quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Todas as Palavras



As que procurei em vão, 

principalmente as que estiveram muito perto,

como uma respiração,

e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,

deixando no poema uma espécie de mágoa

como uma marca de água impresente;

as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te

nem foram capazes de dizer-me;

as que calei por serem muito cedo,

as que calei por serem muito tarde,

e agora, sem tempo, me ardem;

as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);

as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo.

E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,

as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina

Personalidade Borderline


 
Embora ainda se use frequentemente a expressão “não é defeito, é feitio”, a verdade é que hoje sabemos que a personalidade não justifica tudo e, muitas vezes, estrutura-se mesmo com “defeito”. A personalidade também “adoece”. De facto, muitas das pessoas que conhecemos com comportamentos pouco adequados, são como são porque o seu processo de crescimento pessoal e social foi, de certa forma, boicotado (mesmo quando o indivíduo não dá por isso, conscientemente).
Dizemos que um indivíduo sofre de uma perturbação da personalidade quando se encontra um padrão estável (global e inflexível) de afectos e comportamentos que se afastam marcadamente do que seria esperado, originando sofrimento ou incapacidade para o próprio. São normalmente diagnosticadas na adolescência ou na idade adulta, pois só aí se considera que já existe uma identidade formada.
A patologia borderline (ou patologia limite da personalidade) é uma dessas perturbações de personalidade. O termo ainda não está suficientemente divulgado mas é um tipo de organização mental que tem vindo a aumentar, com maior incidência no sexo feminino. O número de pessoas com este tipo de perturbação que procuram ajuda em psicoterapia é cada vez maior, variando na gravidade dos sintomas mas apresentando como queixa principal a incapacidade de funcionar adequadamente no dia-a-dia e um sentimento de vazio interno.
Um indivíduo com uma organização de personalidade borderline apresenta transtornos em quase todas as áreas da sua vida, principalmente nas relações interpessoais (relações com outras pessoas). Descrevendo estas personalidades em traços largos, encontramos pouca profundidade nos sentimentos (dificuldade em ligar-se ao outro e em manter relações íntimas), bem como uma tendência à desconfiança e uma atitude social pouco agradável. Verificam-se, com elevada frequência, comportamentos de risco, consumos de drogas e álcool e, também, alterações no comportamento sexual. Há dificuldades no controle da vontade, no planeamento dos objectivos de vida e incapacidade para o trabalho (ou dificuldade em encontrar a profissão certa).
Assim, e resumidamente, os sintomas mais comuns são a incapacidade de sentir, a angústia e desamparo, falta de limites, desrespeito pelos outros, comportamento anti-social, depressão com sentimentos de solidão e vazio, intolerância à frustração, comportamentos automutilantes e pensamentos suicidas, incapacidade de sentir prazer, fobias, obsessões e compulsões, dissociações e surtos psicóticos breves.
Estas personalidades assentam em falhas muito precoces do desenvolvimento emocional. Implicam (e ao mesmo tempo expressam) um grande sofrimento e um grande vazio interior. Nem sempre as pessoas querem ser como são, simplesmente, não conseguem ser de outra maneira. Felizes os que reconhecem que algo está errado e pedem ajuda.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pai = Lei


“É no nome do pai que devemos reconhecer o suporte da função simbólica que, desde a aurora dos tempos históricos, identifica sua pessoa à figura da lei.”

Jacques Lacan in Discurso de Roma – Escritos

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Educar a Escola


O Homo Sapiens Sapiens é, precisamente, não só aquele que sabe, mas, aquele que sabe que sabe, e tendo consciência do seu saber, quer saber cada vez mais e melhor. Por isso, a educação e a transmissão dos conhecimentos preocupam a nossa espécie há milhares de anos.

Desde a época de Sócrates, o filósofo, que a educação tem vindo a ser objecto de interesse de estudiosos e curiosos. A primeira pedagogia, aplicada pelos jesuítas, foi designada “método tradicional”. Era um método estruturado e rigoroso, centrado no saber. Neste modelo educativo, quem detinha o conhecimento era o mestre (o professor) e o aluno era encarado como aquele cuja função era (exclusivamente) receber todo o conhecimento que o professor lhe transmitia. Assentava no formalismo, na memorização e na autoridade, e os métodos de ensino restringiam-se à exposição (da matéria) e à interrogação (questões sobre a matéria, a “chamada”). Na sala de aula, o estrado acentuava a distância física e afectiva entre professor e aluno, e as janelas eram colocadas acima do nível dos olhos dos alunos, para não haver contacto com o exterior. E, durante muito tempo, vigorou este acto educativo, fechado em si próprio.

