Caríssimos, boa tarde!
É com muita alegria que informo que a partir desta semana começarei também a dar consultas (Psicoterapia/ Psicologia Clínica) no coração de Lisboa, que é um coração muito grande e me acolheu com muito carinho. O consultório está situado na Rua Joaquim António de Aguiar (entre Amoreiras e Marquês de Pombal).
Para mais informações, enviar email (s_pracana@hotmail.com) ou comunicar para número na secção dos contactos (acima).
S.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
terça-feira, 27 de maio de 2014
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Encontros a meio caminho
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segunda-feira, 19 de maio de 2014
Uma Psicanálise do Encontro Educativo
“O diálogo que me foi
construindo como profissional, assente numa dupla filiação em Psicanálise e
Educação, devo-o certamente a João dos Santos e aos momentos em que nas salas
da Universidade, ainda na Pinheiro Chagas, nos encontrávamos com ele, uns com
os outros e com a Psicologia. Nesses encontros João dos Santos fazia entrar sem
cerimónia o mundo grande, a complexidade e o enigma, a cultura e a educação, a
escola e a infância, a pedagogia e a terapia, a psicanálise e a importância de
nos questionarmos a nós próprios.
É uma
curiosa e feliz coincidência que o ano de nascimento de João dos Santos (1913)
seja o ano em que Sigmund Freud publicava o seu trabalho “O interesse
da Psicanálise”, apontando nesse magnífico texto o denominador comum entre
a Psicanálise e a Educação: o facto de ambas reconhecerem a importância
decisiva da infância na evolução do homem. Escreve então : ” A
Psicanálise viu-se obrigada a fazer derivar a vida psíquica do adulto da vida
psíquica da criança e a tomar a sério o adágio popular de que a criança é o pai
do homem. Estudou a continuidade da psique infantil no adulto, identificou as
transformações e as mudanças que se cumprem nesse caminho e encontrou a confirmação
do que já havíamos frequentemente pressentido: a extraordinária importância,
para todo o curso ulterior da vida do homem, das suas experiências infantis e
em particular das que ocorrem nos primeiros anos da infância (…) A contribuição
principal da Psicanálise para a educação é o reconhecimento da importância da
Infância”.
É também
neste texto de 1913 que podemos ler: «O maior interesse da Psicanálise
para a Ciência da Educação funda-se sobre um enunciado que se tornou evidente,
o de que não pode ser educador senão aquele que pode sentir do interior a vida
psíquica infantil e quando nós, adultos, não compreendemos as crianças é porque
deixámos de compreender a nossa própria infância».
Como que
respondendo a este desafio, João dos Santos, psicanalista e pedagogo, pioneiro
do diálogo entre a Psicanálise e a Educação em Portugal, torna o enunciado
freudiano o fundamento da sua obra convidando cada adulto e nele cada educador
a encontrar-se com a criança que guarda dentro de si para que, sentindo
do interior a vida psíquica infantil, possa encontrar-se com a
criança e educar… Educar, é oferecer-se como modelo (JS).
Educação
designa simultaneamente um processo e o resultado desse processo. O processo
consiste num trabalho de formação pelo qual a criança é chamada a desenvolver
as faculdades que a definem como ser humano e o produto deste trabalho de
formação, a bem dizer interminável, é a realização no sujeito das
características constituivas dessa humanidade. Sabemos que o processo educativo
implica um campo de influências múltiplas e recíprocas entre adultos – pais,
professores, educadores – crianças e adolescentes e que o caminho da educação é
pontuado por encontros que vão permitindo a construção do ser e o seu
desenvolvimento. No coração do desenvolvimento está a relação. A complexidade
desta relação é tal que é difícil de dizer o que nela age e o que ela
transforma, mas que é da ordem do encontro, parece indubitável. E se é bem
verdade que todo o encontro humano é um enigma, não temos hoje qualquer dúvida
de que os agentes de transformação são as pessoas e não as estruturas. No
coração do desenvolvimento está a relação e é também a relação que está
no coração do encontro educativo: “Só se educa quando uma relação
humana se estabelece, se desenvolve e se confirma na intimidade de cada uma da
crianças e adultos em presença” (JS).
Marcel
Postic no seu livro A relação pedagógica esclarece: “A
relação pedagógica torna-se educativa quando em vez de se reduzir à transmissão
do saber, compromete as pessoas em presença num encontro onde cada um descobre
o outro e se vê a si mesmo e onde começa uma aventura humana pela qual o adulto
vai nascer na criança. João dos Santos não se cansa de o lembrar: “Educar
é basicamente estabelecer uma relação, a relação implica que o objeto de amor
seja investido. Aquele que faz o primeiro movimento deve ter disponibilidade
para receber as descargas afetivas no esboço de comunicação que se estabelece.
A comunicação define-se como energia que passa num certo sentido e no sentido
inverso (…) “A pedagogia e a didática funcionam melhor quando são instrumentos
de comunicação reciproca”(…). No plano pré-educativo da relação básica, como no
plano da educação, a relação deve ser entendida como uma disponibilidade
afetiva para dar e receber amor terno e amor agressivo” (JS).
Parece-me
que a formação de educadores e professores dever dar uma prioridade absoluta à
relação pedagógica, pois que o trabalho educativo é essencialmente um trabalho
de ligação. É um trabalho que se inicia sempre por uma ligação humana, a partir
da qual se torna possível levar o aluno a estabelecer ligações com os objectos
mais distantes que constituem a cultura e os saberes. Toda a relação é sustentada
e animada por processos de identificação recíproca ou mútua e o encontro educativo
não foge a esta regra: ao desejo de apropriação por parte do educando tem que
corresponder um desejo de dádiva do educador. O educador/professor oferece-se
como objeto desejável de aprendizagem e o educando como objeto desejável de
educar. “O encontro não é só obra do acaso, é também obra da disponibilidade
recíproca daqueles que se encontram. O encontro depende da convicção do que de
perene existe nos nossos semelhantes” (JS).
