quarta-feira, 16 de março de 2011

Pedrinha (Do individualismo)


Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros.
José Luís Peixoto (Diário de Notícias, 2007)   

quarta-feira, 9 de março de 2011

Excerto

Ou Dor Agida (a Mania como mecanismo de negação e evitamento da dor psíquica)

Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfreamento, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo; e eu atirava-me outra vez.

Albert Camus, in "A Queda"

A falar é que a gente se entende



Na vida a dois, há indicadores da qualidade conjugal. São a comunicação, a história do casal, os projectos, a forma de resolução de problemas e conflitos, a percepção do casamento, a qualidade dos afectos (sexualidade e níveis de carinho), as expectativas, o controlo da relação (forma de distribuição do poder) e a fidelidade. Todos os indicadores se interligam, contudo, debruçar-nos-emos sobre dois deles, especialmente relacionados entre si, a comunicação e a gestão de conflitos.
Primeiramente, a comunicação nem sempre se processa da melhor forma pois, à partida, é encarada de forma diferente por homem e mulher. Para as mulheres, seres verbais, a comunicação sobre os problemas favorece a proximidade conjugal e crescimento da relação, enquanto que os homens, seres de acção, tendem a sentir-se ansiosos, considerando-a ameaçadora e indicativa de problemas. Contudo, independentemente disso, a comunicação é mesmo necessária em diversas ocasiões, sendo a sua ausência uma lacuna grave.
John Gottman, psicólogo e terapeuta matrimonial, escreve sobre o segredo dos casamentos bem sucedidos, ou como lhes chama, emocionalmente inteligentes. Segundo este autor, na área da comunicação há quatro erros básicos de conversação que impedem a adequada gestão dos conflitos matrimoniais (chama-lhes os Quatro Cavaleiros do Apocalipse). Primeiro erro, o recurso à crítica global. Para entender este erro, convém distinguir uma queixa de uma crítica. Uma queixa aborda uma falha particular ou comportamento específico do parceiro, não tendo o impacto negativo que tem uma crítica, que já implica um ataque ao carácter ou personalidade do parceiro [Ex: “Estou furioso/a por teres chegado atrasado” (queixa) vs. “És sempre a mesma coisa, nunca chegas a horas, estás-te nas tintas!” (crítica)]. Segundo erro, o menosprezo. A troça, o revirar de olhos, o insulto, o desdenho, a ironia, o sarcasmo, são formas de desprezo, venenosas para a relação, demonstrando enfado e conduzindo a mais conflito. Terceiro erro, a atitude defensiva. A defensiva é, disfarçadamente, uma maneira de culpar o parceiro (justificando, regateando, e dizendo-lhe implicitamente que o problema não é nosso). Produz também uma escalada no conflito. Como quarto e último erro, a fuga. Muitas vezes, em vez de enfrentar o parceiro, um dos elementos prefere simplesmente desligar, sinal que transmite que para além de estar a virar as costas ao conflito, está igualmente a virar as costas ao casamento. Felizmente, se o problema do casal reside apenas na comunicação (com os restantes indicadores de qualidade conjugal relativamente estáveis), torna-se mais fácil resolver o problema, recomeçando com uma melhor comunicação entre o casal. O conhecimento é a melhor arma para a resolução.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pedrinha (Textos de Amor)


(...) Ah, o amor. O amor faz-se se houver tempo. O amor faz-se aos bocadinhos e só se convier. O amor faz-se na pausa para o café. O amor é uma aberração. O amor mete medo. Chega-te para lá com esse «adoro-te»! Não me venhas com esse «gosto de ti»! Cai-nos a PIDE do amor em cima, és apanhado e vais dentro. O amor quer-se preso pela trela. O amor quer-se de castigo no canto da sala. Pouca conversa, pouco barulho. O amor custa. Perde-se tempo e dinheiro. O amor está fora de moda. Não condiz com as batas brancas da biologia nem com os botões coloridos da tecnologia nem com a cor do papel dos contratos pré-nupciais. O amor é para meninos, ser-se crescido é outra coisa. O amor foi-nos confiscado.
Não contem comigo. Eu não tenho jeito nenhum para ser a pessoa que todos esperam. Não tenho competência para ficar a ver o amor passar sem correr atrás. Compreendam: o amor é a minha campainha de Pavlov. Estímulo-resposta, como me foi explicado na escola de fazer profissionais. Eu não tenho jeito para telefonemas nem para passeios em centros comerciais. Não contem comigo para ser cão que ladra mas não morde. Não contem comigo para não dizer o que não é suposto. Para cancelar beijos, inventar pretextos, sufocar euforias, adiar alegrias. Para vos escutar em silêncio. Para vos poupar ao meu amor, não contem comigo. Compreendam: eu não me posso comprometer.

