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| Matisse - Acrobatic Dancer |
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Coisas Boas
Este corpo que eu odeio
A anorexia é um comportamento muito complexo ponto de vista psicológico. Tem muito a ver com a imagem do corpo, mas não só. Como tanto se fala, a mudança dos padrões estéticos favoreceu o aparecimento de comportamentos deste tipo, contudo, não os explica, porque a problemática é muito mais profunda do que isso.
Com raízes depressivas, esta perturbação do comportamento alimentar que afecta sobretudo o sexo feminino, representa um conflito interno entre o corpo de mulher, um corpo sexuado (devido ao desenvolvimento das características sexuais secundárias na adolescência, como os pelos, o aumento dos seios, a evolução das formas) e o corpo de menina, geralmente idealizado e que a anoréctica tenta preservar.
O comportamento anoréctico assenta na impossibilidade de aceitar que, de repente, nasceu um corpo de mulher e uma condição feminina. Há uma perturbação da sexualidade, tentando através da extrema magreza a anulação de todas as características que representam essa sexualidade (diminuição dos seios, desaparecimento das formas femininas e, no limite, da menstruação, consequência da severa perda de peso nos casos mais graves). O corpo infantil está idealizado e esse corpo infantil dirige “ataques” ao corpo real.
A anorexia não é nunca um comportamento isolado. Associam-se a ela comportamentos maníacos (como a hiperactividade, que surge não só porque a fome actua como um mecanismo excitatório, mas também porque permite manter um desgaste elevado de calorias) ou comportamentos obsessivos (como a limpeza, por exemplo, através da qual inconscientemente se exorcizam as fantasias de sexualidade, encaradas como algo sujo). A questão da perfeição está muito presente na anoréctica, o que explica inclusivamente que esta patologia surja normalmente em jovens aparentemente bem adaptadas, organizadas e, inclusivamente, com sucesso académico ou profissional.
O ódio ao corpo feminino representa, em última análise, um ódio ao corpo materno. Por norma, a relação entre a anoréctica e a mãe é uma relação doente. Aliás, é frequente em intervenções com anorécticas proceder-se, inicialmente, a uma separação da anoréctica do mundo familiar, particularmente da mãe, chamando-se a isso, maternectomia. Em terapia, trabalha-se a separação entre a anoréctica e o objecto materno.
Nesta perturbação, uma das consequências sobre a sexualidade são os estados anorgásticos, ou seja, a anoréctica e, frequentemente, a ex-anoréctica, não obtêm prazer com sua sexualidade. Resolveu-se o problema da imagem do corpo (torna-se possível aceitar o corpo real) mas permanece a má relação com o feminino.
Para tratar mais fundo, a estratégia da “engorda”, por si só, não chega. Quando a jovem se encontra com um peso muito baixo, naturalmente que a primeira fase será para compensar o seu corpo naquilo que ele necessita. Mas o tratamento da anorexia vai muito mais além. Tem de ir.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Ideias em Ordem
Tem sido difícil ser psicólogo em Portugal. Sendo uma profissão muito “jovem”, compreende-se que o processo tem levado o seu tempo. Contudo, enquanto isso, a classe profissional viu-se desprotegida e desinformada (a criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses foi uma dura batalha, vencida em Setembro de 2008), estando igualmente desprotegidos e desinformados os cidadãos que dela precisaram e a ela recorreram.
Não percebendo sequer a importância e as reais competências do psicólogo como técnico especializado, o Estado não cumpriu, de todo, a sua função como regulador da profissão, durante todos estes anos em que a tarefa lhe competiu. Regidos por uma ausência de legislação competente, os direitos e os deveres do psicólogo nunca foram, igualmente, concretamente definidos, dando azo a uma espécie de anarquia que não só lesa os utentes (que o Estado também deveria proteger) mas também a classe profissional, na sua credibilidade e, consequentemente, no seu estatuto. Para além de pouca, a legislação nunca foi revista desde os anos 90 e hoje não há psicólogos suficientes nas escolas, nos centros hospitalares e nos cuidados de saúde primários (mencionam-se apenas a Educação e a Saúde pois foram as únicas áreas para as quais o Estado legislou a carreira de psicólogo). Proporcionou-se, em função de uma crescente necessidade sem resposta dos serviços, um abuso desmedido dos regimes de voluntariado em Psicologia. Na ausência de instrumentos legais com que se defender, os psicólogos têm vindo a desenvolver trabalho de forma maioritariamente precária, entregues, não ao Estado mas, como se diz, à bicharada.