Na relação com os outros, mesmo que
mediada pela transmissão de um conhecimento, como é o caso da escola, não
estamos nunca desimplicados, estamos com a nossa história, feita a nossa
pessoa. Cada um de nós sabe-o, sentiu-o, experimentou-o. Basta que evoquemos o
nosso passado escolar para que surja toda a gama de sentimentos que tecem a
relação com a aprendizagem: angústias e alegrias, entusiasmos e deceções,
proximidade e afastamento, adesões e ruturas. A escola está em cada momento e
em cada sala cheia de fenómenos afetivos, de narrativas de vida silenciosas,
que uns e outros contam, escutam e às quais respondem. Cada momento de
ensino/aprendizagem é a história de um encontro, mais ou menos conseguido,
entre um professor, um aluno e um saber. Cada actor em cena quando convoca o
saber, convoca igualmente em cada um dos seus actos toda a sua pessoa, uma
história de vida e um projecto de vida, melhor ou pior sucedidos, uma memória implícita,
activa, representações, sentimentos, valores, uma ideia de humano, de criança,
de adulto, uma ideia de crescimento, uma ideia de aprendizagem, expectativas,
dúvidas, paixões, violências, desilusões, sucessos e frustrações, desejos de
reconhecimento, pulsões construtivas mas igualmente pulsões destrutivas de
domínio e de controlo. Uma tal implicação é em si mesma constitutiva do
encontro e, sendo inevitável, longe de ser inoportuna é mesmo útil e desejável.
Não encontramos os outros e os outros não se encontrarão connosco senão através
da nossa presença e autenticidade.
“Não
existe, nem creio que alguma vez exista, uma forma exata de educar, pois que a
sociedade está constantemente a evoluir e a sua própria evolução implica a
negação pela juventude da validade dos princípios educativos imposta pelos
antecessores. Não existem educadores perfeitos, e quando há pretensos
educadores perfeitos, os seus produtos são casos patológicos” pensava
João dos Santos, e tudo quanto aconselhava, no estado atual dos nossos
conhecimentos, precisava, era que “cada um eduque com verdade e
espontaneamente e que os educadores sejam personagens reais e não autómatos
eruditos e sofisticados (…) Se a educação pode ser encarada como um fenómeno
cultural que orienta o diálogo com o educando e os outros educadores, a ação
educativa deve sempre basear-se na relação espontânea, afetiva e instintiva
pois que quem educa são as personagens verdadeiras e não as figuras ideais. Não
se educa com teorias mas com princípios e preconceitos adquiridos na
experiência e no convívio familiar e comunitário, não sendo a educação uma
matéria que se ensine, mas fundamentalmente uma atitude que reflete o confronto
entre as vivências do educando que fomos com o educador que pretendemos ser” (JS).
Que
educadores pretendemos ser?
Escolhermos
ocupar-nos de crianças ou jovens é reencontrar a nossa própria infância e
juventude. Mesmo que não guardemos recordações conscientes, não deixamos
de ser menos habitados por essas idades pois foi lá que nascemos para para a
relação, para a percepção de nós e dos outros. Cada educador revive e transpõe
afetos e sentimentos com origem em lugares do seu passado (mas nem por isso
menos presentes e atuantes no seu mundo interno) para os lugares e relações do
presente e também para a sua relação com o conhecimento e com cada um dos seus
educandos, dos seus alunos. Este é um dos maiores contributos da Psicanálise
para as Ciências da Educação e aquele que João dos Santos, como psicanalista do
encontro educativo, permanentemente nos lembra. Em cada uma das suas histórias
– contador de histórias como gostava de se apelidar – fala-nos deste Outro em
nós, desta nossa parte de enigma, irracional e secreta “Toda a pessoa
guarda um segredo e o segredo do homem é a própria Infância” eda sua
influência nas relações que estabelecemos. Este Outro, dimensão Inconsciente na
terminologia psicanalítica, é o que nos move, o que permanentemente nos escapa
e o que teima em reaparecer em cada um dos nossos encontros educativos. É
importante conhecê-lo, dizendo de outro modo, é importante que nos conheçamos.
“A
motivação para os problemas da criança, escreve João dos Santos, reside na
própria infância de cada um, a experiência infantil acompanha-nos pela vida
fora, e assim, podemos admitir que, tal como a Obra tem uma estrutura de base e
toda a construção um alicerce, também a personalidade tem uma base ou alicerce,
que é a infância. Tal como o edifício depois de acabado, retocado e
experimentado não pode dispensar os alicerces, também a pessoa não pode
mentalmente anular a experiência e as vivências da sua criação. As pessoas
adultas equilibradas guardam saudavelmente certos factos infantis ou juvenis. O
adulto vê a infância e juventude do outro através do imago que ele se fez da
sua própria infância e juventude, para se rever nas suas aspirações
bem-sucedidas ou para reagir contra o fracasso das suas rebeldias. O educador
pensa em termos daquilo que deve ser mas, com frequência, aquilo que o educador
acha que deve ser corresponde à maneira como ele próprio se organizou, quando
criança ou jovem, de acordo ou em desacordo com aquilo que lhe impuseram” (JS).
