quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pedrinha (Do dito e do não-dito)


Nas relações intersubjetivas, as palavras não substituem nem alternam com as ações, mas fazem parte do reportório das ações. Nas relações interpessoais o que existe são trocas íntimas coloridas, ou trocas superficiais, em que a forma e o momento da troca são tanto ou mais importantes que a própria mensagem. Assim a mãe/pai que proclama um imenso amor pelo seu bebé, mas que - ao mesmo tempo - o mantém numa postura inapropriada, que não o olha e lhe fala num tom agressivo, evidencia no processo relacional duas ações contraditórias. Por um lado, na ação explícita declara que ama a sua criança, mas na ação não- verbal implícita exprime uma rejeição dessa mesma criança. A unidade mente/corpo e a relação implicam assim tanto os sentimentos e as emoções quanto as cognições, tanto os movimentos do corpo como as ações concretas. São assim os encontros intersubjetivos apreendidos na interface da teoria da relação, da neurociência e da biologia.


António Mendes Pedro

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O conflito de gerações


Há algum tempo a capa da revista Time apresentou-nos a “Me Me Me Generation”, categorizando a juventude actual como extremamente narcísica, individualista e egocêntrica. Rapidamente se instalou a polémica perante essa capa que correu o mundo. Em defesa dos jovens se diga que, por exemplo, é mais comum desenvolverem comportamentos pró-ambientais do que um indivíduo de 50 ou 60 anos. Sendo o planeta responsabilidade de todos, quem serão os mais individualistas? Há na juventude, claramente, narcisismo e egocentrismo o que é diferente de individualismo. É que os dois primeiros estão intimamente ligados ao processo de crescimento: narcisismo, porque a identidade própria está em construção e necessita de ser reafirmada; egocentrismo, porque a imaturidade torna difícil entender as coisas sob outros e diferentes pontos de vista que não o próprio. Mas individualismo, atitude de não se preocupar com os outros, será uma acusação injusta, pois se há coisa que caracteriza a adolescência é a sensibilidade social e a busca de justiça. Vendo bem, quantos adultos não são igualmente narcísicos e egocêntricos, tendo ficado suspensos no seu caminho de crescimento pessoal?
Acusações mediáticas à parte, há sempre tensão entre gerações. É com frequência que opiniões públicas ou privadas a denegrir as gerações mais novas se fazem ouvir. Porque se atacam tanto os jovens? Que os jovens possam criticar os “velhos” até se entende, já que são eles os “miúdos”, inexperientes e justiceiros, para quem é tão fácil apontar o dedo. Que os adultos respondam na mesma linguagem é que se torna mais difícil de entender, pois deveriam ter algum entendimento sobre o que ficou para trás. Será tão fácil esquecer o quanto as gerações sempre chocaram entre si? Será tão difícil lembrar como os jovens de antigamente também se diferenciaram dos seus pais? Tudo o que é diferente é estranho, mas não necessariamente mau. O futuro o dirá.

Todas as gerações são diferentes das gerações que as precederam. Se o mundo está em permanente transformação como poderia ser de outra maneira? A verdade é que o ser humano tem alguma dificuldade em responsabilizar-se pelo que acontece em seu redor mas somos nós quem define a direcção em que se move o mundo. Para falar sobre jovens, teremos de sempre de falar um pouco sobre quem foram os pais dos jovens e de que cultura de valores foi criada para eles, seja em que época for. Se não gostamos dos jovens que criámos teremos sempre de fazer um mea culpa sobre o mundo que construímos para eles.

Pedrinha (Dos afastamentos)


“De repente, ela pôs-se a falar e o que dizia não fazia nenhum sentido. Deixei-a falar e quando se silenciou novamente, perguntei-lhe o que é que me quisera dizer. Ela baixou o rosto e disse: “Não era nada mesmo. Falei qualquer coisa porque havia muita intimidade no silêncio. Falei para te afastar, para pôr uma distância entre nós.”

Ilustração Clínica (por Elsa Oliveira Dias)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pedrinha (Dos Bons Investimentos)


"A despesa envolvida na psicanálise é excessiva apenas na aparência. Inteiramente à parte do facto de nenhuma comparação ser possível entre a saúde e a eficiência restauradas, por um lado, e um moderado dispêndio financeiro por outro, quando adicionamos os custos incessantes das casas de saúde e do tratamento médico e contrastamo-los com o aumento de eficiência e de capacidade de ganhar a vida que resulta de uma análise inteiramente bem sucedida, temos o direito de dizer que os pacientes fizeram um bom negócio. Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez."


Freud em "Sobre o início do tratamento", 1913

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pedrinha (Dos tributos)


“João dos Santos defendia o sonhar e o pensar para se opor à administração indiscriminada de drogas, que apenas faziam bem aos calos e à queda do cabelo, como ironizava.

