quarta-feira, 20 de julho de 2011

Psiquiatras, Psicólogos, Psicoterapeutas e Psicanalistas


Existe, não raramente, alguma confusão relativamente às diferenças entre um psiquiatra, um psicólogo, um psicoterapeuta e um psicanalista. Embora sejam, todos eles, profissionais de saúde mental, há diferenças ao nível da formação académica, da compreensão das situações clínicas, bem como no que respeita às intervenções terapêuticas.
O psiquiatra é um profissional formado em Medicina e com posterior especialização em Psiquiatria. O conhecimento do psiquiatra concentra-se fundamentalmente no diagnóstico de comportamentos desviantes. Utiliza como linha de base um sistema de classificação e diagnóstico baseado em manuais (ex: DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais) e a principal forma de intervenção utilizada por estes profissionais é a prescrição de medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos e outros psicofármacos.
O psicólogo é um profissional formado em Psicologia, a quem compete o estudo do funcionamento humano, bem como a avaliação e tratamento das perturbações associadas. A sua área de intervenção foca-se no indivíduo e nos seus processos internos, mas pressupõe também uma compreensão alargada do seu funcionamento familiar e social, intervindo também no ambiente envolvente. A formação em Psicologia é tão diversa que se divide, quase de início, na área clínica, organizacional, educacional ou criminal. O conhecimento do psicólogo pode, assim, aplicar-se a uma série de áreas da sociedade, consoante a sua formação (neste caso, saúde mental, organizações e empresas, escolas e agentes educativos ou área forense, entre inúmeras outras relacionadas). Quando se dedica à área clínica (aquela que serve a nossa comparação), em particular, o psicólogo tem legitimidade de realizar uma série de intervenções psicológicas mas, em situação de consultório e prática clínica, deve continuar a sua formação e especializar-se como psicoterapeuta para uma intervenção mais ética e eficaz com os pacientes. 
O psicoterapeuta domina um corpo de técnicas que utilizam métodos psicológicos para analisar e intervir em estados emocionais, comportamentais e outras perturbações causadoras de mal-estar físico, psicológico ou social e de outras problemáticas por vezes menos evidentes. Na psicoterapia, através de uma relação muito particular que é estabelecida entre os dois intervenientes conduz-se o paciente numa viagem em que este se torna mais consciente de Si (do que faz, pensa e sente) e através da qual se pretende aliviar algum sofrimento e proporcionar a mudança. Importa realçar que, embora a psicoterapia derive de teorias psicológicas, um psiquiatra com formação adicional nesta área (e não apenas formação médica) pode, também, utilizar a técnica.
O psicanalista é um profissional com uma especialização em psicanálise (normalmente um psicólogo ou um psiquiatra, que faz, posteriormente, formação adicional em psicanálise). A teoria e técnica da psicanálise têm nuances particulares que exigem uma formação prolongada por parte do profissional (o próprio processo psicanalítico é longo e aprofundado) em entidades competentes. Visa o desenvolvimento da capacidade de pensar analiticamente sobre si próprio e sobre o mundo e proporciona uma notável expansão e crescimento do sujeito. O psicanalista (ou analista, forma abreviada) opera igualmente em contexto clínico, intervindo com a sua técnica, a psicanálise (ou análise), que se assemelha em alguns pontos a uma psicoterapia, embora tenha particularidades muito específicas.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Liberdade

Quem prende a água que corre,
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.

António Aleixo (Quadras Populares)

sábado, 16 de julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedrinha (Da concavidade)


A concavidade não se diz, não se anuncia, pertence ao lugar bom do não dito; sente-se, pressente-se e tem uma magia – quanto mais se dá lugar ao outro, mais se tem lugar para ele. Talvez a concavidade seja a capacidade de amar.

Maria João Saraiva (Até mim: vivência da psicanálise)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pensar os pensamentos

Mesmo suponho a existência de um aparelho de pensar os pensamentos bastante eficaz, mesmo assim, existem ainda muitos pensamentos que o sujeito não é capaz de pensar sozinho e que são colocados no interior do analista para ele pensar. Uma das principais funções do analista é pensar aquilo que o analisando não é capaz de pensar.

Carlos Amaral Dias (Freud para além de Freud)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Quente

Pedrinha (Das falsas verdades)

Então, diz coisas deste tipo: “não me deixou marca”, “não era uma criança dada a dramas”, “não sou uma pessoa romântica”. Nada disto é verdade, mas ele pensa assim, pois foi assim que organizou a sua autobiografia: depurou-a, ou amputou-a, do conteúdo emocional perturbador, do sabor amargo ou do molho picante.

