Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Diálogos Existenciais
- Um psicólogo famoso disse, certa vez, que algumas pessoas têm tanto medo da dívida da morte que recusam o empréstimo da vida.
- E isso significa o quê? Fale claro!
- Significa que você parece ter tanto medo da morte que se recusa a entrar na vida. É como tivesse medo de gastar a sua vida.
Irving Yalom (Mamãe e o sentido da vida – Histórias de Psicoterapia)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Tormentos
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”
(Excerto retirado de uma carta escrita por Florbela Espanca a 10 de Julho de 1930 e enviada a Guido Battelli).
Obesidade
É um tema na ordem do dia e ainda propósito da Conferência Internacional de Obesidade Infantil, que decorreu em Oeiras entre 6 e 9 de Julho, entenda-se que a obesidade é uma doença que afecta os indivíduos fisicamente, psicologicamente e socialmente. Na sua origem estão diversos factores, tais como comportamento alimentar inadequado, doenças endocrinológicas, perturbações psiquiátricas, questões genéticas, ausência ou diminuição da actividade física, bem como factores emocionais.
Sabe-se, ainda, que a incidência da obesidade na infância tem vindo a aumentar em todo o mundo, aliás, “a nível nacional, 32,2% das crianças têm peso a mais e 14,6% enquadram-se já num quadro clínico de obesidade” (i, 06/07/2011). De relevar que, ao contrário do que muitas famílias pensam, a criança obesa não terá nenhuma facilidade em perder a gordura mais tarde. É por volta dos dois anos e meio que se define o número de células gordas do indivíduo. Assim, uma criança com excesso de peso possui maior número de células gordas do que uma criança com peso normal. Possuindo maior número de células gordas, o indivíduo terá mais dificuldade em ser um adulto magro.
A obesidade não é considerada uma perturbação do foro psiquiátrico, uma vez que está muito relacionada com causas orgânicas (distinguindo-se assim do grupo das Perturbações do Comportamento Alimentar). No entanto, encontra-se profundamente relacionada com factores emocionais, especialmente de natureza psicossomática (o corpo como veículo da mente). Quer no caso das perturbações do comportamento alimentar, quer da obesidade, estamos perante manifestações clínicas onde convergem, como principais factores emocionais subjacentes, a perspectiva psicossomática, os comportamentos aditivos (dependências) e, ainda, a depressão e a ansiedade.
A obesidade pode, em muitos casos, ser pensada como um sintoma. Um sintoma que consiste numa comunicação simbólica que esconde (mas ironicamente também revela) aspectos inconscientes de um conflito interno. A comida representa na maioria dos casos um fenómeno compensatório, profundamente inconsciente, muitas vezes utilizado como um recurso de contenção de um sofrimento, de uma angústia, de um vazio.
É muito importante poder compreender e desmontar esta doença, inclusivamente porque não podemos ignorar a circularidade que a envolve: há uma causa (explícita ou não) na origem da obesidade que, por sua vez, provoca ainda mais sofrimento, que potencia a perpetuação da obesidade. É igualmente importante não esquecer que a prevenção tem um papel fundamental. Felizmente, vivemos num concelho que faz, naquilo que sabe e pode, o seu papel, criando estruturas e iniciativas que incentivam e promovem o exercício físico e um estilo de vida saudável.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Bons, maus e assim-assim
A separação entre o Bem e o Mal remonta ao dia em que Adão e Eva comeram o fruto proibido. De forma semelhante, existe, desde sempre, uma tendência para dividir também as pessoas em duas categorias consequentes: os bons e os maus. Essa divisão perpetua-se de geração em geração, sendo apresentada aos mais pequenos também pelos contos infantis, confirmando-se depois em páginas de livros e enredos de filmes.
Na verdade, bom e mau co-existem dentro de cada um de nós. Tal como, mais especificamente, existem emoções e sentimentos diferentes como a raiva, o ódio, a inveja, o ciúme, a tristeza, a ternura, o amor ou a paixão, habitando como vizinhos de um mesmo prédio. Ninguém é completamente bom e ninguém é absolutamente mau. Somos bons e somos maus em situações diferentes ao longo da vida. Catalogar o mundo rigidamente em preto e branco é demasiado redutor. É bom aceitar que certas coisas, são, simplesmente, cinzentas, se quisermos ser realistas e, logo, mais ajustados.
