terça-feira, 19 de junho de 2012

O Velho, o rapaz e o burro


  

Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.
Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.
Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!
O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!
O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou:
-Bem se vê que o mundo está transtornado!
O pai vai a pé e o filho montado!
O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.
Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:
Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!
Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:
Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 9 de junho de 2012

Histórias de Criatividade



Em 1913, na zona balnear de Deauville, encontravam-se reunidos os amantes de corridas de cavalos. Entre eles, um casal de namorados que lá passava uma temporada. Ela, francesa, mulher de história triste que por dor ou vergonha escondia e negava as suas origens, modista de moderado sucesso na criação de chapéus. Ele, inglês, intelectual ligado à política, jogador de polo, não o seu primeiro nem único homem, mas o seu grande amor e, sobretudo, o seu maior apoiante. Certa manhã, a modista decidiu que vestiria uma camisola de malha dele, mas não pela cabeça. Cortou-a pela frente. Para não estragar o penteado ou por mero capricho, não sabemos. Improvisou uma gola e um cinto com retalhos do mesmo tecido e, finalizando, coseu-lhe dois enormes bolsos “na altura exacta em que as mãos gostam de descansar”. Surpreendentemente, com a diferença de estatura entre ambos, a malha caiu como se fosse um vestido. Essa mulher era Gabrielle “Coco” Chanel. O seu homem, Arthur “Boy” Capel. A peça, o cardigan, reinventado para o feminino. Saindo à rua, “todos me perguntavam onde o tinha comprado e eu respondia, se quiser, vendo-lhe um. Nesse dia, vendi dez modelos iguais.” De modista a maior estilista do séc. XX, uma self-made woman visionária, dona de uma criatividade que aliou como ninguém o clássico ao revolucionário, afirmou pouco antes de morrer: ”A minha fortuna foi construída em cima daquela malha velha que eu vesti porque fazia frio em Deauville".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Histórias de Psicoterapia


"(...) Com que ferramentas trabalha? A realidade é o próprio paciente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora, há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se passa no consultório para a sua vida real.

Como é que decorre o processo terapêutico? É o mesmo de sempre. Decorre a partir da conversa entre analista e paciente. A forma de conduzir é que é diferente. Em vez de termos na cabeça uma teoria que aplicamos, procuramos observar o que se passa com aquele paciente, vamos interpretando e construindo hipóteses em conjunto. Para mim, a questão fundamental é que uma pessoa seja capaz de se autoanalisar e que acabe a análise com uma capacidade de reflexão sobre si próprio maior do que a tinha. (...) "


António Coimbra de Matos (em entrevista ao jornal Expresso, a 3/8/2010)

Pedrinha (Dos prazeres imediatos)


Penso que hoje há uma tendência para a procura dos prazeres imediatos e uma certa dificuldade em acertar com o tempo de espera.

António Coimbra de Matos

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O "conforto" do familiar


Não se aprende sozinho nem de repente a ser aquilo que nunca fomos. Não se aprende por instinto a sentir essa espécie de paz/felicidade que nunca foi sentida. É algo que nos é estranho. Mesmo quando ao nosso redor se encontram circunstâncias felizes, podemos “preferir”, inconscientemente, a familiaridade da melancolia ou da depressividade. Podemos não conseguir sair desse lugar que tão bem conhecemos. Podemos não nos permitir sequer tentar. No fim de contas, querendo ou não, são sempre as nossas amarras internas que nos limitam.

“Os meus estados deprimidos ainda me seduzem e fazem falta para me sentir preenchida por dentro. Ainda confio nas minhas tristezas e ainda as chamo, admito. Aconteça o que acontecer, desde que as chame, aparecem sempre. São de confiança. E depois, o que se faz mesmo com a felicidade? É-se feliz, e depois? Depois deve ser preciso aprender a viver-se feliz, a acreditar que se merece, a aprender a não ter medo que algo de terrível aconteça, a fazer as pazes com o que se passou connosco, a aceitar, a perdoar, a aprender a continuar, a acreditar, a confiar, a transmitir, a não desistir, a lidar com o vazio e a preenchê-lo com coisas bonitas feitas por nós. A infelicidade não me exige nada disso, é só deixar-me estar.”

