quarta-feira, 11 de maio de 2011

Criatividade


“Ao contrário de Proust, o criador não vai “à procura do tempo perdido”; mas, sim, do tempo a ganhar, da novidade, o que há-de vir. Esperançoso (e não, saudoso), o criador vai à procura de outra coisa, de uma coisa diferente. Em busca do novo, se não o encontra, inventa-o, cria-o. Não senão antes, o ter imaginado.”

António Coimbra de Matos (in Alocução de Abertura do 3º Encontro da AP – Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica – intitulado Criatividade)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Coisas Boas

Pedrinha (Dos olhares)

Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.

Carl Jung

(e, acrescento, ao olharmos para dentro e para fora, sonharemos sonhos mais genuínos, genuinamente nossos)

Medos e desamparos


O medo é uma das principais forças motivadoras da conduta humana. É biológico, um mecanismo de defesa e protecção, relacionado com o instinto de conservação. Na maioria dos casos não é patológico. Representa uma vantagem altamente adaptativa, que não advém de lacunas da natureza humana mas sim da existência de um sistema de alarme, essencial para a preservação da espécie. 
A maioria das crianças, desde os seus primeiros anos de vida, é atormentada por medos, específicos da idade e de carácter passageiro. Existem medos considerados básicos. Verifica-se que ao longo do desenvolvimento infantil as crianças não são sempre atormentadas pelos mesmos medos, havendo uma evolução dos mesmos. Os medos mais comuns referem-se a catástrofes, tempestades, animais, escuro, bem como fantasmas e bruxas. Um pouco mais tarde, em idade escolar, intensificam-se os medos de danos físicos (dor) e do ridículo. Por fim, na pré-adolescência (entre os 9 e os 12 anos) surgem os medos relativos a conflitos com os pais, rendimento escolar, doenças e acidentes.
Transversal a uma série de faixas etárias, existe um medo que muito aflige os pais (mas ainda mais as crianças), o medo das separações. De facto, nem sempre é fácil para a criança separar-se de quem ama. Por vezes, é um verdadeiro pesadelo. A ansiedade de separação é, provavelmente, uma das perturbações mais comuns em crianças (e tantas outras vezes em adultos…!). A característica essencial é um nível excessivo de ansiedade, incontrolável, perante um afastamento de casa ou das pessoas com quem possui um forte vínculo afectivo, normalmente a mãe.
Embora alguma ansiedade de separação não seja um sinal de patologia emocional, poderá, em alguns casos, comprometer a adaptação e o desenvolvimento da criança. Nestas circunstâncias, aplica-se um diagnóstico de Perturbação de Ansiedade de Separação (nomeadamente quando a criança apresenta sofrimento significativo ou algum prejuízo social, escolar ou de outra área importante da sua vida). A perturbação revela-se quando a ansiedade extrema a impede de levar um quotidiano normal, chegando a sentir-se doente (febre, diarreia, vómitos) perante a angústia de estar longe de casa ou quando a pessoa de maior vínculo afectivo está ausente. Outros sintomas incluem preocupação exagerada com algo de mal que possa acontecer a si própria ou aos pais, recusa em ir à escola, em ficar em casa de amigos, participar em excursões, relutância em dormir sozinha ou longe dos pais e ainda a ocorrência frequente de pesadelos. Neste caso, impera a necessidade de uma compreensão profunda das causas desta angústia, para que não seja comprometido o desenvolvimento saudável da criança e para que ela possa crescer em autonomia, na ausência das figuras securizantes.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pedrinha (Do amor na empatia)

A capacidade de amar, na espécie humana, cresce exponencialmente em função da empatia - possibilidade de colocar-se no lugar do outro e entrar em ressonância com o seu sentir.

António Coimbra de Matos


Nota: Empatia  - “Eu sinto o que tu sentes e tu sentes que eu sinto o que tu sentes”

Pedrinha (De como se aprende o amor)

Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a.

Goethe

domingo, 1 de maio de 2011

Viagens dentro de nós


Há viagens que temos que fazer dentro de nós. Nelas encontramos vivências, lugares, afectos desaguados em estranhas penumbras de nada; este, aquele e o outro, num tempo que às vezes não liga, como uma fiada de pérolas, tudo isto que habita cá dentro e vai e vem, vai e vem.
                Quando  descem as pálpebras, abre-se o silêncio da plácida contemplação de mim – é lá o lugar, o lugar ímpar do encontro connosco, em toda as formas que demos às memórias,  guardiãs de vividos,  aos sonhos, relicários de esperanças e cálidos desejos.
                Por vezes sossobramos à dor, vergamo-nos sob o peso de histórias aparentemente acabadas de perda e sofrimento. Mas é nestas viagens e no regresso delas que vamos retocando de cor buracos de mágoa, que vamos suavizando desilusões perdidas em entrelinhas de histórias que, afinal, ainda podemos reescrever e até terminar.
                Regresso: dessa viagem guardo às vezes na mão o querer, o querer aceder àquele assustador mas deslumbrante mundo de mim.

Maria João Saraiva* (in A dor que me deixaste)
*Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica