quinta-feira, 12 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O perfil da perversão


O que define uma perversão (ou parafilia)? Clinicamente, o que é um indivíduo perverso? Uma perversão pode ser entendida como uma perturbação crónica do comportamento sexual, em que a expressão de uma “pulsão perversa”, de natureza agressiva, é condição necessária para que o sujeito atinja a excitação sexual e o orgasmo. De outra forma, não sente qualquer prazer, pois o prazer não está ligado aos afectos, às relações humanas ou à intimidade. Podemos talvez dizer que, no mundo interno do sujeito, a sexualidade e a agressividade estão “confundidas”, estando essas experiências sexuais muito aquém daquilo que é verdadeiramente uma sexualidade adulta.

Uma das características básicas do perverso é a ausência de consideração pelo outro, este só serve ao perverso para descarga (sexual e agressiva). Esta instrumentalização/desumanização do outro implica não tomar em conta a sua vontade e o seu desejo; aliás, quanto mais o perverso desvia o outro das suas práticas habituais, mais gratificante se torna o acto. Assim, a sexualidade é um acto solitário, maioritariamente masturbatório, já que, incapaz de vivenciar a intimidade, não existe a ligação ao outro.

Verifica-se com frequência que, na história do perverso, entre mãe e criança o vínculo foi agressivo, e não de amor. Diz-se que a perversão é a patologia do ódio, porque o vínculo com o objecto primário é um vínculo de ódio. Para Stoller, a perversão é uma forma erótica de ódio, em que o meio utilizado para descarregar esse ódio é a humilhação e agressão do outro (representando esses comportamentos o ódio inconsciente ao objecto materno). Para além disto, há no perverso uma ferida narcísica (ou seja, inconscientemente, o sujeito não se ama a si mesmo, sentindo-se inferior) fundamental para a compreensão desta patologia. Tendo por base um vínculo de ódio, a relação básica entre mãe e filho falhou e este foi maciçamente desnarcisado – foi rejeitado/mal-amado. Essa desvalorização primária a que foi exposto faz com que o perverso, enquanto adulto, humilhe o outro, vingando-se pelo ataque como forma de reconstruir o seu próprio narcisismo.

Há várias manifestações de perversões, sendo as mais faladas, o sado-masoquismo, o exibicionismo, o fetichismo, o voyerismo e os abusos sexuais (incluindo a pedofilia). Contudo, qualquer comportamento sentido como um desvio sexual, poderá (ou não) ser uma perversão, dependendo da situação. Importa dizer que, para se estabelecer o conceito do que é um desvio, é preciso uma fundamentação a respeito da normalidade. O que distingue, na prática, uma sexualidade “normal” de uma sexualidade perturbada? Pergunta difícil, pois as considerações de normalidade e convencionalidade são afectas ao tempo e aos costumes. Contudo, sabemos que há limites intemporais à nossa expressão sexual, nomeadamente, o dever de respeitar a vontade e a liberdade do próximo.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Pedrinha (Do que mais se quer)

“And did you get what you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself beloved on the Earth.”

Raymond Carver (Collected Poems)

domingo, 25 de março de 2012

Sabedoria Centenária



Meus amigos do "Pasquim", outro dia, me perguntaram: "Oscar, e a vida?" Eu disse: "A vida é mulher do lado e seja o que Deus quiser".

Oscar Niemeyer (104 anos)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia de Poesia


Sossega, coração!
Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

Prisioneiros do Corpo


O conceito de motricidade diz respeito a um conjunto de mecanismos que nos permitem mover o corpo e os membros em relação aos objectos que nos rodeiam. É também o que permite manter uma postura, isto é, a atitude do corpo no espaço.

A motricidade é uma função absolutamente fundamental, sendo não só uma das mais claras evidências da vida, mas também a nossa principal forma de subsistência, devido à capacidade de interacção com o meio ambiente. É através do movimento dos corpos que podemos transformar pensamentos em acções e sonhos em realidade.