Marta Gautier

Bom dia, Mundo!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Depressão na Recessão


Faz algum tempo, no dia 19 de Janeiro, foi entrevistado num canal da nossa televisão o Prof. Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista português. O conceito central discutido foi “depressão na recessão”, que diz respeito ao súbito aumento da taxa de suicídio em Portugal (e também em outros países, como a Grécia ou a Irlanda) e de perturbações depressivas associadas à conjuntura económica actual. O impacto da crise económica e social na saúde mental dos portugueses é inquestionável, uma vez que “a pobreza, o desemprego e a exclusão social são factores que levam a um conjunto de afectos como a tristeza, sentimentos de ruína e sobretudo os sentimentos de desespero”, como foi referido. Estes afectos estão correlacionados com o aumento do índice suicidário, bem como com o aumento do número de depressões.

O desemprego e a precariedade em que muitos portugueses hoje vivem originam frequentemente sentimentos de auto desvalorização e a sensação de fracasso. Contudo, o impacto psicológico da crise assume contornos diferentes em função da faixa etária da população. É fundamentalmente na meia-idade que se verifica maior incidência de sintomas de depressão, esta estreitamente relacionada com o sentimento de perda, já que muitos indivíduos tinham a sua vida relativamente organizada e, subitamente, são forçados a lidar com a perda de rendimentos, de emprego ou de casa. Em acréscimo, torna-se muito angustiante para um indivíduo de meia-idade imaginar a possibilidade a oportunidade de “recomeçar do zero”. No que respeita à juventude, o impacto psicológico não está tão relacionado com a depressão, mas encontram-se muitos sintomas de ansiedade, espelhando o medo do futuro.

Em momento de “cortes” na Saúde e na Segurança Social e, portanto, na ausência de um sistema nacional que possibilite um suporte psicológico adequado ao momento de crise, impera a necessidade de o indivíduo procurar apoio na sua rede social, isto é, na família, nos amigos e na comunidade. Contudo, para que isso aconteça é essencial que cada um reconheça (perante si próprio e muitas vezes perante os outros) as suas dificuldades, pois existe sempre muita vergonha associada às situações de carência económica e, mais ainda, vergonha relativamente à fragilidade psicológica. Paradoxalmente, importa dizer que existe sempre mais força no indivíduo que assume as suas fragilidades do que naquele que as esconde. Em acréscimo, sabe-se que negar e fugir da nossa verdade (interna e externa) é uma das causas de mal-estar psicológico. O acto de pedir ajuda (seja de que ordem for) é, por si só, um acto de Saúde Mental.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O relógio avariado


O relógio da cozinha continua parado e avariado há mais de um ano. Quantas vezes pensei que bastaria pôr-me em cima de um banco, pegar nele e atirá-lo para o lixo? Mas nunca o fiz. Nunca o fiz porque aquele relógio sou eu. Ele precisa de estar assim, porque algumas coisas precisam de denunciar o que se passa dentro de nós. Não é a preguiça que me impede de o deitar fora, é a verdade. E a verdade é que o tempo está parado dentro de mim. A minha casa sou eu. Está parada. Quando eu começar a funcionar, vai aparecer um relógio a funcionar.

Marta Gautier

domingo, 20 de maio de 2012

Domingar



O Domingo comporta uma certa preguiça, um laissez-faire profundamente gostoso. Para quem não consegue desacelerar, o Domingo torna-se um fardo. Convida a estar, a sentir, logo, a pensar. Mas Deus descansou ao Domingo e nós também. Desaceleremos. Estejamos. Sintamos. Pensemos. Para que se comece a semana de barriga cheia, entreguemo-nos à contemplação, ao ronronar dos afectos e às brincadeiras alegres das famílias!