Maria José Vidigal (in João dos Santos e a Moderna Psiquiatria da Infância)

De pequenino se torce o pepino


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Fala-me de amor


O amor confunde-se. Confunde-se com tantas outras “coisas” sorrateiras. Ou melhor, as pessoas confundem o amor. É que há amores que não são mais do que uma ilusão desse sentimento, quando o que realmente sustenta a ligação são emoções de uma outra natureza e qualidade. Chamamos-lhe amor porque não sabemos que nome lhe dar. Chamamos-lhe amor, mas o engano não é por mal, somos guiados por convicção profunda de que amor será.
Mas em boa verdade não lhe posso chamar amor só porque me sinto tão especial ali, nesse recanto da vida de alguém. Não lhe posso chamar amor apenas porque quero/preciso ser amado quando no fim de contas amar pressupõe que, em primeiro lugar, amor é o meu olhar sobre o outro (que não vive sempre necessariamente na simetria do olhar que recai sobre mim). Não lhe posso chamar amor quando estou ali apenas porque quero/preciso de não me sentir só e porque um colinho sabe bem. Quando assim é, na demanda para colmatar uma falha original e respectiva fome de afecto, percebemos que afinal qualquer tampa pode servir na nossa panela desde que lá dentro fique quentinho e ferva. O amor será antes aquela única tampinha para a minha panela.
Também não podemos chamar-lhe amor quando andamos desesperados a tentar transformar alguém que “amamos” para nosso gáudio. É: “se isto, isto e isto mudasse, então eu seria feliz”. Se não amo um ser humano com tudo aquilo que faz dele único e especial, como posso falar de amor? É precisamente naquilo que nos distingue de todo e qualquer outro ser deste mundo que reside o amor. Nos pequenos detalhes, naquilo que frequentemente nem sequer se define ou explica, naquilo que é bom e particularmente naquilo que é menos bom. É amar o “pacote” inteiro. É o amar, muitas vezes, “apesar de”.
Se esse meu olhar de encanto, que distingue uma pessoa de milhões de outras pessoas, será ou não correspondido na mesma direcção e medida, isso é uma outra história. Porque para além de toda esta triagem de afectos, é ainda preciso encontrar do outro lado alguém que não esteja igualmente confundido e que não nos enrede em mais uma ilusão, chamando também amor a outra coisa qualquer muito parecida (jurando-o com pensamentos, palavras, actos e omissões).

Entretanto, em jeito de rodapé, se não der para desatar o nó da confusão, é melhor andar confundido do que não sentir absolutamente nada e não nos ligarmos a ninguém. Somos seres relacionais e, assim sendo, pior do que uma relação assente em confusão será deixar de acreditar/investir no amor e nas pessoas. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Verdade.


Pedrinha (Das aprendizagens fundamentais)

Fundamentalmente, para que a psicopatologia não progrida, deve ter-se aprendido: pelo exemplo, a perdoar; pela ternura, a amar; pela liberdade, a ser espontâneo; pela clareza de propósitos, a exigir a verdade; pelo entusiasmo, a desejar saber; pela alegria, a gostar de viver; pelo deslumbramento que desencadeou, a apreciar a beleza.


António Coimbra de Matos (in Mais Amor Menos Doença)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Os recomeços


Costuma dizer-se que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Que é isto que dá sentido às coisas, como se fosse o esqueleto que sustenta as histórias. É uma sequência temporal que se aplica a acções concretas como comer, dormir, tomar banho ou viajar, mas também a outras facetas mais complexas da vida como relações humanas, empregos e projectos vários. No limite, aplica-se à nossa própria vida.
Induzidos pelo ritmo exacto do relógio, já que o próprio dia tem princípio, meio e fim, sentimos que há um tempo para tudo, que ele está sempre presente. Os ponteiros correm apressados e fora do nosso controlo, marcando o início e o fim dos acontecimentos. E assim, no corre-corre do dia-a-dia, podemos facilmente entrar em piloto automático, fugindo à reflexão e perdendo oportunidades de virar à esquerda ou à direita em vez de seguir sempre em frente. É muito bom ter um foco e caminhar em direcção a ele (sem objectivos a nossa existência perderia o sentido) mas igualmente importante será não perder de vista o que se passa nas redondezas, tudo aquilo que pode estar por perto e ser ainda melhor.
De facto, cada dia o sol nasce e cada dia o sol se põe, sabendo nós, de antemão, que no dia seguinte o sol regressa sempre, trazendo consigo mais uma rodada de horas para nos oferecer. O próprio dia parece ensinar-nos também que tudo tem um princípio, um meio e um fim, mas olhando com mais atenção, percebemos que o que ele verdadeiramente nos ensina é que todos os dias podemos recomeçar. Os recomeços são momentos de oportunidade que podem surgir num qualquer momento de qualquer história e essa é a sua magia. A qualquer momento podemos reescrever tudo, podemos encontrar outros caminhos, outros sentidos e, começar de novo.
Os recomeços podem ser motivo de alegria ou de medo, mas serão sempre emocionantes. Porque o recomeço implica sempre alguma mudança, por mais pequena que seja. E a mudança faz-nos sentir vivos, embora sejamos frequentemente aversos a ela, persistindo no hábito e naquilo que nos é familiar. Chamamos-lhe a zona de conforto.
Face a tudo o que se passa em nosso redor, importa perceber que momentos de crise são também momentos de recomeço. Momentos de pensar novas possibilidades e construir algo diferente, mais apropriado ou proveitoso. Mário Quintana dizia que “a vida jamais continua, ela recomeça”. Quantos recomeços reconhecemos na nossa história? Eventualmente, nem todos os recomeços terão sido proveitosos, mas a boa notícia é que a possibilidade de recomeçar nunca acaba, podemos sempre recomeçar mais uma vez.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Reflexão de Fim de Ano

