Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
domingo, 13 de novembro de 2016
O Que Diz o Pânico
Tudo
começa com uma sensação física de mal-estar, sintomas corporais que variam entre palpitações, tremores, sudação, vertigens,
sensação de desmaio, dificuldades respiratórias, sensação de adormecimento ou
formigueiros, dores físicas ou pontadas, medo de morrer ou de enlouquecer. Nesse
primeiro episódio, o mal-estar parece crescer descontroladamente e o susto é
grande. Às vezes, resolve-se por si só, outras vezes, o episódio termina mesmo
no hospital, para onde a pessoa corre cheia de medo e onde os técnicos de saúde
lhe comunicam, para seu espanto, que não tem nada. É "apenas" ansiedade.
Esta
é a história comum à maioria das pessoas que já vivenciaram um ataque de
pânico. Em seguida, o que acontece vulgarmente é que a pessoa passa a fugir dos
estímulos que associa a esse mal-estar: se estava no carro, pode deixar de
conduzir; se estava na escola, pode deixar de ir à escola; se estava no
estádio, pode deixar de ir à bola. Desenvolve-se uma reação fóbica. Mas a crise
pode repetir-se, noutras circunstâncias. E uma nova situação pode tornar-se um
novo estímulo fóbico: desta vez pode acontecer num elevador e a pessoa vai
deixar de andar de elevador (ou passar a andar nele com muito medo). Quando
começam a dar-se vários episódios, a vida pode ficar seriamente limitada. Nasce um medo incontrolável de estar em locais onde se
possa sofrer novos ataques de pânico e de onde a fuga possa ser difícil ou
demorada, conduzindo não só ao já mencionado evitamento fóbico dos mesmos, como
também ao isolamento social e retirada para lugares sentidos como seguros. E o
medo do medo irá “comer-nos” por dentro.
O
problema é que não podemos fugir de nós mesmos, e é dentro de nós que tudo
acontece. O problema não está no carro, nem na escola, nem no estádio de
futebol, nem no elevador — está nas nossas emoções. Tal como uma
febre, os ataques de pânico não são uma doença, são um sintoma. Indicam-nos que
alguma coisa dentro de nós está mal. O pânico surge quando as doses de ansiedade
se tornam insuportáveis, ainda que não tenhamos consciência dela. É um conflito
emocional escondido que é preciso compreender e resolver, dotando a pessoa das
ferramentas necessárias para seguir o seu caminho.
As crises de pânico não têm de ser
aguentadas estoicamente. E a medicação por si só, é insuficiente e até
contraproducente, se não for acompanhada de uma terapia pela palavra, que leve
o sujeito a olhar para dentro e a ver aquilo que está lá e não vê. O pânico é um
sintoma que fala. O pânico é, ao contrário do que se possa pensar, um sintoma
de vida. É sinal de que o sujeito está emocionalmente desperto e que precisa resolver
qualquer coisa dentro de si, embora não esteja capaz. O pânico não é para se
calar nem para se adormecer, é para se escutar com atenção e traduzir, sem
demora, o seu significado.
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016
O Egocentrismo Necessário (E O Desnecessário)
O
egocentrismo é a característica de uma personalidade que pensa e sente que tudo
gira ao seu redor. O indivíduo egocêntrico é aquele que prioriza os seus
pensamentos, desejos e necessidades sobre os de todos os outros, incluindo,
tantas vezes, os dos próprios filhos. Ele, primeiro que todos os outros, deve
estar bem.
Assim,
o egocentrismo exacerbado dificulta a capacidade fundamental de colocarmo-nos
no lugar do outro, entrando em rota de colisão com a empatia (que é precisamente
a capacidade de perceber o que o outro está a sentir). Na presença predominante
do egocentrismo, só me percebo a mim: por exemplo, sinto que fui magoado, fui
ignorado, fui contrariado ou negligenciado, mas não me importa o que o outro
está a sentir nem reflito sobre a minha responsabilidade na situação. O
indivíduo maioritariamente egocêntrico tem muita dificuldade em descentrar-se
de si mesmo e de abdicar da sua vontade ou necessidade. Quando o faz,
normalmente, cobra. Tudo o que dá de si fica “registado” pois é com sacrifício
que o faz, considerando-se por isso em défice e colocando o outro em dívida
para com ele.
