terça-feira, 20 de setembro de 2011

Coisas Boas

Matisse - Acrobatic Dancer
 Ou como diria Isabel Abecassis Empis, "Cada um vê o que quer num molho de couves"!

Este corpo que eu odeio

"Eu não gostava de ser tocada, mas era um "não gostar" estranho. Eu não gostava de ser tocada porque ansiava demasiado por disso. Queria que me segurassem com muita força para não partir. Ainda hoje, quando as pessoas se inclinam para me tocar, ou abraçar, ou colocar uma mão no meu ombro, eu sustenho a respiração. Eu viro o rosto. Apetece-me chorar." (Marya Hornbacher in Wasted: A Memoir of Anorexia and Bulimia)

A anorexia é um comportamento muito complexo ponto de vista psicológico. Tem muito a ver com a imagem do corpo, mas não só. Como tanto se fala, a mudança dos padrões estéticos favoreceu o aparecimento de comportamentos deste tipo, contudo, não os explica, porque a problemática é muito mais profunda do que isso.
Com raízes depressivas, esta perturbação do comportamento alimentar que afecta sobretudo o sexo feminino, representa um conflito interno entre o corpo de mulher, um corpo sexuado (devido ao desenvolvimento das características sexuais secundárias na adolescência, como os pelos, o aumento dos seios, a evolução das formas) e o corpo de menina, geralmente idealizado e que a anoréctica tenta preservar.
O comportamento anoréctico assenta na impossibilidade de aceitar que, de repente, nasceu um corpo de mulher e uma condição feminina. Há uma perturbação da sexualidade, tentando através da extrema magreza a anulação de todas as características que representam essa sexualidade (diminuição dos seios, desaparecimento das formas femininas e, no limite, da menstruação, consequência da severa perda de peso nos casos mais graves). O corpo infantil está idealizado e esse corpo infantil dirige “ataques” ao corpo real.
A anorexia não é nunca um comportamento isolado. Associam-se a ela comportamentos maníacos (como a hiperactividade, que surge não só porque a fome actua como um mecanismo excitatório, mas também porque permite manter um desgaste elevado de calorias) ou comportamentos obsessivos (como a limpeza, por exemplo, através da qual inconscientemente se exorcizam as fantasias de sexualidade, encaradas como algo sujo). A questão da perfeição está muito presente na anoréctica, o que explica inclusivamente que esta patologia surja normalmente em jovens aparentemente bem adaptadas, organizadas e, inclusivamente, com sucesso académico ou profissional.
O ódio ao corpo feminino representa, em última análise, um ódio ao corpo materno. Por norma, a relação entre a anoréctica e a mãe é uma relação doente. Aliás, é frequente em intervenções com anorécticas proceder-se, inicialmente, a uma separação da anoréctica do mundo familiar, particularmente da mãe, chamando-se a isso, maternectomia. Em terapia, trabalha-se a separação entre a anoréctica e o objecto materno.
Nesta perturbação, uma das consequências sobre a sexualidade são os estados anorgásticos, ou seja, a anoréctica e, frequentemente, a ex-anoréctica, não obtêm prazer com sua sexualidade. Resolveu-se o problema da imagem do corpo (torna-se possível aceitar o corpo real) mas permanece a má relação com o feminino.
Para tratar mais fundo, a estratégia da “engorda”, por si só, não chega. Quando a jovem se encontra com um peso muito baixo, naturalmente que a primeira fase será para compensar o seu corpo naquilo que ele necessita. Mas o tratamento da anorexia vai muito mais além. Tem de ir.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ideias em Ordem