Perante o avanço do conhecimento acerca do desenvolvimento infantil (e do ser humano, em geral), a pedagogia tradicional tornou-se desajustada e foram sendo gradualmente introduzidas alterações no ensino, tanto estruturais como pedagógicas. Fundamentalmente, o professor e o seu saber deixaram de ser o centro do processo educativo. Simbolicamente, o estrado deixou de existir e as janelas foram abertas para o mundo exterior, permitindo um grande enriquecimento humano pelas novas formas de interacção que então se estabeleceram: mais diálogo entre aluno e professor, mais familiaridade entre alunos, mais partilha entre todos. Cá fora, ao ar livre, os alunos passaram a realizar actividades, visitas de estudo ou ginástica. Através da pesquisa, e de uma forma autónoma, o aluno é agente e constrói também o seu conhecimento, privilegiando sempre a actividade lúdica e o uso dos materiais didácticos. Acrescenta-se a dimensão da liberdade e da disciplina desenvolvidas em conjunto, como controlo e resultado uma da outra.

Já percebemos que “educar não é domesticar”, como diz Eduardo Sá. Mas precisamos ainda de um ensino que ouça todas as vozes, que fomente a criatividade e o pensamento divergente, que legitime o direito à diferença e estimule a individualidade de cada um, sem esquecer, evidentemente, a importância do todo em que nos inserimos. E falta-nos, em grande parte, interiorizar que a escola não pode resolver questões, outras, que ultrapassam o ensino. Quando as coisas não estão bem na vida da criança, ela não consegue beneficiar do que a escola tem para oferecer. A cabeça não pode funcionar na sala de aula quando o coração ficou em casa. E os professores, sozinhos, não sabem nem podem resolver problemáticas que os ultrapassam.

O Brincar (Terapêutico e Desenvolutivo)


A criança, portanto, ao criar uma distância através das personificações, representa e maneja fantasmas que de outro modo seriam intoleráveis, domina angústias e antecipa projectos, dá sentido e organiza o próprio mundo interior, metaboliza e ordena os estímulos que lhe chegam do mundo exterior (e interior), aprende a dominar fantasias e impulsos.

Antonino Ferro

Pedrinha (Das infâncias sólidas)


“A saúde mental constrói-se na infância. Os factores posteriores são menos importantes. Uma criança teve perdas de afectos na infância, fez uma depressão infantil que pode ter passado despercebida, estará mais fragilizada na idade adulta e poderá deprimir facilmente. Se teve uma infância sólida aguentará bem as perdas afectivas.”

António Coimbra de Matos

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Marylin, O Mais Belo Fantasma do Mundo


 
"Ninguém podia adivinhar que se tratava de um fantasma. Ela era demasiado bonita para isso, demasiado doce, resplandecente. Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, um tecido, uma sombra inquietante. Ela, ela encantava-nos. Devíamos ter desconfiado. Que poder tinha ela para nos fascinar tanto, para nos impressionar e nos levar à nossa maior felicidade? Deixamo-nos cair na armadilha a ponto de não compreendermos que já estava morta havia muito tempo.

Na verdade, Marylin Monroe não estava completamente morta, estava apenas um pouco, às vezes um pouco mais. O seu charme, ao fazer nascer em nós um sentimento delicioso, impedia-nos de compreender que não é necessário estar morto para não viver. Começara a não estar viva desde que nascera. A sua mãe, desumanamente infeliz, expulsa da humanidade por ter trazido ao mundo uma filha ilegítima, estava estupidificada de infelicidade. Um bebé não se pode desenvolver de outra forma que não seja no meio das leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, mesmo antes de nascer, encontrava-se fora da lei. A melancolia que sentia preenchia de tal forma o seu mundo que a mãe não teve força para lhe oferecer uns braços tranquilizadores. Foi necessário colocar a futura Marylin em orfanatos gelados e confiá-la a uma série de famílias de acolhimento entre as quais era difícil aprender a amar.