Excelência do Pensamento



António Coimbra de Matos foi galardoado com o prémio - Distinguished Psychoanalytic Educator Award 2012 - prémio com que o IFPE  (The International Forum for Psychoanalytic Education) distingue anualmente uma “Personalidade de Mérito” associada à excelência do ensino da Psicanálise. 
Este prémio será entregue na IFPE’s 23rd Annual Interdisciplinary Conference, Theme: Sustainable Psychoanalysis: Embracing Our Future, Preserving Our Past, em Novembro 2-4, 2012, The Governor Hotel , Portland, Oregon.
António Coimbra de Matos é um dos fundadores da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. A AP está inscrita na IFPE desde o ano de 2009 e alguns associados têm-na representado anualmente nesta conferência.
Parabéns, Professor !

domingo, 6 de maio de 2012

Sigmund Freud (156 anos)



Dia da Mãe, mas também dia de um Pai. Comemora-se hoje o 156º aniversário do nascimento de Sigmund Freud, o "Pai" da Psicanálise. Homenageamo-lo, também, por "dar à luz" a teoria mais completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe que sabe). Tanto sabe que usa (inconscientemente) as melhores manobras de ilusão na arte de se enganar a si mesmo.
Freud mostrou-nos as "trevas" que carregamos dentro de nós mas ofereceu-nos as técnicas que nos conduzem à "luz". Hoje, a Psicanálise continua a ser uma viagem fabulosa que nos oferece o conhecimento, a verdade e a liberdade. Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das Tormentas e enfrentar os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!

Mãe



"Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga"

Foi muita confusão mesmo, mas senti um bem-estar interior em ver a loja repleta de pessoas e ver a sua alegria a fazer compras, comprar coisas que muitas pessoas não podiam num dia normal sem descontos. Bolachas, bacalhau, carne etc..
Aqui fica um exemplo do que o Grupo Jerónimo Martins deu aos clientes e muitos devem ter entrado a primeira vez ontem, mas talvez voltem e abram os olhos.

Agora imaginem o que dão aos empregados, pois somos nós que damos os lucros a empresa e reconhecem isso. Quantas fazem isso? Nem o governo reconhece.

2 De Maio de 2012
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 5 de maio de 2012

Sonho meu



Falar de sonhos não é simples. Sonhar faz parte de uma função psíquica fundamental do ser humano, a função simbólica. Assim sendo, para compreender o que representam os sonhos, é preciso perceber, primeiro, o conceito de símbolo.
Um símbolo, elemento essencial na comunicação e pensamento humanos, é um termo, um nome ou uma imagem que nos pode ser familiar, mas que possui uma conotação especial para além do seu significado evidente. Assim, uma palavra/imagem é simbólica quando implica algo mais do que o seu significado manifesto e imediato.
A nossa mente trabalha com símbolos no seu quotidiano. Mas este uso consciente que fazemos dos símbolos é apenas um detalhe óbvio que remete para um facto psicológico menos conhecido: o homem também produz, ele próprio, os seus símbolos, inconsciente e espontaneamente, sob a forma de sonhos.
Há acontecimentos (vivências com pensamentos, afectos e emoções associados) na nossa vida de que não tomamos consciência. Ficam “guardados” abaixo do limiar da consciência. E, apesar de os termos ignorado (mesmo sem saber que os ignoramos), mais tarde brotam do inconsciente, de forma camuflada: por exemplo, sob a forma de um sonho. Saiba-se que um sonho raramente representa aquilo que nos parece. Por isso são, tantas vezes, desprovidos de lógica ou nexo. Para além do sentido manifesto (evidente) do sonho, possui um poderoso sentido latente (simbólico, escondido, mascarado), dificilmente acessível sem um conhecimento muito profundo de nós próprios.
Do ponto de vista histórico, foi o estudo dos sonhos que permitiu, em grande parte, aos psicólogos, a investigação do lado inconsciente do funcionamento e comportamento humano. De facto, por serem produzidos de forma inconsciente, raramente o indivíduo percebe o que simbolizam, na verdade, os elementos do sonho. Os livros de interpretação de sonhos pouco ajudam, pois todo o sonho merece uma análise global e contextualizada, não podendo ser analisado “às fatias” ou de forma standardizada.
Os sonhos são um mundo intrigante para a maioria das pessoas. Sabemos que apenas conhecemos uma ínfima parte do que se passa dentro de nós. O “resto” fica bem lá no fundo e, muitas vezes, só um processo de psicanálise ou psicoterapia psicanalítica pode trazer à consciência aquilo que, sozinhos, não compreendemos (ou que “escondemos” de nós próprios). Relembrando o que disse Carl Jung em O Homem e os seus Símbolos (1987), “aquele que nega a existência do inconsciente está, de facto, a admitir que, hoje em dia, temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico. A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites.”