Tem sido difícil ser psicólogo em Portugal. Sendo uma profissão muito “jovem”, compreende-se que o processo tem levado o seu tempo. Contudo, enquanto isso, a classe profissional viu-se desprotegida e desinformada (a criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses foi uma dura batalha, vencida em Setembro de 2008), estando igualmente desprotegidos e desinformados os cidadãos que dela precisaram e a ela recorreram.
Não percebendo sequer a importância e as reais competências do psicólogo como técnico especializado, o Estado não cumpriu, de todo, a sua função como regulador da profissão, durante todos estes anos em que a tarefa lhe competiu. Regidos por uma ausência de legislação competente, os direitos e os deveres do psicólogo nunca foram, igualmente, concretamente definidos, dando azo a uma espécie de anarquia que não só lesa os utentes (que o Estado também deveria proteger) mas também a classe profissional, na sua credibilidade e, consequentemente, no seu estatuto. Para além de pouca, a legislação nunca foi revista desde os anos 90 e hoje não há psicólogos suficientes nas escolas, nos centros hospitalares e nos cuidados de saúde primários (mencionam-se apenas a Educação e a Saúde pois foram as únicas áreas para as quais o Estado legislou a carreira de psicólogo). Proporcionou-se, em função de uma crescente necessidade sem resposta dos serviços, um abuso desmedido dos regimes de voluntariado em Psicologia. Na ausência de instrumentos legais com que se defender, os psicólogos têm vindo a desenvolver trabalho de forma maioritariamente precária, entregues, não ao Estado mas, como se diz, à bicharada.
Criada a OPP, restam ainda algumas (e não menos importantes) microbatalhas por travar, essas já muito dependentes também de uma necessária divulgação nacional de qualidade sobre o mercado da Psicologia. Continua a ser imperativo vincar todas as possibilidades de intervenção em Psicologia e especificamente em Saúde Mental, um pilar fundamental de qualquer sociedade dita desenvolvida. Continua a ser imperativo sensibilizar o público para algumas noções básicas e fomentar uma consciencialização generalizada do que é a Psicologia, para que serve e tudo aquilo que ela permite compreender e transformar. Em Portugal, muitos aspectos se poderiam melhorar se as políticas do Estado se baseassem num enquadramento, compreensão e intervenção psicossocial das situações. Pensemos sobre a enorme quantidade de baixas médicas relacionadas com a depressão e outras perturbações emocionais que condicionam e impedem a produtividade dos trabalhadores. Pensemos quão mais simples seria enquadrar e lidar com a questão das dificuldades de aprendizagem, abandono escolar e iliteracia. Ou ainda quão mais útil intervir atempadamente na questão da criminalidade, da delinquência, da toxicodependência, da saúde materna e saúde infantil ou mesmo da violência doméstica. Entre tantas outras questões que se enraizam em aspectos psicológicos do ser humano.

domingo, 4 de setembro de 2011

Lazy Sundays

Pedrinha (Do amor incondicional)


“O amor incondicional é o que não obedece à condição de ser retribuído; tão-só isso. Não é um amor incomensurável, desmedido e absurdo – como pensam os aleijadinhos narcísicos. É apenas um amor gratuito, que não cobra, não exige nada em troca. É o amor genuíno. É amor; e não sedução, manipulação ou perversão (ódio travestido de amor).”

Nota: [No amor materno, bem como na relação analítica]

António Coimbra de Matos (in Relação de Qualidade: Penso em ti)

sábado, 3 de setembro de 2011

Era uma vez uma família


“Uma criança satisfeita brinca livremente na presença confiante dos pais, sem precisar de estar permanentemente colada a eles. Ou seja, a boa relação com os pais permite-lhe fazer descobertas por conta própria e estabelecer novas relações (diversificando a forma de se relacionar com vários objectos e ampliando o seu mundo de interesses). Ao mesmo tempo, por sua vez, também permite , com facilidade, que os pais se relacionem entre si e com outras pessoas, aceitando com agrado que os pais também tenham os seus próprios interesses. Assim, convivem uns com os outros, respeitando a condição de serem cada vez mais separados e diferenciados uns dos outros. Gostam de estar com os outros, mas não se perseguem – de vez em quando aparecem, para trocar uma graça, para revelarem o afecto que sentem ou quando alguma coisa os ameaça; para logo depois seguirem caminho, seguros uns dos outros (do amor que os une, da certeza que permanecem fora de perigo). E assim se funda a verdadeira intimidade, semente de novos amores; experiência adquirida nas boas relações de infância, ou mais tarde na relação terapêutica.”