António Coimbra de Matos
07.11.2010

domingo, 10 de julho de 2011

Pedrinha (Do reinventar)


O amor é coisa fugidia     
Mas recria-se dia a dia

António Coimbra de Matos (Sintra, 1950)

sábado, 9 de julho de 2011

Vai onde te leva o coração


A escolha de uma área profissional é um dos momentos mais importantes no percurso escolar de um jovem. Chegando ao 9º ano de escolaridade, o adolescente vê-se a braços com uma decisão relativa à área de estudo que pretende aprofundar durante os seguintes anos de aprendizagem. É o momento da primeira escolha.
 Naturalmente, nem todos os jovens sabem com a mesma determinação aquilo que querem para a sua vida. É frequente existirem indecisões, angústias e receios. Nessa altura, recomenda-se que o aluno realize provas de orientação vocacional, que o ajudem a esclarecer alguma dúvida bem como a tomar uma decisão mais madura e consciente. E recomenda-se mesmo aos jovens mais “esclarecidos” pois, independentemente de parecer que o adolescente sabe muito bem aquilo que quer, não podemos esquecer que está em plena processo de construção da sua identidade e que esse processo nunca é uma equação simples.
O objectivo fundamental da realização destas provas é a recolha de dois tipos de informação fundamental, os interesses e as aptidões. Os interesses dizem respeito às áreas pelas quais o jovem sente maior motivação e gosto e também aos seus sonhos relativamente à sua realização profissional. As aptidões estão relacionadas com as suas reais capacidades em cada uma das possíveis áreas de escolha. Seguidamente, há toda uma panóplia de factores que devem ser analisados conjuntamente pelo jovem e psicólogo durante a entrevista, tais como a existência de algumas discrepâncias entre as aptidões e os interesses, as suas expectativas e os seus receios, a qualidade da informação que o adolescente possui relativamente aos cursos e ao mercado de trabalho e, ainda, não raras vezes, perceber se alguns desejos (nem sempre explícitos) dos pais estão ou não a criar ambivalência no jovem.
Seguindo em frente, uma nova escolha, semelhante a um estreitamento, é exigida no final do 12º ano de escolaridade. Uma escolha específica. Para além das dificuldades apontadas anteriormente, inerentes a qualquer processo de decisão, aqui se reúnem outro tipo de dúvidas, nomeadamente a questão das médias/requisitos de entrada na Universidade, uma grande oferta de Universidades (ou cursos de outra ordem, nunca esquecendo a quantidade de jovens que preferem outro tipo de especialização), as saídas profissionais, ou mesmo a pressão sentida quando não sabem ainda ao certo qual a actividade profissional em particular que querem escolher.
As variáveis emocionais são de grande importância porque, para que o aluno obtenha sucesso académico numa dada área, é necessário que exista, para além dum investimento intelectual, um investimento afectivo e emocional que funcione como catalisador da vontade de aprender. E uma situação de indecisão não é sinónimo de fracasso ou desinteresse no futuro, havendo sempre a alternativa de recorrer a técnicos especializados que poderão iluminar alguns recantos escuros nesta importante fase de vida.

domingo, 3 de julho de 2011

Coisas de amigos


Tinha-se perdido de si mesma, mas a sua amiga sempre soubera qual era o lugar dela, o valor dela e não saiu de perto enquanto ela não voltou a reconhecer-se através do olhar da amiga, do seu afecto; primeiro, ela era só um punhado de dúvidas, depois foi sendo capaz de reconhecer os seus contornos, naquilo que a sua amiga lhe dizia e, mais além, preenchendo esses contornos com bocados de vida sua; foram tempos em que, “cega” a si própria, se foi buscar ao interior de quem a fazia existir, de quem a fazia existir tão perto do que era ela. E a amiga nunca saiu de lá, sempre a fazê-la sentir o valor que a vida dela tinha, o quanto ela era valiosa, nunca saiu de lá até estar segura de que ela já se reconhecera e já se encontrara; aí sim, sabia que, embora ainda “descalça”, iria fazer caminho. Nunca saiu de lá; mesmo agora, que voltava.

Maria João Saraiva (in Até mim: Vivência da Psicanálise)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pedrinha (Da sabedoria milenar)

Aquele que aprende, mas não pensa, está perdido. Aquele que pensa, mas não aprende, está em grande perigo.

Confúcio

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Carta (Esboço)



Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

Amor em tempos de análise

No fim, não vivemos para analisar, nem vivemos para amar; simplesmente, analisamos e analisamo-nos para amar e para viver melhor.

João Pedro Dias (2010) (in Amor em tempos de análise: o amor do analista na perspectiva e vivência do analisando)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pedrinha (Do medo)

"Imaginar-se ali, numa relação boa, acendia-lhe o temor de a perder e aí ficava muitas vezes impávida, imóvel, perante a possibilidade de se ligar ou de se afastar, evitando o medo, o medo da perda, do abandono, que o ligar-se podia trazer consigo. Por outro lado, o que queria era a ligação, o enlace dos afectos numa harmonia melodiosa, o encontro, a sintonia, a afinação da reciprocidade. O medo não era o sinal do não querer, era o falar silenciado, escondido do querer, o medo escondia o que ela mais queria, o medo era uma concha.”

