora. (...)

António Coimbra de Matos (in Comunicação do I Congresso Luso-Brasileiro de Psicanálise, Maio 2006)

quinta-feira, 31 de março de 2011

De corpo e alma


No século XVII, Descartes considerava que corpo e alma, embora diferentes e separados (dualismo cartesiano), se influenciam mutuamente (através da glândula pineal, dizia). Espinosa, afirmou que corpo e mente não são elementos distintos, como defendia Descartes, mas sim dois atributos diferentes da mesma substância (ou seja, corpo e mente são exactamente a mesma coisa vista de perspectivas diferentes).
Há, indiscutivelmente, um continuum entre corpo e mente. Como tal, muito frequentemente, algumas dores do corpo não são mais do que manifestações das dores da alma e esse fenómeno chama-se psicossomática. Conflitos que parecem impossíveis de ser mentalizados, expressam-se através do adoecer do corpo. Funciona como uma descarga agressiva do corpo sobre os órgãos (o sujeito não tem a capacidade de elaborar mentalmente os impulsos, nem sequer de os descarregar pelo comportamento sobre o exterior, no mundo, virando assim a agressividade contida contra si mesmo). De forma inconsciente, naturalmente.
Toda a doença psicossomática implica uma perspectiva holistica, operando num campo interdisciplinar que integra várias especialidades da medicina e da psicologia para estudar os efeitos de factores sociais, psicológicos e comportamentais sobre processos orgânicos e sobre o bem-estar das pessoas. A mente chega a todos os recantos do corpo. Destacam-se algumas patologias amplamente associadas a factores psicológicos, frequentemente encontradas em doentes psicossomáticos, como algumas doenças gastrointestinais (síndrome do cólon irritável; doença de Crohn; colite ulcerosa), doenças do foro respiratório (asma brônquica), doenças cardiovasculares, doenças endócrinas (diabetes); doenças dermatológicas (dermatite atópica; psoríase); doenças musculo-esqueléticas (fibromialgia; artrite reumatóide) e cefaleias (enxaqueca, cefaleias de tensão). Há ainda um artigo interessantíssimo que analisa as dimensões psicológicas do estrabismo e o contexto familiar das crianças estrábicas (Coimbra de Matos, 2003). Sobre o cancro, impera a necessidade de mais estudos.
Afirmar que uma dada doença num dado indivíduo é uma condição psicossomática não implica minimizá-la ou ignorá-la, pois as doenças são reais, não imaginadas. Na sua origem encontram-se factores psicológicos (em aliança com factores biológicos) mas a sua expressão é real e orgânica, o que implica um tratamento médico adequado, em paralelo a uma terapia que permita a expressão emocional do indivíduo sem ser através do seu corpo. Em Fernão Capelo Gaivota lemos, “Quebrem as correntes do pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo”. Nem mais.

Referências úteis: Coimbra de Matos, A., (2003). Mais amor, menos doenças. Climepsi Editores.

Pedrinha (Da tristeza)

Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio pera ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece.

Luís de Camões (in Cartas)

domingo, 27 de março de 2011

Pedrinha (Da variabilidade)

Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e assim por diante. Os homens não são feitos assim. Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido. No entanto, é assim que os julgamos. Pois isso é falso. Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.

Leon Tolstoi (in Ressurreição)

Quem cuida de mim enquanto cuido de ti



Alguns contornos da situação de cancro mudaram consideravelmente nos últimos anos. Hoje, os internamentos são mais curtos e existem melhorias significativas na eficácia dos tratamentos. Deste modo, a mudança do internamento para o sistema de tratamento ambulatório veio realçar a importância dos cuidadores informais, sobretudo os familiares (por diferenciação com os cuidadores profissionais). No actual sistema de saúde em Portugal, assim como em muitos outros países, o objectivo é responsabilizar as famílias nos cuidados ao doente oncológico, apesar dos custos sociais e económicos associados à prestação de cuidados informais por familiares.
Sendo descrita como uma experiência stressante que pode influenciar a saúde física e mental do cuidador, este impacto global das exigências físicas e psicológicas (bem como sociais e financeiras) da prestação de cuidados obteve, há algum tempo, a designação de exaustão do cuidador (George & Gwyther, 1986).
No contexto da prestação de cuidados, tem sido bastante estudada a morbilidade psicológica. Ou seja, que alterações psicológicas são encontradas nos cuidadores? Essencialmente a depressão ou, mais especificamente, os sintomas depressivos tais como a tristeza ou a anedonia (incapacidade de sentir prazer). Os níveis de depressão tendem a ser maiores se o cuidador for mulher e esposa. Também variam em função do bem-estar psicológico do doente, sendo que doentes oncológicos mais deprimidos estão associados a cuidadores igualmente mais deprimidos. E a situação económica da família é ainda um factor preponderante.
Embora o bem-estar emocional associado à prestação de cuidados em oncologia dependa de uma combinação de variáveis, diversas investigações sustentam o papel do suporte social como tendo um efeito bastante positivo. Também a coesão e flexibilidade familiar estão associadas a menor exaustão nos cuidadores dos doentes oncológicos.
Constata-se a necessidade de uma avaliação por parte dos cuidadores formais (isto é, da equipa médica) no sentido de fomentar intervenções na área da educação para a saúde. Urge que as políticas de saúde sejam direccionadas para a prevenção da sobrecarga, para a promoção da saúde mental e para o reforço das capacidades dos cuidadores para lidar com o stress e todas as exigências associadas à prestação de cuidados. Porque, mais uma vez, o bem-estar emocional da família será sempre um natural impulsionador do sucesso de tantos casos clínicos.

Referências Úteis: O doente oncológico e a sua família (Maria da Graça Pereira e Cristiana Lopes, Climepsi Editores, 2006)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pedrinha (Do individualismo)


Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros.
José Luís Peixoto (Diário de Notícias, 2007)