Como
Ciência do Humano a Psicanálise procura dar voz a este Outro, escutando a
dinâmica do mundo interior, as experiências e personagens que o habitaram e
habitam, trazer compreensibilidade aos comportamentos e atitudes que não se
reduzem nunca apenas ao que dão a ver. Ciência das profundidades, não das
superfícies, a Psicanálise do Encontro Educativo propõe-nos uma
Investigação/ação que toma como objeto a dinâmica dos processos psíquicos que
influenciam a intersubjetividade e as vias através das quais um ser humano se
constrói, se desconstrói e se pode ainda reconstruir, reconhecendo em cada ser
humano um sujeito que ainda não é… paradigma tão caro a João
dos Santos: a educabilidade. Convida-nos a um diálogo entre observação e
auto-observação, à reflexividade e a questionarmos as nossas atitudes e atos
pedagógicos, de uma forma aberta e atenta ao educando. Um convite a que
trabalhando com a criança, o educador trabalhe igualmente sobre si próprio,
para que não fique aprisionado nas malhas da repetição “(…) Os mestres
são modelos, modelos de disponibilidade. Ser ou estar disponível é ter uma
vida interior que se organiza em termos de deixar espaço para a
sensibilidade e para a sabedoria dos outros” (JS).
A Psicanálise do encontro educativo
ensina-nos sobretudo que a afetividade é indissociável do desenvolvimento da
inteligência e que a palavra que o adulto dirige à criança traz com ela afetos
que ressoam longamente pela vida, pois que as palavras antes de significarem
alguma coisa significam alguma coisa para alguém.
Se como
diz Edgar Morin, em entrevista ao Jornal Le Monde, a missão
essencial da educação e do ensino é a de nos preparar para viver, então os
conhecimentos vitais, do Ensino Básico à Universidade, não serão essencialmente
os conhecimentos “sobre” o Ser Humano mas os de “como” ser Humano. Esse é
também o ensinamento e o desafio que João dos Santos parece lançar a este novo
século e ao educador em cada um de nós."
Santarém,
8 de Novembro 2013
Maria
Teresa Casanova Sá
* Comunicação na Conferência “XXI
Jornadas da Prática Profissional da Escola Superior de Educação de Santarém – O
Segredo do Homem é a própria Infância: pensar em Educação com João dos Santos”,
proferida pela Dra Maria Teresa Casanova Sá, 8 de Novembro de 2013
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
Pedrinha (Da Solidão)
A solidão não é
viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a
alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma
planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz.
José
Saramago
terça-feira, 13 de maio de 2014
segunda-feira, 12 de maio de 2014
A Adição
Quando
pensamos em dependências associamos frequentemente à toxicodependência, talvez
a mais debatida nas últimas décadas. Mas aos poucos fomos percebendo outras manifestações
de dependência, expressas no álcool, jogo, alimentos ou sexo. Hoje estendemos
este conceito às compras, aos jogos, à internet e qualquer outro comportamento aparentemente
fora do controlo do indivíduo e/ou que limite e prejudique a sua vida quotidiana.
Chamamos-lhes
dependências, adições (ou comportamentos aditivos), e entendemos por isto quaisquer
acções que o sujeito realize de forma compulsiva, com base num impulso
incontrolável que faz com que não sossegue enquanto não o concretiza (independentemente
de “em quê” irá aplicar esse impulso). Esta problemática acarreta sempre uma
diminuição ou perda de liberdade, pois é-se escravo da compulsão. Sendo
dominado por estes impulsos, o desejo de consumir (seja lá o que for) torna-se
frequentemente mais importante do que a relação com os outros e, inclusivamente,
do que os próprios interesses e necessidades. É possível que esta compulsão
conduza à ruína da vida familiar, social, profissional ou financeira, no
entanto, também há comportamentos aditivos mais mascarados e sem uma forma de prejuízo
tão visível a olho nu.
Os comportamentos aditivos são
comportamentos que visam a procura de prazer imediato. Por norma procura-se com
eles preencher um vazio interno e dissipar algum tipo de mal-estar
psicológico, mais ou menos leve e muitas vezes inconsciente. Contudo, sendo uma solução enganosa, muito rapidamente o prazer se
dissipa e torna a sentir-se vazio ou mal-estar, repetindo-se o comportamento
em busca de novo alívio. No caso da toxicodependência e do alcoolismo é amplamente
conhecido o efeito dos agentes químicos causadores de dependência (física) mas a
compreensão dos mecanismos aditivos (dependência psicológica) exige sobretudo a compreensão das “falhas
afectivas” subjacentes.
A grande maioria dos autores que estudam as
perturbações do comportamento aditivo (e das dependências no geral) falam de uma espécie de falha no desenvolvimento
afectivo mais precoce, normalmente relacionada com dificuldades no processo primário de
separação entre o bebé e a sua mãe (e consequente dificuldade de individuação do sujeito - que, no limite, todos temos em maior ou menor grau). Falam ainda de uma falha na função paterna (o pai “separa” a mãe do seu bebé
introduzindo-se como um terceiro na relação de dependência primordial). Não se
concretizando adequadamente o processo de separação e autonomização (talvez o processo mais delicado na vida do ser humano), dá-se, inconscientemente, uma busca externa, compulsiva, do objecto perdido,
sob a forma de adição.
É,
assim, importante perceber de que é o indivíduo está à procura e,
simultaneamente, do que é que está a fugir, pois a adição serve também para obscurecer
e manter afastadas da consciência as experiências dolorosas. Somos peritos em
manobras de ilusionismo para negar a nossa própria dor, contudo, estando lá, cedo
ou tarde se manifesta.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Sigmund Freud, O Pai
Neste dia, no
ano de 1856, nascia em Freiberg, na Moravia (antigo Império Austríaco, actual
República Checa), Sigmund Schlomo Freud. Sendo inequivocamente um dos
mais importantes e controversos pensadores do século 20, Freud criou, não
apenas um método, mas todo um inovador e aprofundado entendimento da
complexidade do Homem, levando em conta os aspectos conscientes e inconscientes
da sua vida mental. É justamente
designado como "Pai" da Psicanálise, por "dar à
luz" a teoria mais completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe
que sabe). E que tanto sabe que usa (inconscientemente) as melhores manobras de
ilusão na arte de se enganar a si mesmo.
