quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pedrinha (Do medo)

"Imaginar-se ali, numa relação boa, acendia-lhe o temor de a perder e aí ficava muitas vezes impávida, imóvel, perante a possibilidade de se ligar ou de se afastar, evitando o medo, o medo da perda, do abandono, que o ligar-se podia trazer consigo. Por outro lado, o que queria era a ligação, o enlace dos afectos numa harmonia melodiosa, o encontro, a sintonia, a afinação da reciprocidade. O medo não era o sinal do não querer, era o falar silenciado, escondido do querer, o medo escondia o que ela mais queria, o medo era uma concha.”

Maria João Saraiva (in Até mim: vivência da psicanálise)

Sentir

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Depressão em ponto pequeno



Também as crianças se deprimem. Não é comum uma criança verbalizar o seu sofrimento, não porque não queira, mas porque não sabe, logo não pode. É simplesmente “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê”.
Na verdade, nem sempre é fácil detectar a depressão infantil com um simples olhar. Então como se manifesta a depressão e os seus sintomas nas crianças? Em primeiro plano, pode observar-se uma lentificação ou inibição psicomotora (traduzida num aspecto envelhecido, rosto pouco expressivo, postura excessivamente ajuizada e submissa). Mas, mais frequentemente até, verifica-se, pelo contrário, agitação motora, uma incapacidade de estar sossegado, que expressa o mal-estar interno.
A nível cognitivo surge a dificuldade em pensar, em prestar atenção às tarefas escolares, a dificuldade de concentração, responsáveis por fuga ou evitamento da “situação escolar” e conduzindo, tantas vezes, ao insucesso. A perda de auto-estima é expressa numa desvalorização e sensação de incapacidade e insucesso quase sistemática. Numa criança em idade escolar, a capacidade de aprendizagem é uma das primeiras áreas a ser afectada pelas perturbações emocionais, visto que, sem bem-estar emocional, a criança não pode ter disponibilidade interior para desejar conhecer mais ou aprender melhor.
Ocorrem também perturbações do apetite, fundamentalmente anorexia da primeira infância e bulimia ou rilhagem (absorção alimentar excessiva) na criança mais crescida ou pré-adolescente. No que respeita ao sono, o adormecer é difícil, com oposição e recusa ao deitar, os pesadelos e os medos são frequentes e remetem para a componente ansiosa da patologia.
A nível somático, dores de cabeça e dores de barriga também são manifestações comuns. Aliás, quanto mais nova é a criança, mais a depressão se exprime por intermédio do corpo. À medida que a criança cresce, o corpo deixa de ser o principal veículo do sofrimento e os problemas afectivos tornam-se mais psicológicos, dando lugar aos problemas de comportamento e a queixas verbais, manifestados fundamentalmente na forma de dificuldades escolares e de irritabilidade. O comportamento é a expressão motora do mundo interno da criança, constituindo ainda uma poderosa forma de comunicação dessas vivências internas.
Tendo em conta o vasto leque de manifestações sintomáticas, a síndrome depressiva infantil é, por vezes, difícil de reconhecer, podendo associar-se a sintomas que, em geral, não são automaticamente relacionados com esta patologia.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pedrinha (Do destino humano)

Ser e transcender-se, com corpo e para além do corpo, em comunhão com todas as coisas e todos os seres – em particular, os outros humanos – é o destino, então glorioso, do bicho-Homem.

António Coimbra de Matos

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888)

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

Álvaro de Campos

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pedrinha (Dos encantamentos quebrados)


“Para me esquecer de ti continuo a recordar-te. Iluminada pela brancura da solidão, sinto-te outro. Vejo-te como uma promessa que nunca se cumpre, uma impotência de viver que mascaras e de que te escondes iludindo os outros, fugindo, criando neles vazios, dúvidas e sofrimentos para que nunca te devolvam no olhar aquilo que realmente és. Ainda não cresceste, não estás preparado para sentir a vida, és ainda um menino dependurado na ponta dos dedos da tua mãe…
Hoje penso que o sofrimento que vivi era teu, depositaste-o em mim porque não és capaz de o sentir, apenas te mostras capaz de o ludibriar e sobreviver assim, com o engano daquilo que não és.
Hoje penso que as ausências e os desertos que ofereces te fazem existir. Com eles derramaste-me uma angústia que me levou a preencher esses vazios de ti com riquezas imensas que, afinal, eram minhas; a tua ausência levou-me a sonhar-te e sonhei-te belo, coloquei em ti uma luz e uma quentura que nunca tiveste e com que te iludiste de ser assim, pelo meu olhar.
Hoje penso que encontraste no reflexo dos meus olhos um espelho que te devolveu uma nobreza, um valor, uma beleza com que te enfeitaste e que afinal não eram teus. Agora que me retirei, creio que te empobreci e esta é talvez a maior expressão da minha revolta – deixei-te pobre, fraco, uma promessa de coisa nenhuma.”