Somos dinâmicos, não estáticos. Somos complexos. Negar que possuímos características boas e más é negar essa complexidade. Uma ferramenta chave para compreender e aceitar esta perspectiva é a tolerância. Para com os outros e para connosco próprios. Essa tolerância permite-nos viver e sentir mais pacificamente as relações humanas que nos envolvem e aceitar que temos direito a cometer erros, tal como todos os outros.
Efectivamente, a cultura judaico-cristã moldou-nos ao longo dos tempos segundo esta grande divisão entre o Bem e o Mal. Promovem-se os sentimentos/actos bons, deixando a culpabilidade a pairar em cima das cabeças (ou bem agarrada às costas) quando nos apercebemos que fizemos ou sentimos algo menos bom. Por outro lado, se quisermos justificar-nos com isso, essa mesma cultura católica também nos ensina o perdão e a tolerância, logo, dá-nos igualmente a chave para a questão. Talvez, mais do que um fundamento cultural ou religioso, seja sim uma forma de sossegar o espírito. No fundo, encontrar e atribuir rótulos é uma forma de serenar a dificuldade que temos em aceitar tudo o que é ambíguo, indefinido e instável. Sim, gostamos de fingir que sabemos as respostas a todas as perguntas.
Se pensarmos que o nosso único defeito é a teimosia (exemplo que se retira de inúmeras entrevistas que se encontram por aí) ou somos descaradamente mentirosos ou, mais grave que isso, nunca parámos para pensar sobre o que há de menos bom dentro de nós. Todos temos a nossa bagagem de vida, produto da nossa história. Gostemos ou não, essa bagagem faz de nós quem somos e, embora possamos sempre (e felizmente) transformarmo-nos e melhorarmos, para isso é preciso, primeiro, questionar-nos sobre nós próprios e reconhecer que temos falhas.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Pedrinha (Da falibilidade humana)
Ter humor, saber gozar com as suas próprias falhas, inferioridades e insucessos – assim como com as de quem amamos – é aceitar a dimensão finita das nossas competências e a falibilidade dos nossos conhecimentos e acções. Só os doidos se julgam omnipotentes; e os estúpidos, infalíveis.
António Coimbra de Matos
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O Beijo
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Pedrinha (Da aceitação/rejeição)
O conflito relacional básico é entre o desejo de ser aceite e o receio de ser rejeitado.
António Coimbra de Matos
V
Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
Pablo Neruda
sábado, 7 de janeiro de 2012
Histórias ao adormecer
À noite acontecem coisas estranhas. Somos, em algum momento da nossa vida, vulgarmente atacados por criaturas assustadoras, monstros e fantasmas, que não estão necessariamente debaixo da cama ou atrás do armário, mas sim bem dentro de nós (como diria Stephen King).
De onde vêm estes monstros, que têm especial preferência em “assustar” os mais pequenos? Há quem responsabilize os programas televisivos ou os videojogos mas, na verdade, o cerne da questão está na insegurança da criança, que fornece o terreno ideal para que se instalem. A criança internaliza os elementos mais assustadores da realidade, sejam bruxas, papões ou ladrões, e eles são sempre tão mais horrendos quanto maiores forem as suas angústias. Não é apenas desligando a TV que desaparecem, pois surgirão numa outra esquina qualquer da vida dos mais pequenos, nem que seja numa noite de trovoada. E ajuda muito um abraço apertado e um colo que aconchegue, côncavo, muito mais eficaz do que uma racionalização qualquer do género: “Os monstros não existem!”.
Muitas vezes, quando a criança não quer ir dormir, percebemos que aquilo que ela realmente teme é acordar na manhã seguinte e ter perdido alguma coisa. Não o cabelo, não os dentes, nem sequer perder um brinquedo. Simplesmente, medo de perder os pais. Não estamos a falar de processos conscientes mas sim inconscientes. Nenhuma criança tem capacidade de aceder ao seu inconsciente e descobrir por si própria o motivo que se esconde por detrás dos seus medos (nem os adultos, quanto mais as crianças…!).
