Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
terça-feira, 24 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Pedrinha (Da Humanidade)
"Conheça todas as teorias, domine todas as
técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana"
Carl Jung
Manifesto
No
exercício da parentalidade, todos os dias se encontram histórias de papéis
invertidos, trocados ou confundidos entre pais e filhos. São histórias de
fronteiras mal definidas entre os lugares de cada um e que boicotam infâncias, embora
sem intenção. Nem sempre o equilíbrio familiar é conseguido e a confusão
inicia-se, cresce e invade as crianças, surgindo as dificuldades de
autonomização e bom desenvolvimento.
Um
dos sintomas deste caos familiar é a incapacidade de alguns adultos/pais de se
separarem dos seus próprios filhos e a inexistência de fronteiras claras (banhos
comuns, camas comuns, falta de privacidade ou intimidade). A obrigatoriedade de
partilhar tudo em família, sejam segredos, interesses ou ideologias, amputa a
individualidade fundamental de qualquer criança/adolescente. Outro sintoma do
caos é quando os pais carregam os seus filhos com confidências e desabafos
permanentes, procurando um “colo” para as suas angústias naqueles que deviam
estar a recebê-lo. Outro sintoma, ainda, quando pais pretendem ser os “melhores
amigos” dos seus filhos em vez de serem apenas aquilo que lhes compete e lhes é
pedido, serem pais. Se certas crianças pudessem comunicar sobre aquilo que as
rodeia, redigiriam um manuscrito que seria seguramente parecido com isto:
“Pais
e Crescidos:
Na
descoberta de nós próprios muitas vezes somos confundidos. A individualização é
um caminho básico para o bom desenvolvimento: 1) Não queremos partilhar todos
os nossos segredos convosco como se fossem os nossos melhores amigos e não
queremos igualmente saber dos vossos segredos, fardos ou intimidades. Pai é
pai, mãe é mãe, amigo é amigo e “cada macaco no seu galho”; 2) Não nos usem
para preencher vazios conjugais. Não podemos nem queremos preencher o lugar do pai
ou da mãe e não se iludam pensando que não damos conta; 3) Não nos usem para
repetir “abandonos” a que foram sujeitos e não nos usem para descarregar as
vossas zangas, frustrações e ansiedades; 4) Se não são suficientemente capazes
de tomar conta de vós próprios não deviam tomar conta de mais ninguém, não
conseguimos dar-vos o colo que os vossos pais não vos deram nem salvar-vos dos
vossos abismos; 5) Precisamos muito de vocês e não podem ser vocês a precisar
muito de nós. NOTA: Em boa verdade quando estamos todos misturados dá-nos a
ilusão de protecção eterna e até gostaríamos de dormir para sempre no vosso
quentinho mas sabemos que nem sempre os nossos desejos são adequados, porque somos
pequeninos e, por isso, os bons pais ajudam-nos a separar devagarinho a fantasia
da realidade. Não queremos com isto dizer que não façam o melhor que podem ou
que sabem. Mas como diz o ditado, de boas intenções está o Inferno cheio.
Obrigado,
As
Vossas Crianças.”
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domingo, 30 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
Quem pensas que enganas?
Procuramos
frequentemente esconder os nossos afectos e emoções. Ocultamos a irritação, disfarçamos
a desilusão, camuflamos o ciúme e mascaramos o medo. Escondemos a tristeza, a
raiva e mesmo o amor. Por vezes, conscientemente, outras, sem sequer nos
apercebermos desse conflito inevitável entre o que sentimos cá dentro e o que
queremos (ou que não queremos) passar para fora.
Fazemo-lo
por tantos motivos! Pode ser para seguirmos o “politicamente correcto” ou porque
não queremos admitir as nossas fragilidades. Porque não queremos criar
conflitos ou magoar alguém. Fazemo-lo porque, racionalmente, achamos que não
temos legitimidade para sentir certas coisas, ou porque queremos esconder de
nós próprios o que sentimos. Não importa aqui o porquê mas importa sobretudo perceber
que normalmente falhamos redondamente na nossa intenção de camuflar os nossos
afectos. É que os seres humanos são excelentes detectores de “mentiras
afectivas” uns nos outros.
Para
enganar (ou outro ou a nós próprios) usamos as palavras. Por trás das palavras,
usamos racionalizações (raciocínios lógicos).