Os
peritos em egocentrismo são, por excelência, as crianças. No geral, pensam-se o
centro do mundo — têm uma dificuldade natural em entender que as coisas nem
sempre são como pensam nem funcionam à sua maneira. Depois, são as experiências
da vida que, principalmente a partir dos 3 anos, permitirão gradualmente o reconhecimento
e validação dos outros: os que são diferentes, os que brincam diferente, os que
querem coisas diferentes. Porém, é importante que as crianças tenham passado
pela fase egocêntrica; é importante serem e sentirem-se, por uns momentos, o
centro. É o que acontece quando o bebé sente o encantamento amoroso da mãe e
quando as famílias se organizam em função dos seus bebés e das suas
necessidades. Só aos poucos, à medida que estes se vão autonomizando devagarinho,
é possível ir introduzindo pequenas separações ou compassos de espera,
frustrações naturais do quotidiano que facilitam essa passagem.
Casos
há em que, por nunca terem sido o centro de nada, se tornam adultos ciosos de
ser o centro de tudo, focando-se em si porque nunca antes puderam ser verdadeiramente
importantes. Outros, inversamente, cresceram em ambientes em que esse
egocentrismo nunca foi desmontado, tendo as famílias continuado a girar sempre
em torno da criança, ou mesmo do jovem Assim, consoante as circunstâncias do
nosso crescimento, permanecem no adulto doses diferentes deste egocentrismo primordial.
Uns crescem com cada vez maior capacidade de se descentrar de si próprios,
convivendo com facilidade com a existência dos outros e dançando flexivelmente
entre todos. Outros ficarão tão focados em si mesmos que não têm espaço para as
necessidades e desejos de mais ninguém. E cheios de si, permanecem,
tristemente, sós.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
A Banalidade do Mal
Surgem,
aqui e acolá, certos radicalismos. Surgem, aqui e acolá, certos nacionalismos.
Não precisamos olhar para muito longe na história para saber que este é um
assunto que merece muita discussão e reflexão nas sociedades. Afinal de contas,
o que parece é que as massas caem nestas armadilhas sem perceber muito bem
como.
Hannah
Arendt foi uma filósofa política alemã que se debruçou sobre o estudo das
origens do totalitarismo e que criou um conceito extremamente interessante, a
“banalidade do mal”. Tendo assistido ao julgamento de Adolf Otto Eichmann, responsável pela logística do extermínio de milhões de pessoas no final da II Guerra Mundial durante a chamada “solução final”, Arendt concluiu nos seus artigos que
Eichmann não tinha quaisquer motivos criminosos nas suas acções — era um homem assustadoramente banal,
um burocrata medíocre que justificou todos os seus comportamentos com o
cumprimento de ordens superiores. Uma máquina executante, que jamais reflectiu
sobre o significado das suas acções, sem livre arbítrio ou capacidade crítica. Não
foi a maldade extrema que conduziu os comboios para Auschwitz, não foram
monstros cheios de ódio ou racismo que comandaram as operações no terreno:
foram funcionários competentes de uma burocracia estatal, em modo de obediência cega.
A
“banalidade do mal” está, então, ao alcance de cada um de nós, a partir do
momento em que nos demitimos de questionar a realidade que se desenvolve em
nosso redor e aquilo que é exigido de nós no seio de uma sociedade. Nesse
sentido, Arendt usou várias vezes a expressão “thoughtlessness” (ausência de
pensamento; acriticismo) para se referir ao que está na origem da “banalidade
do mal” — não são pessoas diabólicas que
cumprem ordens diabólicas; para cumprir ordens, sejam elas quais forem, basta
absterem-se de pensar sobre isso.
Toca-se aqui o fenómeno do
conformismo e da obediência à autoridade. O conformismo é a tendência para
seguir as massas dominantes. A maioria dos indivíduos prefere
dizer “amén” (e fazer parte de qualquer coisa) do que afastar-se ou colocar-se
contra as ideias vigentes. É, digamos, mais confortável. A obediência à
autoridade é outra característica muito humana, conforme demonstrou Milgram nos
seus estudos, quando verificou que 65% dos indivíduos em análise seguiam
cegamente a ordem superior de executar choques elétricos de intensidade
crescente ao próximo, independentemente do que viam acontecer à sua frente.
