Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
domingo, 7 de outubro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Pedrinha (Das Entrelinhas)
Mas já que se há-de escrever, que ao
menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Educar a Escola
O
Homo Sapiens Sapiens é, precisamente,
não só aquele que sabe, mas, aquele que sabe
que sabe, e tendo consciência do seu saber, quer saber cada vez mais e
melhor. Por isso, a educação e a transmissão dos conhecimentos preocupam a
nossa espécie há milhares de anos.
Desde
a época de Sócrates, o filósofo, que a educação tem vindo a ser objecto de
interesse de estudiosos e curiosos. A primeira pedagogia, aplicada pelos
jesuítas, foi designada “método tradicional”. Era um método estruturado e
rigoroso, centrado no saber. Neste modelo educativo, quem detinha o conhecimento
era o mestre (o professor) e o aluno era encarado como aquele cuja função era (exclusivamente)
receber todo o conhecimento que o professor lhe transmitia. Assentava no
formalismo, na memorização e na autoridade, e os métodos de ensino
restringiam-se à exposição (da matéria) e à interrogação (questões sobre a
matéria, a “chamada”). Na sala de aula, o estrado acentuava a distância física e
afectiva entre professor e aluno, e as janelas eram colocadas acima do nível
dos olhos dos alunos, para não haver contacto com o exterior. E, durante muito
tempo, vigorou este acto educativo, fechado em si próprio.
Perante
o avanço do conhecimento acerca do desenvolvimento infantil (e do ser humano,
em geral), a pedagogia tradicional tornou-se desajustada e foram sendo gradualmente
introduzidas alterações no ensino, tanto estruturais como pedagógicas. Fundamentalmente,
o professor e o seu saber deixaram de ser o centro do processo educativo. Simbolicamente,
o estrado deixou de existir e as janelas foram abertas para o mundo exterior, permitindo
um grande enriquecimento humano pelas novas formas de interacção que então se
estabeleceram: mais diálogo entre aluno e professor, mais familiaridade entre
alunos, mais partilha entre todos. Cá fora, ao ar livre, os alunos passaram a
realizar actividades, visitas de estudo ou ginástica. Através da pesquisa, e de
uma forma autónoma, o aluno é agente e constrói também o seu conhecimento,
privilegiando sempre a actividade lúdica e o uso dos materiais didácticos.
Acrescenta-se a dimensão da liberdade e da disciplina desenvolvidas em conjunto,
como controlo e resultado uma da outra.
Já
percebemos que “educar não é domesticar”, como diz Eduardo Sá. Mas precisamos ainda
de um ensino que ouça todas as vozes, que fomente a criatividade e o pensamento
divergente, que legitime o direito à diferença e estimule a individualidade de
cada um, sem esquecer, evidentemente, a importância do todo em que nos
inserimos. E falta-nos, em grande parte, interiorizar que a escola não pode
resolver questões, outras, que ultrapassam o ensino. Quando as coisas não estão
bem na vida da criança, ela não consegue beneficiar do que a escola tem para
oferecer. A cabeça não pode funcionar na sala de aula quando o coração ficou em
casa. E os professores, sozinhos, não sabem nem podem resolver problemáticas
que os ultrapassam.
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O Brincar (Terapêutico e Desenvolutivo)
A
criança, portanto, ao criar uma distância através das personificações,
representa e maneja fantasmas que de outro modo seriam intoleráveis, domina
angústias e antecipa projectos, dá sentido e organiza o próprio mundo interior,
metaboliza e ordena os estímulos que lhe chegam do mundo exterior (e interior),
aprende a dominar fantasias e impulsos.
Antonino Ferro
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Pedrinha (Das infâncias sólidas)
“A
saúde mental constrói-se na infância. Os factores posteriores são menos
importantes. Uma criança teve perdas de afectos na infância, fez uma depressão
infantil que pode ter passado despercebida, estará mais fragilizada na idade
adulta e poderá deprimir facilmente. Se teve uma infância sólida aguentará bem
as perdas afectivas.”
António Coimbra de Matos
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Marylin, O Mais Belo Fantasma do Mundo
"Ninguém podia adivinhar que
se tratava de um fantasma. Ela era demasiado bonita para isso, demasiado doce, resplandecente.
Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, um tecido, uma sombra
inquietante. Ela, ela encantava-nos. Devíamos ter desconfiado. Que poder tinha
ela para nos fascinar tanto, para nos impressionar e nos levar à nossa maior
felicidade? Deixamo-nos cair na armadilha a ponto de não compreendermos que já estava
morta havia muito tempo.
Na verdade, Marylin Monroe
não estava completamente morta, estava apenas um pouco, às vezes um pouco mais.