Criada a OPP, restam ainda algumas (e não menos importantes) microbatalhas por travar, essas já muito dependentes também de uma necessária divulgação nacional de qualidade sobre o mercado da Psicologia. Continua a ser imperativo vincar todas as possibilidades de intervenção em Psicologia e especificamente em Saúde Mental, um pilar fundamental de qualquer sociedade dita desenvolvida. Continua a ser imperativo sensibilizar o público para algumas noções básicas e fomentar uma consciencialização generalizada do que é a Psicologia, para que serve e tudo aquilo que ela permite compreender e transformar. Em Portugal, muitos aspectos se poderiam melhorar se as políticas do Estado se baseassem num enquadramento, compreensão e intervenção psicossocial das situações. Pensemos sobre a enorme quantidade de baixas médicas relacionadas com a depressão e outras perturbações emocionais que condicionam e impedem a produtividade dos trabalhadores. Pensemos quão mais simples seria enquadrar e lidar com a questão das dificuldades de aprendizagem, abandono escolar e iliteracia. Ou ainda quão mais útil intervir atempadamente na questão da criminalidade, da delinquência, da toxicodependência, da saúde materna e saúde infantil ou mesmo da violência doméstica. Entre tantas outras questões que se enraizam em aspectos psicológicos do ser humano.
domingo, 4 de setembro de 2011
Pedrinha (Do amor incondicional)
“O amor incondicional é o que não obedece à condição de ser retribuído; tão-só isso. Não é um amor incomensurável, desmedido e absurdo – como pensam os aleijadinhos narcísicos. É apenas um amor gratuito, que não cobra, não exige nada em troca. É o amor genuíno. É amor; e não sedução, manipulação ou perversão (ódio travestido de amor).”
Nota: [No amor materno, bem como na relação analítica]
António Coimbra de Matos (in Relação de Qualidade: Penso em ti)
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sábado, 3 de setembro de 2011
Era uma vez uma família
“Uma criança satisfeita brinca livremente na presença confiante dos pais, sem precisar de estar permanentemente colada a eles. Ou seja, a boa relação com os pais permite-lhe fazer descobertas por conta própria e estabelecer novas relações (diversificando a forma de se relacionar com vários objectos e ampliando o seu mundo de interesses). Ao mesmo tempo, por sua vez, também permite , com facilidade, que os pais se relacionem entre si e com outras pessoas, aceitando com agrado que os pais também tenham os seus próprios interesses. Assim, convivem uns com os outros, respeitando a condição de serem cada vez mais separados e diferenciados uns dos outros. Gostam de estar com os outros, mas não se perseguem – de vez em quando aparecem, para trocar uma graça, para revelarem o afecto que sentem ou quando alguma coisa os ameaça; para logo depois seguirem caminho, seguros uns dos outros (do amor que os une, da certeza que permanecem fora de perigo). E assim se funda a verdadeira intimidade, semente de novos amores; experiência adquirida nas boas relações de infância, ou mais tarde na relação terapêutica.”
Maria do Rosário Belo* in Lutos, perdas, desafios e conquistas, na vida e no processo analítico
*Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Elogio da sombra
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
Jorge Luis Borges
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Brinca comigo
É transversal a todas as
culturas, a imagem da criança que brinca. Brincar é muito mais do que uma mera distracção
ou entretenimento. É a forma privilegiada de expressão emocional e, mais ainda,
uma tarefa de desenvolvimento que permite o treino de competências de todas as
ordens (fisicas, sociais, emocionais, cognitivas). Brincar é um trabalho
fundamental para que se tenha mais sucesso na adaptação posterior à realidade. Freud
foi pioneiro ao propor uma compreensão do brincar. Dizia então que o sonho era
o caminho real para o inconsciente do adulto e que o brinquedo era o caminho
real para o inconsciente da criança. Melanie Klein, a partir dos estudos de
Freud, aprofundou o significado da actividade lúdica para a criança, elaborando
um corpo de conhecimentos, teóricos e práticos, sobre o entendimento e o uso do
brinquedo como recurso terapêutico e de desenvolvimento da criança. Piaget, já
mais tarde, destacou três períodos na evolução do brincar, um primeiro período onde
se brinca com o corpo (num exercício sensório-motor), um segundo período em que
o brincar se torna simbólico (recorrendo a símbolos, uma criança desenvolve a
capacidade de fantasiar e fazer-de-conta, tão fundamental) e, um terceiro
período, dominado pelos jogos de regras, em que se brincam os limites e as
obrigações comuns, criadas e cumpridas em grupo. Haverá momentos em que
brincará a sós, num recolhimento essencial e em relação consigo, outros em que
brincará acompanhada, em relação com os outros.
Brincar é uma experiência
criativa. Brincando, a criança é soberana, colocando a realidade à disposição
das suas fantasias. O brincar é lúdico e, ao mesmo tempo, uma coisa séria. É
muito engraçado observar a concentração com que uma criança é capaz de brincar
e quão importantes são todos os contornos das suas brincadeiras. Uma criança
que não brinca está (ou foi), por algum motivo, impedida de um acto instintivo
e primordial.