Freud
mostrou-nos, em parte, as "trevas" que carregamos dentro de nós mas
ofereceu-nos igualmente o caminho que nos conduz à "luz". Hoje, a
Psicanálise (e as suas “filhas”, as psicoterapias de inspiração psicanalítica) continua
a ser uma viagem fabulosa que nos oferece o conhecimento, a verdade e a
liberdade. Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das Tormentas e enfrentar
os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!
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domingo, 4 de maio de 2014
Canção da Ausência
I wanted you but you didn't want me,
So I got to tell you, goodbye, goodbye."
Ou como hoje li por aí: “o vazio absoluto, irremediável rasgão na alma, de não se ter no coração a ideia de Mãe”
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Inteligência Emocional
A
inteligência é um conceito vasto, que tem sido tradicionalmente associado a uma
medida, de seu nome, quociente de inteligência (Q.I.). Tornou-se moda medir e avaliar
o quociente de inteligência como se isso fosse um indicador seguro das nossas
competências e capacidades e de maior/menor sucesso pessoal e profissional. Contudo,
face a alguns dados importantes, a era do Q.I. está a chegar ao fim. Aproximamo-nos
gradualmente da ideia de que há uma forma de inteligência mais importante que
todas as outras, a chamada “inteligência emocional”.
Esta
constatação acerca da pertinência da inteligência emocional significa que nos interessa,
em primeiro lugar, que as pessoas tenham a capacidade de dominar uma série de
processos de ordem emocional para se desenvolverem adequadamente ao longo da
vida. E assim, perante a necessidade de dar um nome ao processo do bom
desenvolvimento psicológico, chamámos-lhe inteligência emocional. É um nome
como outro qualquer (e a palavra “inteligência” continua a “vender” muito bem)
mas o que interessa é que por inteligência emocional se entenda, acima de tudo,
a capacidade de ter uma relação saudável com as nossas emoções e, consequentemente,
com as emoções dos outros. Isto demonstra-se na relação comigo mesmo e com o
mundo, e revela-se também na habilidade de comunicar, de expressar as minhas
ideias e de receber adequadamente as ideias dos outros. Como não vivemos
sozinhos, a capacidade de termos boas relações com os outros é fundamental,
caso contrário, viveremos rodeados de problemas, obstáculos e conflitos.
Pela
possibilidade de recorrermos a capacidades fundamentais como a consciência,
reflexividade, autoconfiança, autonomia, entusiasmo, plasticidade e empatia
(capacidade de me colocar no lugar do outro), tornamo-nos mais competentes em
todas as áreas da nossa vida: pessoal, social, relacional e profissional. Sem
elas, facilmente deprimimos, desmotivamos ou incompatibilizamo-nos, e aí, nem o
Q.I. mais elevado do mundo nos trará felicidade/sucesso. Para triunfar, não basta
competência técnica.
Infelizmente,
o sistema escolar tradicional ainda não ensina nada sobre os afectos nem sobre
ética relacional, permanecendo demasiado preso à noção de inteligência na sua
perspectiva mais quantitativa. Contudo, as emoções treinam-se (ou
desenvolvem-se), preferencialmente, no seio de um bom ambiente familiar
(emocionalmente organizado e desenvolvido). Em acréscimo ou alternativa, podemos felizmente recorrer a uma psicoterapia, psicanálise e/ou a outras formas de reflexão, expressão
e análise. Para nosso bem e para bem dos outros.
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segunda-feira, 21 de abril de 2014
O homem que queria ser um rapaz
Mikie, ele preferia Mikie a
Michael. Afirmava que o nome se lhe adequava melhor, “Sabe, não é tão formal”,
e, tal como viria a concluir mais tarde, esse nome também não soava tão adulto.
Quando começou a terapia,
Mikie era um neurocirurgião bem-sucedido e respeitado. Trabalhava duramente
durante muitas horas e era conhecido pela sua paciência, bem como pela sua
competência.
Mikie tinha tudo: uma grande
casa, carros antigos e uma extensa galeria de arte de artistas bem conhecidos.
Mas não tinha esposa, não tinha uma pessoa afectivamente significativa na sua
vida, não tinha um namoro sério nem de qualquer tipo. Mikie estava sozinho e tinha
mesmo desistido de namorar. Geralmente sociável e cheio de sentido de humor,
Mikie foi encaminhado para a terapia devido a uma depressão tão incapacitante
que, na opinião dos seus colegas, podia colocar os seus pacientes em risco.
Como seria de prever, o Dr. Mikie tinha um aspecto abatido, sem um sorriso
visível. Encharcado em suor, com o peito a arfar, assemelhava-se a um atleta de
maratona que acabava de atravessar a linha da meta num esforço inglório. Definitivamente,
não transmitia a imagem de um profissional bem-sucedido.
Ao longo dos meses seguintes,
eu ouvi a sua história. Com o tempo percebi que o que era mais real na sua vida
era a sua depressão e não o cirurgião extrovertido e aparentemente feliz. Na
verdade, ele detestava ter esta “profissão de curar”, interessava-se pouco por
pessoas e estava zangado com as exigências da vida. O que Mikie realmente desejava
era que o deixassem sozinho e que o deixassem brincar.