§  Este ano termina e estou mais apaixonada pela vida. Tinha conhecimento que vivíamos um momento de expansão da consciência mas saber é diferente de sentir. Só a experiência dá vida aos conceitos.

§  Não sei como será para o ano porque uma das coisas que me atingiu como um raio foi a noção de IMPERMANÊNCIA, de tudo aquilo que é hoje e que amanhã deixa de ser. Isto traz-nos ao momento presente, que se torna mais puro e melhor vivido ao conseguirmos um maior desprendimento do passado (o que doía ontem já não dói hoje) e maior confiança no futuro (o que dói hoje não irá doer amanhã). Tudo passa. A energia que desperdiçamos na angústia com aquilo que já lá vai e com aquilo que há-de vir é demasiada e faz muita falta para vivermos bem o presente. Como o nome indica, o presente é o momento de estarmos PRESENTES.

§  Essa impermanência das coisas leva-nos à constatação de que o que parece mau nem sempre é mau e de que o que parece bom nem sempre é bom. Sou levada a crer que a nossa existência talvez pressuponha realmente ser-se feliz enquanto cá estamos. Dizem por aí às vezes que a vida é feita para sofrer mas parece-me mais que o sofrimento é uma opção, ou seja, que depende da perspectiva do observador. No quotidiano, está a tornar-se mais fácil ver o lado bom das coisas aparentemente más e, por incrível que pareça, quanto mais se pratica isto mais faz sentido. Penso que a esta tendência para nos pacificarmos perante os obstáculos se pode chamar ACEITAÇÃO. Será tanto mais fácil quanto maior a confiança de que por trás de uma complicação pode estar uma bênção.

§   A aceitação anda de mãos dadas com a REFLEXÃO, porque para aceitar tenho que perceber que sou altamente responsável pelo que me acontece, e com a GRATIDÃO, pois se eu aceito que coisas menos boas me acontecem e que muitas vezes essas coisas são indicadoras de que algo melhor está a caminho, torno-me uma pessoa mais grata por tudo o que gira em meu redor. O inverso disto será praguejar, culpar os outros ou sentir-me uma vítima do Universo e creio que este é um terreno pantanoso de onde dificilmente se sai. 

§  A aceitação, a reflexão e a gratidão só podem germinar num pensamento FLEXÍVEL, capaz de questionar o mundo (interno e externo) e de aceitar perspectivas divergentes e hipóteses que nos ultrapassem. Flexibilidade dos conceitos e das ideias. Certezas absolutas são para deitar fora. Conviver com a dúvida é fundamental (já que a impermanência existe) e para isso precisamos de ser plásticos. A rigidez torna-nos duros, por vezes implacáveis, connosco e com os outros.

§   A flexibilidade ajuda-nos a ver as coisas como um FLUXO contínuo, não dicotomizando nem polarizando (bom e mau, certo e errado, feliz e infeliz, passado e futuro). Essa perspectiva permite-nos maior capacidade de integração das partes no todo. Todo o passado conduz ao presente e ao futuro. Tudo o que faço hoje se reflecte amanhã. Tudo o que dou agora receberei depois (e tudo o que não dou naturalmente não receberei). Todo o meu passado me conduziu à pessoa que sou e me encaminha para a pessoa que serei. A existência é um continuum.

§  Se o Universo funciona num continuum podemos dizer que, enquanto indivíduos, estamos todos ligados. É por isso que a UNIÃO e a COOPERAÇÃO devem prevalecer sobre a competição. Porque todos juntos temos mais força do que separados. Esta UNIÃO só pode acontecer se não se basear na dependência. Para haver verdadeira cooperação todos os indivíduos devem possuir AUTONOMIA (fundamentalmente emocional pois o resto vem por acréscimo). Caso contrário, uns sugam os outros e numa relação parasita/hospedeiro nada se cria, tudo se consome.