Dormir é uma separação, equivalente a ir para a escola ou para a casa de um amigo. Dormir é estar fisicamente longe de quem amamos, o que só é simples e natural para crianças suficientemente confiantes no amor dos seus pais. Porque há tantas crianças a querer dormir bem juntinho à sua mãe? É necessário existir confiança no outro e no amor que o outro nutre por nós, para que a distância física não seja confundida com distância afectiva. Para que seja possível largar a mão da mãe sem medo e arriscar fechar os olhos, sabendo de antemão que quando os reabrirmos está tudo exactamente como dantes: no sítio.
Num mundo em que pais e filhos guardam pouco tempo para se mimar mutuamente, onde as crianças crescem cada vez mais entregues a si mesmas, e quando nasce a noite, no escuro e no silêncio do quarto, tem que haver alguma coisa que garanta que, apesar disso, não estamos, nem ficaremos, sós. Essa convicção tem que morar dentro de nós, sendo da responsabilidade dos pais fornecer satisfação e segurança suficiente à criança para que ela nunca se sinta só, nem nos momentos em que está efectivamente mais sozinha.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
"Meu" Filho!
Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de estar a agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.
José Saramago
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Pedrinha (De Sao Paulo aos Coríntios)
O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
São Paulo, I Coríntios, 13, 4-7.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Homem-Carne vs Homem-Espírito (ou "O Amor")
Vivemos no momento histórico em que se aproxima a integral instalação da Nova Era, tempo em que efetivamente haverá mudança radical na Terra, não somente climática ou geográfica, como tanto propalado; mas, principalmente, transformações de valores e visões espirituais. Como já desenvolvi em outros textos, a Nova Era está sendo implantada, mais acentuadamente a partir de 2004 e, a cada ano, com mais intensidade até o derradeiro ano de 2012, conforme tem sido informado por recentes mensagens canalizadas, coincidindo estas com previsões de antigos povos e com constatações científicas.
Toda a mudança energética que está sendo vivenciada pela Terra tem afetado intensamente todos os seres vivos. Tenho chamado esta influência energética de sintonização, que de uma forma concreta estamos sendo alvos, afetando e alterando o nosso código genético para nos tornar, efetivamente, seres espirituais. Isso tem modificado a nossa frequência, fato extremamente necessário para adequarmos aos novos padrões energéticos que estão sendo formados e acelerados a cada novo dia, intensificando-se até o ano de 2012, quando, então, tudo leva a crer, somente conseguirá viver na Terra quem vibrar energeticamente de forma compatível com o planeta.
Ao nascer de novo dia, uma nova Era desponta, renascendo a Terra, renascendo as pessoas, acordando os espíritos adormecidos na matéria-humana, ligando a Terra ao Céu, trazendo o Céu para a Terra. O sentimento verdadeiro para tudo que existe é o amor incondicional para o homem-espírito, novo habitante terreno.
Moacir Sader
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Cannabis e Cocaína
Em jeito de manual académico, sistematizemos algumas características das duas das substâncias mais consumidas em Portugal (segundo conclusões do Instituto da Droga e da Toxicodependência), a cannabis e a cocaína.
No que respeita à cannabis, como principais efeitos físicos associados ao consumo destaca-se o aumento da frequência cardíaca, congestão dos vasos conjuntivais (olhos vermelhos), dilatação dos brônquios, diminuição da pressão intra-ocular, foto-fobia e tosse. Como sintomas psíquicos verifica-se a euforia mas, além disso, relaxamento e sonolência. Os pensamentos fragmentam-se e podem surgir ideias paranóides. Há intensificação da consciência sensorial e maior sensibilidade aos estímulos externos. Há lentificação nas reacções e um défice na aptidão motora, bem como diminuição da memória imediata e da capacidade para a realização de tarefas que impliquem operações múltiplas. O seu potencial de dependência é diferente de outras drogas, contudo, provoca uma síndrome de abstinência leve (ansiedade, irritação, transpiração, tremores, dores musculares). O THC (componente activo) exacerba ainda a depressão e intensifica psicoses pré-existentes, estando também associado a problemas sociais e de relacionamento pessoal.
