Confúcio
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Cannabis e Cocaína
Em jeito de manual académico, sistematizemos algumas características das duas das substâncias mais consumidas em Portugal (segundo conclusões do Instituto da Droga e da Toxicodependência), a cannabis e a cocaína.
No que respeita à cannabis, como principais efeitos físicos associados ao consumo destaca-se o aumento da frequência cardíaca, congestão dos vasos conjuntivais (olhos vermelhos), dilatação dos brônquios, diminuição da pressão intra-ocular, foto-fobia e tosse. Como sintomas psíquicos verifica-se a euforia mas, além disso, relaxamento e sonolência. Os pensamentos fragmentam-se e podem surgir ideias paranóides. Há intensificação da consciência sensorial e maior sensibilidade aos estímulos externos. Há lentificação nas reacções e um défice na aptidão motora, bem como diminuição da memória imediata e da capacidade para a realização de tarefas que impliquem operações múltiplas. O seu potencial de dependência é diferente de outras drogas, contudo, provoca uma síndrome de abstinência leve (ansiedade, irritação, transpiração, tremores, dores musculares). O THC (componente activo) exacerba ainda a depressão e intensifica psicoses pré-existentes, estando também associado a problemas sociais e de relacionamento pessoal.
A cocaína, por sua vez, é uma substância associada à imagem de êxito social pois produz euforia, diminuição da fadiga e do sono, possível aumento do desejo sexual, redução do apetite, aumento da energia, maior auto-confiança (ou mesmo prepotência). Fisicamente, há tremores nas mãos, agitação, aumento da frequência cardíaca, aumento da tensão arterial, aumento da temperatura corporal e da sudação. À sensação de bem-estar inicial segue-se, geralmente, uma decaída caracterizada por cansaço, apatia, irritabilidade e comportamentos mais impulsivos. É a droga com maior potencial de dependência, provocando maior percentagem de adictos para um menor número de consumos. Chamam-lhe também a gulosa, pois devido à curta duração dos seus efeitos psicoactivos e ao rápido aparecimento de sintomas de abstinência, provoca um estilo de consumo compulsivo. É difícil falar em síndrome de abstinência com dores ou sintomas físicos (como na heroína), mas algumas alterações psicológicas são notáveis: hiper-sonolência, apatia, depressão, ideias suicidas, ansiedade, irritabilidade, intenso desejo de consumo. O mais grave no quadro de abstinência da cocaína é a enorme dificuldade em suportar a perda dessa euforia. É uma dependência psicológica que se reflecte numa ânsia compulsiva por sentir novamente o efeito (na língua inglesa encontramos a melhor expressão para este fenómeno, craving). Em qualquer um dos casos, na presença de situações de abuso destas substâncias (ou outras, note-se!), o mais importante será perceber o motivo que leva o indivíduo ao comportamento aditivo.
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Pedrinha (Das escolhas)
Todas as escolhas têm perda. Quem não estiver preparado para perder o irrelevante, não estará apto para conquistar o fundamental.
Augusto Cury
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
What if ?
“E se, algum dia ou alguma noite, um demónio fosse atrás de ti até a tua solidão mais solitária e dissesse: Esta vida, como agora a vives e tens vivido, vais ter de a viver mais uma e inúmeras vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, do mais pequenino pormenor aos momentos mais grandiosos, terão de regressar a ti na exacta mesma sucessão e sequência. E perante isto, o que sentiríamos? Seria uma maldição ou uma bênção?”
Irvin Yalomdomingo, 18 de dezembro de 2011
Os enigmas da psique
A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.
Carl G. Jung
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Quem (não) sai aos seus
Todos os pais têm sonhos para os seus filhos. Quando um bebé desejado começa a crescer na barriga da mãe, infinitos planos e projectos ganham forma na mente dos seus pais. Nasce um nome e, associado a esse nome, uma fantasia. Sonham que ele seja feliz, saudável, sonham que ele seja bem-sucedido e que constitua um dia uma família. Sonham, de certa maneira, que esse filho reúna em si aquilo que pensam ser o melhor deles próprios.