§  Para além da questão da força/energia colectiva, importa pensar que se estamos todos ligados aquilo que eu sou e que eu faço influencia aqueles que se relacionam comigo. Temos uma esfera de influência em nosso redor e essa consciência traz-nos RESPONSABILIDADE. Essa responsabilidade não é só para com seres humanos mas também para com os ANIMAIS e com o PLANETA, a quem também estamos ligados. Ter noção de que o chão que pisamos é responsabilidade nossa é cada vez mais fundamental.

§  Como a LIBERDADE é um pilar da nossa existência (o outro será o AMOR) é preciso aceitar que há quem não respeite nada disto. O que nos conduz à ideia de que, sobre estes e outros assuntos, por mais que gostássemos que os outros mudassem não nos compete a nós interferir na vida alheia. Há uma certa omnipotência subjacente a isto. A única e a melhor forma de produzir mudança, é sermos nós a mudar. Para que através da nossa esfera de influência possamos, talvez, provocar alguma transformação. Pelo exemplo (amor) e não pela crítica/castigo (guerra).


§   Obrigado a todos aqueles que eu amo e que me amam (cada vez mais e melhor), que enriqueceram o meu ano e que fizeram de mim uma pessoa mais atenta, mais grata, mais genuína, mais afectuosa e mais presente, com o vosso exemplo e amor! Muita Paz, muita Luz, Saúde e Amor. Feliz 2014!

Welcome 2014!



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ensaios/Rascunhos

Lembro-me agora de todas as bonecas a quem cortei o cabelo. Mais importante que os brinquedos, são as brincadeiras, ensaios da vida. A imaginação, a concretização e, quantas vezes, o arrependimento (lição aprendida: não se cortam cabelos de cabeça para baixo). Conviver com o brinquedo estragado, lidar com a zanga, elaborar o remorso, poder repará-lo ou aprender a gostar dele mesmo assim. Felizes os que estragaram brinquedos. A propósito de brinquedos, ou não, Feliz Natal!

Pedrinha (Dos brinquedos partidos)


Os pais, que se lamentam porque um brinquedo foi escangalhado cometem um erro considerável, que demonstra a sua ignorância acerca de um fenómeno importante: os bocados dos brinquedos escangalhados têm ainda mais valor para a criança do que os brinquedos inteiros, são-lhe muito úteis durante muito tempo.


in A Criança e a Expressão Dramática (Entrevista de Françoise Dolto, psicanalista de crianças)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Não se diz ao triste que se alegre


João dos Santos, mestre pedagogo, médico e psicanalista português do séc. XX, dizia que “não há melhor remédio para a tristeza do que chorar”. No entanto, se alguém chora junto de nós, com quanta facilidade dizemos “deixa lá, não chores”, sem nos apercebermos como somos chatos quando não damos espaço para o outro chorar. Mais do que chatos, somos pouco empáticos e mesmo desrespeitosos, pois respeitar a tristeza de alguém implica aceitar esse sentimento, legitimá-lo e permitir a sua expressão.
A verdade é que quando dizemos a alguém para não chorar ou para não ficar triste, fazemo-lo por nós e não pelo outro. Zangando-se, muitos pais ficam melindrados ou sentidos com o choro dos seus filhos. Acham que lhes dão tudo do bom e do melhor e que, assim sendo, eles não têm motivos para chorar, “esquecendo-se” que todos temos tristezas incompreensíveis. Por vezes mandamos o outro não chorar porque o choro nos é incómodo, desconfortável ou mesmo perfeitamente insuportável, espelhando como é difícil suportar a tristeza e o desamparo de alguém. Aceitar o choro do outro implica aceitar o sofrimento do outro e mais, recorda-nos de sofrimentos muito nossos, que tantas vezes tentamos esquecer. Contactar com as partes mais frágeis do outro é contactar também com as nossas, e é aí, nesse lugar escuro, que pedimos, “não chores”.
É que para além de não conseguir lidar com o outro que chora, muitos não podem ou conseguem, eles próprios, chorar. Uns não choram porque nem se apercebem que estão tristes, o que é algo ainda mais triste. É uma existência robotizada. Outras pessoas sabem que estão tristes, mas aprenderam a esconder do mundo a tristeza. Talvez porque em pequeninos ninguém lhes tenha dado liberdade de chorar. Talvez alguém lhes tenha ensinado (fundamentalmente aos rapazes) que chorar é sinal de fraqueza. Chorar é também uma questão cultural, mas quantas vezes a cultura nos oprime e limita nos nossos instintos mais básicos e saudáveis? Chorar é melhor do que qualquer antidepressivo. Chorar é catártico. Permite libertar tensão, aliviando a angústia e pondo fora o sofrimento, ao invés de o guardar cá dentro, como uma espécie de “dor de estimação”.