Existem três tipos de movimentos, os voluntários, os voluntários automáticos e os actos reflexos. Os movimentos voluntários são dependentes da vontade do organismo, implicam uma tomada de decisão. Os movimentos voluntários automáticos são de início e cessação voluntários mas o seu ritmo de base é automático como, por exemplo, no caso da locomoção e da escrita. Podemos decidir quando começar e parar de andar mas, enquanto andamos, o movimento é automático. Os movimentos reflexos têm um padrão rígido e automático, sendo também independentes da vontade, na medida em que o organismo não pode de modo algum decidir se o reflexo vai ou não acontecer.

Do mais simples ao mais complexo, dotam a espécie humana de capacidades invulgares e, quando “adoecem”, fazem-nos imensa falta. Estamos, lamentavelmente expostos, à possibilidade de sofrer lesões a nível motor (acidentes, AVC, doenças degenerativas) alterando e condicionando (consoante a gravidade das lesões) a nossa vida em vários aspectos: pessoais, relacionais, profissionais, familiares. Também o próprio processo de envelhecimento deteriora, em maior ou menor grau, as capacidades motoras do indivíduo. Perder capacidades ao nível motor implica muitas vezes a perda de competências, de autonomia, de auto-estima e de liberdade. Inevitavelmente, tudo isto implica grande sofrimento psicológico para o próprio, mas também para aqueles que se relacionam com ele.

Aliado às outras intervenções terapêuticas, o psicólogo assume aqui um papel extremamente importante, pois após a perda do controle dos movimentos, ficamos vulneráveis a crises de depressão e despersonalização. Estão presentes a nostalgia do passado, a tristeza do presente e o medo do futuro. O quotidiano muda, as expectativas mudam, os sonhos mudam (ou perde-se a capacidade de sonhar), e o psicólogo deve intervir tanto junto do próprio paciente como da família de modo a ajudar a minorar o sofrimento e o choque, bem como ajudar a perspectivar a situação e as mudanças que ela implica.

sábado, 17 de março de 2012

Experiências


"Ora e se eu agora me virar de cabeça para baixo o que é que acontece?
Olha que interessante, assim vejo as coisas de maneira diferente!
É muito curioso, este mundo…!"

Fazer, Burilar e Embalar

O amor não se diz; faz-se, burila-se e embala-se.
António Coimbra de Matos

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pedrinha (Da Novidade, Diferença ou Mudança)


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances. Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua. Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias. Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações. Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude. Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Edson Marques (E um pedido de desculpa por a autoria do poema ter sido atribuida a Clarice Lispector)

quinta-feira, 8 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Les couleurs du coeur

Estereótipos e Preconceitos


Os estereótipos são representações mentais de grupos sociais, ou seja, um estereótipo acontece quando atribuímos automaticamente certas características psicológicas gerais a grandes grupos humanos. Funcionam como uma espécie de correspondência imediata entre etiquetas psicológicas (ex: brancos, negros, homens, mulheres) e os indícios mais salientes dessas etiquetas.

Os estereótipos começaram por ser encarados como um escape para tendências agressivas ou como projecção das nossas fantasias indesejáveis nos outros, ou ainda como sintoma de certas personalidades ligadas ao racismo, ao autoritarismo ou à xenofobia. Depois, algo evoluiu na sua concepção. Desde então, Lippman é considerado o precursor da concepção contemporânea dos estereótipos e das suas funções psicossociais. Para ele, a origem dos estereótipos prende-se com a necessidade do ser humano em categorizar (e com uma tendência para a simplificação). Na prática, estas estruturas cognitivas não só categorizam, como influenciam o nosso processamento de informação, a percepção social e os comportamentos interpessoais (entre indivíduos) e intergrupais (entre grupos). São-nos transmitidos pelos agentes de socialização (pais, escola, comunicação social), o que explica o consenso relativamente a um dado estereótipo dentro de uma mesma sociedade.