Susana Cristina Marques Santos, in 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa'

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Histórias de Pinóquios


Desde sempre, na História Natural, que os animais possuidores de mecanismos de camuflagem ou sistemas de engano foram beneficiados na luta pela sobrevivência. A selecção natural tem privilegiado aqueles que sabem enganar ou iludir os inimigos e já Darwin, em 1859, apontou a vantagem concedida por essa capacidade (Coelho, 2008). Nos seres humanos, a capacidade de enganar os outros também tem sido alvo de estudo. A mentira é um dos conceitos mais curiosos e contudo, por abraçar questões de natureza existencial, os seus contornos são demasiado indefinidos no que respeita aos mecanismos que se escondem na sua origem.
Nas crianças pequenas é frequente observarmos o uso da mentira. Recorrer-lhe está geralmente ainda associado ao mundo da fantasia (aspecto importante do desenvolvimento infantil) ou, também, ao evitamento de castigos e reprimendas (comparável a um mecanismo de sobrevivência do mundo animal). Seguidamente, ao longo do seu processo de desenvolvimento moral, a criança vai construindo as noções de bem e de mal, bem como integrará cada vez melhor o conceito de justiça, compreendendo o lugar da mentira no sistema social e aprendendo a assumir os erros. Por aprendizagem directa (reforço dos comportamentos bons e punição dos comportamentos maus), e por aprendizagem social (através das relações com os adultos e na escola, com os seus pares) o recurso à mentira vai sendo abandonado. Tudo normal aqui.
Encontrarmos adultos que operam segundo mecanismos semelhantes, recorrendo a mentiras fantasiadas, pelo contrário, pode considerar-se potencialmente patológico. De facto, o tipo de mentira mais interessante designa-se mentira patológica e ocorre quando um indivíduo repetida e compulsivamente conta histórias falsas. Mas será um acto consciente, ou há verdadeiramente uma incapacidade de controlar a mentira? Reconhecidos psiquiatras têm discordado neste ponto ao longo dos tempos, alguns acreditando que nestes indivíduos há uma deturpação da realidade, outros defendendo que a mentira patológica é um acto intencional.
Tem sido proposto que o Eu do mentiroso patológico esteja fixado a um nível muito infantil. Noutros casos, conhecem-se situações psiquiátricas associadas ao uso da mentira patológica (em personalidades borderline, anti-sociais, histriónicas ou narcísicas). Também a confabulação (falsificação das memórias, para preencher lacunas) pode explicar alguns casos. Cada “mentiroso” pode esconder uma motivação/impulso diferente para uma mentira. Seguramente, compreendemos que não serão mais felizes por isso, muito pelo contrário. Um olhar clínico sobre eles permite-nos tentar compreender, antes de julgar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Os desafios da meia-idade