Maria do Rosário Belo* in Lutos, perdas, desafios e conquistas, na vida e no processo analítico
*Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Elogio da sombra


A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
Jorge Luis Borges

Coisas Boas

Henri Matisse - Music

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Toque

Brinca comigo


É transversal a todas as culturas, a imagem da criança que brinca. Brincar é muito mais do que uma mera distracção ou entretenimento. É a forma privilegiada de expressão emocional e, mais ainda, uma tarefa de desenvolvimento que permite o treino de competências de todas as ordens (fisicas, sociais, emocionais, cognitivas). Brincar é um trabalho fundamental para que se tenha mais sucesso na adaptação posterior à realidade. Freud foi pioneiro ao propor uma compreensão do brincar. Dizia então que o sonho era o caminho real para o inconsciente do adulto e que o brinquedo era o caminho real para o inconsciente da criança. Melanie Klein, a partir dos estudos de Freud, aprofundou o significado da actividade lúdica para a criança, elaborando um corpo de conhecimentos, teóricos e práticos, sobre o entendimento e o uso do brinquedo como recurso terapêutico e de desenvolvimento da criança. Piaget, já mais tarde, destacou três períodos na evolução do brincar, um primeiro período onde se brinca com o corpo (num exercício sensório-motor), um segundo período em que o brincar se torna simbólico (recorrendo a símbolos, uma criança desenvolve a capacidade de fantasiar e fazer-de-conta, tão fundamental) e, um terceiro período, dominado pelos jogos de regras, em que se brincam os limites e as obrigações comuns, criadas e cumpridas em grupo. Haverá momentos em que brincará a sós, num recolhimento essencial e em relação consigo, outros em que brincará acompanhada, em relação com os outros.
Brincar é uma experiência criativa. Brincando, a criança é soberana, colocando a realidade à disposição das suas fantasias. O brincar é lúdico e, ao mesmo tempo, uma coisa séria. É muito engraçado observar a concentração com que uma criança é capaz de brincar e quão importantes são todos os contornos das suas brincadeiras. Uma criança que não brinca está (ou foi), por algum motivo, impedida de um acto instintivo e primordial.
O desenvolvimento infantil espelha-se no brincar. A criança, quando brinca, coloca o seu mundo interno na brincadeira, brincando as suas aquisições, as suas ansiedades, brincando também as suas zangas e a sua agressividade. Repete e elabora experiências emocionais importantes através da brincadeira. O desenho, uma forma particular de brincar, é mais um espelho do mundo interno da criança. Enquanto pequenos, os pensamentos e as emoções são mais facilmente comunicados pelo traço do que pela palavra (porque a evolução corpo à mente leva o seu tempo).

Naturalmente, é, assim, o meio privilegiado de contactar com a criança e entrar no seu mundo privado. Observando o brincar, brincando com ela e dando um sentido à brincadeira. Como disse Winnicott (1971), “ é preciso não esquecer que brincar é uma terapia em si”.

sábado, 6 de agosto de 2011

Pedrinha (Do paradigma relacional)


O paradigma actual, na física como na psicologia, não é o dos corpos ou entidades mas o das relações. A matéria existe em relação com outras matérias.

António Coimbra de Matos

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pedrinha (Do que eu sou)

O importante é aquilo que eu sou para mim próprio. O que eu sou. O que eu fui. Ou serei. O que é que queres ser? O importante é sermos autênticos. É isso que nos faz ser únicos. Somos incutidos a ser milhões de coisas mas só somos aquilo que realmente queremos. Eu sou o que eu dou. Eu dou o que eu sou. (...) Eu sou o que eu sou.

Sam the Kid (O que eu sou)

Sweet silly season