Fantasiar é bom e natural. Sonhar uma boa vida para um filho é sinal de amor. Sonhar que um filho se torne um adulto com valores adequados, orientando-o nesse sentido, também. A criança cresce, torna-se jovem e, por fim, adulto. Cresce enriquecida pelas suas ideias, crenças, gostos, opiniões e escolhas. Vai-se definindo, num processo dinâmico e intersubjectivo com o meio envolvente. E, naquilo que é tão seu, torna-se um ser único e insubstituível.
Acontece, contudo, que nem sempre os sonhos dos pais correspondem aos sonhos dos filhos. Seja no seu carácter, na sua personalidade ou nas suas variadíssimas opções de vida, nem sempre os filhos se tornam aquilo que os pais imaginaram um dia. E nem sempre os pais encaram com bons olhos a diferença. Alguns necessitam de um clone deles próprios como condição para seu amor, um filho que seja um prolongamento do que eles são ou que não conseguiram ser. Onde fica o espaço para o indivíduo se permitir a conhecer-se, avançar e retroceder, crescer, sem medo de perder o afecto dos outros?
Nem todos têm capacidade para avaliar que estão a viver não os seus sonhos mas os sonhos de outro alguém. Não raras vezes, este falso Self (um Eu postiço) manifesta-se apenas como um vazio imenso, sem nome, que habita dentro de nós, indivíduos. É algo que se instala muito precocemente e torna-se um padrão de funcionamento. Viver para agradar aos outros é um teatro, ou mais precisamente, uma prisão. É uma prisão depressígena, que nos deprime e nos engole por não permitir ser-se amado por aquilo que realmente se é. Viver com medo de desiludir (para desiludir é preciso que alguém esteja iludido) e consequentemente perder o amor dos outros significativos, é definhar dentro de um corpo sem existência própria.
No nosso quotidiano, dizer “sai à mãe” ou “sai ao pai” é a expressão mais genuína e evidente de que há uma tendência generalizada, quiçá de inscrição genética, para procurar desde cedo traços de semelhança com os progenitores. Apesar disso, o mais importante é permitir que a criança saia a ela própria. E, incondicionalmente (não é o amor dos pais o único amor verdadeiramente incondicional?) poder amar os filhos nas suas semelhanças e diferenças, respeitando a sua individualidade e o seu caminho.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Pedrinha (Das acções e concretizações)
Realmente, de que serviria sentir, pensar, e até amar se não agíssemos?
António Coimbra de Matos
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Pedrinha (Da televisão)
A violência na televisão não transforma uma criança saudável num menino mau. E não acho que sejamos sérios se ilibarmos os pais – cujas relações são (muitas vezes) um reality show interminável – (…)
A televisão estimula o conhecimento, e só faz mal se se tiverem com ela comportamentos obesos, ou se se transformar no antidepressivo ou no ansiolítico mais à mão. E faz ainda, mal quando se transfigura num afrodisíaco ou serve de substituto às dores de cabeça a que duas pessoas (que não se toleram) recorrem, sempre que se evitam uma à outra.
A televisão faz mal sempre que esperamos que esta seja a baby-sitter das crianças ou o animal de estimação dos pais (que se liga, logo que se chega a casa, para tornar mais suportável um silêncio que os convida a pensar). A televisão faz mal sempre que se fala nas horas que as crianças passam diante do televisor, enquanto os pais se empanturram com telenovelas. A televisão faz mal sempre que a cada pessoa de uma família, corresponde uma televisão e, em função disso, cada uma se barrica autisticamente no seu quarto, ou troca uma boa conversa, ao jantar, pela companhia de mais um programa de humor.
Eduardo Sá (in Tudo o que o amor não é)
sábado, 26 de novembro de 2011
O admirável ser humano
Não existe, no mundo vivo, espécie mais dependente dos outros do que a espécie humana. É na primeira infância, fase de dependência absoluta, que esta característica se afirma de forma mais evidente. O bebé e a mãe constituem uma unidade e, sem um cuidador, o bebé não sobrevive. Porque tem a nossa espécie esta particularidade, tão incontornável?