Como dizia Luís de Camões, “pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre”. Perante o choro de alguém, em vez de conselhos, ofereça-se antes um colo ou um abraço, ainda que isso intensifique o choro. Mais vale pôr para fora do que para dentro. Em psicoterapia, muitas melhoras acontecem quando alguns pacientes se tornam capazes de chorar. Chorar é aceitar a nossa humanidade e parar de fugir do sofrimento. Só não sofre quem está morto. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pedrinha (Do Medo)


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)

domingo, 24 de novembro de 2013

Ainda sobre a realidade...

... porque na realidade o óptimo é frequentemente inimigo do bom.

Contos de Gente


Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o princípio e fim de quase todos os contos de fadas que povoam o imaginário das crianças. É inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a vitória. Com eles aprendemos também a gerir emoções semelhantes às sentidas nos enredos da vida real. São fundamentais, os contos de fadas.
O que é de pensar é que embora em todas estas histórias haja sempre lugar para as desventuras e percalços, o final, no entanto, é sempre inquestionavelmente feliz e nunca nenhum deles nos conta o que acontece depois. O “felizes para sempre” é um momento estático, fechado, é a frase que não deixa espaço para imaginar o que podia acontecer durante os 20 anos que se seguem, encerrando com o fim do conto todas as angústias. E se quando somos pequenos, acreditar nos desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente com esperança, crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a ser mais felizes. Crescer é poder tolerar a dúvida e aceitar que as certezas pertencem a um mundo que não é humano nem real, mas sim tranquilizadoramente encantado, pois cá fora a realidade é dinâmica e está sempre em movimento, envolvendo as pessoas e as suas relações nessas oscilações.
Para lá dos contos de fadas, há no mundo adulto muita literatura e cinema que assenta igualmente neste ideal de que no fim tudo está bem quando acaba bem. Aliás, muitas pessoas não toleram uma história cujo final não inclua esse momento “cor-de-rosa”. Porque aí há uma angústia que fica em aberto. Assim, percebemos que a problemática dos contos de fadas não se limita às crianças nem aos adolescentes. Quando falamos nessa fantasia infantil de não querer aceitar a montanha-russa da nossa existência falamos também duma parte de todos nós, adultos, que fica mais ou menos presa a um ideal de felicidade que nos acompanha desde pequenos.
Viver é encarar com optimismo essa realidade que não é eternamente nem estaticamente cor-de-rosa, aceitando que há muitos outros tons que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, laranjas, azuis, verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante, viva e saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dos abraços fortes


Pedrinha (Dos Abraços)

"A duração média de um abraço entre duas pessoas é de 3 segundos. Mas os investigadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço dura 20 segundos há um efeito terapêutico sobre o corpo e mente. A razão é que um abraço sincero produz uma hormona chamada "oxitocina", também conhecida como a hormona do amor. Esta substância tem muitos benefícios na nossa saúde física e mental, ajuda-nos, entre outras coisas, para relaxar, a sentir segurança e a acalmar os nossos medos e ansiedade. Este maravilhoso calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa nos nossos braços" 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Pedrinha (Da Liberdade de Ser)


“A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei (...) Não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (…). Isso é o que uma psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”.


Françoise Giroud

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Elogio à Consciência dos Momentos Felizes


"Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde, identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim. A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É essa a minha sorte."


José Luís Peixoto in Breve partilha da minha sorte infinita

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Impulsividade



Como uma espécie de relâmpago emocional, todos possuímos e sentimos impulsos. O que varia é a luminosidade do relâmpago, isto é, o grau em que nos invade o pensamento, e o barulho do trovão subsequente, ou seja, a capacidade de conter/controlar esses impulsos.
Ser impulsivo é um funcionamento psicológico mais associado à infância ou à adolescência mas tornou-se uma característica relativamente aceite na idade adulta, muito em parte porque se encontra erradamente associada a uma personalidade forte. Assim, confunde-se frequentemente impulsividade com autenticidade ou mesmo com energia/entusiasmo quando podemos ser genuínos e activos sem sermos impulsivos (ou seja, emocionalmente reactivos). O comportamento impulsivo denuncia uma dificuldade em tolerar os conflitos internos, nomeadamente, afectos mais incómodos e desagradáveis como a ansiedade (ou medo), a frustração ou a raiva. Perante estas emoções, sem uma necessária “digestão” das mesmas (por falta de estrutura psicológica) ou das situações que as despoletam, agimos impulsivamente. Outras vezes, pouco tolerantes à dúvida ou à espera (de novo, nada mais que a ansiedade), agimos, seja por palavras não pensadas, seja num comportamento irreflectido.
Quando há uma maior possibilidade de introspecção, isto é, de pensar analiticamente sobre as coisas (as nossas, as dos outros ou as do mundo) torna-se possível funcionar mais ponderadamente. Pensar implica primeiro conter dentro de nós algumas emoções mais difíceis (durante maior ou menor quantidade de tempo) e depois analisá-las e resolve-las internamente sem descarregar imediatamente os impulsos no exterior (muitas vezes em cima dos outros).
Seres impulsivos por natureza, os animais, esses sim, regem-se por instintos vários, mas o Homem é um ser fundamentalmente reflexivo, o que pressupõe essa dita capacidade de pensar sobre as coisas. No entanto, nem sempre acontece e tudo o que é então demasiado difícil de ser guardado e pensado dentro de nós (conflitos, dilemas, receios) é agido. Olhando em redor, nesta época de brandos costumes, dominada pelos impulsos imediatos ou compulsões, segundo uma apologia consumista “daquilo que não pode ficar para depois”, as pessoas agem muito e pensam pouco. Não se pretende ignorar que alguns impulsos humanos conferem cor e sabor à história de alguém e à história da Humanidade mas a dificuldade que aqui se realça diz respeito ao funcionamento sistematicamente (estruturalmente) impulsivo, que nos leva frequentemente pelo caminho errado e, não raras vezes, longe de mais. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Eu, o Tu e o Nós