No desenvolvimento humano, todas as etapas do ciclo de vida implicam desafios específicos. Como tal, não só durante a infância e adolescência se processam grandes movimentos e consequentes mudanças. Também ao atingir a meia-idade surgem grandes e novos desafios. A percepção do envelhecimento, a relação conjugal revisitada, os filhos tornados adultos e a competição com pessoas mais jovens no mercado do trabalho podem conduzir à chamada “crise da meia-idade”. Assim, como em todas as restantes etapas da vida, o bem-estar psicológico está em muito ligado à capacidade de enfrentar e resolver com sucesso esses mesmos desafios.
O primeiro desafio, aceitar o envelhecimento do corpo. Por norma, esta tarefa de aceitação tem mais impacto no ser feminino (fomentada pelo peso do estigma social da perfeição do corpo feminino e boicotada pelas transformações associadas à realidade da menopausa). No homem, o envelhecimento do corpo é encarado de forma mais tolerante mas impõe-se igualmente uma dolorosa consciencialização do mesmo nos casos em que se possa associar ao declínio do funcionamento sexual. Esta aceitação implica a consciência de que o corpo não volta a ser o que foi um dia, percebendo, porém, que o corpo é apenas uma pequena parte do nosso ser e que, por isso, vale o que vale. Quanto ao declínio do funcionamento sexual, na maioria dos casos o problema é de origem ansiosa, muito mais do que fisiológica. E no fundo, quanto maior a pressão para nos mantermos excessivamente jovens, maior tristeza e maior irritabilidade sentiremos e mais dificilmente o seremos.
O segundo desafio, lidar com a limitação do tempo e com a ideia de morte. Embora estas questões possam surgir muito mais cedo em certas pessoas, nesta etapa da vida é mais vulgar que apareçam alguns receios mais prementes relativos ao tempo que nos resta, bem como algumas angústias associadas a uma maior proximidade do momento da morte. Porém, seremos tão mais livres disso quanto mais realizados nos sentirmos com a nossa vida  presente, bem como com aquilo que construímos até à data. Seremos ainda mais livres disso se os nossos dias forem bem vividos e se nos sentirmos amados e úteis. 
O terceiro desafio, manter/aprofundar a intimidade. Chegado o momento de autonomização dos filhos por excelência, impera um novo olhar sobre a vida conjugal. De facto, os maiores índices de divórcio acontecem nesta fase, pois após tantos anos a olhar pelos descendentes e a cuidar dos objectivos familiares nem sempre os casais conseguem ir olhando um para o outro da forma mais adequada. E por fim, quando marido e mulher se olham novamente a sós, sem a presença de um terceiro, encontram tantas vezes um certo (ou mesmo enorme) desconforto. Obrigados a conviver sem mediação, muitas vezes desistem da aventura da redescoberta do outro antes de sequer tentar, e logo no preciso momento em que recuperam a intimidade perdida ao longo dos anos.
O quarto desafio, transformar a relação com os filhos. O desafio da parentalidade está em constante transformação. De miúdos a graúdos, as exigência dos filhos para com os pais (e vice-versa) está sempre em transformação. Esta transformação não deve acontecer com nostalgia, mas sim com agrado, energia e positivismo perante um acontecimento natural do ciclo de vida. Se os filhos estão a crescer, é porque fomos bons pais. E assim torna-se fundamental aprender a ler nas entrelinhas o que os filhos pedem de nós, quais são as suas reais necessidades, para nos ajustarmos a elas com bom senso.
O quinto desafio, actualizar-se profissionalmente. Perceber que é fabuloso poder aliar a sabedoria e experiência da idade a todas as ferramentas de renovação de conhecimentos que hoje temos ao nosso dispor. Por mais que os jovens, sem dúvida, mereçam oportunidades, na meia-idade ainda há trabalho a fazer. A reforma vem mais tarde.
O sexto desafio, tornar-se avô/avó. Consequência mais ou menos directa do quarto desafio, há que descobrir os prazeres de poder mimar sem tanta pressão para educar (ou educando sem ansiedade, pelo menos) e de poder acrescentar um novo papel à nossa vida, que nos proporcionará descobertas maravilhosas, até sobre nós próprios.  
O sétimo desafio, cuidar dos mais velhos, os pais dos pais. Há frequentemente uma geração anterior que precisa de ternura e cuidado. Nem sempre é fácil inverter os papéis. Em caso de doença, falamos de um apoio muito exigente e desgastante.
Verifica-se que a meia-idade é um período fértil na procura de aconselhamento ou de uma psicoterapia. Poder contar com ajuda para se redescobrir, para reinvestir no casamento ou mesmo para ganhar coragem para mudar tudo é uma atitude de cuidado e responsabilidade. Sem nunca esquecer que provavelmente esta será a fase mais adequada para usufruir de alguma qualidade de vida e para se permitir investir na felicidade com mais serenidade e sabedoria (se muito já passou, muito ainda virá!).

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pedrinha (Dos encantos)

Olhas-me com tal encanto que eu me encanto por ti” – é a precessão e primazia do bonding (ligação, envolvimento, abraço); o attachment (apego) vem na sequência. É assim na vida, é assim na análise: o investimento do analista no analisando é primário e mais importante.

(António Coimbra de Matos)