Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
domingo, 1 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Pedrinha (Do Medo)
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
domingo, 24 de novembro de 2013
Contos de Gente
Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o princípio e
fim de quase todos os contos de fadas que povoam o imaginário das crianças. É
inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a
sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os
afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a
vitória. Com eles aprendemos também a gerir emoções semelhantes às sentidas nos
enredos da vida real. São fundamentais, os contos de fadas.
O que é de pensar é que embora em todas estas histórias haja
sempre lugar para as desventuras e percalços, o final, no entanto, é sempre inquestionavelmente
feliz e nunca nenhum deles nos conta o que acontece depois. O “felizes para
sempre” é um momento estático, fechado, é a frase que não deixa espaço para
imaginar o que podia acontecer durante os 20 anos que se seguem, encerrando com
o fim do conto todas as angústias. E se quando somos pequenos, acreditar nos
desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente com esperança,
crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente
feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes
enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a
ser mais felizes. Crescer é poder tolerar a dúvida e aceitar que as certezas
pertencem a um mundo que não é humano nem real, mas sim tranquilizadoramente encantado,
pois cá fora a realidade é dinâmica e está sempre em movimento, envolvendo as
pessoas e as suas relações nessas oscilações.
Para lá dos contos de fadas, há no mundo adulto muita literatura
e cinema que assenta igualmente neste ideal de que no fim tudo está bem quando acaba
bem. Aliás, muitas pessoas não toleram uma história cujo final não inclua esse momento
“cor-de-rosa”. Porque aí há uma angústia que fica em aberto. Assim, percebemos
que a problemática dos contos de fadas não se limita às crianças nem aos
adolescentes. Quando falamos nessa fantasia infantil de não querer aceitar a
montanha-russa da nossa existência falamos também duma parte de todos nós,
adultos, que fica mais ou menos presa a um ideal de felicidade que nos
acompanha desde pequenos.
Viver é encarar com optimismo essa realidade que não é
eternamente nem estaticamente cor-de-rosa, aceitando que há muitos outros tons
que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, laranjas, azuis,
verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não
é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante, viva e
saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.
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terça-feira, 12 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Pedrinha (Dos Abraços)
"A duração média de um abraço entre duas pessoas é de 3
segundos. Mas os investigadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço
dura 20 segundos há um efeito terapêutico sobre o corpo e mente. A razão é que
um abraço sincero produz uma hormona chamada "oxitocina", também
conhecida como a hormona do amor. Esta substância tem muitos benefícios na
nossa saúde física e mental, ajuda-nos, entre outras coisas, para relaxar, a
sentir segurança e a acalmar os nossos medos e ansiedade. Este maravilhoso
calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa nos nossos
braços"
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Pedrinha (Da Liberdade de Ser)
“A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando se está
desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das
aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se
insuportável, o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei (...) Não mais
sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (…). Isso é o que uma
psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”.
Françoise
Giroud
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Elogio à Consciência dos Momentos Felizes
"Desde cedo que temo a possibilidade de passar
pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem
aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um
tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde,
identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim.
A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que
estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É
essa a minha sorte."
José Luís Peixoto in
Breve partilha da minha sorte infinita
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Impulsividade
Como uma
espécie de relâmpago emocional, todos possuímos e sentimos impulsos. O que
varia é a luminosidade do relâmpago, isto é, o grau em que nos invade o
pensamento, e o barulho do trovão subsequente, ou seja, a capacidade de conter/controlar
esses impulsos.
Ser
impulsivo é um funcionamento psicológico mais associado à infância ou à
adolescência mas tornou-se uma característica relativamente aceite na idade
adulta, muito em parte porque se encontra erradamente associada a uma personalidade
forte. Assim, confunde-se frequentemente impulsividade com autenticidade ou
mesmo com energia/entusiasmo quando podemos ser genuínos e activos sem sermos
impulsivos (ou seja, emocionalmente reactivos). O comportamento impulsivo denuncia
uma dificuldade em tolerar os conflitos internos, nomeadamente, afectos mais
incómodos e desagradáveis como a ansiedade (ou medo), a frustração ou a raiva. Perante
estas emoções, sem uma necessária “digestão” das mesmas (por falta de estrutura
psicológica) ou das situações que as despoletam, agimos impulsivamente. Outras
vezes, pouco tolerantes à dúvida ou à espera (de novo, nada mais que a
ansiedade), agimos, seja por palavras não pensadas, seja num comportamento
irreflectido.