O seu pai, um homem abatido,
mas sobretudo zangado, era aparentemente incapaz de manter um emprego. Sendo um
mecânico hábil e com o dom da palavra, conseguia arranjar inúmeros empregos,
mas era ainda mais bem-sucedido a perdê-los. O seu humor variava entre o
desespero zangado e momentos calmos e divertidos de prazer, embora, devido ao
seu sarcasmo mordaz, esses momentos acontecessem frequentemente à custa de
alguém. Mikie cresceu sem saber que pai iria chegar a casa à noite. À medida
que ia crescendo, a solução encontrada passava por estar a maior parte possível
do tempo longe de casa.
Conquanto o seu pai não
valorizasse o tempo que ele gastava nos estudos, nem os resultados que obtinha,
Mikie ganhou a atenção e aprovação dos seus professores. Como reconhecimento,
foi premiado com bolsas de estudo para a faculdade de medicina. Do seu pai,
recebeu um desdém amargurado: “O quê? A sub-normalidade do Estado de Illinois
não é suficientemente boa para ti? Harvard é uma treta!”.
Desde que a mãe de Mikie
tinha morrido com cancro no cérebro, tinha ele apenas três anos de idade, que
ele não se lembrava o que era um aconchego calmante nos braços de uma mãe. Também
não tinha ninguém que o ajudasse a sarar as feridas infligidas pela raiva
cortante do pai, disfarçada de “gozo saudável”.
À medida que a terapia
progredia, aumentavam também as desconfianças de Mikie. À medida que nós íamos avançando,
a confiança dele em mim ia diminuindo progressivamente: acusava-me de não o
levar a sério ou de ser demasiado sério, indiferente e técnico. Muitas vezes,
os seus sentimentos estavam restringidos à raiva e ao desespero.
Gradualmente, porém, a sua
raiva tornou-se predominante e ele lançar-se-ia numa fúria incontida se eu
falasse sem a monotonia que ele próprio me tinha atribuído. Fui também instruído
a sentar-me quieto: “Não mexa um músculo”. Se eu falhasse na realização da sua
satisfação, ele soltaria uma invectiva inflamada, exigindo saber quem é que eu
pensava que era.
Este período da terapia durou
cerca de um ano. Nenhuma das intervenções que tentei pareceu ter qualquer
consequência. Um dia, no meu desespero, disse-lhe que não conseguia trabalhar
sob estas orientações impostas: “Você está a cortar a minha circulação vital, o
meu oxigénio emocional, e está a pôr o meu corpo dormente. O mundo estéril e
rarefeito que você está a criar está a ferir-nos a ambos. Não vou continuar
assim. Desta maneira não posso ajudá-lo a si nem a mim próprio.”
Esperei por uma explosão, mas
ela não apareceu. Em vez disso, o que recebi foi aceitação. Aparentemente,
quando quebrei as suas regras, Mikie ficou aliviado. Sozinho, ele tinha apenas
indícios daquilo que lhe tinha acontecido emocionalmente. Agora alguém tinha
colocado isso em palavras. Nesta minha assunção do papel de realizador e
director, ele conseguiu ver o quão “mecanizado e dirigido” se sentia por
dentro.
Mikie tinha crescido
demasiadamente rápido, mas não estava emocionalmente apto para aguentar a
profissão que ele tinha “escolhido”. Tornara-se diferente do seu pai até que,
como se se tivesse aberto um buraco na sua mente, ele sentiu o seu pai dentro
de si, impulsionando-o, empurrando-o, ridicularizando-o. O pai de quem ele teve
de se afastar, o pai que tentou tão arduamente desligar dentro de si mesmo,
através da sobrecompensação de ser o médico bom, paciente e altruísta.
Então, quão intrínsecas
seriam a sua bondade e generosidade e quanto ressentimento, frieza e
distanciamento fariam também parte dele? É com esta questão que agora se debate
internamente, mas penso que ele sente que já cumpriu tempo suficiente como o cirurgião
da sua própria mãe – erradicando e destruindo nos outros a doença que a levou
para longe dele. Agora Mikie necessita de se esquivar ao peso dessa
responsabilidade e, nas suas próprias palavras, ele “só quer brincar, mas não
sozinho”.
Neste momento, começa a falar
como um jovem cheio de expectativas, entusiasmo e desejo de brincar pelo mais
simples e puro prazer de brincar, ao mesmo tempo que também procura descobrir
mais acerca de quem ele é realmente. Mikie está a tomar grandes decisões na sua
vida e colocou uma pausa nos seus compromissos no hospital e na universidade.
Está à procura de uma vida nova, uma vida boa, e eu irei estar com ele, pelo
menos durante uma parte do percurso – e isso será um prazer.
Richard
Raubolt in Cenários Psicanalíticos do Trauma
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sábado, 19 de abril de 2014
Super-Vidas
Na prática clínica somos, cada vez mais,
confrontados com queixas que remetem para um sentimento de vazio interior. Como
se a pessoa não se sentisse completa, preenchida ou satisfeita. Como se
procurasse algo que não encontra, repetidamente. Em simultâneo, é mencionada a
solidão. Estas questões remetem fundamentalmente para uma fragilidade narcísica
(falta de amor pelo meu Eu) e para falhas nos processos de construção da identidade
e de autonomização (constituição de um Eu maduro e que não precise em absoluto
do outro). Como é do conhecimento geral, as questões da estruturação da nossa
identidade e autonomia estão intimamente relacionadas com as nossas relações
precoces e ambiente familiar do sujeito.