Primeiro, as justificações da Biologia: o bebé humano nasce com um desenvolvimento neuromotor muito inferior ao dos bebés de outras espécies animais. Exemplificando, para que um bebé humano nascesse com o mesmo nível de desenvolvimento de um primata, seria necessário mais um ano de gestação (o que corresponderia a uma gravidez de 21 meses). Assim, nascendo com um desenvolvimento “insuficiente”, entende-se que o bebé humano seja muito mais dependente dos cuidados maternos. Felizmente, a Natureza alinha os detalhes e constatamos que, normalmente, nasce apenas uma cria humana por cada gestação, e não uma ninhada de filhos, como acontece com outras espécies animais. No caso de nascimento de gémeos, sabem as mães melhor que ninguém quão complicado é cuidar de dois bebés em simultâneo.
Depois, para lá das questões neurológicas ou motoras, existe a complexidade singular da mente humana e do seu processo de desenvolvimento afectivo, relacional e social. O bebé humano precisa de cuidados muito particulares (e exigentes!) para o bom desenvolvimento da sua estrutura psíquica e das suas capacidades cognitivas, afectivas e sociais. Esta interacção única entre a mãe e o seu bebé tem alguns contornos muito funcionais (alimentação, higiene, saúde) mas também tem contornos relacionais (amor, afectividade, comunicação, brincadeira, empatia). Como resultado da soma de tudo isto, percebe-se que é a mãe quem promove as condições para que se desenvolvam as capacidades físicas e a confiança/segurança necessária para o bebé poder explorar o mundo e integrar as aprendizagens. Para passar da dependência à autonomia e à capacidade de criar relações saudáveis com os outros, deve haver respostas adequadas às solicitações do bebé.
O que se torna curioso realçar é que, afinal, antes do verbo, veio o amor. Nas teias desta nossa complexidade, tornámo-nos seres altamente sensíveis à comunicação não verbal, àquilo que não precisa ser dito para ser sentido. Usando essa capacidade, a mãe tem de “adivinhar” as necessidades do seu filho, sejam elas de ordem fisiológica ou psicológica. Com a mesma capacidade (não se subestime o pequeno ser), o bebé detecta muito facilmente qual o lugar que ocupa no mundo da mãe e, mais tarde, no mundo dos outros. Quando algo corre menos bem nesta fase, a estrutura e funcionamento psicológicos do indivíduo podem ficar, de alguma maneira, condicionados.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Pedrinha (Da capacidade de amar uma criança)
"De amor pelas crianças só são capazes aqueles que amam a criança que neles habita. Nem todos puderam ser crianças, alguns foram apenas objectos utilitários de alguém. Que o teu filho não seja um utensilio de compensação da tua frustração ou um adorno da tua vaidade. Não o tornes num autómato, não faças dele um objecto utilitário. Deixa que a espontaneidade das tuas experiências infantis renasça das trevas dos teus preceitos e preconceitos de adulto, para falares com o teu bebé uma linguagem de gestos e de olhares que ele entenda e que o ajude a descobrir o mundo das pessoas e das coisas. Fala com a tua sabedoria, mais do que com o teu saber."
João dos Santosterça-feira, 22 de novembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Transformações
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Luís de Camões
terça-feira, 15 de novembro de 2011
(Ainda) os sonhos de Jung
"O sonho recorrente é um fenómeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até à idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer.
Sonhei durante muitos anos com um mesmo motivo, no qual eu “descobria” uma parte da minha casa que até então me era desconhecida. Algumas vezes, apareciam os aposentos onde os meus pais, há muito falecidos, viviam e onde o meu pai, para grande surpresa minha, montara um laboratório de estudo de anatomia comparada dos peixes e onde a minha mãe dirigia um hotel para hóspedes fantasmas. Habitualmente, esta ala desconhecida surgia como um edifício histórico, há muito esquecido, mas de que eu era proprietário. Continha interessantes mobílias antigas e, lá para o fim desta série de sonhos, descobri também uma velha biblioteca, com livros que não conhecia.