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Caricaturando

Crash


It's the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We're always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.

Crash (vencedor do Oscar para o Melhor Filme em 2006)

Cheios de coisa nenhuma



"Nas ruas cheias de gente/ vi as pessoas desertas"

Manuel Alegre

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na companhia da solidão



Fala-se de solidão. Ela já foi cantada, declamada e narrada por um sem fim de artistas mas, fundamentalmente, é sentida e vivida em algum momento por nós, seres pensantes (e relacionais). Pode durar esse exacto momento, mas pode, também, durar uma vida inteira. Embora a noção de solidão tenha existido desde sempre (como condição intrínseca do ser humano), considera-se que há também uma vertente social que tem lugar neste “debate”. Assim, para compreender melhor a solidão, parece indispensável uma articulação entre a dimensão psicológica e essa dimensão social do conceito.

Entende-se que um dos rostos da modernidade é a valorização da autonomia individual. Ser auto-suficiente, ser independente, ser livre, são ideais que, na ausência de equilíbrio, conduziram à exacerbação do individualismo. Já na obra “A Cultura do Narcisismo” (1983), Christopher Lasch falou do modo como as sociedades capitalistas se estruturaram, material e simbolicamente, segunda essa preocupação intensa com a realização individual (estreitamente relacionada com o universo do consumo), em detrimento dos ideais colectivos. Ocorreu, gradualmente, uma centralização no Eu e um desinvestimento nas relações com os outros. Como dado significativo, recordemos que, consoante os países (do primeiro mundo), há estatísticas que situam entre os 25% e os 40% a percentagem de indivíduos que moram sozinhos.

Na verdade, muitos ainda não desistiram de tentar incluir no seu projecto de vida as ligações aos outros, mas vêem-se confrontados com relações interpessoais difíceis e complexas, sentindo-se frequentemente tentados/obrigados a recuar. Evidentemente, se inseridos numa sociedade esquecida de comportamentos de tolerância, que desvalorizou os afectos e as relações humanas, os indivíduos vivem em conflito permanente com o outro. E aí, acontece que o ser humano se sente de novo só, embora acompanhado. Fica uma pergunta: o “mal” estará realmente no outro, ou seremos todos nós também um produto da modernidade, acolhendo já inconscientemente essa incapacidade?

Sozinhos e sós, ou acompanhados e sós, são solidões distintas, que muitas vezes se fundem numa só, esmagadora. Se a solidão representa o sentimento quotidiano da nossa vida, talvez ajude verdadeiramente perceber, com ajuda técnica, qual a origem desse sentimento dentro de nós. E, em tempos de crise, talvez possamos recordar, por fim, que o afecto e as ligações humanas serão sempre os melhores ingredientes da felicidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mãos ao Trabalho!


“O desespero nunca serviu as sociedades democráticas e é preciso ter em conta os sonhos das pessoas, que se podem tornar em pesadelos. Os psicólogos têm um papel fundamental para lidar com as incertezas e ajudar os portugueses.”

Telmo Baptista

Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses - Sessão de Abertura do I Congresso Nacional da OPP (18,19,20 e 21 de Abril de 2012)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O perfil da perversão


O que define uma perversão (ou parafilia)? Clinicamente, o que é um indivíduo perverso? Uma perversão pode ser entendida como uma perturbação crónica do comportamento sexual, em que a expressão de uma “pulsão perversa”, de natureza agressiva, é condição necessária para que o sujeito atinja a excitação sexual e o orgasmo. De outra forma, não sente qualquer prazer, pois o prazer não está ligado aos afectos, às relações humanas ou à intimidade. Podemos talvez dizer que, no mundo interno do sujeito, a sexualidade e a agressividade estão “confundidas”, estando essas experiências sexuais muito aquém daquilo que é verdadeiramente uma sexualidade adulta.