O seu charme, ao fazer nascer em nós um sentimento delicioso, impedia-nos de
compreender que não é necessário estar morto para não viver. Começara a não estar
viva desde que nascera. A sua mãe, desumanamente infeliz, expulsa da humanidade
por ter trazido ao mundo uma filha ilegítima, estava estupidificada de
infelicidade. Um bebé não se pode desenvolver de outra forma que não seja no
meio das leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, mesmo
antes de nascer, encontrava-se fora da lei. A melancolia que sentia preenchia
de tal forma o seu mundo que a mãe não teve força para lhe oferecer uns braços
tranquilizadores. Foi necessário colocar a futura Marylin em orfanatos gelados
e confiá-la a uma série de famílias de acolhimento entre as quais era difícil
aprender a amar.
As crianças sem família não têm
tanto valor como as outras. O facto de serem exploradas sexual ou socialmente não
pode ser considerado um crime grave, uma vez que estes pequenos seres
abandonados não são totalmente crianças verdadeiras. Algumas pessoas pensam
assim. Para sobreviver apesar das agressões, a pequena Marylin teve de começar
a “imaginar”, a alimentar-se da própria dor, antes de se afundar na melancolia
e na loucura da sua mãe. Então, declarou que Clark Gable era o seu verdadeiro pai,
e que pertencia a uma família real. Não tinha outra alternativa! Desta forma construía
uma identidade vaga, já que, sem sonhos loucos, teria sido forçada a viver num
mundo de lama. Quando a realidade morre, o delírio dá origem a uma maré de
felicidade. Assim, casou-se com um campeão de basebol para quem cozinhava todas
as noites cenouras e ervilhas , cujas cores tanto lhe agradavam.
Em Manhattan, onde tirou
cursos de teatro, passou a ser a aluna preferida de Lee Strasberg, que era
fascinado pelo seu estranho encanto. Já tinha estado morta muitas vezes. Era
necessário estimulá-la bastante para que não se deixasse levar para o mundo dos
mortos. Ela hibernava, não saia da cama e já não se lavava. Quando acordava com
um beijo, de Arthur Miller, por quem se tornou judia, de John Kennedy ou de
Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e afectuosa, e nenhum deles se
apercebia de que tinha sido encantado por um fantasma. No entanto, ela dizia-o
quando cantava I’m Through With Love. Estando
já afastada do mundo dos mortais, refulgente em plena glória, sabia que só lhe
restavam três anos de vida antes de oferecer a si própria um último presente: a
morte.
Marylin nunca esteve
completamente viva, mas nós não o podíamos saber, pois o seu fantasma era tão
maravilhoso que nos enfeitiçava."
Boris
Cyrulnik in O Murmúrio dos Fantasmas
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Poesia
É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro
entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.
Fernando Pessoa
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terça-feira, 11 de setembro de 2012
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Pedrinha (Dos medos paralisantes)
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012
A função paterna
No princípio são três, mãe, pai e filho. O acto de conceber
um filho é da responsabilidade de dois indivíduos e parece que há uma boa razão
para que assim seja, fundamentalmente na espécie humana, a mais complexa de
todas. Embora hoje muitas crianças cresçam na realidade da monoparentalidade, a
investigação psicológica tem demonstrado, de há algumas décadas para cá, a
necessidade absoluta e presença insubstituível da figura paterna.
Como se sabe, o nosso equilíbrio emocional e bem-estar psicológico
estão completamente relacionados com a qualidade da relação primária, nome
atribuído à relação entre mãe e filho, que começa logo durante a gravidez. É
esta ligação primordial que nos dá as ferramentas internas para descobrirmos
quem somos e conduzirmos a nossa vida com entusiasmo, segurança e responsabilidade.
É nessa relação que ganhamos (ou não) o embalo para acreditar, projectar e
realizar, bem como para ultrapassar as dores e os dissabores que encontramos
pelo caminho.
Contudo, o pai junta-se à díade mãe-filho com uma função
igualmente importante para a estruturação psíquica da criança. De certa forma, inicialmente
o pai representa a primeira “frustração” introduzida na vida de uma criança: o
pai é aquele que “impede” que o filho tenha a mãe exclusivamente para si. Experiência
dolorosa, esta, mas necessária para um desenvolvimento saudável. Embora sem
essa intenção, um pai permite e prepara, assim, a separação e a autonomia da
criança, evitando uma fusão (que não é suposta) entre mãe e filho. Tem uma
função separadora mas, ao mesmo tempo, estruturante.