Uma mãe diz que respeita muito a liberdade do seu filho mas de cada vez que ele
lhe omite algo íntimo fica sentida por ser posta de lado. Um homem chega a casa
e conta que ficou desempregado, ao que a sua mulher responde que tudo se irá
resolver mas nos seus gestos seguintes revela todo o medo, ansiedade e falta de
confiança no marido. Um filho apresenta um teste com uma nota mais baixa que o
costume e a sua mãe diz que não tem importância e que acontece aos melhores mas
nos seus olhos está espelhado o desapontamento. Um pai pergunta ao filho como
correu o seu dia mas depois, na verdade, não presta a mínima atenção ao que o
filho conta quando chega da escola. Em todas estas cenas há uma coisa que é
dita e uma outra diferente que é percebida e sentida na relação.
As
palavras contêm um significado objectivo e são uma arma de argumentação
poderosa nas relações. Só que há algo muito especial e subjectivo nos seres
humanos que é mais poderoso do que as palavras: os afectos. Na relação com os
outros, essa nossa subjectividade dança com a subjectividade do outro e descobrem-se
mutuamente. Chamamos a isto a intersubjectividade
na relação, ou seja, “eu sinto o que tu sentes e tu sentes o que eu sinto”.
Há
quem esconda bem os afectos. Com mecanismos de defesa muito sólidos. E, por
outro lado, também há quem tenha muito pouca capacidade de ler o outro para lá
dessas barreiras. Tristeza das tristezas é não vivermos essas danças a dois por
não estarmos verdadeiramente em relação com o outro. Numa relação sem comunhão afectiva
ficaremos meramente restringidos à troca de palavras, passando-nos ao lado os
afectos escondidos e deixando escapar as nuances
mais belas das relações humanas.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
sábado, 27 de abril de 2013
Pérola
"O psicanalista vale mais por aquilo que é do que por aquilo que diz"
Sacha Nacht
Sacha Nacht
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domingo, 7 de abril de 2013
A construção da identidade
Não
se nasce com uma identidade estática e definida. Parte-se de uma identidade
biológica mas não é, contudo, isso que nos limita, na medida em que o nosso
programa genético é plástico e permite-nos seguir inúmeras direcções. A
construção da identidade é um processo dinâmico e pessoal, cuja base assenta
nas primeiras relações afectivas que nos rodeiam mas também no meio
sociocultural em que nos inserimos. Como tudo começa?
Durante
os primeiros 18 meses de vida, dá-se aquilo a que se chama a identificação
imagóico-imagética. O bebé identifica-se com a imagem que os outros
significativos lhe reconhecem e lhe transmitem. É uma identificação em espelho:
“eu sou aquilo que acham/dizem que eu sou e serei”. Pode originar um
desenvolvimento saudável ou, inversamente, patológico, pois o bebé sente e
assimila sentimentos, expectativas, crenças, medos e desejos (mesmo os mais
inconscientes ou mesmo os mais indesejáveis) que encontra junto daqueles que o
cuidam (ou descuidam). Pensa-se que seja a fase mais fundamental para a
construção de uma identidade própria.
Entre
os 18 e os 30 meses, a construção da identidade passa por um processo de
identificação idiomórfica, ou seja, identificamo-nos à nossa própria forma. Por
auto-observação. Olhamo-nos e olhamos também para o outro que será mais
parecido ou mais diferente de nós, estabelecendo comparações. Começamos a reconhecer-nos
como alguém e a percebermo-nos. Nasce também uma identidade sexuada onde percebemos
que somos menina ou menino e as diferenças de género subjacentes.
Posto
isto, entre os 3 e os 6 anos, numa terceira fase chamada identificação
alotriomórfica, a criança passa a identificar-se a um modelo, um objecto de
eleição ao qual procura assemelhar-se, alguém que admira e ama. Copia o que vê
o seu modelo fazer, pensar, agir, sentir e comunicar. Para o bem e para o mal.
Há modelos piores e modelos melhores. Mas importa dizer que mesmo os melhores modelos
não serão bons se não nos ajudarem a encontrar o nosso próprio estar e o nosso
próprio sentir. Pobre daquele que é apenas uma cópia do outro.