Por fim, no último sonho, abri um dos livros e encontrei nele uma série de gravuras simbólicas maravilhosas. Quando acordei, o meu coração pulsava de emoção. Algum tempo antes de ter este último sonho, havia encomendado a um vendedor de livros antigos uma colecção clássica de alquimistas medievais. Encontrara, numa obra, uma citação que me parecia relacionada com a antiga alquimia bizantina e queria verificar este facto. Algumas semanas depois de ter tido o sonho com o livro que me era desconhecido, chegou um pacote do livreiro. Dentro, havia um volume em pergaminho, datado do século dezasseis. Era ilustrado com fascinantes gravuras simbólicas, que logo me lembraram as que vira no meu sonho.
Como a redescoberta dos princípios da alquimia se tornou parte importante do meu trabalho pioneiro na psicologia, o motivo do meu sonho recorrente é de fácil compreensão. A casa, certamente, era o símbolo da minha personalidade e do seu campo consciente de interesses; e a ala desconhecida da residência representava a antecipação de um novo campo de interesse e pesquisa de que, na época, a minha consciência não se apercebera. Desde aquele momento, há trinta anos, o sonho não se repetiu."
Carl Jung in O Homem e os seus símbolos
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Elogio da Criatividade
A criatividade é a capacidade de criar algo novo e original. É a matéria-prima da evolução, permitindo a produção do inovador, do diferente. Ainda se educa pouco para a criatividade, já que educar não é encher uma ânfora, mas alimentar uma chama viva, como disse o pedagogo Pestalozzi. É facilitar a aprendizagem e o desenvolvimento, ensinando cada um a pensar pela sua própria cabeça ao invés de formatar indivíduos apenas para repetir o que foi pensado por outros. Precisamos de espíritos críticos, não de ovelhas seguindo pastores. Pensar, questionar, duvidar, pesquisar, são acções criativas. O provérbio diz há muitos anos que da discussão nasce a luz e é por isso que temos um aparelho pensante (e não um gravador/leitor). Como diz António Coimbra de Matos, queremos formar pensadores em vez de “acumuladores de pensamentos”.
A criatividade aplica-se em tudo: no trabalho, nas relações humanas, no conhecimento que adquirimos. É, enfim, uma forma de estar na vida e um atributo de personalidade. No trabalho produz-se obra (preferencialmente acrescentando sempre uma nota criativa ao que fazemos). Uma relação saudável é, também, criação. É criação na medida em que nos desenvolvemos mais em relação com o outro do que nos desenvolvemos sozinhos: na relação com outras pessoas cria-se um espaço de desenvolvimento, resultante da partilha entre mentes, da transmissão de conhecimentos/vivências e do confronto de ideias. Funcionamos, na relação, como promotores da criatividade do outro. E, aqui, o expoente máximo da criatividade da relação é a criação do bebé, um ser único que chega ao mundo.
A criatividade implica, porém, liberdade. Liberdade de ser, de estar, de pensar e de sentir, perante os outros e perante nós próprios. Não há espaço para a criatividade quando estamos dominados por algo castrante (seja uma família, um chefe ou um governante). Há um sem número de indivíduos sufocados na sua capacidade criativa, muitas vezes desde o nascimento, em famílias ou em outros sistemas (profissionais, culturais, políticos) que não permitem que se questione uma única ideia ou princípio adquirido.
Em psicoterapia, não só se fomenta a capacidade de pensar (soltando amarras internas ou externas) como se potencia a criação de algo novo, um novo estar, um diferente sentir. Pretende-se a expansão da mente e o desbloqueamento de potencialidades aprisionadas, pois o ser humano tem um aparelho pensante sem igual. Somos autores da nossa vida e usemos logo aí a criatividade, para conduzi-la com inspiração e para com ela produzir algo único.
Referência útil: Coimbra de Matos, A. (2011). Relação de Qualidade: penso em ti. Climepsi.
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