O desenvolvimento infantil espelha-se
no brincar. A criança, quando brinca, coloca o seu mundo interno na
brincadeira, brincando as suas aquisições, as suas ansiedades, brincando também
as suas zangas e a sua agressividade. Repete e elabora experiências emocionais importantes
através da brincadeira. O desenho, uma forma particular de brincar, é mais um
espelho do mundo interno da criança. Enquanto pequenos, os pensamentos e as
emoções são mais facilmente comunicados pelo traço do que pela palavra (porque a
evolução corpo à mente leva o seu tempo).
Naturalmente, é, assim, o meio
privilegiado de contactar com a criança e entrar no seu mundo privado.
Observando o brincar, brincando com ela e dando um sentido à brincadeira. Como
disse Winnicott (1971), “ é preciso não esquecer que brincar é uma terapia em
si”.
sábado, 6 de agosto de 2011
Pedrinha (Do paradigma relacional)
O paradigma actual, na física como na psicologia, não é o dos corpos ou entidades mas o das relações. A matéria existe em relação com outras matérias.
António Coimbra de Matos
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Pedrinha (Do que eu sou)
O importante é aquilo que eu sou para mim próprio. O que eu sou. O que eu fui. Ou serei. O que é que queres ser? O importante é sermos autênticos. É isso que nos faz ser únicos. Somos incutidos a ser milhões de coisas mas só somos aquilo que realmente queremos. Eu sou o que eu dou. Eu dou o que eu sou. (...) Eu sou o que eu sou.
Sam the Kid (O que eu sou)
sábado, 30 de julho de 2011
Pedrinha (de Santo Agostinho)
Afinal, a psicanálise não é só feita de palavras, é feita de afectos, de emoções, de relação. É que sem isso, para parafrasear Santo Agostinho, palavras são apenas palavras, ou seja, o som e o ruído das palavras. Falar é outra coisa.
Carlos Amaral Dias
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Lendo nas entrelinhas
A leitura é actualmente considerada uma ferramenta insubstituível e indispensável, que permite aos indivíduos aceder, vida fora, a uma grande quantidade de experiências e conhecimentos. É primordial no processo de aprendizagem e no sucesso escolar/profissional e, como tal, os estudos sobre esta competência têm surgido e proliferado significativamente nas últimas décadas, conduzindo inclusivamente a algumas medidas que revelam, pelo menos, alguma sensibilidade ao tema, como, por exemplo, a implementação do Plano Nacional de Leitura (PNL).
Tornou-se imperativo, ao longo dos tempos, compreender os modelos de aquisição de leitura e os processos segundo os quais tudo acontece, bem como analisar as metodologias de ensino à luz desse conhecimento, de modo a poder agir mais adequadamente. De uma maneira geral, os estudiosos realçam de forma unânime a existência de duas vertentes na leitura: a descodificação e a compreensão. O que caracteriza o processo de descodificação é o conhecer e distiguir visualmente e auditivamente as letras, relacioná-las com os sons que representam, juntar grafemas formando palavras e identificá-las e pronunciá-las como entidades globais. Em suma, a descodificação implica a transformação dos grafemas em fonemas, identificando e reconhecendo palavras utilizadas correntemente na comunicação entre indivíduos. Por sua vez, a leitura de compreensão é um processo posterior à descodificação e, ainda, bem diferente nas suas características e objectivos. O objectivo é permitir ao indivíduo ler palavras, frases e textos, para lhes extrair um significado, interpretando, apreciando e servindo-se da sua mensagem para adquirir e criar conhecimento. As palavras deixam de ser consideradas e interpretadas isoladamente, e passam a ser perspectivadas como partes integrantes da frase e do texto, onde têm a sua função e adquirem significado específico. Assim que dominamos as técnicas de descodificação, pômo-las, agora, ao serviço da compreensão da mensagem escrita, que depende, também, do nosso desenvolvimento linguístico e capacidades cognitivas.
As dificuldades na aquisição da leitura continuam a ser uma das principais causas das retenções no 1º Ciclo (e do encaminhamento dos alunos para Serviços de Psicologia e Orientação). Este insucesso influencia, por vezes de uma forma decisiva, a aprendizagem em inúmeras outras áreas disciplinares, para as quais o domínio desta competência é fundamental. Não raras vezes condiciona o percurso escolar do aluno e, consequentemente, desencadeia e alimenta um conjunto de efeitos negativos, como o desinvestimento face à aprendizagem, problemas comportamentais e afectivos. E assim sendo, é necessário que estas situações sejam sinalizadas e avaliadas de forma a desenvolver intervenções eficazes e contornar, de raiz, uma das principais causas do insucesso escolar.