Quando crescemos em ambientes de pouca afectividade ou fomos insuficientemente cuidados, tendemos a crescer “coxos”, ou seja, fica a faltar-nos uma estrutura de confiança e amor-próprio suficientes para sermos emocionalmente autónomos. Como consequência, facilmente procuraremos alguém que cuide de nós enquanto adultos, ainda que este movimento seja inconsciente. Por vezes, se o dano for ligeiro, pode encontrar-se um parceiro suficientemente saudável que nos permita sarar quase espontaneamente as falhas das nossas relações precoces. Porém, se o dano for profundo, não só ninguém poderá reparar o que está para trás (nem tem essa obrigação) como nós próprios seremos obstáculo ao bom funcionamento da relação, consoante a sofreguidão com que nos grudamos ao outro.
É vulgar encontrar relações em que um elemento funciona como pai/mãe/bengala/penso-rápido (e por aí fora) do outro. E há muito frequentemente confusão entre isso e algo muito belo (e bem diferente) que se chama “amor”. Podemos então falar de dependência emocional, definindo-a como um padrão persistente de necessidades emocionais insatisfeitas que se tentam suprir de uma forma desadaptada com outras pessoas. Quando precisamos do parceiro para nos sentirmos um ser humano completo, quando toda a nossa vida gira em função de uma relação amorosa, quando não há nada no mundo que mais importe do que isso, é preciso parar para pensar. É aquilo que se entende por um amor fusionado, em que não se percebe onde começa um nem onde acaba o outro. Comunhão, sim, fusão, não.

O que é ser emocionalmente autónomo? Não é não precisar de ninguém pois isso não existe. O ser humano é um ser relacional e a escolha de um parceiro faz parte da condição humana, o lugar onde se coloca o parceiro é que é digno de análise. A relação mais saudável é aquela em que duas pessoas adultas se sentem, per si, completas, mas que, quando se juntam, se transbordam mutuamente e criam algo novo. É poder existir no mundo independentemente da presença constante de alguém ao meu lado. É poder funcionar no dia-a-dia com entusiasmo e confiança mesmo quando estou sozinho. É amar-me. É possuir uma existência, personalidade, vontade, gostos e ideais próprios, e respeitá-los, assim como respeitar/aceitar genuinamente que o meu parceiro possa ser diferente de mim em todos estes aspectos. É permitir que a relação seja um sistema aberto e nunca um sistema fechado sobre si mesmo (senão a relação satura e, sem oxigénio, morre). É existir um Eu, reconhecer um Tu (diferente e separado do Eu), e sentir o Nós como o produto da soma de ambos. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Pedrinha (em dia de eleições)

É um mundo deprimido, sem chama nas almas, que impõe/nos impõe lutar pelo progresso – social, individual, do conhecimento e da ventura – e pela transformação num mundo em que seja possível voltar a sonhar com o futuro.
Progresso económico, sim, mas em liberdade, justiça e distribuição.
Com liberdade, continuaremos a caminhada – do progresso e pelo progresso. Porque jamais – assim o queremos, assim o determinamos – nos deixaremos amordaçar! O silêncio conduz à morte da liberdade.


António Coimbra de Matos 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pedrinha (Da Terapia do Terapeuta)


Nunca me canso de dizer aos jovens terapeutas que a sua ferramenta mais vital são eles próprios, e que, consequentemente, o instrumento tem de estar primorosamente afinado. Os terapeutas necessitam de ter um grande autoconhecimento, de confiar nas suas observações e obrigatoriamente relacionarem-se com os seus clientes de uma maneira atenciosa e profissional. É precisamente por esta razão que a terapia pessoal está (ou deveria estar) na base de todos os programas de ensino terapêutico. Não só acredito que os terapeutas deveriam ter anos de terapia pessoal enquanto se formam, como ainda voltar à terapia à medida que vão evoluindo na vida; à medida que se sentir mais confiante enquanto terapeuta, e quanto mais acreditar nas suas observações e na sua objectividade, mais livre se sentirá para usar, com segurança, os sentimentos que os seus pacientes lhe suscitam.