A cocaína, por sua vez, é uma substância associada à imagem de êxito social pois produz euforia, diminuição da fadiga e do sono, possível aumento do desejo sexual, redução do apetite, aumento da energia, maior auto-confiança (ou mesmo prepotência). Fisicamente, há tremores nas mãos, agitação, aumento da frequência cardíaca, aumento da tensão arterial, aumento da temperatura corporal e da sudação. À sensação de bem-estar inicial segue-se, geralmente, uma decaída caracterizada por cansaço, apatia, irritabilidade e comportamentos mais impulsivos. É a droga com maior potencial de dependência, provocando maior percentagem de adictos para um menor número de consumos. Chamam-lhe também a gulosa, pois devido à curta duração dos seus efeitos psicoactivos e ao rápido aparecimento de sintomas de abstinência, provoca um estilo de consumo compulsivo. É difícil falar em síndrome de abstinência com dores ou sintomas físicos (como na heroína), mas algumas alterações psicológicas são notáveis: hiper-sonolência, apatia, depressão, ideias suicidas, ansiedade, irritabilidade, intenso desejo de consumo. O mais grave no quadro de abstinência da cocaína é a enorme dificuldade em suportar a perda dessa euforia. É uma dependência psicológica que se reflecte numa ânsia compulsiva por sentir novamente o efeito (na língua inglesa encontramos a melhor expressão para este fenómeno, craving). Em qualquer um dos casos, na presença de situações de abuso destas substâncias (ou outras, note-se!), o mais importante será perceber o motivo que leva o indivíduo ao comportamento aditivo.
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Pedrinha (Das escolhas)
Todas as escolhas têm perda. Quem não estiver preparado para perder o irrelevante, não estará apto para conquistar o fundamental.
Augusto Cury
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
What if ?
“E se, algum dia ou alguma noite, um demónio fosse atrás de ti até a tua solidão mais solitária e dissesse: Esta vida, como agora a vives e tens vivido, vais ter de a viver mais uma e inúmeras vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, do mais pequenino pormenor aos momentos mais grandiosos, terão de regressar a ti na exacta mesma sucessão e sequência. E perante isto, o que sentiríamos? Seria uma maldição ou uma bênção?”
Irvin Yalomdomingo, 18 de dezembro de 2011
Os enigmas da psique
A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.
Carl G. Jung
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Quem (não) sai aos seus
Todos os pais têm sonhos para os seus filhos. Quando um bebé desejado começa a crescer na barriga da mãe, infinitos planos e projectos ganham forma na mente dos seus pais. Nasce um nome e, associado a esse nome, uma fantasia. Sonham que ele seja feliz, saudável, sonham que ele seja bem-sucedido e que constitua um dia uma família. Sonham, de certa maneira, que esse filho reúna em si aquilo que pensam ser o melhor deles próprios.
Fantasiar é bom e natural. Sonhar uma boa vida para um filho é sinal de amor. Sonhar que um filho se torne um adulto com valores adequados, orientando-o nesse sentido, também. A criança cresce, torna-se jovem e, por fim, adulto. Cresce enriquecida pelas suas ideias, crenças, gostos, opiniões e escolhas. Vai-se definindo, num processo dinâmico e intersubjectivo com o meio envolvente. E, naquilo que é tão seu, torna-se um ser único e insubstituível.
Acontece, contudo, que nem sempre os sonhos dos pais correspondem aos sonhos dos filhos. Seja no seu carácter, na sua personalidade ou nas suas variadíssimas opções de vida, nem sempre os filhos se tornam aquilo que os pais imaginaram um dia. E nem sempre os pais encaram com bons olhos a diferença. Alguns necessitam de um clone deles próprios como condição para seu amor, um filho que seja um prolongamento do que eles são ou que não conseguiram ser. Onde fica o espaço para o indivíduo se permitir a conhecer-se, avançar e retroceder, crescer, sem medo de perder o afecto dos outros?
Nem todos têm capacidade para avaliar que estão a viver não os seus sonhos mas os sonhos de outro alguém. Não raras vezes, este falso Self (um Eu postiço) manifesta-se apenas como um vazio imenso, sem nome, que habita dentro de nós, indivíduos. É algo que se instala muito precocemente e torna-se um padrão de funcionamento. Viver para agradar aos outros é um teatro, ou mais precisamente, uma prisão. É uma prisão depressígena, que nos deprime e nos engole por não permitir ser-se amado por aquilo que realmente se é. Viver com medo de desiludir (para desiludir é preciso que alguém esteja iludido) e consequentemente perder o amor dos outros significativos, é definhar dentro de um corpo sem existência própria.