Embora os estereótipos sejam naturais e instintivos, eles constituem os aspectos cognitivos que estão na base da atitude preconceituosa. O preconceito vai “mais além” que o estereótipo. Um preconceito refere-se fundamentalmente a um pré-juízo (ou pré-conceito) elaborado por nós antes de ser recolhida informação relevante, ou seja, é baseado em evidências inadequadas ou mesmo imaginárias. Ele surge quando os estereótipos se associam a um sentimento, positivo ou negativo, condicionando muitas vezes a atitude do sujeito e levando-o a adoptar uma posição a favor, ou contra, sem qualquer evidência factual. Assim, pode dizer-se que o preconceito acaba por tornar uma categorização natural do mundo físico num rótulo de significado afectivo desadequado, uma mera generalização.

Como disse Einstein, é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Sabemos que, inevitavelmente, o Homem gosta de tentar simplificar o que é complexo. Aplicar “rótulos” é uma forma de o fazer. Felizmente, os estereótipos não são impermeáveis às mudanças sociais e, aos longos dos tempos, a alteração de alguns estereótipos (e o fim de alguma ignorância) tem acabado com certos preconceitos (em relação à diferença de sexos, de raças, entre outras questões). Einstein disse, com razão, que era difícil, mas não impossível…!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Águas de Março



Pedrinha (De Freud, o "abre-caminhos")

Permitindo-se levar a sério e compreender cada palavra, cada fantasia, cada mentira (verdade esquecida, para o poeta Mario Quintana), Freud estava dando um recado para o século: é necessário ouvir as crianças. Assim, abria um campo enorme que continua sendo aberto. Cem anos depois, começamos a ouvir melhor em algumas casas, escolas ou consultórios.
 
Celso Gutfreind in O Pequeno Hans discutido e sentido entre o passado e presente (Revista Brasileira de Psicanálise)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Pedrinha (Da sabedoria)

A dúvida é o começo da sabedoria.

Descartes

A rígida existência dos Asperger


Fala-se da Síndrome de Asperger, uma perturbação do espectro do autismo que, ao contrário deste, permite que o indivíduo, apesar das dificuldades, seja minimamente funcional em sociedade. Foi Hans Asperger, físico austríaco, quem primeiramente descreveu esta síndrome, em 1944.

Esta perturbação, cuja grande limitação é a dificuldade relacional do indivíduo com os outros que o rodeiam, é normalmente diagnosticada durante a infância ou pré-adolescência (consoante o meio envolvente estiver mais ou menos atento ao desenvolvimento da criança). Os Asperger isolam-se frequentemente, embora estejam plenamente conscientes da existência do(s) outro(s) e do mundo externo e até desejem fazer amigos e conhecer pessoas. Contudo, quando interagem com alguém, a sua abordagem é estranha ou mesmo desadequada, insensível ao sentir do outro e ao impacto dos seus comportamentos (expressões faciais de aborrecimento, pressa, evitamento do olhar ou, por oposição, olhar fixamente). Há ainda uma incapacidade de compreensão da ironia, de metáforas ou outras formas de comunicação mais abstractas e simbólicas, o que origina mal-entendidos e a retirada das relações. Há ainda uma dificuldade a nível dos contactos físicos. No fundo, sofrem de uma enorme dificuldade em compreender e viver as relações humanas, com a intersubjectividade que lhe é inerente e as suas complexas regras de interacção e convívio social.

Uma outra característica muito comum desta perturbação é a presença de interesses excêntricos (às vezes coleccionam obsessivamente coisas invulgares). Vão perguntando e falando insistentemente sobre esses seus interesses, numa espécie de monólogo ou dissertação, sem aparentemente questionar se o seu interlocutor está ou não interessado e sem reconhecer nos outros alguns sinais primários de enfado ou desinteresse (de novo, a incapacidade de “ler” os outros). Existe uma grande rigidez do pensamento, pouco plástico, bem como uma forte intolerância para com as falhas dos outros e também para com as suas próprias. Curiosamente, há também uma rigidez corporal (são crianças e adultos fisicamente desajeitados, de andar duro e pouco gracioso). Rigidez, também, ao nível da capacidade de adaptação às mudanças. Estas crianças e adultos necessitam de rotinas e reagem sempre mal perante alterações súbitas.