Não fica por aqui, a questão da função paterna. Tal como a
mãe, o pai desempenha, também, um importante papel nas interacções com o filho,
estimulando e atendendo às suas necessidades básicas (afecto, segurança,
alimentação, higiene, brincar e aprender). Alternando com a mãe nestes
cuidados, permite à criança conhecer, desde cedo, dois diferentes modelos de
relação, um com o pai e outro com a mãe. E nós, espécie inteligente, rapidamente
começamos a guardar connosco o melhor de cada um.
Depois, o pai enriquece a identidade de género dos seus
filhos, apresentando-se como modelo de admiração ao seu filho-homem e narcisa a
feminilidade da sua menina-mulher. Mais. Pai e mãe são o primeiro e mais
importante modelo de uma relação amorosa. É através das discórdias entre pai e
mãe (se acontecem com respeito e sem depreciação um do outro) que se enriquece
a mente da criança, oferecendo-lhe múltiplas perspectivas da realidade. Se o
casal lida bem com essas “discussões”, mostra à criança que com liberdade se
pode amar alguém que pode ser e pensar de forma diferente de nós.
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terça-feira, 28 de agosto de 2012
sábado, 25 de agosto de 2012
Pedrinha (Dos desejos intermináveis)
''Somos
seres desejantes destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar''
Jacques Lacan
sábado, 28 de julho de 2012
Pedrinha (Do mundo interno)
"Cada
pessoa transporta dentro de si um mundo feito de tudo o que viu e amou; e é
para este mundo que incessantemente retorna (...)”
Chateaubriand (in Voyage
en Italie)
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quinta-feira, 26 de julho de 2012
Contos de Gente
Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o começo
e o fim de quase todos os contos infantis que povoam o imaginário das crianças.
É inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a
sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os afectos.
Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a vitória. São
fundamentais, os contos de fadas. Mas o final é sempre feliz e nunca nenhum
conto nos conta o que acontece depois do “felizes para sempre”. E se quando
somos pequenos, acreditar nos desfechos felizes é o que nos permite andar para
a frente, crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente
feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes
enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a
ser mais felizes. Crescer é encarar uma realidade que não é eternamente nem
estaticamente cor-de-rosa mas podendo aceitar que há muitos outros tons que
pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, azuis, verdes,
amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não é um
conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante e saborosa do
que um conto de fadas. São contos de gente.
“Muitos adultos ficam
chocados com a violência dos contos de fadas e se surpreendem com o facto de
que não a percebiam quando eram crianças, comprazendo-se nela. É que a maioria
das crianças, além de aceitar naturalmente o maravilhoso, espera com inabalável
certeza aquilo que o conto promete e sempre cumpre: "e foram felizes para
sempre". A gente se engana, portanto, quando tenta "açucarar" os
contos ou omitir as passagens "violentas".”
Marilena Chauí
domingo, 22 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Pedrinha (Das fronteiras necessárias)
“Os bons pais seriam auxiliadores da
separação clara entre fantasia e realidade. Nem sempre este equilíbrio é
conseguido e a confusão inicia-se, cresce, invade o Eu e surge a ruptura e o
sofrimento. Na geração de adultos-pais, falha a capacidade de se separarem dos
próprios filhos. O primeiro sintoma deste caos confusional é a abolição de
limites-fronteiras claras, entre a geração de pais e a geração de filhos. São
os banhos comuns, camas comuns, partilha obrigatória de segredos em todas as
direcções, etc. A criança entra em luta por uma sobrevivência e uma autonomia
enquanto lhe resta alguma energia disponível, mas se os benefícios narcísicos
persistem (“sou igual ao pai porque durmo com a mãe como ele”), a patologia
instala-se e pode estabilizar no negativo.”
Teresa Ferreira (in Em defesa da criança)
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Pedrinha (Dos amores das crianças)
"A capacidade ou incapacidade de amar tem
a sua génese na infância, embora a vivência de uma autêntica relação amorosa só
seja possível a partir da adolescência."
Teresa Ferreira (in Em defesa da criança)
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quinta-feira, 12 de julho de 2012
Pedrinha (Do conhecer, compreender e transformar)
"A psicanálise serve para aprofundar o
auto-conhecimento, e não só; também o conhecimento do outro (os outros) e,
sobretudo, das relações não só interpessoais mas essencialmente
intersubjectivas."
António
Coimbra de Matos
Nota: Estes conhecimentos, por si só, não
resumem a psicanálise nem a psicoterapia psicanalítica. Depois de conhecer, despontará o compreender. Estabelecer ligações entre o que é e o que foi. E, por fim, é preciso transformar. O que será. Passado, presente e futuro. Ligados. Descobrir, aceitar, compreender, integrar e transformar. Em busca do melhor que temos dentro de nós.
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