No nosso quotidiano, dizer “sai à mãe” ou “sai ao pai” é a expressão mais genuína e evidente de que há uma tendência generalizada, quiçá de inscrição genética, para procurar desde cedo traços de semelhança com os progenitores. Apesar disso, o mais importante é permitir que a criança saia a ela própria. E, incondicionalmente (não é o amor dos pais o único amor verdadeiramente incondicional?) poder amar os filhos nas suas semelhanças e diferenças, respeitando a sua individualidade e o seu caminho.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Pedrinha (Das acções e concretizações)
Realmente, de que serviria sentir, pensar, e até amar se não agíssemos?
António Coimbra de Matos
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Pedrinha (Da televisão)
A violência na televisão não transforma uma criança saudável num menino mau. E não acho que sejamos sérios se ilibarmos os pais – cujas relações são (muitas vezes) um reality show interminável – (…)
A televisão estimula o conhecimento, e só faz mal se se tiverem com ela comportamentos obesos, ou se se transformar no antidepressivo ou no ansiolítico mais à mão. E faz ainda, mal quando se transfigura num afrodisíaco ou serve de substituto às dores de cabeça a que duas pessoas (que não se toleram) recorrem, sempre que se evitam uma à outra.
A televisão faz mal sempre que esperamos que esta seja a baby-sitter das crianças ou o animal de estimação dos pais (que se liga, logo que se chega a casa, para tornar mais suportável um silêncio que os convida a pensar). A televisão faz mal sempre que se fala nas horas que as crianças passam diante do televisor, enquanto os pais se empanturram com telenovelas. A televisão faz mal sempre que a cada pessoa de uma família, corresponde uma televisão e, em função disso, cada uma se barrica autisticamente no seu quarto, ou troca uma boa conversa, ao jantar, pela companhia de mais um programa de humor.
Eduardo Sá (in Tudo o que o amor não é)
sábado, 26 de novembro de 2011
O admirável ser humano
Não existe, no mundo vivo, espécie mais dependente dos outros do que a espécie humana. É na primeira infância, fase de dependência absoluta, que esta característica se afirma de forma mais evidente. O bebé e a mãe constituem uma unidade e, sem um cuidador, o bebé não sobrevive. Porque tem a nossa espécie esta particularidade, tão incontornável?
Primeiro, as justificações da Biologia: o bebé humano nasce com um desenvolvimento neuromotor muito inferior ao dos bebés de outras espécies animais. Exemplificando, para que um bebé humano nascesse com o mesmo nível de desenvolvimento de um primata, seria necessário mais um ano de gestação (o que corresponderia a uma gravidez de 21 meses). Assim, nascendo com um desenvolvimento “insuficiente”, entende-se que o bebé humano seja muito mais dependente dos cuidados maternos. Felizmente, a Natureza alinha os detalhes e constatamos que, normalmente, nasce apenas uma cria humana por cada gestação, e não uma ninhada de filhos, como acontece com outras espécies animais. No caso de nascimento de gémeos, sabem as mães melhor que ninguém quão complicado é cuidar de dois bebés em simultâneo.
Depois, para lá das questões neurológicas ou motoras, existe a complexidade singular da mente humana e do seu processo de desenvolvimento afectivo, relacional e social. O bebé humano precisa de cuidados muito particulares (e exigentes!) para o bom desenvolvimento da sua estrutura psíquica e das suas capacidades cognitivas, afectivas e sociais. Esta interacção única entre a mãe e o seu bebé tem alguns contornos muito funcionais (alimentação, higiene, saúde) mas também tem contornos relacionais (amor, afectividade, comunicação, brincadeira, empatia). Como resultado da soma de tudo isto, percebe-se que é a mãe quem promove as condições para que se desenvolvam as capacidades físicas e a confiança/segurança necessária para o bebé poder explorar o mundo e integrar as aprendizagens. Para passar da dependência à autonomia e à capacidade de criar relações saudáveis com os outros, deve haver respostas adequadas às solicitações do bebé.