Ao nível das capacidades cognitivas, estas crianças situam-se a um nível de inteligência média ou acima da média (especialmente no campo verbal) mas falham nas capacidades de compreensão e abstracção. Tendem a ser muito concretos. Assim, também a memória é frequentemente excelente, mas de natureza mecânica, sendo que as suas habilidades de solução de problemas são fracas. Fica-nos a imagem de um funcionamento robotizado, sem dinâmica ou pulsão de vida, numa alma algures impedida da sua possibilidade de brincar, de imaginar, de experimentar, de pensar e de sentir.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Diálogos Existenciais


- Um psicólogo famoso disse, certa vez, que algumas pessoas têm tanto medo da dívida da morte que recusam o empréstimo da vida.
- E isso significa o quê? Fale claro!
- Significa que você parece ter tanto medo da morte que se recusa a entrar na vida. É como tivesse medo de gastar a sua vida.

Irving Yalom (Mamãe e o sentido da vida – Histórias de Psicoterapia)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tormentos

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”

(Excerto retirado de uma carta escrita por Florbela Espanca a 10 de Julho de 1930 e enviada a Guido Battelli).

Obesidade


É um tema na ordem do dia e ainda propósito da Conferência Internacional de Obesidade Infantil, que decorreu em Oeiras entre 6 e 9 de Julho, entenda-se que a obesidade é uma doença que afecta os indivíduos fisicamente, psicologicamente e socialmente. Na sua origem estão diversos factores, tais como comportamento alimentar inadequado, doenças endocrinológicas, perturbações psiquiátricas, questões genéticas, ausência ou diminuição da actividade física, bem como factores emocionais.

Sabe-se, ainda, que a incidência da obesidade na infância tem vindo a aumentar em todo o mundo, aliás, “a nível nacional, 32,2% das crianças têm peso a mais e 14,6% enquadram-se já num quadro clínico de obesidade” (i, 06/07/2011). De relevar que, ao contrário do que muitas famílias pensam, a criança obesa não terá nenhuma facilidade em perder a gordura mais tarde. É por volta dos dois anos e meio que se define o número de células gordas do indivíduo. Assim, uma criança com excesso de peso possui maior número de células gordas do que uma criança com peso normal. Possuindo maior número de células gordas, o indivíduo terá mais dificuldade em ser um adulto magro.

A obesidade não é considerada uma perturbação do foro psiquiátrico, uma vez que está muito relacionada com causas orgânicas (distinguindo-se assim do grupo das Perturbações do Comportamento Alimentar). No entanto, encontra-se profundamente relacionada com factores emocionais, especialmente de natureza psicossomática (o corpo como veículo da mente). Quer no caso das perturbações do comportamento alimentar, quer da obesidade, estamos perante manifestações clínicas onde convergem, como principais factores emocionais subjacentes, a perspectiva psicossomática, os comportamentos aditivos (dependências) e, ainda, a depressão e a ansiedade.

A obesidade pode, em muitos casos, ser pensada como um sintoma. Um sintoma que consiste numa comunicação simbólica que esconde (mas ironicamente também revela) aspectos inconscientes de um conflito interno. A comida representa na maioria dos casos um fenómeno compensatório, profundamente inconsciente, muitas vezes utilizado como um recurso de contenção de um sofrimento, de uma angústia, de um vazio.

