Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Pedrinha (Da função psicanalítica)
“Acredito que a coisa mais importante
seja favorecer, no paciente, o desenvolvimento da capacidade de pensar”
Antonino
Ferro
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Fala-me de amor
O
amor confunde-se. Confunde-se com tantas outras “coisas” sorrateiras. Ou
melhor, as pessoas confundem o amor. É que há amores que não são mais do que uma
ilusão desse sentimento, quando o que realmente sustenta a ligação são emoções
de uma outra natureza e qualidade. Chamamos-lhe amor porque não sabemos que nome
lhe dar. Chamamos-lhe amor, mas o engano não é por mal, somos guiados por
convicção profunda de que amor será.
Mas
em boa verdade não lhe posso chamar amor só porque me sinto tão especial ali, nesse
recanto da vida de alguém. Não lhe posso chamar amor apenas porque
quero/preciso ser amado quando no fim de contas amar pressupõe que, em primeiro
lugar, amor é o meu olhar sobre o outro (que não vive sempre necessariamente na
simetria do olhar que recai sobre mim). Não lhe posso chamar amor quando estou
ali apenas porque quero/preciso de não me sentir só e porque um colinho sabe bem.
Quando assim é, na demanda para colmatar uma falha original e respectiva fome
de afecto, percebemos que afinal qualquer tampa pode servir na nossa panela
desde que lá dentro fique quentinho e ferva. O amor será antes aquela única tampinha para a minha panela.
Também
não podemos chamar-lhe amor quando andamos desesperados a tentar transformar alguém
que “amamos” para nosso gáudio. É: “se isto, isto e isto mudasse, então eu
seria feliz”. Se não amo um ser humano com tudo aquilo que faz dele único e especial,
como posso falar de amor? É precisamente naquilo que nos distingue de todo e
qualquer outro ser deste mundo que reside o amor. Nos pequenos detalhes,
naquilo que frequentemente nem sequer se define ou explica, naquilo que é bom e
particularmente naquilo que é menos bom. É amar o “pacote” inteiro. É o amar,
muitas vezes, “apesar de”.
Se
esse meu olhar de encanto, que distingue uma pessoa de milhões de outras
pessoas, será ou não correspondido na mesma direcção e medida, isso é uma outra
história. Porque para além de toda esta triagem de afectos, é ainda preciso
encontrar do outro lado alguém que não esteja igualmente confundido e que não nos
enrede em mais uma ilusão, chamando também amor a outra coisa qualquer muito
parecida (jurando-o com pensamentos, palavras, actos e omissões).
Entretanto,
em jeito de rodapé, se não der para desatar o nó da confusão, é melhor andar
confundido do que não sentir absolutamente nada e não nos ligarmos a ninguém. Somos
seres relacionais e, assim sendo, pior do que uma relação assente em confusão
será deixar de acreditar/investir no amor e nas pessoas.
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Pedrinha (Das aprendizagens fundamentais)
Fundamentalmente, para que a
psicopatologia não progrida, deve ter-se aprendido: pelo exemplo, a perdoar;
pela ternura, a amar; pela liberdade, a ser espontâneo; pela clareza de
propósitos, a exigir a verdade; pelo entusiasmo, a desejar saber; pela alegria,
a gostar de viver; pelo deslumbramento que desencadeou, a apreciar a beleza.
António
Coimbra de Matos (in Mais Amor Menos Doença)
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Os recomeços
Costuma
dizer-se que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Que é isto que dá sentido
às coisas, como se fosse o esqueleto que sustenta as histórias. É uma sequência
temporal que se aplica a acções concretas como comer, dormir, tomar banho ou viajar,
mas também a outras facetas mais complexas da vida como relações humanas, empregos
e projectos vários. No limite, aplica-se à nossa própria vida.
Induzidos
pelo ritmo exacto do relógio, já que o próprio dia tem princípio, meio e fim,
sentimos que há um tempo para tudo, que ele está sempre presente. Os ponteiros
correm apressados e fora do nosso controlo, marcando o início e o fim dos
acontecimentos. E assim, no corre-corre do dia-a-dia, podemos facilmente entrar
em piloto automático, fugindo à reflexão e perdendo oportunidades de virar à
esquerda ou à direita em vez de seguir sempre em frente. É muito bom ter um
foco e caminhar em direcção a ele (sem objectivos a nossa existência perderia o
sentido) mas igualmente importante será não perder de vista o que se passa nas
redondezas, tudo aquilo que pode estar por perto e ser ainda melhor.