Maria João Saraiva* (in A dor que me deixaste)
* Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

Nota: Sobre a nossa facilidade em projectar nos outros atributos (qualidades ou defeitos) que, no fim de contas, foram sempre nossos.

sábado, 4 de junho de 2011

Pedrinha (Das relações não-estanques)

“E se toda e qualquer relação é feita de ajustamentos, desajustamentos e reajustamentos; encontros, desencontros e reencontros corrigidos; momentos fecundos, traumáticos e mortos; acontecimentos previstos e imprevistos; sequências determináveis e indetermináveis; em condições de limpidez ou de névoa – uma coisa é certa: conhecer o que se passa intra e interpsiquicamente, no sujeito e no par ou no grupo, é importante na vida e fundamental na análise.”

António Coimbra de Matos

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Nos bastidores da delinquência


Falou-se, aqui há uns tempos, em diminuir a idade da imputabilidade legal e talvez seja interessante pensar nas raízes da delinquência juvenil, tentando compreendê-la de modo a contê-la aos primeiros sinais. São histórias de violência, crime, toxicodependência ou alcoolismo. Mas são, sobretudo, “histórias de desamor”1).
É o amor, acima e primeiro que qualquer outra coisa, que permite a estruturação do psiquismo da criança. Na sua ausência, pode esperar-se o caos. É possível afirmar que os comportamentos delinquentes escondem uma “intensa desintegração psíquica”1). Perante a dificuldade em expressar as suas dificuldades emocionais, elas são agidas no mundo exterior. Pode dizer-se que, nestas crianças e jovens, a capacidade de mentalizar conflitos é muito frágil e estes muito mais facilmente manifestam-se, não pela palavra, mas pelo acto. E torna-se a violência a forma preferencial (ou mesmo a única possível) de comunicação, como um apelo gritante.
Nos bastidores deste cenário, detecta-se uma “falha básica”, um vazio interno (quase como um buraco) que pode existir na estrutura emocional do ser humano, quando as suas necessidades básicas não são preenchidas (um buraco tantas vezes preenchido em consumos de substâncias que produzem a sensação de plenitude e bem-estar que não podem nem sabem viver de outro modo). E procuramos mais fundo e possivelmente encontramos uma mãe emocionalmente frágil, que chega por vezes a ter de ser cuidada e maternalizada pelos seus filhos. Com certeza, mães com as suas próprias histórias e os seus respectivos fardos. Detecta-se ainda, frequentemente, a ausência de um pai e do que ele simboliza (o interdito, a figura de autoridade, a imposição de limites) para o desenvolvimento emocional da criança.
Estes “filhos de ninguém”1)  contam-nos que na outra face da delinquência se encontra a depressão. Simplesmente, nem toda a depressão se manifesta da mesma forma, nem toda se age violentamente (e quando virada para fora torna-se mais incómoda para os outros, sem dúvida). Há os se fragilizam e há os que endurecem, mas em comum têm que lhes faltou algo essencial. Em comum têm também que muitos nem se importam de morrer (vivendo já numa morte psíquica, no fundo) e nem demonstram sequer capacidade de sonhar.
Como resposta, encontram no fim (porque demasiado tarde) uma punição (mais um castigo). Pode assim reparar-se esta falha e imaginar mudanças? Não, não pode. “Encarcerar não faz esquecer. Nunca cura. Tapa, remedeia”1). Uma terapia pelo amor (nas palavras de Teresa Ferreira a psicoterapia é uma cura de amor e por amor) seria muito mais eficaz.

1) Strecht, P. (2003). À margem do amor. Assírio e Alvim.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O caminho

- E agora, Siddhartha, o que és agora?
- Não sei, sei tão pouco como tu. Estou a caminho.

Herman Hesse (Siddhartha)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A mentira do poder (I)


"O único poder é o de tolerar a dúvida e prosseguir apesar da incerteza – com esperança no futuro e desafiando os obstáculos ao almejado encontro da verdade, beleza e bondade: efémeras; em plenitude, inatingíveis; mas sempre desejadas.  Que o desejo é o propulsor da vida; e a felicidade, o bem supremo.
 (...)

A principal mentira do poder é que o poder, em geral, serve para pouco: bazófias, espectáculo e corrupção.
Senão, vejamos:
A maioria das vezes, o poder é uma defesa; ou melhor, uma vicarância: substitui a falha ou falência de outros sistemas ou funções. Assim, o poder defende do medo, troca a insuficiência do ser pela aquisição do ter, engana a dor mental, é vicário da debilidade amorosa.
O poder é filho bastardo da obsessão; e a posse, do ciúme. E descendente legítimo da paranóia e da inveja.
A incompletude narcísica é a mãe “biológica” da megalomania; e adoptiva da ambição desmedida.
O narcisista puxa o brilho porque o cabedal não presta (...) A vicariância pelo poder é atributo da pusilanimidade – a alma pequena precisa de estacas que a sustentem e lanças para se proteger; é a “psicologia do ouriço”.
É que afinal o poder não dá força – força da alma, coragem; apenas estatuto – uma pseudo-força de empréstimo (...) "