O que se torna curioso realçar é que, afinal, antes do verbo, veio o amor. Nas teias desta nossa complexidade, tornámo-nos seres altamente sensíveis à comunicação não verbal, àquilo que não precisa ser dito para ser sentido. Usando essa capacidade, a mãe tem de “adivinhar” as necessidades do seu filho, sejam elas de ordem fisiológica ou psicológica. Com a mesma capacidade (não se subestime o pequeno ser), o bebé detecta muito facilmente qual o lugar que ocupa no mundo da mãe e, mais tarde, no mundo dos outros. Quando algo corre menos bem nesta fase, a estrutura e funcionamento psicológicos do indivíduo podem ficar, de alguma maneira, condicionados.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Pedrinha (Da capacidade de amar uma criança)
"De amor pelas crianças só são capazes aqueles que amam a criança que neles habita. Nem todos puderam ser crianças, alguns foram apenas objectos utilitários de alguém. Que o teu filho não seja um utensilio de compensação da tua frustração ou um adorno da tua vaidade. Não o tornes num autómato, não faças dele um objecto utilitário. Deixa que a espontaneidade das tuas experiências infantis renasça das trevas dos teus preceitos e preconceitos de adulto, para falares com o teu bebé uma linguagem de gestos e de olhares que ele entenda e que o ajude a descobrir o mundo das pessoas e das coisas. Fala com a tua sabedoria, mais do que com o teu saber."
João dos Santosterça-feira, 22 de novembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Transformações
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Luís de Camões
terça-feira, 15 de novembro de 2011
(Ainda) os sonhos de Jung
"O sonho recorrente é um fenómeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até à idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer.
Sonhei durante muitos anos com um mesmo motivo, no qual eu “descobria” uma parte da minha casa que até então me era desconhecida. Algumas vezes, apareciam os aposentos onde os meus pais, há muito falecidos, viviam e onde o meu pai, para grande surpresa minha, montara um laboratório de estudo de anatomia comparada dos peixes e onde a minha mãe dirigia um hotel para hóspedes fantasmas. Habitualmente, esta ala desconhecida surgia como um edifício histórico, há muito esquecido, mas de que eu era proprietário. Continha interessantes mobílias antigas e, lá para o fim desta série de sonhos, descobri também uma velha biblioteca, com livros que não conhecia.
Por fim, no último sonho, abri um dos livros e encontrei nele uma série de gravuras simbólicas maravilhosas. Quando acordei, o meu coração pulsava de emoção. Algum tempo antes de ter este último sonho, havia encomendado a um vendedor de livros antigos uma colecção clássica de alquimistas medievais. Encontrara, numa obra, uma citação que me parecia relacionada com a antiga alquimia bizantina e queria verificar este facto. Algumas semanas depois de ter tido o sonho com o livro que me era desconhecido, chegou um pacote do livreiro. Dentro, havia um volume em pergaminho, datado do século dezasseis. Era ilustrado com fascinantes gravuras simbólicas, que logo me lembraram as que vira no meu sonho.
Como a redescoberta dos princípios da alquimia se tornou parte importante do meu trabalho pioneiro na psicologia, o motivo do meu sonho recorrente é de fácil compreensão. A casa, certamente, era o símbolo da minha personalidade e do seu campo consciente de interesses; e a ala desconhecida da residência representava a antecipação de um novo campo de interesse e pesquisa de que, na época, a minha consciência não se apercebera. Desde aquele momento, há trinta anos, o sonho não se repetiu."
Carl Jung in O Homem e os seus símbolos
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Elogio da Criatividade
A criatividade é a capacidade de criar algo novo e original. É a matéria-prima da evolução, permitindo a produção do inovador, do diferente. Ainda se educa pouco para a criatividade, já que educar não é encher uma ânfora, mas alimentar uma chama viva, como disse o pedagogo Pestalozzi. É facilitar a aprendizagem e o desenvolvimento, ensinando cada um a pensar pela sua própria cabeça ao invés de formatar indivíduos apenas para repetir o que foi pensado por outros. Precisamos de espíritos críticos, não de ovelhas seguindo pastores. Pensar, questionar, duvidar, pesquisar, são acções criativas. O provérbio diz há muitos anos que da discussão nasce a luz e é por isso que temos um aparelho pensante (e não um gravador/leitor). Como diz António Coimbra de Matos, queremos formar pensadores em vez de “acumuladores de pensamentos”.