As crianças sem família não têm tanto valor como as outras. O facto de serem exploradas sexual ou socialmente não pode ser considerado um crime grave, uma vez que estes pequenos seres abandonados não são totalmente crianças verdadeiras. Algumas pessoas pensam assim. Para sobreviver apesar das agressões, a pequena Marylin teve de começar a “imaginar”, a alimentar-se da própria dor, antes de se afundar na melancolia e na loucura da sua mãe. Então, declarou que Clark Gable era o seu verdadeiro pai, e que pertencia a uma família real. Não tinha outra alternativa! Desta forma construía uma identidade vaga, já que, sem sonhos loucos, teria sido forçada a viver num mundo de lama. Quando a realidade morre, o delírio dá origem a uma maré de felicidade. Assim, casou-se com um campeão de basebol para quem cozinhava todas as noites cenouras e ervilhas , cujas cores tanto lhe agradavam.

Em Manhattan, onde tirou cursos de teatro, passou a ser a aluna preferida de Lee Strasberg, que era fascinado pelo seu estranho encanto. Já tinha estado morta muitas vezes. Era necessário estimulá-la bastante para que não se deixasse levar para o mundo dos mortos. Ela hibernava, não saia da cama e já não se lavava. Quando acordava com um beijo, de Arthur Miller, por quem se tornou judia, de John Kennedy ou de Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e afectuosa, e nenhum deles se apercebia de que tinha sido encantado por um fantasma. No entanto, ela dizia-o quando cantava I’m Through With Love. Estando já afastada do mundo dos mortais, refulgente em plena glória, sabia que só lhe restavam três anos de vida antes de oferecer a si própria um último presente: a morte.

Marylin nunca esteve completamente viva, mas nós não o podíamos saber, pois o seu fantasma era tão maravilhoso que nos enfeitiçava."

Boris Cyrulnik in O Murmúrio dos Fantasmas

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Poesia



É fácil trocar as palavras,

Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,
 
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,

Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,

Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,

Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo

Com que não há comunicação possível,

Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;

As dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,

Com a suposição

De qualquer semelhança no fundo.

 

Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A função paterna


 
No princípio são três, mãe, pai e filho. O acto de conceber um filho é da responsabilidade de dois indivíduos e parece que há uma boa razão para que assim seja, fundamentalmente na espécie humana, a mais complexa de todas. Embora hoje muitas crianças cresçam na realidade da monoparentalidade, a investigação psicológica tem demonstrado, de há algumas décadas para cá, a necessidade absoluta e presença insubstituível da figura paterna.

Como se sabe, o nosso equilíbrio emocional e bem-estar psicológico estão completamente relacionados com a qualidade da relação primária, nome atribuído à relação entre mãe e filho, que começa logo durante a gravidez. É esta ligação primordial que nos dá as ferramentas internas para descobrirmos quem somos e conduzirmos a nossa vida com entusiasmo, segurança e responsabilidade. É nessa relação que ganhamos (ou não) o embalo para acreditar, projectar e realizar, bem como para ultrapassar as dores e os dissabores que encontramos pelo caminho.

Contudo, o pai junta-se à díade mãe-filho com uma função igualmente importante para a estruturação psíquica da criança. De certa forma, inicialmente o pai representa a primeira “frustração” introduzida na vida de uma criança: o pai é aquele que “impede” que o filho tenha a mãe exclusivamente para si. Experiência dolorosa, esta, mas necessária para um desenvolvimento saudável. Embora sem essa intenção, um pai permite e prepara, assim, a separação e a autonomia da criança, evitando uma fusão (que não é suposta) entre mãe e filho. Tem uma função separadora mas, ao mesmo tempo, estruturante.

Não fica por aqui, a questão da função paterna. Tal como a mãe, o pai desempenha, também, um importante papel nas interacções com o filho, estimulando e atendendo às suas necessidades básicas (afecto, segurança, alimentação, higiene, brincar e aprender). Alternando com a mãe nestes cuidados, permite à criança conhecer, desde cedo, dois diferentes modelos de relação, um com o pai e outro com a mãe. E nós, espécie inteligente, rapidamente começamos a guardar connosco o melhor de cada um.