É muito importante poder compreender e desmontar esta doença, inclusivamente porque não podemos ignorar a circularidade que a envolve: há uma causa (explícita ou não) na origem da obesidade que, por sua vez, provoca ainda mais sofrimento, que potencia a perpetuação da obesidade. É igualmente importante não esquecer que a prevenção tem um papel fundamental. Felizmente, vivemos num concelho que faz, naquilo que sabe e pode, o seu papel, criando estruturas e iniciativas que incentivam e promovem o exercício físico e um estilo de vida saudável.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bons, maus e assim-assim


A separação entre o Bem e o Mal remonta ao dia em que Adão e Eva comeram o fruto proibido. De forma semelhante, existe, desde sempre, uma tendência para dividir também as pessoas em duas categorias consequentes: os bons e os maus. Essa divisão perpetua-se de geração em geração, sendo apresentada aos mais pequenos também pelos contos infantis, confirmando-se depois em páginas de livros e enredos de filmes.

Na verdade, bom e mau co-existem dentro de cada um de nós. Tal como, mais especificamente, existem emoções e sentimentos diferentes como a raiva, o ódio, a inveja, o ciúme, a tristeza, a ternura, o amor ou a paixão, habitando como vizinhos de um mesmo prédio. Ninguém é completamente bom e ninguém é absolutamente mau. Somos bons e somos maus em situações diferentes ao longo da vida. Catalogar o mundo rigidamente em preto e branco é demasiado redutor. É bom aceitar que certas coisas, são, simplesmente, cinzentas, se quisermos ser realistas e, logo, mais ajustados.

Somos dinâmicos, não estáticos. Somos complexos. Negar que possuímos características boas e más é negar essa complexidade. Uma ferramenta chave para compreender e aceitar esta perspectiva é a tolerância. Para com os outros e para connosco próprios. Essa tolerância permite-nos viver e sentir mais pacificamente as relações humanas que nos envolvem e aceitar que temos direito a cometer erros, tal como todos os outros.

Efectivamente, a cultura judaico-cristã moldou-nos ao longo dos tempos segundo esta grande divisão entre o Bem e o Mal. Promovem-se os sentimentos/actos bons, deixando a culpabilidade a pairar em cima das cabeças (ou bem agarrada às costas) quando nos apercebemos que fizemos ou sentimos algo menos bom. Por outro lado, se quisermos justificar-nos com isso, essa mesma cultura católica também nos ensina o perdão e a tolerância, logo, dá-nos igualmente a chave para a questão. Talvez, mais do que um fundamento cultural ou religioso, seja sim uma forma de sossegar o espírito. No fundo, encontrar e atribuir rótulos é uma forma de serenar a dificuldade que temos em aceitar tudo o que é ambíguo, indefinido e instável. Sim, gostamos de fingir que sabemos as respostas a todas as perguntas.

Se pensarmos que o nosso único defeito é a teimosia (exemplo que se retira de inúmeras entrevistas que se encontram por aí) ou somos descaradamente mentirosos ou, mais grave que isso, nunca parámos para pensar sobre o que há de menos bom dentro de nós. Todos temos a nossa bagagem de vida, produto da nossa história. Gostemos ou não, essa bagagem faz de nós quem somos e, embora possamos sempre (e felizmente) transformarmo-nos e melhorarmos, para isso é preciso, primeiro, questionar-nos sobre nós próprios e reconhecer que temos falhas.

Young heart run free

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Pedrinha (Da falibilidade humana)

Ter humor, saber gozar com as suas próprias falhas, inferioridades e insucessos – assim como com as de quem amamos – é aceitar a dimensão finita das nossas competências e a falibilidade dos nossos conhecimentos e acções. Só os doidos se julgam omnipotentes; e os estúpidos, infalíveis.

António Coimbra de Matos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Beijo

O Beijo - Klimt

“A sedução é um percurso para a vida e há que saber encantar a dois” (Catarina Rivero, para quem um "beijo" à beira de um "precipício" simboliza a força de uma relação)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pedrinha (Da aceitação/rejeição)

O conflito relacional básico é entre o desejo de ser aceite e o receio de ser rejeitado.

António Coimbra de Matos

V



Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

sábado, 7 de janeiro de 2012

Histórias ao adormecer


À noite acontecem coisas estranhas. Somos, em algum momento da nossa vida, vulgarmente atacados por criaturas assustadoras, monstros e fantasmas, que não estão necessariamente debaixo da cama ou atrás do armário, mas sim bem dentro de nós (como diria Stephen King).