António Coimbra de Matos (in O poder da mentira e a mentira do poder)

A mentira do poder (II)


Vicariância pelo poder: “Ninguém me ama mas domino todos”. Ter poder e dominar porque não se é desejado nem amado. Ser poderoso para iludir a ferida de ser, de facto, um Zé Ninguém. (Abunda nos ditadores de todas as espécies, feitios e graus). É o “poder da portinhola” – por onde sai a boca do canhão escondido.
Vicariância erótica: “Ninguém me ama mas todos me desejam”. Erotização das relações por incapacidade de amar; e/ou ser desejado, já que não é amado. É própria da personalidade histérica.
Vicariância narcísea: “Ninguém me ama mas todos me admiram”. Ser admirado uma vez que não consegue ser amado; e, complementarrmente, brilhar/exibir-se porque não sabe dar e amar. É típica da personalidade narcísica.
Todas elas usam como mecanismo central a compensação de uma energia em perda; são próteses – artificiais e artificiosas – que substituem, e mal, poderes naturais em falta. O poder que não seja a construção e a reparação de poderes ausentes ou perdidos é um artefacto da miséria da alma – uma mentira, um produto da perversão.

António Coimbra de Matos (in O poder da mentira e a mentira do poder)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pedrinha (Do fogo)

Não podemos despertar fogo em qualquer outro coração se o nosso próprio coração não estiver a arder.
Eleanor Doan

terça-feira, 24 de maio de 2011

O toque (História de Harlow e os macaquinhos)


Somos seres relacionais. Como tal, o toque e o contacto físico são duas dimensões fundamentais para um desenvolvimento harmonioso.
Harry F. Harlow (1905-1981), psicólogo norte-americano, levou a cabo uma série de experiências com macacos Rhesus sobre a privação maternal e social. Nessas experiências, ficou demonstrada, entre outras coisas, a importância central do toque e do conforto no processo de desenvolvimento.
Foram criadas duas “mães” artificiais, uma feita unicamente com armação de arame e outra que, para além da estrutura em arame, estava envolvida num tecido felpudo e macio. Numa primeira fase, observando a escolha dos macacos, Harlow constatou que os macacos bebés preferiam claramente as “mães” mais macias. Mais, mesmo quando o alimento era fornecido apenas pela “mãe” de arame, mantinha-se a preferência pela “mãe” macia. Harlow concluiu que a variável contacto reconfortante suplementava a variável amamentação.
E, aparentemente, o que estava em causa ia ainda além da procura de conforto. Esse contacto acolhedor parecia ser essencial ao estabelecimento de uma relação que transmitisse segurança. Ou seja, durante outro bloco de experiências, na presença de um estímulo gerador de medo, os macaquinhos criados com a “mãe” macia agarravam-se a ela, em busca de protecção. Este comportamento nunca era observado junto das “mães” de arame (os macaquinhos criados com ela, privados do contacto e do conforto, não sentiam a mãe como “porto de abrigo”).
Foram estudadas não apenas as reacções momentâneas, mas também processo o desenvolvimento em ambos os grupos de macacos (criados pela mãe de arame vs. criados com a mãe felpuda). Neste sentido, perante uma situação com muitos estímulos novos (factores estranhos e desconhecidos dos pequenos macaquinhos) verificou-se que, na presença da “mãe” confortável, as reacções de medo dos macacos rapidamente davam lugar à exploração curiosa dos objectos (claro, com regressos periódicos à “mãe” para recuperar a segurança). Possuiam a segurança interna necessária para lhes ser possível explorar o mundo, um factor essencial para o desenvolvimento da autonomia (não só nos macacos!). Pelo contrário, na ausência de uma “mãe” confortável, os macaquinhos ficavam paralisados pelo medo e não exploravam o ambiente.
Por fim, naturalmente, Harlow observou ainda que os macacos com mães reais, demonstravam comportamentos evolutivos (sociais e sexuais) mais adiantados dos que os criados com mães substitutas de pano. Sim, nunca a pele poderá ser substituída pelo pano. E nos panos não se sente amor…!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pedrinha (Da nossa casa)

A casa não é bem um espaço. Nem um conjunto de recantos, de histórias ou de aconchegos. Nem sequer o nosso mundo. A nossa casa fica no coração que (sobre as suas divisões) nos guarda a melhor de todas as mansardas.

Eduardo Sá

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Criatividade


“Ao contrário de Proust, o criador não vai “à procura do tempo perdido”; mas, sim, do tempo a ganhar, da novidade, o que há-de vir. Esperançoso (e não, saudoso), o criador vai à procura de outra coisa, de uma coisa diferente. Em busca do novo, se não o encontra, inventa-o, cria-o. Não senão antes, o ter imaginado.”

António Coimbra de Matos (in Alocução de Abertura do 3º Encontro da AP – Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica – intitulado Criatividade)

segunda-feira, 9 de maio de 2011