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Insights
Primeira noite de Verão
Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter – nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite. (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen
terça-feira, 26 de julho de 2011
Poema
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
domingo, 24 de julho de 2011
Beautiful People
The most beautiful people we have known are those who have known defeat, known suffering, known struggle, known loss, and have found their way out of the depths. These persons have an appreciation, a sensitivity and an understanding of life that fills them with compassion, gentleness, and a deep loving concern. Beautiful people do not just exist.
Elizabeth Kübler-Ross
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Psiquiatras, Psicólogos, Psicoterapeutas e Psicanalistas
Existe, não raramente, alguma confusão relativamente às diferenças entre um psiquiatra, um psicólogo, um psicoterapeuta e um psicanalista. Embora sejam, todos eles, profissionais de saúde mental, há diferenças ao nível da formação académica, da compreensão das situações clínicas, bem como no que respeita às intervenções terapêuticas.
O psiquiatra é um profissional formado em Medicina e com posterior especialização em Psiquiatria. O conhecimento do psiquiatra concentra-se fundamentalmente no diagnóstico de comportamentos desviantes. Utiliza como linha de base um sistema de classificação e diagnóstico baseado em manuais (ex: DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais) e a principal forma de intervenção utilizada por estes profissionais é a prescrição de medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos e outros psicofármacos.
O psicólogo é um profissional formado em Psicologia, a quem compete o estudo
do funcionamento humano, bem como a avaliação e tratamento das perturbações
associadas. A sua área de intervenção foca-se no indivíduo e nos seus processos
internos, mas pressupõe também uma compreensão alargada do seu funcionamento
familiar e social, intervindo também no ambiente envolvente. A formação em Psicologia é tão diversa que se divide, quase de início, na área clínica, organizacional, educacional ou criminal. O conhecimento do psicólogo pode, assim, aplicar-se a uma série de áreas da sociedade, consoante a sua formação (neste caso, saúde mental, organizações e empresas, escolas e agentes educativos ou área forense, entre inúmeras outras relacionadas). Quando se dedica à área clínica (aquela que serve a nossa comparação), em particular, o psicólogo tem legitimidade de realizar uma série de intervenções psicológicas mas, em situação de consultório e prática clínica, deve continuar a sua formação e especializar-se como psicoterapeuta para uma intervenção mais ética e eficaz com os pacientes.
O psicoterapeuta domina um corpo de técnicas que utilizam métodos psicológicos para analisar e intervir em estados emocionais, comportamentais e outras perturbações causadoras de mal-estar físico, psicológico ou social e de outras problemáticas por vezes menos evidentes. Na psicoterapia, através de uma relação muito particular que é estabelecida entre os dois intervenientes conduz-se o paciente numa viagem em que este se torna mais consciente de Si (do que faz, pensa e sente) e através da qual se pretende aliviar algum sofrimento e proporcionar a mudança. Importa realçar que, embora a psicoterapia derive de teorias psicológicas, um psiquiatra com formação adicional nesta área (e não apenas formação médica) pode, também, utilizar a técnica.
O psicanalista é um profissional com uma especialização em psicanálise (normalmente um psicólogo ou um psiquiatra, que faz, posteriormente, formação adicional em psicanálise). A teoria e técnica da psicanálise têm nuances particulares que exigem uma formação prolongada por parte do profissional (o próprio processo psicanalítico é longo e aprofundado) em entidades competentes. Visa o desenvolvimento da capacidade de pensar analiticamente sobre si próprio e sobre o mundo e proporciona uma notável expansão e crescimento do sujeito. O psicanalista (ou analista, forma abreviada) opera igualmente em contexto clínico, intervindo com a sua técnica, a psicanálise (ou análise), que se assemelha em alguns pontos a uma psicoterapia, embora tenha particularidades muito específicas.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Liberdade
Quem prende a água que corre,
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.
António Aleixo (Quadras Populares)
sábado, 16 de julho de 2011
Pequenices (Ou a melhor verdade do mundo)
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
José de Almada Negreiros
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Pedrinha (Da concavidade)
A concavidade não se diz, não se anuncia, pertence ao lugar bom do não dito; sente-se, pressente-se e tem uma magia – quanto mais se dá lugar ao outro, mais se tem lugar para ele. Talvez a concavidade seja a capacidade de amar.
Maria João Saraiva (Até mim: vivência da psicanálise)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Pensar os pensamentos
Mesmo suponho a existência de um aparelho de pensar os pensamentos bastante eficaz, mesmo assim, existem ainda muitos pensamentos que o sujeito não é capaz de pensar sozinho e que são colocados no interior do analista para ele pensar. Uma das principais funções do analista é pensar aquilo que o analisando não é capaz de pensar.