Uma das características básicas do perverso é a ausência de consideração pelo outro, este só serve ao perverso para descarga (sexual e agressiva). Esta instrumentalização/desumanização do outro implica não tomar em conta a sua vontade e o seu desejo; aliás, quanto mais o perverso desvia o outro das suas práticas habituais, mais gratificante se torna o acto. Assim, a sexualidade é um acto solitário, maioritariamente masturbatório, já que, incapaz de vivenciar a intimidade, não existe a ligação ao outro.

Verifica-se com frequência que, na história do perverso, entre mãe e criança o vínculo foi agressivo, e não de amor. Diz-se que a perversão é a patologia do ódio, porque o vínculo com o objecto primário é um vínculo de ódio. Para Stoller, a perversão é uma forma erótica de ódio, em que o meio utilizado para descarregar esse ódio é a humilhação e agressão do outro (representando esses comportamentos o ódio inconsciente ao objecto materno). Para além disto, há no perverso uma ferida narcísica (ou seja, inconscientemente, o sujeito não se ama a si mesmo, sentindo-se inferior) fundamental para a compreensão desta patologia. Tendo por base um vínculo de ódio, a relação básica entre mãe e filho falhou e este foi maciçamente desnarcisado – foi rejeitado/mal-amado. Essa desvalorização primária a que foi exposto faz com que o perverso, enquanto adulto, humilhe o outro, vingando-se pelo ataque como forma de reconstruir o seu próprio narcisismo.

Há várias manifestações de perversões, sendo as mais faladas, o sado-masoquismo, o exibicionismo, o fetichismo, o voyerismo e os abusos sexuais (incluindo a pedofilia). Contudo, qualquer comportamento sentido como um desvio sexual, poderá (ou não) ser uma perversão, dependendo da situação. Importa dizer que, para se estabelecer o conceito do que é um desvio, é preciso uma fundamentação a respeito da normalidade. O que distingue, na prática, uma sexualidade “normal” de uma sexualidade perturbada? Pergunta difícil, pois as considerações de normalidade e convencionalidade são afectas ao tempo e aos costumes. Contudo, sabemos que há limites intemporais à nossa expressão sexual, nomeadamente, o dever de respeitar a vontade e a liberdade do próximo.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Pedrinha (Do que mais se quer)

“And did you get what you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself beloved on the Earth.”

Raymond Carver (Collected Poems)

domingo, 25 de março de 2012

Sabedoria Centenária



Meus amigos do "Pasquim", outro dia, me perguntaram: "Oscar, e a vida?" Eu disse: "A vida é mulher do lado e seja o que Deus quiser".

Oscar Niemeyer (104 anos)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia de Poesia


Sossega, coração!
Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

Prisioneiros do Corpo


O conceito de motricidade diz respeito a um conjunto de mecanismos que nos permitem mover o corpo e os membros em relação aos objectos que nos rodeiam. É também o que permite manter uma postura, isto é, a atitude do corpo no espaço.

A motricidade é uma função absolutamente fundamental, sendo não só uma das mais claras evidências da vida, mas também a nossa principal forma de subsistência, devido à capacidade de interacção com o meio ambiente. É através do movimento dos corpos que podemos transformar pensamentos em acções e sonhos em realidade.

Existem três tipos de movimentos, os voluntários, os voluntários automáticos e os actos reflexos. Os movimentos voluntários são dependentes da vontade do organismo, implicam uma tomada de decisão. Os movimentos voluntários automáticos são de início e cessação voluntários mas o seu ritmo de base é automático como, por exemplo, no caso da locomoção e da escrita. Podemos decidir quando começar e parar de andar mas, enquanto andamos, o movimento é automático. Os movimentos reflexos têm um padrão rígido e automático, sendo também independentes da vontade, na medida em que o organismo não pode de modo algum decidir se o reflexo vai ou não acontecer.