De onde vêm estes monstros, que têm especial preferência em “assustar” os mais pequenos? Há quem responsabilize os programas televisivos ou os videojogos mas, na verdade, o cerne da questão está na insegurança da criança, que fornece o terreno ideal para que se instalem. A criança internaliza os elementos mais assustadores da realidade, sejam bruxas, papões ou ladrões, e eles são sempre tão mais horrendos quanto maiores forem as suas angústias. Não é apenas desligando a TV que desaparecem, pois surgirão numa outra esquina qualquer da vida dos mais pequenos, nem que seja numa noite de trovoada. E ajuda muito um abraço apertado e um colo que aconchegue, côncavo, muito mais eficaz do que uma racionalização qualquer do género: “Os monstros não existem!”.

Muitas vezes, quando a criança não quer ir dormir, percebemos que aquilo que ela realmente teme é acordar na manhã seguinte e ter perdido alguma coisa. Não o cabelo, não os dentes, nem sequer perder um brinquedo. Simplesmente, medo de perder os pais. Não estamos a falar de processos conscientes mas sim inconscientes. Nenhuma criança tem capacidade de aceder ao seu inconsciente e descobrir por si própria o motivo que se esconde por detrás dos seus medos (nem os adultos, quanto mais as crianças…!).

Dormir é uma separação, equivalente a ir para a escola ou para a casa de um amigo. Dormir é estar fisicamente longe de quem amamos, o que só é simples e natural para crianças suficientemente confiantes no amor dos seus pais. Porque há tantas crianças a querer dormir bem juntinho à sua mãe? É necessário existir confiança no outro e no amor que o outro nutre por nós, para que a distância física não seja confundida com distância afectiva. Para que seja possível largar a mão da mãe sem medo e arriscar fechar os olhos, sabendo de antemão que quando os reabrirmos está tudo exactamente como dantes: no sítio.

Num mundo em que pais e filhos guardam pouco tempo para se mimar mutuamente, onde as crianças crescem cada vez mais entregues a si mesmas, e quando nasce a noite, no escuro e no silêncio do quarto, tem que haver alguma coisa que garanta que, apesar disso, não estamos, nem ficaremos, sós. Essa convicção tem que morar dentro de nós, sendo da responsabilidade dos pais fornecer satisfação e segurança suficiente à criança para que ela nunca se sinta só, nem nos momentos em que está efectivamente mais sozinha.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Estar

"Meu" Filho!



 Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de estar a agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.

José Saramago

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Pedrinha (De Sao Paulo aos Coríntios)



O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

São Paulo, I Coríntios, 13, 4-7.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Coisas Boas

Homem-Carne vs Homem-Espírito (ou "O Amor")


Vivemos no momento histórico em que se aproxima a integral instalação da Nova Era, tempo em que efetivamente haverá mudança radical na Terra, não somente climática ou geográfica, como tanto propalado; mas, principalmente, transformações de valores e visões espirituais. Como já desenvolvi em outros textos, a Nova Era está sendo implantada, mais acentuadamente a partir de 2004 e, a cada ano, com mais intensidade até o derradeiro ano de 2012, conforme tem sido informado por recentes mensagens canalizadas, coincidindo estas com previsões de antigos povos e com constatações científicas.

Toda a mudança energética que está sendo vivenciada pela Terra tem afetado intensamente todos os seres vivos. Tenho chamado esta influência energética de sintonização, que de uma forma concreta estamos sendo alvos, afetando e alterando o nosso código genético para nos tornar, efetivamente, seres espirituais. Isso tem modificado a nossa frequência, fato extremamente necessário para adequarmos aos novos padrões energéticos que estão sendo formados e acelerados a cada novo dia, intensificando-se até o ano de 2012, quando, então, tudo leva a crer, somente conseguirá viver na Terra quem vibrar energeticamente de forma compatível com o planeta.