Carlos Amaral Dias (Freud para além de Freud)
terça-feira, 12 de julho de 2011
Pedrinha (Das falsas verdades)
Então, diz coisas deste tipo: “não me deixou marca”, “não era uma criança dada a dramas”, “não sou uma pessoa romântica”. Nada disto é verdade, mas ele pensa assim, pois foi assim que organizou a sua autobiografia: depurou-a, ou amputou-a, do conteúdo emocional perturbador, do sabor amargo ou do molho picante.
António Coimbra de Matos
07.11.2010
domingo, 10 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Vai onde te leva o coração
A escolha de uma área profissional é um dos momentos mais importantes no percurso escolar de um jovem. Chegando ao 9º ano de escolaridade, o adolescente vê-se a braços com uma decisão relativa à área de estudo que pretende aprofundar durante os seguintes anos de aprendizagem. É o momento da primeira escolha.
Naturalmente, nem todos os jovens sabem com a mesma determinação aquilo que querem para a sua vida. É frequente existirem indecisões, angústias e receios. Nessa altura, recomenda-se que o aluno realize provas de orientação vocacional, que o ajudem a esclarecer alguma dúvida bem como a tomar uma decisão mais madura e consciente. E recomenda-se mesmo aos jovens mais “esclarecidos” pois, independentemente de parecer que o adolescente sabe muito bem aquilo que quer, não podemos esquecer que está em plena processo de construção da sua identidade e que esse processo nunca é uma equação simples.
O objectivo fundamental da realização destas provas é a recolha de dois tipos de informação fundamental, os interesses e as aptidões. Os interesses dizem respeito às áreas pelas quais o jovem sente maior motivação e gosto e também aos seus sonhos relativamente à sua realização profissional. As aptidões estão relacionadas com as suas reais capacidades em cada uma das possíveis áreas de escolha. Seguidamente, há toda uma panóplia de factores que devem ser analisados conjuntamente pelo jovem e psicólogo durante a entrevista, tais como a existência de algumas discrepâncias entre as aptidões e os interesses, as suas expectativas e os seus receios, a qualidade da informação que o adolescente possui relativamente aos cursos e ao mercado de trabalho e, ainda, não raras vezes, perceber se alguns desejos (nem sempre explícitos) dos pais estão ou não a criar ambivalência no jovem.
Seguindo em frente, uma nova escolha, semelhante a um estreitamento, é exigida no final do 12º ano de escolaridade. Uma escolha específica. Para além das dificuldades apontadas anteriormente, inerentes a qualquer processo de decisão, aqui se reúnem outro tipo de dúvidas, nomeadamente a questão das médias/requisitos de entrada na Universidade, uma grande oferta de Universidades (ou cursos de outra ordem, nunca esquecendo a quantidade de jovens que preferem outro tipo de especialização), as saídas profissionais, ou mesmo a pressão sentida quando não sabem ainda ao certo qual a actividade profissional em particular que querem escolher.
As variáveis emocionais são de grande importância porque, para que o aluno obtenha sucesso académico numa dada área, é necessário que exista, para além dum investimento intelectual, um investimento afectivo e emocional que funcione como catalisador da vontade de aprender. E uma situação de indecisão não é sinónimo de fracasso ou desinteresse no futuro, havendo sempre a alternativa de recorrer a técnicos especializados que poderão iluminar alguns recantos escuros nesta importante fase de vida.
domingo, 3 de julho de 2011
Coisas de amigos
Tinha-se perdido de si mesma, mas a sua amiga sempre soubera qual era o lugar dela, o valor dela e não saiu de perto enquanto ela não voltou a reconhecer-se através do olhar da amiga, do seu afecto; primeiro, ela era só um punhado de dúvidas, depois foi sendo capaz de reconhecer os seus contornos, naquilo que a sua amiga lhe dizia e, mais além, preenchendo esses contornos com bocados de vida sua; foram tempos em que, “cega” a si própria, se foi buscar ao interior de quem a fazia existir, de quem a fazia existir tão perto do que era ela. E a amiga nunca saiu de lá, sempre a fazê-la sentir o valor que a vida dela tinha, o quanto ela era valiosa, nunca saiu de lá até estar segura de que ela já se reconhecera e já se encontrara; aí sim, sabia que, embora ainda “descalça”, iria fazer caminho. Nunca saiu de lá; mesmo agora, que voltava.
Maria João Saraiva (in Até mim: Vivência da Psicanálise)
sexta-feira, 1 de julho de 2011
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Pedrinha (Da sabedoria milenar)
Aquele que aprende, mas não pensa, está perdido. Aquele que pensa, mas não aprende, está em grande perigo.
Confúcio
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Carta (Esboço)
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”
Amor em tempos de análise
No fim, não vivemos para analisar, nem vivemos só para amar; simplesmente, analisamos e analisamo-nos para amar e para viver melhor.