Do mais simples ao mais complexo, dotam a espécie humana de capacidades invulgares e, quando “adoecem”, fazem-nos imensa falta. Estamos, lamentavelmente expostos, à possibilidade de sofrer lesões a nível motor (acidentes, AVC, doenças degenerativas) alterando e condicionando (consoante a gravidade das lesões) a nossa vida em vários aspectos: pessoais, relacionais, profissionais, familiares. Também o próprio processo de envelhecimento deteriora, em maior ou menor grau, as capacidades motoras do indivíduo. Perder capacidades ao nível motor implica muitas vezes a perda de competências, de autonomia, de auto-estima e de liberdade. Inevitavelmente, tudo isto implica grande sofrimento psicológico para o próprio, mas também para aqueles que se relacionam com ele.

Aliado às outras intervenções terapêuticas, o psicólogo assume aqui um papel extremamente importante, pois após a perda do controle dos movimentos, ficamos vulneráveis a crises de depressão e despersonalização. Estão presentes a nostalgia do passado, a tristeza do presente e o medo do futuro. O quotidiano muda, as expectativas mudam, os sonhos mudam (ou perde-se a capacidade de sonhar), e o psicólogo deve intervir tanto junto do próprio paciente como da família de modo a ajudar a minorar o sofrimento e o choque, bem como ajudar a perspectivar a situação e as mudanças que ela implica.

sábado, 17 de março de 2012

Experiências


"Ora e se eu agora me virar de cabeça para baixo o que é que acontece?
Olha que interessante, assim vejo as coisas de maneira diferente!
É muito curioso, este mundo…!"

Fazer, Burilar e Embalar

O amor não se diz; faz-se, burila-se e embala-se.
António Coimbra de Matos

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pedrinha (Da Novidade, Diferença ou Mudança)


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances. Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua. Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias. Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações. Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude. Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Edson Marques (E um pedido de desculpa por a autoria do poema ter sido atribuida a Clarice Lispector)

quinta-feira, 8 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Les couleurs du coeur

Estereótipos e Preconceitos


Os estereótipos são representações mentais de grupos sociais, ou seja, um estereótipo acontece quando atribuímos automaticamente certas características psicológicas gerais a grandes grupos humanos. Funcionam como uma espécie de correspondência imediata entre etiquetas psicológicas (ex: brancos, negros, homens, mulheres) e os indícios mais salientes dessas etiquetas.

Os estereótipos começaram por ser encarados como um escape para tendências agressivas ou como projecção das nossas fantasias indesejáveis nos outros, ou ainda como sintoma de certas personalidades ligadas ao racismo, ao autoritarismo ou à xenofobia. Depois, algo evoluiu na sua concepção. Desde então, Lippman é considerado o precursor da concepção contemporânea dos estereótipos e das suas funções psicossociais. Para ele, a origem dos estereótipos prende-se com a necessidade do ser humano em categorizar (e com uma tendência para a simplificação). Na prática, estas estruturas cognitivas não só categorizam, como influenciam o nosso processamento de informação, a percepção social e os comportamentos interpessoais (entre indivíduos) e intergrupais (entre grupos). São-nos transmitidos pelos agentes de socialização (pais, escola, comunicação social), o que explica o consenso relativamente a um dado estereótipo dentro de uma mesma sociedade.

Embora os estereótipos sejam naturais e instintivos, eles constituem os aspectos cognitivos que estão na base da atitude preconceituosa. O preconceito vai “mais além” que o estereótipo. Um preconceito refere-se fundamentalmente a um pré-juízo (ou pré-conceito) elaborado por nós antes de ser recolhida informação relevante, ou seja, é baseado em evidências inadequadas ou mesmo imaginárias. Ele surge quando os estereótipos se associam a um sentimento, positivo ou negativo, condicionando muitas vezes a atitude do sujeito e levando-o a adoptar uma posição a favor, ou contra, sem qualquer evidência factual. Assim, pode dizer-se que o preconceito acaba por tornar uma categorização natural do mundo físico num rótulo de significado afectivo desadequado, uma mera generalização.