Quando há
uma maior possibilidade de introspecção, isto é, de pensar analiticamente sobre
as coisas (as nossas, as dos outros ou as do mundo) torna-se possível funcionar
mais ponderadamente. Pensar implica primeiro conter dentro de nós algumas
emoções mais difíceis (durante maior ou menor quantidade de tempo) e depois
analisá-las e resolve-las internamente sem descarregar imediatamente os
impulsos no exterior (muitas vezes em cima dos outros).
Seres
impulsivos por natureza, os animais, esses sim, regem-se por instintos vários,
mas o Homem é um ser fundamentalmente reflexivo, o que pressupõe essa dita capacidade
de pensar sobre as coisas. No entanto, nem sempre acontece e tudo o que é então
demasiado difícil de ser guardado e pensado dentro de nós (conflitos, dilemas,
receios) é agido. Olhando em redor, nesta época de brandos costumes, dominada
pelos impulsos imediatos ou compulsões, segundo uma apologia consumista “daquilo
que não pode ficar para depois”, as pessoas agem muito e pensam pouco. Não se
pretende ignorar que alguns impulsos humanos conferem cor e sabor à história de
alguém e à história da Humanidade mas a dificuldade que aqui se realça diz
respeito ao funcionamento sistematicamente (estruturalmente) impulsivo, que nos
leva frequentemente pelo caminho errado e, não raras vezes, longe de mais.
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
O Eu, o Tu e o Nós
Quando
crescemos em ambientes de pouca afectividade ou fomos insuficientemente
cuidados, tendemos a crescer “coxos”, ou seja, fica a faltar-nos uma estrutura
de confiança e amor-próprio suficientes para sermos emocionalmente autónomos. Como
consequência, facilmente procuraremos alguém que cuide de nós enquanto adultos,
ainda que este movimento seja inconsciente. Por vezes, se o dano for ligeiro,
pode encontrar-se um parceiro suficientemente saudável que nos permita sarar
quase espontaneamente as falhas das nossas relações precoces. Porém, se o dano
for profundo, não só ninguém poderá reparar o que está para trás (nem tem essa
obrigação) como nós próprios seremos obstáculo ao bom funcionamento da relação,
consoante a sofreguidão com que nos grudamos ao outro.
É
vulgar encontrar relações em que um elemento funciona como pai/mãe/bengala/penso-rápido
(e por aí fora) do outro. E há muito frequentemente confusão entre isso e algo
muito belo (e bem diferente) que se chama “amor”. Podemos então falar de
dependência emocional, definindo-a como um padrão persistente de necessidades
emocionais insatisfeitas que se tentam suprir de uma forma desadaptada com
outras pessoas. Quando precisamos do parceiro para nos sentirmos um ser humano
completo, quando toda a nossa vida gira em função de uma relação amorosa,
quando não há nada no mundo que mais importe do que isso, é preciso parar para
pensar. É aquilo que se entende por um amor fusionado, em que não se percebe
onde começa um nem onde acaba o outro. Comunhão, sim, fusão, não.
O
que é ser emocionalmente autónomo? Não é não precisar de ninguém pois isso não
existe. O ser humano é um ser relacional e a escolha de um parceiro faz parte
da condição humana, o lugar onde se coloca o parceiro é que é digno de análise.
A relação mais saudável é aquela em que duas pessoas adultas se sentem, per si, completas, mas que, quando se
juntam, se transbordam mutuamente e criam algo novo. É poder existir no mundo
independentemente da presença constante de alguém ao meu lado. É poder
funcionar no dia-a-dia com entusiasmo e confiança mesmo quando estou sozinho. É
amar-me. É possuir uma existência, personalidade, vontade, gostos e ideais
próprios, e respeitá-los, assim como respeitar/aceitar genuinamente que o meu
parceiro possa ser diferente de mim em todos estes aspectos. É permitir que a
relação seja um sistema aberto e nunca um sistema fechado sobre si mesmo (senão
a relação satura e, sem oxigénio, morre). É existir um Eu, reconhecer um Tu (diferente
e separado do Eu), e sentir o Nós como o produto da soma de ambos.
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domingo, 29 de setembro de 2013
Pedrinha (em dia de eleições)
É um mundo deprimido, sem chama nas
almas, que impõe/nos impõe lutar pelo progresso – social, individual, do
conhecimento e da ventura – e pela transformação num mundo em que seja possível
voltar a sonhar com o futuro.