Depois, o pai enriquece a identidade de género dos seus filhos, apresentando-se como modelo de admiração ao seu filho-homem e narcisa a feminilidade da sua menina-mulher. Mais. Pai e mãe são o primeiro e mais importante modelo de uma relação amorosa. É através das discórdias entre pai e mãe (se acontecem com respeito e sem depreciação um do outro) que se enriquece a mente da criança, oferecendo-lhe múltiplas perspectivas da realidade. Se o casal lida bem com essas “discussões”, mostra à criança que com liberdade se pode amar alguém que pode ser e pensar de forma diferente de nós.

sábado, 28 de julho de 2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Contos de Gente

Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o começo e o fim de quase todos os contos infantis que povoam o imaginário das crianças. É inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a vitória. São fundamentais, os contos de fadas. Mas o final é sempre feliz e nunca nenhum conto nos conta o que acontece depois do “felizes para sempre”. E se quando somos pequenos, acreditar nos desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente, crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a ser mais felizes. Crescer é encarar uma realidade que não é eternamente nem estaticamente cor-de-rosa mas podendo aceitar que há muitos outros tons que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, azuis, verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante e saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.




“Muitos adultos ficam chocados com a violência dos contos de fadas e se surpreendem com o facto de que não a percebiam quando eram crianças, comprazendo-se nela. É que a maioria das crianças, além de aceitar naturalmente o maravilhoso, espera com inabalável certeza aquilo que o conto promete e sempre cumpre: "e foram felizes para sempre". A gente se engana, portanto, quando tenta "açucarar" os contos ou omitir as passagens "violentas".”

Marilena Chauí

domingo, 22 de julho de 2012

Sunny Sunday



“Sunny,
Thank you for the sunshine bouquet.
Sunny,
Thank you for the love you brought my way.”

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Pedrinha (Das fronteiras necessárias)


“Os bons pais seriam auxiliadores da separação clara entre fantasia e realidade. Nem sempre este equilíbrio é conseguido e a confusão inicia-se, cresce, invade o Eu e surge a ruptura e o sofrimento. Na geração de adultos-pais, falha a capacidade de se separarem dos próprios filhos. O primeiro sintoma deste caos confusional é a abolição de limites-fronteiras claras, entre a geração de pais e a geração de filhos. São os banhos comuns, camas comuns, partilha obrigatória de segredos em todas as direcções, etc. A criança entra em luta por uma sobrevivência e uma autonomia enquanto lhe resta alguma energia disponível, mas se os benefícios narcísicos persistem (“sou igual ao pai porque durmo com a mãe como ele”), a patologia instala-se e pode estabilizar no negativo.”

Teresa Ferreira (in Em defesa da criança)

Pedrinha (Dos amores das crianças)



"A capacidade ou incapacidade de amar tem a sua génese na infância, embora a vivência de uma autêntica relação amorosa só seja possível a partir da adolescência."

Teresa Ferreira (in Em defesa da criança)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pedrinha (Do conhecer, compreender e transformar)


"A psicanálise serve para aprofundar o auto-conhecimento, e não só; também o conhecimento do outro (os outros) e, sobretudo, das relações não só interpessoais mas essencialmente intersubjectivas."

António Coimbra de Matos


Nota: Estes conhecimentos, por si só, não resumem a psicanálise nem a psicoterapia psicanalítica. Depois de conhecer, despontará o compreender. Estabelecer ligações entre o que é e o que foi. E, por fim, é preciso transformar. O que será. Passado, presente e futuro. Ligados. Descobrir, aceitar,  compreender, integrar e transformar. Em busca do melhor que temos dentro de nós.