Contudo, não deixa de ser interessante perceber
que o seu maior aparecimento coincide com uma época em que a cultura vigente
deixa mais a nu a insatisfação das pessoas consigo próprias. O indivíduo, na
sociedade actual, tem sido convocado para a busca do perfeito: corpo/imagem, status, carreira profissional,
eficiência, estilo de vida. Vivendo sempre em comparação com o outro,
discutindo lugares nos mais diversos rankings (o mais bonito, o mais
bem-sucedido, o mais rico, o mais inteligente), como podemos escapar dessa
solicitação?
Percebemos que, tal como diz Carlo Strenger no
livro O Medo da Insignificância: “o mito do just do it conduziu a um incrível aumento do reino da fantasia.
Procurar menos do que tudo é procurar a mediocridade. Pouco ou nada se diz
sobre o processo doloroso de descobrir quem realmente somos e quais as nossas
reais capacidades e limitações. Pelo contrário, a ideia que vende é: não há
limites.”
A
verdade é que há limites (os da realidade interna e externa) e é bom que recuperemos essa consciência. Há limites
para o meu Eu (não posso ser perfeito em tudo), para as minhas capacidades (não
posso fazer tudo), para os meus talentos (não sei fazer tudo), para os meus
valores (não aceito tudo). Vivemos tempos em que se incentiva a diferença mas
na verdade, ao querermos todos ser especiais em tudo, tornamo-nos iguais. Já
não basta ter uma vida, é preciso ter uma “super-vida”.
Aqueles que, de nós, vão encontrando dentro de si
recursos para manterem o bem-estar perante a competitividade e agressividade do
marketing pessoal, estão sossegados. Mas muitos, com grandes dúvidas sobre o
seu valor enquanto pessoa, geralmente apresentam sintomas de enorme
insegurança. O caminho passa por olhar mais para dentro e menos para fora. E quando
encontrarmos os nossos vazios, procuremos preenchê-los com um pouco mais de Eu
e um pouco menos dos Outros.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
"A ausência é um estar em mim"
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Pedrinha (Das Perdas)
Mais do que a transitoriedade, o que
incomoda é o luto.
terça-feira, 15 de abril de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
Theaters of Trauma - Excerto de Sessão de Richard Raubolt
![]() |
| A (Re)Criação do Trauma: VI Encontro da AP - Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica (12 de Abril de 2014) |
"Chris was a large, muscular man looking much younger than his fifty-two years of age. (…) Chris was also a non-using addict (not using presently but not in recovery either) who had brutally beaten his son for not answering the phone quickly enough. (…) Chris suggested the boy was exaggerating for attention and “besides he didn’t have it nearly so bad as I did.” He went on: “I could tell you stories but what’s the use? I had it coming.”
After listening to Chris’s stories, which he vaguely began to describe and to which I remained relatively quiet for three months, I began this session as soon as he was seated.
– “When we first began talking I asked you to tell me ‘your story’. We both know you have told me very little but that doesn’t mean I haven’t learned a good deal about you or the kind of help you might need.”
At this point, Chris started to interrupt. Cutting him off firmly, I said:
– “You will extend the same respect I extended you. You will listen while I speak because you have no idea what I am going to say to you or about you.” (…)
Chris remained silent although he continued a dialogue without words. (…)
– “Despite your denials to the contrary, you were beaten again and again as a boy and without mercy or reason. Your mother cowered from your father. She was present, as she had no place to go, but she was empty. She could offer you only a disguise hint of affection. (…) You survive by feeling hate, not showing it to your father… (…). Your mind was so fueled with fantasies of revenge… (…). You became like your father… (…). Still, through it all you wanted your father to notice you, spend time with you and teach you. I think you still want it from him, but since you won’t get it neither will your son. Keep going as you are and you will break your son into the mixed-up, crazy pieces you live with inside of you.
Now the question is: Is this what you want your legacy to be? I don’t want your answer now. (…) I will meet you next week, which gives you time to consider who you are and what you want. This session is over.”
In the next session, Chris started to loudly attack my “story-line”. I stopped him by saying:
– Are you in or out?
– …
(Richard Raubolt, PhD – In “From the Other Side”, Theaters of Trauma, 2010)
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quinta-feira, 10 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Poesia
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos in "Poemas"
terça-feira, 8 de abril de 2014
Nem tanto ao mar nem tanto à terra
Ainda hoje muitos estudiosos se questionam acerca da origem da
agressividade: será inata (um instinto ou pulsão) ou adquirida (por frustração
ou trauma)? Por outras palavras, será genética e constitucional ou será
resultado de experiências muito precoces? O que é inquestionável é que a
incidência da agressividade nos seres humanos varia amplamente de indivíduo
para indivíduo.
Sabemos desde muito cedo demonstrar o nosso desagrado. Pedir e
reclamar são acções que exigem um “mínimo” de agressividade. A criança pode
demonstrar assim algumas reacções de raiva quando não obtém o que pretende
(gritos, choro, agitação, morder) pois a raiva é o afecto básico subjacente à
agressividade. Estas reacções directamente agressivas vão normalmente cessando
à medida que a criança é capaz de se exprimir pela linguagem. Recorrendo às
palavras, podemos expressar as emoções sem ter como único recurso a explosão
corporal, na forma de gritos e agitação motora, sendo estes, recursos mais
primários.