João Pedro Dias (2010) (in Amor em tempos de análise: o amor do analista na perspectiva e vivência do analisando)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Pedrinha (Do medo)
"Imaginar-se ali, numa relação boa, acendia-lhe o temor de a perder e aí ficava muitas vezes impávida, imóvel, perante a possibilidade de se ligar ou de se afastar, evitando o medo, o medo da perda, do abandono, que o ligar-se podia trazer consigo. Por outro lado, o que queria era a ligação, o enlace dos afectos numa harmonia melodiosa, o encontro, a sintonia, a afinação da reciprocidade. O medo não era o sinal do não querer, era o falar silenciado, escondido do querer, o medo escondia o que ela mais queria, o medo era uma concha.”
Maria João Saraiva (in Até mim: vivência da psicanálise)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Depressão em ponto pequeno
Também as crianças se deprimem. Não é comum uma criança verbalizar o seu sofrimento, não porque não queira, mas porque não sabe, logo não pode. É simplesmente “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê”.
Na verdade, nem sempre é fácil detectar a depressão infantil com um simples olhar. Então como se manifesta a depressão e os seus sintomas nas crianças? Em primeiro plano, pode observar-se uma lentificação ou inibição psicomotora (traduzida num aspecto envelhecido, rosto pouco expressivo, postura excessivamente ajuizada e submissa). Mas, mais frequentemente até, verifica-se, pelo contrário, agitação motora, uma incapacidade de estar sossegado, que expressa o mal-estar interno.
A nível cognitivo surge a dificuldade em pensar, em prestar atenção às tarefas escolares, a dificuldade de concentração, responsáveis por fuga ou evitamento da “situação escolar” e conduzindo, tantas vezes, ao insucesso. A perda de auto-estima é expressa numa desvalorização e sensação de incapacidade e insucesso quase sistemática. Numa criança em idade escolar, a capacidade de aprendizagem é uma das primeiras áreas a ser afectada pelas perturbações emocionais, visto que, sem bem-estar emocional, a criança não pode ter disponibilidade interior para desejar conhecer mais ou aprender melhor.
Ocorrem também perturbações do apetite, fundamentalmente anorexia da primeira infância e bulimia ou rilhagem (absorção alimentar excessiva) na criança mais crescida ou pré-adolescente. No que respeita ao sono, o adormecer é difícil, com oposição e recusa ao deitar, os pesadelos e os medos são frequentes e remetem para a componente ansiosa da patologia.
A nível somático, dores de cabeça e dores de barriga também são manifestações comuns. Aliás, quanto mais nova é a criança, mais a depressão se exprime por intermédio do corpo. À medida que a criança cresce, o corpo deixa de ser o principal veículo do sofrimento e os problemas afectivos tornam-se mais psicológicos, dando lugar aos problemas de comportamento e a queixas verbais, manifestados fundamentalmente na forma de dificuldades escolares e de irritabilidade. O comportamento é a expressão motora do mundo interno da criança, constituindo ainda uma poderosa forma de comunicação dessas vivências internas.
Tendo em conta o vasto leque de manifestações sintomáticas, a síndrome depressiva infantil é, por vezes, difícil de reconhecer, podendo associar-se a sintomas que, em geral, não são automaticamente relacionados com esta patologia.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Pedrinha (Do destino humano)
Ser e transcender-se, com corpo e para além do corpo, em comunhão com todas as coisas e todos os seres – em particular, os outros humanos – é o destino, então glorioso, do bicho-Homem.
António Coimbra de Matos
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888)
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
Álvaro de Campos
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Pedrinha (Dos encantamentos quebrados)
“Para me esquecer de ti continuo a recordar-te. Iluminada pela brancura da solidão, sinto-te outro. Vejo-te como uma promessa que nunca se cumpre, uma impotência de viver que mascaras e de que te escondes iludindo os outros, fugindo, criando neles vazios, dúvidas e sofrimentos para que nunca te devolvam no olhar aquilo que realmente és. Ainda não cresceste, não estás preparado para sentir a vida, és ainda um menino dependurado na ponta dos dedos da tua mãe…
Hoje penso que o sofrimento que vivi era teu, depositaste-o em mim porque não és capaz de o sentir, apenas te mostras capaz de o ludibriar e sobreviver assim, com o engano daquilo que não és.
Hoje penso que as ausências e os desertos que ofereces te fazem existir. Com eles derramaste-me uma angústia que me levou a preencher esses vazios de ti com riquezas imensas que, afinal, eram minhas; a tua ausência levou-me a sonhar-te e sonhei-te belo, coloquei em ti uma luz e uma quentura que nunca tiveste e com que te iludiste de ser assim, pelo meu olhar.