O sentido da vida


Não gostamos de falar sobre a morte. Nem sequer de pensar sobre a morte. Também não parece muito confortável ler sobre a morte. Se calhar, depois de a palavra morte surgir tantas vezes, sem eufemismos, muitos interromperão, já aqui, a sua leitura. Quem ama a vida, sofre quando pensa na morte. E teme-a, dada a sua inevitabilidade.
Ganhamos, desde cedo, consciência do fim da vida. Essa consciência conduz-nos a um tipo de angústia muito particular, a angústia existencial, que embora surja logo na infância, se torna mais pensada (logo, mais sentida) a partir da adolescência. À volta desta angústia nascem questões que, com maior ou menor frequência, todos já colocámos: O que há depois da morte? Qual o sentido da vida? Existe Deus? Será, a alma, imortal?
Como lidamos nós com a certeza da nossa finitude?
Para quem, através da fé religiosa, encontra as suas respostas para estas perguntas, torna-se mais fácil viver sem grandes problemas existenciais. É uma forma de dar um sentido à nossa existência e que nos garante o reencontro das almas mesmo depois do adeus.
Para quem estas perguntas ficam sem resposta, para os que não encontram aqui a serenidade necessária, são adoptadas outras maneiras de seguir em frente (sabendo que seguir em frente significa seguir em direcção à morte). Perante a angústia existencial, encontramos um mecanismo de defesa psicológico chamado evitamento, que nos ajuda a “esconder” de nós próprios os nossos maiores receios (e outras emoções). É útil, caso contrário, estaríamos todos mais ocupados a questionar a fragilidade da vida do que a vivê-la. Na sua vertente mais patológica, o mecanismo do evitamento pode assumir a forma de delírio. Aí, quando a dificuldade de pensar a morte se mascara de indiferença ou até de omnipotência, tendemos a “desafiá-la” inconscientemente e, à custa disso, podemos encontrá-la mais cedo.
O mecanismo de evitamento mais saudável é de outra qualidade, é a resignação/aceitação. A maioria de nós apaga a consciência da morte enquanto se entretém com as tarefas da vida. Percebemos que a melhor forma de não temer a morte é dar sentido à vida. É aproveitá-la. É amar e ser amado, crescer, criar vínculos e/ou descendência, produzir obra e deixar um legado. Temos a liberdade de escolher que sentido dar à nossa vida, contudo, de tudo o que podemos escolher, que seja uma escolha de amor. É pelo amor que melhor se ultrapassa a angústia existencial. Pelo estabelecimento de relações significativas e criativas. O amor por nós e pelo outro é o espelho do amor pela vida (que é, no fim de contas, feita da soma de nós e dos outros).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Estranho do Lado


“ (…) Assim como na Física há uma lei segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, deve haver outra lei, no universo subjetivo, que impede duas individualidades de viverem a mesmíssima vida. Tenho a impressão que a insistência em contrariar esse princípio está por trás de muitos e graves desencontros por aí.
Desde a adolescência, e provavelmente ainda antes, somos alimentados com a ilusão de que um dia encontraremos alguém com quem iremos nos fundir. A tal pessoa, aquele, a mulher da nossa vida, o príncipe encantado – todos esses são agentes do destino que teriam a função, na nossa história pessoal, de rasgar a couraça da individualidade, penetrar nosso casulo e nos salvar, de forma permanente, da horrível solidão de ser um indivíduo. A partir desse momento redentor, a nossa dor fundamental seria superada e seríamos, então, felizes para sempre. No outro.
Algumas vezes, mesmo na vida real, chegamos perto desse estado idílico de aniquilação. É quando estamos apaixonados. Nesse momento mágico – e, segundo o Freud, patológico - nossos sentimentos em relação ao outro são tão violentos que parecem romper o isolamento essencial. Em tal estado de comoção de ser parte do outro. Se ele se afasta, sentimos dor. Se ele está perto, sentimos prazer. Parece ser impossível viver sem ele, porque se tornou parte de nós.
Em “O Monte dos Vendavais”, a jovem apaixonada diz ao rapaz “Eu te amo”, e ele responde “Eu sou você”. Não existe na literatura ou no cinema uma declaração de amor mais radical do que essa.
Há outro momento em que também nos sentimos perto desse sentimento. É no sexo. Em meio ao prazer, aquilo que nós somos desaparece temporariamente em direção ao outro. Mergulhamos numa torrente tão intensa que, por alguns minutos, não somos mais que o conjunto daquelas sensações. Há uma pequena morte aí, um breve suicídio prazeroso no qual mergulhamos felizes, levado pelo corpo e pela personalidade do outro.
Mas esses momentos são terrivelmente efêmeros, não? Mesmo a mais intensa paixão é passageira. Cedo ou tarde, ainda que contra a nossa vontade, somos arrastados de volta à normalidade de sermos apenas um. Logo chega o momento em que é preciso negociar com a personalidade do outro, com a percepção do outro, com o desejo do outro. Com isso se desfaz a ilusão de pertencer. Deparamos, de novo, com a nossa assustadora e iniludível solidão interior. Sabemos disso, vivemos isso desde crianças, mas uma parte de nós continua sonhando com uma paixão tão arrebatadora, tão dominante, que nos livre para sempre de nós mesmos. Crescer, eu acho, é deixar também essa fantasia para trás.
Alguns recusam isso terminantemente. Insistem em esperar pelo sonho ou – muito pior - tentam transformar a vida real a dois num exercício de destruição das personalidades. Fazemos tudo juntos, pensamos o mesmo, gostamos das mesmas coisas, compartilhamos as mesmas experiências, dizem. Na boa ou na marra, vão arrastando o outro a uma vivência que é uma réplica da sua. Até o ponto em que, de tão parecidos, não tenham mais nada a contar um ao outro. Então se separam.
Estou exagerando? Claro que sim. Mas, mesmo entre pessoas que não vivem na caricatura, o impulso comum de controlar o outro faz parte do movimento de negação da individualidade. Ele se recusa a reconhecer o outro com as suas necessidades próprias, sua existência fora de nós. O desejo de aprisionar é o impulso de se proteger do outro, que, insistindo em ter vontade própria, pode fazer algo que nos machuque.
Enfim, acho que é disso que os sonhos falam. Da nossa vontade de ser forte como indivíduos e do nosso medo oceânico de nos desligarmos dos outros. Da contradição entre a vontade de crescer e o impulso de permanecer um bebê chorão, ligado ao outro por um cordão umbilical. Os sonhos contam que o amor, lindo que é, essencial como possa ser, não nos salva de sermos nós mesmos. Mesmo quem respira suavemente ao nosso lado, adormecida, tem sonhos separados dos nossos. É uma pessoa estranha que amamos, mas sobre a qual nunca saberemos o suficiente. É preciso respeitar esse mistério.”
Ivan Martins