Irvin D. Yalom in De Olhos Fixos no Sol

domingo, 22 de setembro de 2013

Pedrinha (Do dizer que não)

(…) E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade. 

Virgílio Ferreira


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pedrinha (Da Humanidade)

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana"

Carl Jung

Manifesto


No exercício da parentalidade, todos os dias se encontram histórias de papéis invertidos, trocados ou confundidos entre pais e filhos. São histórias de fronteiras mal definidas entre os lugares de cada um e que boicotam infâncias, embora sem intenção. Nem sempre o equilíbrio familiar é conseguido e a confusão inicia-se, cresce e invade as crianças, surgindo as dificuldades de autonomização e bom desenvolvimento.
Um dos sintomas deste caos familiar é a incapacidade de alguns adultos/pais de se separarem dos seus próprios filhos e a inexistência de fronteiras claras (banhos comuns, camas comuns, falta de privacidade ou intimidade). A obrigatoriedade de partilhar tudo em família, sejam segredos, interesses ou ideologias, amputa a individualidade fundamental de qualquer criança/adolescente. Outro sintoma do caos é quando os pais carregam os seus filhos com confidências e desabafos permanentes, procurando um “colo” para as suas angústias naqueles que deviam estar a recebê-lo. Outro sintoma, ainda, quando pais pretendem ser os “melhores amigos” dos seus filhos em vez de serem apenas aquilo que lhes compete e lhes é pedido, serem pais. Se certas crianças pudessem comunicar sobre aquilo que as rodeia, redigiriam um manuscrito que seria seguramente parecido com isto:

“Pais e Crescidos:

Na descoberta de nós próprios muitas vezes somos confundidos. A individualização é um caminho básico para o bom desenvolvimento: 1) Não queremos partilhar todos os nossos segredos convosco como se fossem os nossos melhores amigos e não queremos igualmente saber dos vossos segredos, fardos ou intimidades. Pai é pai, mãe é mãe, amigo é amigo e “cada macaco no seu galho”; 2) Não nos usem para preencher vazios conjugais. Não podemos nem queremos preencher o lugar do pai ou da mãe e não se iludam pensando que não damos conta; 3) Não nos usem para repetir “abandonos” a que foram sujeitos e não nos usem para descarregar as vossas zangas, frustrações e ansiedades; 4) Se não são suficientemente capazes de tomar conta de vós próprios não deviam tomar conta de mais ninguém, não conseguimos dar-vos o colo que os vossos pais não vos deram nem salvar-vos dos vossos abismos; 5) Precisamos muito de vocês e não podem ser vocês a precisar muito de nós. NOTA: Em boa verdade quando estamos todos misturados dá-nos a ilusão de protecção eterna e até gostaríamos de dormir para sempre no vosso quentinho mas sabemos que nem sempre os nossos desejos são adequados, porque somos pequeninos e, por isso, os bons pais ajudam-nos a separar devagarinho a fantasia da realidade. Não queremos com isto dizer que não façam o melhor que podem ou que sabem. Mas como diz o ditado, de boas intenções está o Inferno cheio.

Obrigado,


As Vossas Crianças.” 

sábado, 1 de junho de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

Quem pensas que enganas?

Procuramos frequentemente esconder os nossos afectos e emoções. Ocultamos a irritação, disfarçamos a desilusão, camuflamos o ciúme e mascaramos o medo. Escondemos a tristeza, a raiva e mesmo o amor. Por vezes, conscientemente, outras, sem sequer nos apercebermos desse conflito inevitável entre o que sentimos cá dentro e o que queremos (ou que não queremos) passar para fora.
Fazemo-lo por tantos motivos! Pode ser para seguirmos o “politicamente correcto” ou porque não queremos admitir as nossas fragilidades. Porque não queremos criar conflitos ou magoar alguém. Fazemo-lo porque, racionalmente, achamos que não temos legitimidade para sentir certas coisas, ou porque queremos esconder de nós próprios o que sentimos. Não importa aqui o porquê mas importa sobretudo perceber que normalmente falhamos redondamente na nossa intenção de camuflar os nossos afectos. É que os seres humanos são excelentes detectores de “mentiras afectivas” uns nos outros.
Para enganar (ou outro ou a nós próprios) usamos as palavras. Por trás das palavras, usamos racionalizações (raciocínios lógicos). Uma mãe diz que respeita muito a liberdade do seu filho mas de cada vez que ele lhe omite algo íntimo fica sentida por ser posta de lado. Um homem chega a casa e conta que ficou desempregado, ao que a sua mulher responde que tudo se irá resolver mas nos seus gestos seguintes revela todo o medo, ansiedade e falta de confiança no marido. Um filho apresenta um teste com uma nota mais baixa que o costume e a sua mãe diz que não tem importância e que acontece aos melhores mas nos seus olhos está espelhado o desapontamento. Um pai pergunta ao filho como correu o seu dia mas depois, na verdade, não presta a mínima atenção ao que o filho conta quando chega da escola. Em todas estas cenas há uma coisa que é dita e uma outra diferente que é percebida e sentida na relação.
As palavras contêm um significado objectivo e são uma arma de argumentação poderosa nas relações. Só que há algo muito especial e subjectivo nos seres humanos que é mais poderoso do que as palavras: os afectos. Na relação com os outros, essa nossa subjectividade dança com a subjectividade do outro e descobrem-se mutuamente. Chamamos a isto a intersubjectividade na relação, ou seja, “eu sinto o que tu sentes e tu sentes o que eu sinto”.