A
lealdade burra e acrítica conduz a catástrofes, aponta Arendt, que soube bem
destacar o quão demencial foi o quadro social de massas enfeitiçadas por
um führer. Em tempos de radicalismos e novos nacionalismos, desde o Reino
Unido à América, é por demais importante lembrar isto.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Vínculos
Nos
anos 50, John Bowlby efetuou um trabalho muito importante no estudo das
ligações humanas, desenvolvendo a Teoria da Vinculação. Mais tarde, durante a
década de 70, Mary Ainsworth expandiu o trabalho de Bowlby, estudando as
reações a uma separação curta entre crianças (dos 12-18 meses ) e suas mães, e relacionando
essas reações com o tipo de ligação existente entre ambos. Abstraíram-se desta
experiência três tipos básicos de vinculação bebé-mãe e suas consequências.
Então,
o mais adaptativo tem o nome de vinculação segura, um estilo relacional em que a criança se relaciona com a mãe com
segurança (e vice-versa), e com essa confiança mútua a criança torna-se capaz de explorar o meio ativamente. Chora pouco
na presença da mãe mas nos momentos de separação mostra-se naturalmente perturbada
(e não é reconfortada por outras pessoas). Nos reencontros com a mãe, a criança
saúda-a efusivamente e procura o contacto com ela. Existe equilíbrio entre os
comportamentos de ligação à mãe e de exploração do mundo envolvente. Depois, há a vinculação
insegura ambivalente, em que a criança permanece muito juntinho da
mãe, aparenta ansiedade e explora pouco o meio envolvente. Nos momentos de separação mostra-se
muito perturbada e nos reencontros com a mãe o comportamento da criança pode
alternar entre tentativas de contacto e sinais de rejeição (empurrar,
pontapés). Após esse reencontro a criança fica vigilante e talvez se aproxime ainda mais, logo, os
comportamentos de vinculação predominam face aos comportamentos
exploratórios. Por último, a vinculação insegura evitante, onde a criança,
defensivamente, “faz de conta que não se importa”. Permanece mais ou menos
indiferente quanto à proximidade da mãe e entrega-se à exploração do
meio. Na ausência da mãe a criança pode chorar ou não, e nos reencontros desvia
o olhar e evita o contacto com ela. Os comportamentos exploratórios prevalecem face
aos comportamentos de vinculação. Mais tarde veio a acrescentar-se um
quarto tipo, vinculação desorganizada, em que o comportamento da criança é
confuso e parece não ter um objetivo claro ou explicação.
O
tipo de vinculação que se estabelece entre uma criança e a figura materna é um fenómeno complexo mas realçam-se,
como fatores facilitadores de uma vinculação segura: a disponibilidade emocional para esse encontro
amoroso, empático, intuindo e respondendo adequadamente às necessidades afetivas
do bebé, i.e., estar com ele psicologicamente, mesmo no sofrimento, ir dando
voz às suas sensações e aguardando em conjunto o fim do mal-estar; destaca-se a
importância da previsibilidade,
i.e., de a criança saber com o que pode contar por parte da mãe; destaca-se a
importância do toque, da forma
segura e amorosa como se pega o bebé, bem como o respeito de o deixar estar quando ele de nada precisa. Uma vinculação
segura na infância será atualizada pela vida fora, providenciando relações
saudáveis, com base na confiabilidade, que nos permitem viver com o outro e ao
mesmo tempo partir à descoberta de nós e do mundo.
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terça-feira, 6 de setembro de 2016
Em Fuga
Quando
pressentimos que dentro de nós existe um buraco temos medo de cair nele. Chamemos-lhe
“o lado depressivo da personalidade”, um lugar escuro e triste, que nem sempre
conseguimos justificar logicamente mas que nos suga a energia e nos deixa num
estado de espírito terrível, por vezes até incapazes de reagir, de viver. O
medo da depressão existe em todos nós, desde que em algum momento conhecemos de
perto estados de desânimo profundo e conseguimos fantasiar o que será viver
nesse lugar.