A criatividade aplica-se em tudo: no trabalho, nas relações humanas, no conhecimento que adquirimos. É, enfim, uma forma de estar na vida e um atributo de personalidade. No trabalho produz-se obra (preferencialmente acrescentando sempre uma nota criativa ao que fazemos). Uma relação saudável é, também, criação. É criação na medida em que nos desenvolvemos mais em relação com o outro do que nos desenvolvemos sozinhos: na relação com outras pessoas cria-se um espaço de desenvolvimento, resultante da partilha entre mentes, da transmissão de conhecimentos/vivências e do confronto de ideias. Funcionamos, na relação, como promotores da criatividade do outro. E, aqui, o expoente máximo da criatividade da relação é a criação do bebé, um ser único que chega ao mundo.
A criatividade implica, porém, liberdade. Liberdade de ser, de estar, de pensar e de sentir, perante os outros e perante nós próprios. Não há espaço para a criatividade quando estamos dominados por algo castrante (seja uma família, um chefe ou um governante). Há um sem número de indivíduos sufocados na sua capacidade criativa, muitas vezes desde o nascimento, em famílias ou em outros sistemas (profissionais, culturais, políticos) que não permitem que se questione uma única ideia ou princípio adquirido.
Em psicoterapia, não só se fomenta a capacidade de pensar (soltando amarras internas ou externas) como se potencia a criação de algo novo, um novo estar, um diferente sentir. Pretende-se a expansão da mente e o desbloqueamento de potencialidades aprisionadas, pois o ser humano tem um aparelho pensante sem igual. Somos autores da nossa vida e usemos logo aí a criatividade, para conduzi-la com inspiração e para com ela produzir algo único.
Referência útil: Coimbra de Matos, A. (2011). Relação de Qualidade: penso em ti. Climepsi.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Pedrinha (Da subjectividade da "culpa")
O sentir-se alguém "culpado" e "pecador", não prova que na realidade o seja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade o esteja.
sábado, 5 de novembro de 2011
Barcos atracados
Não só quem nos odeia ou nos inveja nos limita e oprime; quem nos ama não menos nos limita.
Fernando Pessoa
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Pedrinha (Da irritação)
Tudo o que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos.
Carl Jung
Carl Jung
Espelho, espelho meu
Sabemos que o primeiro espelho em que o ser humano se vê reflectido são os olhos dos seus pais ou cuidadores, no geral, os olhos da sua mãe, em particular. Aí, nesse encontro de amor incondicional, se constrói a base mais sólida e fundamental do desenvolvimento de um sentimento suficiente de si mesmo. Na ausência desse estado de deslumbramento precoce, quando há desencontros nesse olhar (tantos desencontros de tantas e variadas espécies), sem um "espelho" que devolva ao bebé quão belo, especial e único ele é neste mundo, não há espelho que um dia mais tarde lhe valha. Excepto, com sorte, um objecto de amor adulto ("espelho" secundário) que possa por fim devolver esse reflexo, nunca antes conhecido, de amor, de empatia, de encanto e entusiasmo.
Nas palavras de António Coimbra de Matos, o Homem é um animal narcísico, que se mira no espelho. Se foi objecto do olhar apaixonado do outro, objecto do seu amor e reconhecimento, tal e qual como é, organiza um narcisismo saudável, sabe quem é e o que vale e tem amor a si próprio. Deste modo, amado, aprende a amar-se e amar os outros. Se não viveu esse encanto e não teve a sorte de ser suficientemente amado por outro alguém, restam três saídas: o sentimento crónico de inferioridade, a compensação narcísica e a vaidade, ou o ataque ao narcisismo dos outros.
Assim, ou "assume" para si mesmo que não tem valor, lesado na sua auto-imagem (e auto-estima) ou, quando o sentimento de inferioridade é demasiado doloroso e insuportável, enfrenta esta falha narcísica básica com mecanismos de defesa e compensação (escondendo o que sente não só dos outros como de si mesmo). Evidencia-se, exibe-se, transborda vaidade, arrogância e megalomania. É uma prótese que engana os mais desatentos mas que não resolve a insuficiência crónica dentro de si. E por isso, invoca o olhar do outro, não só através de chamadas de atenção e da valorização sistemática de si próprio mas passando também muitas vezes ao ataque ao outro, de forma sarcástica ou perversa, desvalorizando e desdenhando o alheio. Desenvolveu-se um narcisimo patológico. E, seco de afectos, nega perante si mesmo a necessidade desse amor. Fá-lo (aprendeu a fazê-lo), tantas vezes, por uma questão de sobrevivência.