terça-feira, 3 de julho de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pedrinha (Dos jogos de amor)



Jogos de amor. Mas será o amor um jogo ou um trabalho? As duas coisas: um divertimento (o melhor de todos) e um trabalho produtivo – de reconhecimento mútuo, permuta afectiva recíproca, crescimento pessoal diadicamente expandido, desenvolvimento de valências individuais não saturadas, comunhão de sonhos possíveis e projectos realizáveis e, acima de tudo, de criação (…)

António Coimbra de Matos (in Relação de Qualidade: Penso em Ti)

Poesia

Daniel Faria - Inéditos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tá ligado?


Escutar e ouvir são coisas diferentes, de diferente natureza e profundidade. Por ouvir entende-se a capacidade de perceber através do sentido da audição. Não se aprende, é uma capacidade inata que pode ser encarada como uma função mecânica na condição humana (e animal). Escutar, por sua vez, é um ouvir de outra qualidade. Requer ouvir com atenção. Quem escuta, ouve, mas nem sempre quem ouve, escuta. Escutar é uma capacidade esquecida.

Embora reconheçamos a importância de prestar atenção ao que as pessoas nos dizem, de um modo geral, somos maus ouvintes e falhamos redondamente nesta questão tão importante em qualquer relação humana. Hoje, em pleno apogeu do individualismo, falta sempre disponibilidade (de tempo ou vontade) e então não escutamos. Quando perdemos a paciência, quando interrompemos o interlocutor ou atropelamos o que nos diz com julgamentos inoportunos ou críticas. Não escutamos quando deixamos de prestar atenção e passamos a pensar em nós mesmos ou em outra coisa qualquer. Também não escutamos quando bloqueamos a nossa atenção com sentimentos negativos. Nem escutamos quando sonhamos acordados enquanto alguém fala.

 Há muitos motivos para não ouvir mas, essencialmente, não somos capazes de escutar se estivermos nós próprios, também, a precisar de ser ouvidos. Para se escutar alguém é necessário estar mentalmente (logo, emocionalmente) disponível para isso. A escuta é uma arte que requer descentração de nós próprios. Se estamos focados nos nossos pensamentos ou sentimentos, dificilmente podemos oferecer o tempo de antena necessário ao nosso interlocutor. Claro que seria impossível escutar activamente uns e outros, com inteira atenção, a todo o momento. É que também precisamos de tempo para ficarmos entregues ao que nos vai cá dentro.

Nas relações humanas, muitos não se sentem escutados. E ninguém gosta de “falar para as paredes”. Escutar é a mais crítica das habilidades de comunicação e talvez a mais importante para haver bem-estar entre as pessoas. Sermos ouvidos com genuína atenção dá-nos a percepção de que importamos. Seja para partilhar uma dor, uma alegria ou um anseio. Seja para emitir uma opinião ou para pedir um conselho. Ter uma voz e vê-la reconhecida e considerada é fundamental. Permite-nos sentir amparados e compreendidos. A expressão “Tá ligado?” é utilizada pelo povo brasileiro para questionar o interlocutor sobre se este entendeu o que foi comunicado. De facto, quando escutamos, estamos ligados ao outro. Estamos em relação com alguém. Se não nos ligarmos, não poderemos escutar. Poderemos, quando muito, ouvir. E, no final, rematar, “hum?”