Assim,
pensar que a identidade só está estabelecida na idade adulta é um engano, pois
as bases começam muito antes. Contudo, certamente que este processo é uma
construção contínua, do início ao fim, e as nossas experiências de vida
continuarão sempre a moldar-nos. Por isso, aceitar tacitamente que somos
produto do que vivemos não será também caminho pois não nos podemos subtrair à
responsabilidade que temos nas escolhas que fazemos. A construção de uma
identidade será, sobretudo, uma criação própria. Temos capacidade de reflectir
e transformar e, como disse um dia Ray Charles, somos os nossos próprios
engenheiros.
Nota: Baseado no modelo de
construção de identidade de António Coimbra de Matos
quarta-feira, 20 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Pedrinha (Do Tactear)
“É mesmo essencial,
para o seu equilíbrio psíquico e para a salutar expansão da sua personalidade, que o adolescente possa
tactear ou encetar vários caminhos antes de verdadeiramente escolher o que
melhor corresponde à sua maneira de ser, de sentir o mundo e de perspectivar o
futuro. Não lho permitir será amputá-lo para todo o sempre nas suas
potencialidades evolutivas.”
António Coimbra de Matos
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Sobre outras perspectivas
"What if I should fall right through the center
of the earth... Oh, and come out the other side, where people walk upside down?
"
Lewis Carroll in Alice in Wonderland
domingo, 3 de março de 2013
Viver ou Sobreviver?
Nascemos.
Num determinado lugar e numa certa família, que não escolhemos. Dão-nos um
nome, que também não escolhemos, mas somos donos de um corpo e de uma alma. A
nossa alma (ou mente ou psique) permite-nos pensar e sentir, e esse corpo
permite-nos concretizar coisas. Chegados aqui, o que fazemos com isso? Que faço
eu da minha vida e que pretendo ainda fazer? Dar um sentido à vida é algo que vive
na mente de alguns mas não na mente de todos. Perspectivar o passado e planear
o futuro, sabendo de onde viemos mas olhando principalmente para onde nos
dirigimos é atribuir significado à nossa existência. E é fundamental. O sentido
da vida diverge de pessoa para pessoa, de dia para dia e, por vezes, de hora
para hora, pois o que interessa, sobretudo, não é um objectivo geral, único e
rígido, mas o significado específico que vamos atribuindo ao longo do tempo e
dos acontecimentos e que, naturalmente, se modifica e adapta em função do nosso
desenvolvimento pessoal.
Em
meados do século passado já tínhamos compreendido que os indivíduos que melhor
sobreviveram aos campos de concentração durante a II Guerra Mundial (os que
ficaram menos debilitados física e psicologicamente) foram maioritariamente
aqueles que se agarraram a uma razão para sobreviver e mantiveram em mente uma
motivação forte para o conseguirem. Mais recentemente, investigação médica
descobriu que um forte sentido de existência (e o bem-estar subjacente a esse
sentimento) se correlaciona com uma melhor saúde física e longevidade. E, por
fim, chegou-se à Saúde Mental: aqueles que desenvolvem objectivos para a sua
vida e que se empenham e comprometem na sua concretização tornam-se pessoas
mais felizes e saudáveis. Dar sentido à nossa vida protege-nos da depressão, da
ansiedade e mesmo da deterioração cognitiva. Novas evidências científicas
sugerem ainda que é uma capacidade essencial para atenuar os sintomas de
doenças degenerativas como o Alzheimer, num estudo que tem permitido concluir
que aqueles que em vida atribuem mais significado à sua existência e mantêm
presente os seus propósitos estão mais protegidos contra este mal.
São
aqueles que não se limitam a viver um dia de cada vez sem pensar no futuro, são
os que se sentem bem com o que fizeram da sua vida e com o que planeiam fazer
futuramente, aplicando-se na concretização dos sonhos, e ainda os que não
desistiram desses objectivos com o passar no tempo nem mesmo perante as
adversidades. O vazio existencial é uma morte lenta. Sonhar com esperança,
planear com entusiamo, concretizar com perseverança. Viver, e nunca apenas
sobreviver.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Pedrinha (Da Censura do Inconsciente)
“O inconsciente é o capítulo da minha história que é marcado
por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado."
Jacques Lacan (Escritos)
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Certeza da Incerteza
Em todos os
manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Fernando Pessoa, Tabacaria
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Fernando Pessoa, Tabacaria
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