Contudo, algumas crianças continuam a manifestar-se mais
explosivas, agredindo colegas, adultos, ou partindo coisas. São crianças ditas
impulsivas que, face à mínima contrariedade, se enfurecem violentamente. Por
vezes, esta atitude é selectiva, acontecendo apenas com uma determinada pessoa,
geralmente com adultos incapazes de acolher, conter e dar significado à zanga,
tudo isto, de forma madura e adequada. Não se responde a uma birra com outra
birra. Por outro lado, este tipo de zanga que mora à flor da pele, geralmente
remete para duas situações opostas: ou frustração a mais, ou frustração a
menos. Ou seja, ou há muita falta de afecto e disponibilidade para a criança
ou, por vezes, demasiada permissividade, reforçando a omnipotência típica das
crianças pela incapacidade de se lhes colocar os "tão falados"
limites (pouca assertividade e dificuldade em dizer não) ‒ muitas vezes
já por receio de uma reacção “complicada”. É importante a existência de uma
figura de autoridade. Tradicionalmente, este papel é desempenhado pelo pai
que, simbolicamente, representa a “lei” mas, muitas vezes, pode ser a mãe capaz
de desempenhar igualmente bem a função. Ou seja, na estruturação psicológica
das crianças, terá que haver pelo menos uma figura parental que introduza e
represente as normas (com algum acordo da outra figura parental), bem como a
gradual aceitação das frustrações e contrariedades inerentes ao
viver. Percebe-se que este comportamento também se encontra com frequência
em famílias onde o entendimento entre os pais (ou figuras cuidadoras) é frágil
ou artificial.
Em escalada e não percebida, esta zanga permanente ou "também
chamada" intolerância à frustração (seja por falta ou excesso dela)
adquire, em algumas crianças, proporções inquietantes, culminando por vezes em
comportamentos de risco na chegada à adolescência: destruição de objectos,
ameaças permanentes, fugas de casa, etc.
É de realçar que do outro lado da moeda há a problemática da
inibição grave da agressividade. Quando encontramos uma criança que evita por
completo qualquer situação de carácter agressivo, não protestando e nunca se
enfurecendo, é momento de questionar. Crianças vulgarmente submissas e aparentemente
muito ajuizadas estarão provavelmente a reprimir as suas emoções mais
agressivas, o que não é facilitador de um desenvolvimento saudável e
equilibrado. Desde a leve inibição à total incapacidade em defender-se, o
“lugar da vítima” começa a definir-se cedo, podendo evoluir para modalidades de
funcionamento relacional em que aceitar tudo o que acontece sem nunca se
zangar, reclamar ou reivindicar, se torna um padrão de relação com os outros,
originando sofrimento psicológico.
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O Tigre e a Coisa em Si
“Psychoanalysis itself is just a stripe on the coat
of the tiger. Ultimately it may meet the
Tiger - The Thing Itself - O.”
terça-feira, 1 de abril de 2014
sábado, 29 de março de 2014
Pedrinha (Sobre a Psicanálise)
As pessoas muitas vezes questionam-se se a psicanálise torna
a vida mais fácil. Muito naturalmente, elas desconfiam de qualquer coisa que
afirme isso. A psicanálise, além de ser um processo doloroso em si mesmo, não
altera o facto de que a vida é difícil. O melhor que pode acontecer é a pessoa
que está a ser analisada, vir gradualmente a sentir-se cada vez menos à mercê
de forças desconhecidas, tanto internas quanto externas, e cada vez mais capaz
de lidar à sua própria maneira com as dificuldades inerentes à natureza humana,
ao crescimento pessoal e à gradual obtenção de um relacionamento maduro e
construtivo com a sociedade.
Donald Winnicott
quinta-feira, 27 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
O Bicho Verde
Há
três conceitos que por vezes se confundem: ciúme, cobiça e inveja. Mas ciúme, é não
querer perder o que se tem, cobiça é querer o que o outro tem, e inveja é não
querer que o outro tenha. Esta deriva do latim invidia, que quer dizer “olhar com malícia”, o que explica a crença popular do “mau-olhado”. Traduz-se como: “eu até posso nem ter nada desde que tu também não tenhas.”
Dos três, talvez a inveja seja o mais
difícil de admitir. É difícil de
admitir porque remete para um desejo que não tem directamente relação
comigo ou com algo eu gostaria de manter (ciúme) ou ganhar (cobiça), mas sim com
aquilo que eu desejo que o outro perca. Talvez a inveja seja profundamente difícil de
admitir porque a maioria tem alguma vergonha de reconhecer que retira prazer da
desgraça alheia. Além disso, a
cultura judaico-cristã penaliza severamente a inveja. Considera-a um pecado
capital, embora seja talvez o único pecado que na realidade é totalmente inútil,
ao contrário da gula ou da luxúria. Com a gula e com a luxúria eu tenho algum
tipo de prazer. Com a inveja, pelo contrário, apesar de poder sentir um gozo imediato
perante as perdas dos outros, na maioria das vezes, isto é, no dia-a-dia, sinto
ódio das suas vitórias. Não só das conquistas alheias se tem inveja pois, por vezes, a simples paz de espírito ou serenidade de alguém
pode ser motivo de inveja, mesmo que não possua nada mais que isso.
Porque se inveja,
então? Há quem nem o saiba, porque a inveja pode estar mais
ou menos consciente (creio que muitas pessoas escondem habilidosamente de si
mesmas que invejam os outros), mas é alimentada por sentimentos de
inferioridade e insegurança, sensação de abandono ou injustiça, sensação de incapacidade,
vazio interior, frustração, como se fossem afluentes de um grande rio composto
de egoísmo, raiva e ódio, em diferentes medidas. Por vezes, é tão dissimulada
ou mesmo inconsciente que nem é expressada de forma directa ou evidente,
contudo, sentimos um mal-estar em certa presença, um olhar estranho ou um tom de voz incoerente. Também aparece sob a forma de bisbilhotices, críticas (normalmente destrutivas) ou conselhos
traiçoeiros.