terça-feira, 19 de junho de 2012

Desafio

O Velho, o rapaz e o burro


  

Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.
Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.
Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!
O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!
O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou:
-Bem se vê que o mundo está transtornado!
O pai vai a pé e o filho montado!
O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.
Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:
Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!
Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:
Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 9 de junho de 2012

Histórias de Criatividade



Em 1913, na zona balnear de Deauville, encontravam-se reunidos os amantes de corridas de cavalos. Entre eles, um casal de namorados que lá passava uma temporada. Ela, francesa, mulher de história triste que por dor ou vergonha escondia e negava as suas origens, modista de moderado sucesso na criação de chapéus. Ele, inglês, intelectual ligado à política, jogador de polo, não o seu primeiro nem único homem, mas o seu grande amor e, sobretudo, o seu maior apoiante. Certa manhã, a modista decidiu que vestiria uma camisola de malha dele, mas não pela cabeça. Cortou-a pela frente. Para não estragar o penteado ou por mero capricho, não sabemos. Improvisou uma gola e um cinto com retalhos do mesmo tecido e, finalizando, coseu-lhe dois enormes bolsos “na altura exacta em que as mãos gostam de descansar”. Surpreendentemente, com a diferença de estatura entre ambos, a malha caiu como se fosse um vestido. Essa mulher era Gabrielle “Coco” Chanel. O seu homem, Arthur “Boy” Capel. A peça, o cardigan, reinventado para o feminino. Saindo à rua, “todos me perguntavam onde o tinha comprado e eu respondia, se quiser, vendo-lhe um. Nesse dia, vendi dez modelos iguais.” De modista a maior estilista do séc. XX, uma self-made woman visionária, dona de uma criatividade que aliou como ninguém o clássico ao revolucionário, afirmou pouco antes de morrer: ”A minha fortuna foi construída em cima daquela malha velha que eu vesti porque fazia frio em Deauville".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Histórias de Psicoterapia


"(...) Com que ferramentas trabalha? A realidade é o próprio paciente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora, há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se passa no consultório para a sua vida real.

Como é que decorre o processo terapêutico? É o mesmo de sempre. Decorre a partir da conversa entre analista e paciente. A forma de conduzir é que é diferente. Em vez de termos na cabeça uma teoria que aplicamos, procuramos observar o que se passa com aquele paciente, vamos interpretando e construindo hipóteses em conjunto. Para mim, a questão fundamental é que uma pessoa seja capaz de se autoanalisar e que acabe a análise com uma capacidade de reflexão sobre si próprio maior do que a tinha. (...) "


António Coimbra de Matos (em entrevista ao jornal Expresso, a 3/8/2010)

Pedrinha (Dos prazeres imediatos)


Penso que hoje há uma tendência para a procura dos prazeres imediatos e uma certa dificuldade em acertar com o tempo de espera.

António Coimbra de Matos

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O "conforto" do familiar


Não se aprende sozinho nem de repente a ser aquilo que nunca fomos. Não se aprende por instinto a sentir essa espécie de paz/felicidade que nunca foi sentida. É algo que nos é estranho. Mesmo quando ao nosso redor se encontram circunstâncias felizes, podemos “preferir”, inconscientemente, a familiaridade da melancolia ou da depressividade. Podemos não conseguir sair desse lugar que tão bem conhecemos. Podemos não nos permitir sequer tentar. No fim de contas, querendo ou não, são sempre as nossas amarras internas que nos limitam.

“Os meus estados deprimidos ainda me seduzem e fazem falta para me sentir preenchida por dentro. Ainda confio nas minhas tristezas e ainda as chamo, admito. Aconteça o que acontecer, desde que as chame, aparecem sempre. São de confiança. E depois, o que se faz mesmo com a felicidade? É-se feliz, e depois? Depois deve ser preciso aprender a viver-se feliz, a acreditar que se merece, a aprender a não ter medo que algo de terrível aconteça, a fazer as pazes com o que se passou connosco, a aceitar, a perdoar, a aprender a continuar, a acreditar, a confiar, a transmitir, a não desistir, a lidar com o vazio e a preenchê-lo com coisas bonitas feitas por nós. A infelicidade não me exige nada disso, é só deixar-me estar.”

Marta Gautier

Bom dia, Mundo!