De
facto, cada dia o sol nasce e cada dia o sol se põe, sabendo nós, de antemão,
que no dia seguinte o sol regressa sempre, trazendo consigo mais uma rodada de
horas para nos oferecer. O próprio dia parece ensinar-nos também que tudo tem
um princípio, um meio e um fim, mas olhando com mais atenção, percebemos que o
que ele verdadeiramente nos ensina é que todos os dias podemos recomeçar. Os
recomeços são momentos de oportunidade que podem surgir num qualquer momento de
qualquer história e essa é a sua magia. A qualquer momento podemos reescrever
tudo, podemos encontrar outros caminhos, outros sentidos e, começar de novo.
Os
recomeços podem ser motivo de alegria ou de medo, mas serão sempre
emocionantes. Porque o recomeço implica sempre alguma mudança, por mais pequena
que seja. E a mudança faz-nos sentir vivos, embora sejamos frequentemente
aversos a ela, persistindo no hábito e naquilo que nos é familiar. Chamamos-lhe
a zona de conforto.
Face
a tudo o que se passa em nosso redor, importa perceber que momentos de crise
são também momentos de recomeço. Momentos de pensar novas possibilidades e
construir algo diferente, mais apropriado ou proveitoso. Mário Quintana dizia que
“a vida jamais continua, ela recomeça”. Quantos recomeços reconhecemos na nossa
história? Eventualmente, nem todos os recomeços terão sido proveitosos, mas a
boa notícia é que a possibilidade de recomeçar nunca acaba, podemos sempre
recomeçar mais uma vez.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Reflexão de Fim de Ano
§ Este ano
termina e estou mais apaixonada pela vida. Tinha conhecimento que vivíamos um
momento de expansão da consciência mas saber é diferente de sentir. Só a
experiência dá vida aos conceitos.
§ Não sei
como será para o ano porque uma das coisas que me atingiu como um raio foi a
noção de IMPERMANÊNCIA, de tudo aquilo que é hoje e que amanhã deixa de ser.
Isto traz-nos ao momento presente, que se torna mais puro e melhor vivido ao
conseguirmos um maior desprendimento do passado (o que doía ontem já não dói
hoje) e maior confiança no futuro (o que dói hoje não irá doer amanhã). Tudo
passa. A energia que desperdiçamos na angústia com aquilo que já lá vai e com
aquilo que há-de vir é demasiada e faz muita falta para vivermos bem o
presente. Como o nome indica, o presente é o momento de estarmos PRESENTES.
§ Essa
impermanência das coisas leva-nos à constatação de que o que parece mau nem
sempre é mau e de que o que parece bom nem sempre é bom. Sou levada a crer que
a nossa existência talvez pressuponha realmente ser-se feliz enquanto cá
estamos. Dizem por aí às vezes que a vida é feita para sofrer mas parece-me
mais que o sofrimento é uma opção, ou seja, que depende da perspectiva do
observador. No quotidiano, está a tornar-se mais fácil ver o lado bom das coisas
aparentemente más e, por incrível que pareça, quanto mais se pratica isto mais
faz sentido. Penso que a esta tendência para nos pacificarmos perante os
obstáculos se pode chamar ACEITAÇÃO. Será tanto mais fácil quanto maior a
confiança de que por trás de uma complicação pode estar uma bênção.
§ A
aceitação anda de mãos dadas com a REFLEXÃO, porque para aceitar tenho que
perceber que sou altamente responsável pelo que me acontece, e com a GRATIDÃO,
pois se eu aceito que coisas menos boas me acontecem e que muitas vezes essas
coisas são indicadoras de que algo melhor está a caminho, torno-me uma pessoa
mais grata por tudo o que gira em meu redor. O inverso disto será praguejar,
culpar os outros ou sentir-me uma vítima do Universo e creio que este é um terreno
pantanoso de onde dificilmente se sai.
§ A
aceitação, a reflexão e a gratidão só podem germinar num pensamento FLEXÍVEL,
capaz de questionar o mundo (interno e externo) e de aceitar perspectivas
divergentes e hipóteses que nos ultrapassem. Flexibilidade dos conceitos e das
ideias. Certezas absolutas são para deitar fora. Conviver com a dúvida é
fundamental (já que a impermanência existe) e para isso precisamos de ser
plásticos. A rigidez torna-nos duros, por vezes implacáveis, connosco e com os
outros.