Há quem esconda bem os afectos. Com mecanismos de defesa muito sólidos. E, por outro lado, também há quem tenha muito pouca capacidade de ler o outro para lá dessas barreiras. Tristeza das tristezas é não vivermos essas danças a dois por não estarmos verdadeiramente em relação com o outro. Numa relação sem comunhão afectiva ficaremos meramente restringidos à troca de palavras, passando-nos ao lado os afectos escondidos e deixando escapar as nuances mais belas das relações humanas.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

A construção da identidade


Não se nasce com uma identidade estática e definida. Parte-se de uma identidade biológica mas não é, contudo, isso que nos limita, na medida em que o nosso programa genético é plástico e permite-nos seguir inúmeras direcções. A construção da identidade é um processo dinâmico e pessoal, cuja base assenta nas primeiras relações afectivas que nos rodeiam mas também no meio sociocultural em que nos inserimos. Como tudo começa?
Durante os primeiros 18 meses de vida, dá-se aquilo a que se chama a identificação imagóico-imagética. O bebé identifica-se com a imagem que os outros significativos lhe reconhecem e lhe transmitem. É uma identificação em espelho: “eu sou aquilo que acham/dizem que eu sou e serei”. Pode originar um desenvolvimento saudável ou, inversamente, patológico, pois o bebé sente e assimila sentimentos, expectativas, crenças, medos e desejos (mesmo os mais inconscientes ou mesmo os mais indesejáveis) que encontra junto daqueles que o cuidam (ou descuidam). Pensa-se que seja a fase mais fundamental para a construção de uma identidade própria.
Entre os 18 e os 30 meses, a construção da identidade passa por um processo de identificação idiomórfica, ou seja, identificamo-nos à nossa própria forma. Por auto-observação. Olhamo-nos e olhamos também para o outro que será mais parecido ou mais diferente de nós, estabelecendo comparações. Começamos a reconhecer-nos como alguém e a percebermo-nos. Nasce também uma identidade sexuada onde percebemos que somos menina ou menino e as diferenças de género subjacentes.
Posto isto, entre os 3 e os 6 anos, numa terceira fase chamada identificação alotriomórfica, a criança passa a identificar-se a um modelo, um objecto de eleição ao qual procura assemelhar-se, alguém que admira e ama. Copia o que vê o seu modelo fazer, pensar, agir, sentir e comunicar. Para o bem e para o mal. Há modelos piores e modelos melhores. Mas importa dizer que mesmo os melhores modelos não serão bons se não nos ajudarem a encontrar o nosso próprio estar e o nosso próprio sentir. Pobre daquele que é apenas uma cópia do outro.
Assim, pensar que a identidade só está estabelecida na idade adulta é um engano, pois as bases começam muito antes. Contudo, certamente que este processo é uma construção contínua, do início ao fim, e as nossas experiências de vida continuarão sempre a moldar-nos. Por isso, aceitar tacitamente que somos produto do que vivemos não será também caminho pois não nos podemos subtrair à responsabilidade que temos nas escolhas que fazemos. A construção de uma identidade será, sobretudo, uma criação própria. Temos capacidade de reflectir e transformar e, como disse um dia Ray Charles, somos os nossos próprios engenheiros.

Nota: Baseado no modelo de construção de identidade de António Coimbra de Matos

Domingo à Janela


quinta-feira, 14 de março de 2013

Existir


Para encontrar a saída siga as indicações.

Pedrinha (Do Tactear)


“É mesmo essencial, para o seu equilíbrio psíquico e para a salutar expansão  da sua personalidade, que o adolescente possa tactear ou encetar vários caminhos antes de verdadeiramente escolher o que melhor corresponde à sua maneira de ser, de sentir o mundo e de perspectivar o futuro. Não lho permitir será amputá-lo para todo o sempre nas suas potencialidades evolutivas.”

António Coimbra de Matos