O mito de Narciso conta-nos a história de um jovem que, após uma paixão por uma ninfa que o ecoava a ele mesmo, tem como triste destino "apaixonar-se" pelo reflexo da sua própria imagem numa fonte, onde fica, durante dias e dias, a admirar-se (tentando amar-se, talvez), definhando sem água nem alimento, e aí morrendo, por fim, só. O "narcísico" está condenado a estar só (afectivamente só) pois não poderá amar ninguém enquanto não souber amar-se a si mesmo. Porque o amor é dádiva e é muito difícil dar quando nunca se chegou a receber. Sem nunca ter sido olhado, ávido de reconhecimento, não consegue ver ou reconhecer mais ninguém. Precisa, imensamente, de amor.
domingo, 30 de outubro de 2011
Pedrinha (Dos sentimentos inconscientes)
É difícil admitir a realidade de sentimentos inconscientes – o que se sente é, por definição, consciente.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Como dizia o poeta
Porque a vida só se dá pra quem se deu,
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.
Vinicius de Moraes
Depressão vs. Personalidade Depressiva
Tem sido falado que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais. Sabe-se que dois milhões de pessoas, na sua maioria mulheres, sofrem de depressão. Os dados fornecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que, em 2020, será esta a patologia que mais despesas acarretará para o Estado. Preocupante? Sim, porque os reais contornos da depressão ainda são significativamente desconhecidos e/ou desvalorizados pela generalidade dos portugueses.
Operacionalizando, sabemos que um indivíduo sofre de depressão quando verificamos alguns destes sintomas: presença de humor depressivo (ou perda de interesse em quase todas as actividades); alterações no peso ou apetite, sono e actividade psicomotora; diminuição da energia; dificuldades em pensar, concentrar-se ou tomar decisões; sentimentos de desvalorização pessoal ou culpa; ansiedade elevada e/ou sensação de pânico; pensamentos frequentes a respeito da morte ou ideação suicida. O afecto principal da patologia depressiva é a tristeza (embora nas crianças o humor possa ser irritável em vez de triste). Não esquecer a face psicossomática da depressão, ou seja, a presença de “dores” do corpo que tantas vezes não são mais do que o espelho das “dores” da alma.
Consoante os autores, vários modelos defendem a origem da depressão como mais dependente ora das estruturas psíquicas internas, ora da experiência. Contudo, todos apontam, com maior ou menor relevo, as inadequações do processo afectivo-relacional com os progenitores como o aspecto central na origem da patologia. As estruturas depressivas são sempre condicionadas por acontecimentos exteriores sentidos por nós com um carácter de insuficiência, ausência, vazio e, quase sempre, mais do que a forma como as coisas realmente se processaram, o que interessa é a maneira como as sentimos.
Quando se fala de estrutura depressiva (ou personalidade depressiva), queremos clarificar que são inúmeros os casos em que, independentemente de não se verificar um quadro depressivo propriamente dito (e impeditivo de uma vida funcional), os indivíduos apresentam uma personalidade com traços declaradamente depressivos, encontrando-se à espreita uma potencial depressão (com tudo o que tem direito). Pintada em escala de cinzentos, numa personalidade depressiva encontramos normalmente uma acentuada dependência de um objecto protector e satisfatório (que se prolonga pela vida fora em relações familiares, de amizade, conjugais, etc), uma baixa auto-estima e self diminuído, e uma culpabilidade interna que espreita, implacável e punitiva, invadindo o sujeito com a responsabilidade de “todos os males do mundo”.
Importa realçar que, quer haja uma depressão propriamente dita, incapacitante, quer haja unicamente uma personalidade de tons depressivos, a necessidade de um acompanhamento psicológico surge sempre na medida em que o indivíduo sinta que o seu funcionamento traz prejuízo ao seu bem-estar.
domingo, 23 de outubro de 2011
Pedrinha (Da chuva)
Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...
Francisco Bugalho, in "Paisagem"
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...
Francisco Bugalho, in "Paisagem"
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Pedrinha (Dos "sentimentos pensados")
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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