Hoje penso que encontraste no reflexo dos meus olhos um espelho que te devolveu uma nobreza, um valor, uma beleza com que te enfeitaste e que afinal não eram teus. Agora que me retirei, creio que te empobreci e esta é talvez a maior expressão da minha revolta – deixei-te pobre, fraco, uma promessa de coisa nenhuma.”
Maria João Saraiva* (in A dor que me deixaste)
* Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica
Nota: Sobre a nossa facilidade em projectar nos outros atributos (qualidades ou defeitos) que, no fim de contas, foram sempre nossos.
sábado, 4 de junho de 2011
Pedrinha (Das relações não-estanques)
“E se toda e qualquer relação é feita de ajustamentos, desajustamentos e reajustamentos; encontros, desencontros e reencontros corrigidos; momentos fecundos, traumáticos e mortos; acontecimentos previstos e imprevistos; sequências determináveis e indetermináveis; em condições de limpidez ou de névoa – uma coisa é certa: conhecer o que se passa intra e interpsiquicamente, no sujeito e no par ou no grupo, é importante na vida e fundamental na análise.”
António Coimbra de Matos
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Nos bastidores da delinquência
Falou-se, aqui há uns tempos, em diminuir a idade da imputabilidade legal e talvez seja interessante pensar nas raízes da delinquência juvenil, tentando compreendê-la de modo a contê-la aos primeiros sinais. São histórias de violência, crime, toxicodependência ou alcoolismo. Mas são, sobretudo, “histórias de desamor”1).
É o amor, acima e primeiro que qualquer outra coisa, que permite a estruturação do psiquismo da criança. Na sua ausência, pode esperar-se o caos. É possível afirmar que os comportamentos delinquentes escondem uma “intensa desintegração psíquica”1). Perante a dificuldade em expressar as suas dificuldades emocionais, elas são agidas no mundo exterior. Pode dizer-se que, nestas crianças e jovens, a capacidade de mentalizar conflitos é muito frágil e estes muito mais facilmente manifestam-se, não pela palavra, mas pelo acto. E torna-se a violência a forma preferencial (ou mesmo a única possível) de comunicação, como um apelo gritante.
Nos bastidores deste cenário, detecta-se uma “falha básica”, um vazio interno (quase como um buraco) que pode existir na estrutura emocional do ser humano, quando as suas necessidades básicas não são preenchidas (um buraco tantas vezes preenchido em consumos de substâncias que produzem a sensação de plenitude e bem-estar que não podem nem sabem viver de outro modo). E procuramos mais fundo e possivelmente encontramos uma mãe emocionalmente frágil, que chega por vezes a ter de ser cuidada e maternalizada pelos seus filhos. Com certeza, mães com as suas próprias histórias e os seus respectivos fardos. Detecta-se ainda, frequentemente, a ausência de um pai e do que ele simboliza (o interdito, a figura de autoridade, a imposição de limites) para o desenvolvimento emocional da criança.
Estes “filhos de ninguém”1) contam-nos que na outra face da delinquência se encontra a depressão. Simplesmente, nem toda a depressão se manifesta da mesma forma, nem toda se age violentamente (e quando virada para fora torna-se mais incómoda para os outros, sem dúvida). Há os se fragilizam e há os que endurecem, mas em comum têm que lhes faltou algo essencial. Em comum têm também que muitos nem se importam de morrer (vivendo já numa morte psíquica, no fundo) e nem demonstram sequer capacidade de sonhar.
Como resposta, encontram no fim (porque demasiado tarde) uma punição (mais um castigo). Pode assim reparar-se esta falha e imaginar mudanças? Não, não pode. “Encarcerar não faz esquecer. Nunca cura. Tapa, remedeia”1). Uma terapia pelo amor (nas palavras de Teresa Ferreira a psicoterapia é uma cura de amor e por amor) seria muito mais eficaz.
1) Strecht, P. (2003). À margem do amor. Assírio e Alvim.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O caminho
- E agora, Siddhartha, o que és agora?
- Não sei, sei tão pouco como tu. Estou a caminho.
Herman Hesse (Siddhartha)
domingo, 29 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
A mentira do poder (I)
(...)
A principal mentira do poder é que o poder, em geral, serve para pouco: bazófias, espectáculo e corrupção.
Senão, vejamos:
A maioria das vezes, o poder é uma defesa; ou melhor, uma vicarância: substitui a falha ou falência de outros sistemas ou funções. Assim, o poder defende do medo, troca a insuficiência do ser pela aquisição do ter, engana a dor mental, é vicário da debilidade amorosa.
O poder é filho bastardo da obsessão; e a posse, do ciúme. E descendente legítimo da paranóia e da inveja.
A incompletude narcísica é a mãe “biológica” da megalomania; e adoptiva da ambição desmedida.