§ A
flexibilidade ajuda-nos a ver as coisas como um FLUXO contínuo, não
dicotomizando nem polarizando (bom e mau, certo e errado, feliz e infeliz,
passado e futuro). Essa perspectiva permite-nos maior capacidade de integração
das partes no todo. Todo o passado conduz ao presente e ao futuro. Tudo o que
faço hoje se reflecte amanhã. Tudo o que dou agora receberei depois (e tudo o
que não dou naturalmente não receberei). Todo o meu passado me conduziu à
pessoa que sou e me encaminha para a pessoa que serei. A existência é um continuum.
§ Se o
Universo funciona num continuum podemos dizer que, enquanto
indivíduos, estamos todos ligados. É por isso que a UNIÃO e a COOPERAÇÃO devem
prevalecer sobre a competição. Porque todos juntos temos mais força do que
separados. Esta UNIÃO só pode acontecer se não se basear na dependência. Para
haver verdadeira cooperação todos os indivíduos devem possuir AUTONOMIA
(fundamentalmente emocional pois o resto vem por acréscimo). Caso contrário,
uns sugam os outros e numa relação parasita/hospedeiro nada se cria, tudo se
consome.
§ Para além
da questão da força/energia colectiva, importa pensar que se estamos todos
ligados aquilo que eu sou e que eu faço influencia aqueles que se relacionam
comigo. Temos uma esfera de influência em nosso redor e essa consciência
traz-nos RESPONSABILIDADE. Essa responsabilidade não é só para com seres
humanos mas também para com os ANIMAIS e com o PLANETA, a quem também estamos
ligados. Ter noção de que o chão que pisamos é responsabilidade nossa é cada
vez mais fundamental.
§ Como a
LIBERDADE é um pilar da nossa existência (o outro será o AMOR) é preciso
aceitar que há quem não respeite nada disto. O que nos conduz à ideia de que,
sobre estes e outros assuntos, por mais que gostássemos que os outros mudassem
não nos compete a nós interferir na vida alheia. Há uma certa omnipotência
subjacente a isto. A única e a melhor forma de produzir mudança, é sermos nós a
mudar. Para que através da nossa esfera de influência possamos, talvez,
provocar alguma transformação. Pelo exemplo (amor) e não pela crítica/castigo
(guerra).
§ Obrigado
a todos aqueles que eu amo e que me amam (cada vez mais e melhor), que
enriqueceram o meu ano e que fizeram de mim uma pessoa mais atenta, mais grata,
mais genuína, mais afectuosa e mais presente, com o vosso exemplo e amor! Muita
Paz, muita Luz, Saúde e Amor. Feliz 2014!
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Ensaios/Rascunhos
Lembro-me agora de todas as bonecas a quem cortei o cabelo. Mais importante que os brinquedos, são as brincadeiras, ensaios da vida. A imaginação, a concretização e, quantas vezes, o arrependimento (lição aprendida: não se cortam cabelos de cabeça para baixo). Conviver com o brinquedo estragado, lidar com a zanga, elaborar o remorso, poder repará-lo ou aprender a gostar dele mesmo assim. Felizes os que estragaram brinquedos. A propósito de brinquedos, ou não, Feliz Natal!
Pedrinha (Dos brinquedos partidos)
Os pais, que se lamentam porque um brinquedo
foi escangalhado cometem um erro considerável, que demonstra a sua ignorância
acerca de um fenómeno importante: os bocados dos brinquedos escangalhados têm
ainda mais valor para a criança do que os brinquedos inteiros, são-lhe muito
úteis durante muito tempo.
in A
Criança e a Expressão Dramática (Entrevista de Françoise Dolto, psicanalista
de crianças)
sábado, 7 de dezembro de 2013
Não se diz ao triste que se alegre
João
dos Santos, mestre pedagogo, médico e psicanalista português do séc. XX, dizia
que “não há melhor remédio para a tristeza do que chorar”. No entanto, se
alguém chora junto de nós, com quanta facilidade dizemos “deixa lá, não chores”,
sem nos apercebermos como somos chatos quando não damos espaço para o outro
chorar. Mais do que chatos, somos pouco empáticos e mesmo desrespeitosos, pois
respeitar a tristeza de alguém implica aceitar esse sentimento, legitimá-lo e
permitir a sua expressão.
A
verdade é que quando dizemos a alguém para não chorar ou para não ficar triste,
fazemo-lo por nós e não pelo outro. Zangando-se, muitos pais ficam melindrados
ou sentidos com o choro dos seus filhos. Acham que lhes dão tudo do bom e do
melhor e que, assim sendo, eles não têm motivos para chorar, “esquecendo-se”
que todos temos tristezas incompreensíveis. Por vezes mandamos o outro não
chorar porque o choro nos é incómodo, desconfortável ou mesmo perfeitamente
insuportável, espelhando como é difícil suportar a tristeza e o desamparo de
alguém. Aceitar o choro do outro implica aceitar o sofrimento do outro e mais,
recorda-nos de sofrimentos muito nossos, que tantas vezes tentamos esquecer.