Quem inveja, sofre, mesmo que não o saiba ainda. É uma espécie de
amargura invasiva, qual veneno que corre nas veias, e possui um carácter
destrutivo, não para os outros mas principalmente para o próprio, que azeda,
mirra e definha. Admitir a inveja será uma confissão de inferioridade pois o mecanismo responsável é a comparação
sistemática entre a pessoa e os outros, comparação, essa, em que a pessoa se
sente sempre em plano inferior. No fundo, quanto menos me basto a mim próprio,
mais olho para os outros. Quanto menos satisfeito estou com a minha vida, mais
observo a vida dos outros. Logo, quanto maior for o vazio, maior a inveja e por
isso o melhor remédio contra ela é ter uma vida cheia de nós próprios,
construir um destino que nos preencha e sermos plenos de amor-próprio, pois só
quem se ama a si mesmo poderá amar o próximo.
quinta-feira, 20 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
Fugas
Abandona o bulício urbano por um dia que seja. Repara como longe do ruído é mais fácil escutar o que diz a tua alma. Todos os dias a voz cá dentro tenta dar-nos recados que não ouvimos.
- Fala agora. Tenho tempo e não há barulho. Estou aqui.
Abandona o bulício urbano por um dia que seja e, de preferência, escolhe um local onde o teu olhar se possa espraiar. Contempla.
- O que vês?
- Possibilidades infinitas.
- Fala agora. Tenho tempo e não há barulho. Estou aqui.
Abandona o bulício urbano por um dia que seja e, de preferência, escolhe um local onde o teu olhar se possa espraiar. Contempla.
- O que vês?
- Possibilidades infinitas.
quarta-feira, 12 de março de 2014
segunda-feira, 10 de março de 2014
Penso, logo Existo
![]() |
| Le Penseur - Auguste Rodin |
“Penso, logo
existo”, disse Descartes. O pensamento será talvez a função mais distintiva da
espécie humana. O acto de pensar é o que nos confere existência, pois mesmo
quando impedidos de falar ou agir, a possibilidade do pensamento ainda nos
salvaguarda uma identidade e uma mente que funciona produtivamente. Assim, em
primeiro lugar, a capacidade de pensar implica que sabemos mais ou menos quem
somos, ou pelo menos, que estamos a caminho da nossa verdade. O que pode ser
assustador. Pensar sobre as coisas (as nossas, as dos outros, as boas, as más,
as que já foram e as que estão por vir) conduz-nos por vezes a caminhos de
dúvida, sofrimento e angústia. Pensar implica também suportar algumas questões
que ficam e ficarão sempre sem resposta.
Entre nós, seres
humanos, uns seremos possuidores de uma personalidade mais analítica,
utilizando a função do pensamento sem hesitar, enquanto outros não pensam muito
ou não pensam de todo, quer porque não conseguem ou porque simplesmente não
querem. São pessoas que preferem levar a sua vida sem questionar muito os
“porquês” e os “comos”. É que viver praticando a análise de nós mesmos, dos
outros e do que nos envolve, é um processo simultaneamente gratificante e
frustrante. E embora seja o único caminho que produz expansão e evolução, para
alguns a ansiedade que a reflexão despoleta é absolutamente insuportável.
Mas atenção: há
uma confusão frequente entre pensamento e ruminação. Pensamento não significa
perder dias a ruminar no mesmo assunto, em loop mental e sem sair do mesmo sítio.
Pensamento é tentar procurar outra compreensão, ver de outra forma. Pensar é
questionar, é algo criador e transformador, um processo que permite andar para
a frente em vez de ficar estagnado no mesmo lugar. Mas por vezes, o que dói é
precisamente sair desse local tão familiar e pôr em causa tudo aquilo que era
dado como adquirido. Recordamos Florbela Espanca que, no seu poema Rústica, dá voz a um desejo
quase infantil de poder ser uma mulher de pensamento mais simples e de alegrias
banais: “Ser
a moça mais linda do povoado./ Pisar, sempre contente, o mesmo trilho(…) Deus, dai-me esta calma, esta
pobreza!/ Dou por elas meu trono
de Princesa,/ E todos os meus
Reinos de Ansiedade.” Pisar todos os dias o mesmo trilho, sem
grandes preocupações, podendo encontrar nessa rotina mecânica a tranquilidade e
a satisfação, era o que desejava Florbela. Porém, pese embora os seus “reinos
de ansiedade”, Florbela teria, em simultâneo, noção da “pobreza” desta
existência.
Se para uns é
suficiente comer, trabalhar e dormir, para outros pensar é uma função
incontornável. Queiramos ou não, somos dotados de um “aparelho de pensar” e se
essa função foi estimulada durante o nosso desenvolvimento, dificilmente
podemos fugir da consciência que em nós cresceu e habita. Por outro lado, a verdade é que fugir do acto de pensar não é melhor solução. É como se,
cá dentro, soubéssemos intuitivamente certas coisas que não queremos
reconhecer. E assim, mesmo não pensando de forma consciente, deliberadamente, a
verdade encontra forma (por vezes mais violenta) de irromper pela nossa vida,
muitas vezes abrindo caminho pelo adoecer do corpo. Porque pensar é procurar a
verdade. E a verdade, por mais que doa, vem sempre ao de cima.
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terça-feira, 4 de março de 2014
Pedrinha (Existo porque fui amado)
O que promove, orienta e suporta a
relação é o bonding (ligação) da mãe ao filho e não o attachment (vinculação)
do bebé à mãe. A relação é, predominantemente, da responsabilidade do animal
alfa. De igual modo, na cura psicanalítica obedecemos à regra da precessão e
primazia do investimento do analisando pelo analista. Este é um dos princípios
basilares da arte e da técnica.
António
Coimbra de Matos (in Vária. Existo porque fui amado)
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Perguntas Difíceis
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