O narcisista puxa o brilho porque o cabedal não presta (...) A vicariância pelo poder é atributo da pusilanimidade – a alma pequena precisa de estacas que a sustentem e lanças para se proteger; é a “psicologia do ouriço”.
É que afinal o poder não dá força – força da alma, coragem; apenas estatuto – uma pseudo-força de empréstimo (...) "
António Coimbra de Matos (in O poder da mentira e a mentira do poder)
A mentira do poder (II)
Vicariância pelo poder: “Ninguém me ama mas domino todos”. Ter poder e dominar porque não se é desejado nem amado. Ser poderoso para iludir a ferida de ser, de facto, um Zé Ninguém. (Abunda nos ditadores de todas as espécies, feitios e graus). É o “poder da portinhola” – por onde sai a boca do canhão escondido.
Vicariância erótica: “Ninguém me ama mas todos me desejam”. Erotização das relações por incapacidade de amar; e/ou ser desejado, já que não é amado. É própria da personalidade histérica.
Vicariância narcísea: “Ninguém me ama mas todos me admiram”. Ser admirado uma vez que não consegue ser amado; e, complementarrmente, brilhar/exibir-se porque não sabe dar e amar. É típica da personalidade narcísica.
Todas elas usam como mecanismo central a compensação de uma energia em perda; são próteses – artificiais e artificiosas – que substituem, e mal, poderes naturais em falta. O poder que não seja a construção e a reparação de poderes ausentes ou perdidos é um artefacto da miséria da alma – uma mentira, um produto da perversão.
António Coimbra de Matos (in O poder da mentira e a mentira do poder)
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Pedrinha (Do fogo)
Não podemos despertar fogo em qualquer outro coração se o nosso próprio coração não estiver a arder.
Eleanor Doan
quarta-feira, 25 de maio de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
O toque (História de Harlow e os macaquinhos)
Somos seres relacionais. Como tal, o toque e o contacto físico são duas dimensões fundamentais para um desenvolvimento harmonioso.
Harry F. Harlow (1905-1981), psicólogo norte-americano, levou a cabo uma série de experiências com macacos Rhesus sobre a privação maternal e social. Nessas experiências, ficou demonstrada, entre outras coisas, a importância central do toque e do conforto no processo de desenvolvimento.
Foram criadas duas “mães” artificiais, uma feita unicamente com armação de arame e outra que, para além da estrutura em arame, estava envolvida num tecido felpudo e macio. Numa primeira fase, observando a escolha dos macacos, Harlow constatou que os macacos bebés preferiam claramente as “mães” mais macias. Mais, mesmo quando o alimento era fornecido apenas pela “mãe” de arame, mantinha-se a preferência pela “mãe” macia. Harlow concluiu que a variável contacto reconfortante suplementava a variável amamentação.
E, aparentemente, o que estava em causa ia ainda além da procura de conforto. Esse contacto acolhedor parecia ser essencial ao estabelecimento de uma relação que transmitisse segurança. Ou seja, durante outro bloco de experiências, na presença de um estímulo gerador de medo, os macaquinhos criados com a “mãe” macia agarravam-se a ela, em busca de protecção. Este comportamento nunca era observado junto das “mães” de arame (os macaquinhos criados com ela, privados do contacto e do conforto, não sentiam a mãe como “porto de abrigo”).
Foram estudadas não apenas as reacções momentâneas, mas também processo o desenvolvimento em ambos os grupos de macacos (criados pela mãe de arame vs. criados com a mãe felpuda). Neste sentido, perante uma situação com muitos estímulos novos (factores estranhos e desconhecidos dos pequenos macaquinhos) verificou-se que, na presença da “mãe” confortável, as reacções de medo dos macacos rapidamente davam lugar à exploração curiosa dos objectos (claro, com regressos periódicos à “mãe” para recuperar a segurança). Possuiam a segurança interna necessária para lhes ser possível explorar o mundo, um factor essencial para o desenvolvimento da autonomia (não só nos macacos!). Pelo contrário, na ausência de uma “mãe” confortável, os macaquinhos ficavam paralisados pelo medo e não exploravam o ambiente.
Por fim, naturalmente, Harlow observou ainda que os macacos com mães reais, demonstravam comportamentos evolutivos (sociais e sexuais) mais adiantados dos que os criados com mães substitutas de pano. Sim, nunca a pele poderá ser substituída pelo pano. E nos panos não se sente amor…!
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Pedrinha (Da nossa casa)
A casa não é bem um espaço. Nem um conjunto de recantos, de histórias ou de aconchegos. Nem sequer o nosso mundo. A nossa casa fica no coração que (sobre as suas divisões) nos guarda a melhor de todas as mansardas.
Eduardo Sá
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