Maria João Saraiva (in Até mim: vivência da psicanálise)

Sentir

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Depressão em ponto pequeno



Também as crianças se deprimem. Não é comum uma criança verbalizar o seu sofrimento, não porque não queira, mas porque não sabe, logo não pode. É simplesmente “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê”.
Na verdade, nem sempre é fácil detectar a depressão infantil com um simples olhar. Então como se manifesta a depressão e os seus sintomas nas crianças? Em primeiro plano, pode observar-se uma lentificação ou inibição psicomotora (traduzida num aspecto envelhecido, rosto pouco expressivo, postura excessivamente ajuizada e submissa). Mas, mais frequentemente até, verifica-se, pelo contrário, agitação motora, uma incapacidade de estar sossegado, que expressa o mal-estar interno.
A nível cognitivo surge a dificuldade em pensar, em prestar atenção às tarefas escolares, a dificuldade de concentração, responsáveis por fuga ou evitamento da “situação escolar” e conduzindo, tantas vezes, ao insucesso. A perda de auto-estima é expressa numa desvalorização e sensação de incapacidade e insucesso quase sistemática. Numa criança em idade escolar, a capacidade de aprendizagem é uma das primeiras áreas a ser afectada pelas perturbações emocionais, visto que, sem bem-estar emocional, a criança não pode ter disponibilidade interior para desejar conhecer mais ou aprender melhor.
Ocorrem também perturbações do apetite, fundamentalmente anorexia da primeira infância e bulimia ou rilhagem (absorção alimentar excessiva) na criança mais crescida ou pré-adolescente. No que respeita ao sono, o adormecer é difícil, com oposição e recusa ao deitar, os pesadelos e os medos são frequentes e remetem para a componente ansiosa da patologia.
A nível somático, dores de cabeça e dores de barriga também são manifestações comuns. Aliás, quanto mais nova é a criança, mais a depressão se exprime por intermédio do corpo. À medida que a criança cresce, o corpo deixa de ser o principal veículo do sofrimento e os problemas afectivos tornam-se mais psicológicos, dando lugar aos problemas de comportamento e a queixas verbais, manifestados fundamentalmente na forma de dificuldades escolares e de irritabilidade. O comportamento é a expressão motora do mundo interno da criança, constituindo ainda uma poderosa forma de comunicação dessas vivências internas.
Tendo em conta o vasto leque de manifestações sintomáticas, a síndrome depressiva infantil é, por vezes, difícil de reconhecer, podendo associar-se a sintomas que, em geral, não são automaticamente relacionados com esta patologia.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pedrinha (Do destino humano)

Ser e transcender-se, com corpo e para além do corpo, em comunhão com todas as coisas e todos os seres – em particular, os outros humanos – é o destino, então glorioso, do bicho-Homem.

António Coimbra de Matos

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888)

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

Álvaro de Campos

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pedrinha (Dos encantamentos quebrados)


“Para me esquecer de ti continuo a recordar-te. Iluminada pela brancura da solidão, sinto-te outro. Vejo-te como uma promessa que nunca se cumpre, uma impotência de viver que mascaras e de que te escondes iludindo os outros, fugindo, criando neles vazios, dúvidas e sofrimentos para que nunca te devolvam no olhar aquilo que realmente és. Ainda não cresceste, não estás preparado para sentir a vida, és ainda um menino dependurado na ponta dos dedos da tua mãe…
Hoje penso que o sofrimento que vivi era teu, depositaste-o em mim porque não és capaz de o sentir, apenas te mostras capaz de o ludibriar e sobreviver assim, com o engano daquilo que não és.
Hoje penso que as ausências e os desertos que ofereces te fazem existir. Com eles derramaste-me uma angústia que me levou a preencher esses vazios de ti com riquezas imensas que, afinal, eram minhas; a tua ausência levou-me a sonhar-te e sonhei-te belo, coloquei em ti uma luz e uma quentura que nunca tiveste e com que te iludiste de ser assim, pelo meu olhar.
Hoje penso que encontraste no reflexo dos meus olhos um espelho que te devolveu uma nobreza, um valor, uma beleza com que te enfeitaste e que afinal não eram teus. Agora que me retirei, creio que te empobreci e esta é talvez a maior expressão da minha revolta – deixei-te pobre, fraco, uma promessa de coisa nenhuma.”

Maria João Saraiva* (in A dor que me deixaste)
* Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

Nota: Sobre a nossa facilidade em projectar nos outros atributos (qualidades ou defeitos) que, no fim de contas, foram sempre nossos.