Progresso económico, sim, mas em
liberdade, justiça e distribuição.
Com liberdade, continuaremos a caminhada –
do progresso e pelo progresso. Porque jamais – assim o queremos, assim o
determinamos – nos deixaremos amordaçar! O silêncio conduz à morte da
liberdade.
António
Coimbra de Matos
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Pedrinha (Da Terapia do Terapeuta)
Nunca me canso de dizer aos jovens
terapeutas que a sua ferramenta mais vital são eles próprios, e que,
consequentemente, o instrumento tem de estar primorosamente afinado. Os
terapeutas necessitam de ter um grande autoconhecimento,
de confiar nas suas observações e obrigatoriamente relacionarem-se com os seus
clientes de uma maneira atenciosa e profissional. É precisamente por esta razão
que a terapia pessoal está (ou deveria estar) na base de todos os programas de
ensino terapêutico. Não só acredito que os terapeutas deveriam ter anos de
terapia pessoal enquanto se formam, como ainda voltar à terapia à medida que
vão evoluindo na vida; à medida que se sentir mais confiante enquanto
terapeuta, e quanto mais acreditar nas suas observações e na sua objectividade, mais livre se sentirá
para usar, com segurança, os sentimentos que os seus pacientes lhe suscitam.
Irvin
D. Yalom in De Olhos Fixos no Sol
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Pedrinha (Da Humanidade)
"Conheça todas as teorias, domine todas as
técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana"
Carl Jung
Manifesto
No
exercício da parentalidade, todos os dias se encontram histórias de papéis
invertidos, trocados ou confundidos entre pais e filhos. São histórias de
fronteiras mal definidas entre os lugares de cada um e que boicotam infâncias, embora
sem intenção. Nem sempre o equilíbrio familiar é conseguido e a confusão
inicia-se, cresce e invade as crianças, surgindo as dificuldades de
autonomização e bom desenvolvimento.
Um
dos sintomas deste caos familiar é a incapacidade de alguns adultos/pais de se
separarem dos seus próprios filhos e a inexistência de fronteiras claras (banhos
comuns, camas comuns, falta de privacidade ou intimidade). A obrigatoriedade de
partilhar tudo em família, sejam segredos, interesses ou ideologias, amputa a
individualidade fundamental de qualquer criança/adolescente. Outro sintoma do
caos é quando os pais carregam os seus filhos com confidências e desabafos
permanentes, procurando um “colo” para as suas angústias naqueles que deviam
estar a recebê-lo. Outro sintoma, ainda, quando pais pretendem ser os “melhores
amigos” dos seus filhos em vez de serem apenas aquilo que lhes compete e lhes é
pedido, serem pais. Se certas crianças pudessem comunicar sobre aquilo que as
rodeia, redigiriam um manuscrito que seria seguramente parecido com isto:
“Pais
e Crescidos:
Na
descoberta de nós próprios muitas vezes somos confundidos. A individualização é
um caminho básico para o bom desenvolvimento: 1) Não queremos partilhar todos
os nossos segredos convosco como se fossem os nossos melhores amigos e não
queremos igualmente saber dos vossos segredos, fardos ou intimidades. Pai é
pai, mãe é mãe, amigo é amigo e “cada macaco no seu galho”; 2) Não nos usem
para preencher vazios conjugais. Não podemos nem queremos preencher o lugar do pai
ou da mãe e não se iludam pensando que não damos conta; 3) Não nos usem para
repetir “abandonos” a que foram sujeitos e não nos usem para descarregar as
vossas zangas, frustrações e ansiedades; 4) Se não são suficientemente capazes
de tomar conta de vós próprios não deviam tomar conta de mais ninguém, não
conseguimos dar-vos o colo que os vossos pais não vos deram nem salvar-vos dos
vossos abismos; 5) Precisamos muito de vocês e não podem ser vocês a precisar
muito de nós. NOTA: Em boa verdade quando estamos todos misturados dá-nos a
ilusão de protecção eterna e até gostaríamos de dormir para sempre no vosso
quentinho mas sabemos que nem sempre os nossos desejos são adequados, porque somos
pequeninos e, por isso, os bons pais ajudam-nos a separar devagarinho a fantasia
da realidade. Não queremos com isto dizer que não façam o melhor que podem ou
que sabem. Mas como diz o ditado, de boas intenções está o Inferno cheio.
Obrigado,
As
Vossas Crianças.”
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