Como disse Einstein, é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Sabemos que, inevitavelmente, o Homem gosta de tentar simplificar o que é complexo. Aplicar “rótulos” é uma forma de o fazer. Felizmente, os estereótipos não são impermeáveis às mudanças sociais e, aos longos dos tempos, a alteração de alguns estereótipos (e o fim de alguma ignorância) tem acabado com certos preconceitos (em relação à diferença de sexos, de raças, entre outras questões). Einstein disse, com razão, que era difícil, mas não impossível…!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Águas de Março



Pedrinha (De Freud, o "abre-caminhos")

Permitindo-se levar a sério e compreender cada palavra, cada fantasia, cada mentira (verdade esquecida, para o poeta Mario Quintana), Freud estava dando um recado para o século: é necessário ouvir as crianças. Assim, abria um campo enorme que continua sendo aberto. Cem anos depois, começamos a ouvir melhor em algumas casas, escolas ou consultórios.
 
Celso Gutfreind in O Pequeno Hans discutido e sentido entre o passado e presente (Revista Brasileira de Psicanálise)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Pedrinha (Da sabedoria)

A dúvida é o começo da sabedoria.

Descartes

A rígida existência dos Asperger


Fala-se da Síndrome de Asperger, uma perturbação do espectro do autismo que, ao contrário deste, permite que o indivíduo, apesar das dificuldades, seja minimamente funcional em sociedade. Foi Hans Asperger, físico austríaco, quem primeiramente descreveu esta síndrome, em 1944.

Esta perturbação, cuja grande limitação é a dificuldade relacional do indivíduo com os outros que o rodeiam, é normalmente diagnosticada durante a infância ou pré-adolescência (consoante o meio envolvente estiver mais ou menos atento ao desenvolvimento da criança). Os Asperger isolam-se frequentemente, embora estejam plenamente conscientes da existência do(s) outro(s) e do mundo externo e até desejem fazer amigos e conhecer pessoas. Contudo, quando interagem com alguém, a sua abordagem é estranha ou mesmo desadequada, insensível ao sentir do outro e ao impacto dos seus comportamentos (expressões faciais de aborrecimento, pressa, evitamento do olhar ou, por oposição, olhar fixamente). Há ainda uma incapacidade de compreensão da ironia, de metáforas ou outras formas de comunicação mais abstractas e simbólicas, o que origina mal-entendidos e a retirada das relações. Há ainda uma dificuldade a nível dos contactos físicos. No fundo, sofrem de uma enorme dificuldade em compreender e viver as relações humanas, com a intersubjectividade que lhe é inerente e as suas complexas regras de interacção e convívio social.

Uma outra característica muito comum desta perturbação é a presença de interesses excêntricos (às vezes coleccionam obsessivamente coisas invulgares). Vão perguntando e falando insistentemente sobre esses seus interesses, numa espécie de monólogo ou dissertação, sem aparentemente questionar se o seu interlocutor está ou não interessado e sem reconhecer nos outros alguns sinais primários de enfado ou desinteresse (de novo, a incapacidade de “ler” os outros). Existe uma grande rigidez do pensamento, pouco plástico, bem como uma forte intolerância para com as falhas dos outros e também para com as suas próprias. Curiosamente, há também uma rigidez corporal (são crianças e adultos fisicamente desajeitados, de andar duro e pouco gracioso). Rigidez, também, ao nível da capacidade de adaptação às mudanças. Estas crianças e adultos necessitam de rotinas e reagem sempre mal perante alterações súbitas.

Ao nível das capacidades cognitivas, estas crianças situam-se a um nível de inteligência média ou acima da média (especialmente no campo verbal) mas falham nas capacidades de compreensão e abstracção. Tendem a ser muito concretos. Assim, também a memória é frequentemente excelente, mas de natureza mecânica, sendo que as suas habilidades de solução de problemas são fracas. Fica-nos a imagem de um funcionamento robotizado, sem dinâmica ou pulsão de vida, numa alma algures impedida da sua possibilidade de brincar, de imaginar, de experimentar, de pensar e de sentir.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Diálogos Existenciais


- Um psicólogo famoso disse, certa vez, que algumas pessoas têm tanto medo da dívida da morte que recusam o empréstimo da vida.
- E isso significa o quê? Fale claro!
- Significa que você parece ter tanto medo da morte que se recusa a entrar na vida. É como tivesse medo de gastar a sua vida.

Irving Yalom (Mamãe e o sentido da vida – Histórias de Psicoterapia)