Ao nascer de novo dia, uma nova Era desponta, renascendo a Terra, renascendo as pessoas, acordando os espíritos adormecidos na matéria-humana, ligando a Terra ao Céu, trazendo o Céu para a Terra. O sentimento verdadeiro para tudo que existe é o amor incondicional para o homem-espírito, novo habitante terreno.

Moacir Sader

Feliz Ano Novo

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Coisas Boas

Henri Matisse - Flowers

Cannabis e Cocaína


Em jeito de manual académico, sistematizemos algumas características das duas das substâncias mais consumidas em Portugal (segundo conclusões do Instituto da Droga e da Toxicodependência), a cannabis e a cocaína.

No que respeita à cannabis, como principais efeitos físicos associados ao consumo destaca-se o aumento da frequência cardíaca, congestão dos vasos conjuntivais (olhos vermelhos), dilatação dos brônquios, diminuição da pressão intra-ocular, foto-fobia e tosse. Como sintomas psíquicos verifica-se a euforia mas, além disso, relaxamento e sonolência. Os pensamentos fragmentam-se e podem surgir ideias paranóides. Há intensificação da consciência sensorial e maior sensibilidade aos estímulos externos. Há lentificação nas reacções e um défice na aptidão motora, bem como diminuição da memória imediata e da capacidade para a realização de tarefas que impliquem operações múltiplas. O seu potencial de dependência é diferente de outras drogas, contudo, provoca uma síndrome de abstinência leve (ansiedade, irritação, transpiração, tremores, dores musculares). O THC (componente activo) exacerba ainda a depressão e intensifica psicoses pré-existentes, estando também associado a problemas sociais e de relacionamento pessoal.

A cocaína, por sua vez, é uma substância associada à imagem de êxito social pois produz euforia, diminuição da fadiga e do sono, possível aumento do desejo sexual, redução do apetite, aumento da energia, maior auto-confiança (ou mesmo prepotência). Fisicamente, há tremores nas mãos, agitação, aumento da frequência cardíaca, aumento da tensão arterial, aumento da temperatura corporal e da sudação. À sensação de bem-estar inicial segue-se, geralmente, uma decaída caracterizada por cansaço, apatia, irritabilidade e comportamentos mais impulsivos. É a droga com maior potencial de dependência, provocando maior percentagem de adictos para um menor número de consumos. Chamam-lhe também a gulosa, pois devido à curta duração dos seus efeitos psicoactivos e ao rápido aparecimento de sintomas de abstinência, provoca um estilo de consumo compulsivo. É difícil falar em síndrome de abstinência com dores ou sintomas físicos (como na heroína), mas algumas alterações psicológicas são notáveis: hiper-sonolência, apatia, depressão, ideias suicidas, ansiedade, irritabilidade, intenso desejo de consumo. O mais grave no quadro de abstinência da cocaína é a enorme dificuldade em suportar a perda dessa euforia. É uma dependência psicológica que se reflecte numa ânsia compulsiva por sentir novamente o efeito (na língua inglesa encontramos a melhor expressão para este fenómeno, craving). Em qualquer um dos casos, na presença de situações de abuso destas substâncias (ou outras, note-se!), o mais importante será perceber o motivo que leva o indivíduo ao comportamento aditivo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pedrinha (Das escolhas)


Todas as escolhas têm perda. Quem não estiver preparado para perder o irrelevante, não estará apto para conquistar o fundamental.

Augusto Cury

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

What if ?


“E se, algum dia ou alguma noite, um demónio fosse atrás de ti até a tua solidão mais solitária e dissesse: Esta vida, como agora a vives e tens vivido, vais ter de a viver mais uma e inúmeras vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, do mais pequenino pormenor aos momentos mais grandiosos, terão de regressar a ti na exacta mesma sucessão e sequência. E perante isto, o que sentiríamos? Seria uma maldição ou uma bênção?”
Irvin Yalom

domingo, 18 de dezembro de 2011

Os enigmas da psique


A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.

Carl G. Jung