Contactar com as partes mais frágeis do outro é contactar também com as nossas,
e é aí, nesse lugar escuro, que pedimos, “não chores”.
É
que para além de não conseguir lidar com o outro que chora, muitos não podem ou
conseguem, eles próprios, chorar. Uns não choram porque nem se apercebem que
estão tristes, o que é algo ainda mais triste. É uma existência robotizada.
Outras pessoas sabem que estão tristes, mas aprenderam a esconder do mundo a
tristeza. Talvez porque em pequeninos ninguém lhes tenha dado liberdade de chorar.
Talvez alguém lhes tenha ensinado (fundamentalmente aos rapazes) que chorar é
sinal de fraqueza. Chorar é também uma questão cultural, mas quantas vezes a
cultura nos oprime e limita nos nossos instintos mais básicos e saudáveis?
Chorar é melhor do que qualquer antidepressivo. Chorar é catártico. Permite
libertar tensão, aliviando a angústia e pondo fora o sofrimento, ao invés de o
guardar cá dentro, como uma espécie de “dor de estimação”.
Como
dizia Luís de Camões, “pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para
ela, diz ao triste que se alegre”. Perante o choro de alguém, em vez de
conselhos, ofereça-se antes um colo ou um abraço, ainda que isso intensifique o
choro. Mais vale pôr para fora do que para dentro. Em psicoterapia, muitas
melhoras acontecem quando alguns pacientes se tornam capazes de chorar. Chorar
é aceitar a nossa humanidade e parar de fugir do sofrimento. Só não sofre quem
está morto.
domingo, 1 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Pedrinha (Do Medo)
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
domingo, 24 de novembro de 2013
Contos de Gente
Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o princípio e
fim de quase todos os contos de fadas que povoam o imaginário das crianças. É
inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a
sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os
afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a
vitória. Com eles aprendemos também a gerir emoções semelhantes às sentidas nos
enredos da vida real. São fundamentais, os contos de fadas.
O que é de pensar é que embora em todas estas histórias haja
sempre lugar para as desventuras e percalços, o final, no entanto, é sempre inquestionavelmente
feliz e nunca nenhum deles nos conta o que acontece depois. O “felizes para
sempre” é um momento estático, fechado, é a frase que não deixa espaço para
imaginar o que podia acontecer durante os 20 anos que se seguem, encerrando com
o fim do conto todas as angústias. E se quando somos pequenos, acreditar nos
desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente com esperança,
crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente
feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes
enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a
ser mais felizes. Crescer é poder tolerar a dúvida e aceitar que as certezas
pertencem a um mundo que não é humano nem real, mas sim tranquilizadoramente encantado,
pois cá fora a realidade é dinâmica e está sempre em movimento, envolvendo as
pessoas e as suas relações nessas oscilações.
Para lá dos contos de fadas, há no mundo adulto muita literatura
e cinema que assenta igualmente neste ideal de que no fim tudo está bem quando acaba
bem. Aliás, muitas pessoas não toleram uma história cujo final não inclua esse momento
“cor-de-rosa”. Porque aí há uma angústia que fica em aberto. Assim, percebemos
que a problemática dos contos de fadas não se limita às crianças nem aos
adolescentes. Quando falamos nessa fantasia infantil de não querer aceitar a
montanha-russa da nossa existência falamos também duma parte de todos nós,
adultos, que fica mais ou menos presa a um ideal de felicidade que nos
acompanha desde pequenos.
Viver é encarar com optimismo essa realidade que não é
eternamente nem estaticamente cor-de-rosa, aceitando que há muitos outros tons
que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, laranjas, azuis,
verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não
é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante, viva e
saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.
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terça-feira, 12 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Pedrinha (Dos Abraços)
"A duração média de um abraço entre duas pessoas é de 3
segundos. Mas os investigadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço
dura 20 segundos há um efeito terapêutico sobre o corpo e mente. A razão é que
um abraço sincero produz uma hormona chamada "oxitocina", também
conhecida como a hormona do amor. Esta substância tem muitos benefícios na
nossa saúde física e mental, ajuda-nos, entre outras coisas, para relaxar, a
sentir segurança e a acalmar os nossos medos e ansiedade. Este maravilhoso
calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa nos nossos
braços"
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