O
medo da depressão (ou dos estados mais depressivos) leva-nos tantas vezes a uma
fuga para a frente: viajando, trabalhando ou exercitando o corpo de forma compulsiva,
ou de forma mais perigosa, pelo abuso de substâncias (drogas, álcool),
sexualidade exacerbada, compulsão alimentar, etc. Esses caminhos por onde o
medo nos conduz não representam necessariamente escolhas conscientes, ou seja,
é quase automático este gesto de evitamento da dor interna e consequente busca
do prazer, ainda que efémero ou ilusório. O medo da depressão é o medo de um
buraco sem fundo. Mas fugir, evitar, ou negar esse buraco é mais prejudicial do
que cair nele, e mesmo batendo de rabo no chão (pois ele tem, sim, fundo)
explorá-lo e encontrar maneira de sair ou de viver com ele.
Fugimos
da depressão, dor da perda, quando, por exemplo, depois de um divórcio nos
negamos a chorar ou a encontrar-nos a sós com a nossa solidão e entramos imediatamente
numa nova relação. Fugimos tantas vezes quando nos morre alguém chegado; a dor
é funda e temos medo, não queremos senti-la. Fugimos quando não conseguimos
estar parados ou sozinhos, evitando ficar a sós com a nossa cabeça. Os casos
serão infinitos mas não é preciso um evento externo ou uma causa lógica para
sentirmos a presença silenciosa de um qualquer sofrimento. Talvez o maior medo
surja mesmo das dores cujas origens não identificamos; daquele sofrimento ou
insatisfação permanente que nem entendemos bem de onde vem mas que está lá, à
espera que olhemos para ele. Fugimos dessa dor desconhecida, cujas raízes são,
frequentemente, antigas e profundas, vivendo refugiados em estratégias que nos
permitem andar para a frente, mas sem a coragem de querer perceber o que é isso
que nos come por dentro.
Porém,
as emoções mais difíceis estão à espreita, e querendo nós olhar ou não para
elas, elas olharão para nós. Fitam-nos, particularmente nas horas mais escuras,
e talvez seja necessário olhar para elas de frente, e perguntar-lhes “quem és
tu e o que queres de mim?”. O conhecimento pode ser assustador, mas o
desconhecido é mais. O conhecimento é um processo muito poderoso, porque o medo
da dor é sempre pior que a dor em si. O medo vive da imaginação e não tem fim;
a dor vive do real e quanto mais intimamente a conhecermos, melhor viveremos
com ela, ou apesar dela.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
O Estranho e o Medo
Eis o estranho e o medo, tão mal amados. Porém, sem o
estranho e sem o medo, permanecemos na repetição do familiar — do que já
conhecemos, do que já sabemos, do que nos mantêm confortáveis. Conforto é
seguro, é gostoso e é preciso; mas é o desconforto que nos ensina tudo o resto.
Tudo o que não conhecemos, tudo o que não sabemos, tudo o que pode, um dia,
deixar-nos igualmente confortáveis, mas de outra maneira: nova. E é o novo que
nos acrescenta. Vamos abrir os braços ao estranho, vamos olhar de frente o medo,
e descobrir o que acontece depois.
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terça-feira, 19 de julho de 2016
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Co-Dependência
A
uma, conheci-a após o falecimento do marido. Tinha passado vinte anos a cuidar
dele, um alcoólico em espiral destrutiva —
despindo-o quando não era capaz, deitando-o, ou até levantando-o do chão, com a
força que não tinha. A outra, conheci-lhe a história de outra maneira; conta
ela que sempre viveu para a mãe —
mulher deprimida, cocainómana, fazendo vigílias à sua cabeceira nos dias em que
esta não saía da cama ou indo buscar o “produto” quando era necessário.
Há
milhares de histórias assim. São histórias de pessoas cuja vida gira não em
torno de si e dos seus sonhos mas em torno da disfuncionalidade de um outro. Pode
parecer preocupação ou altruísmo, mas quando nos destrói a possibilidade de
viver a nossa vida, é preciso parar: o que muitas vezes não acontece. Há
ligações em que não há limites, nem dum lado, nem do outro. Então, há quem
chame, a este funcionamento, a co-dependência, isto é, estar emocionalmente
dependente (no sentido de excessivamente ligado) desse outro.
É
frequente acontecer em famílias em que um dos elementos tem consumos de
substâncias (drogas ou álcool); aí, o indivíduo co-dependente emerge como o
responsável pela “salvação” do seu outro significativo, o que tantas vezes se
revela uma expectativa pouco realista ao longo do tempo. Mas a co-dependência
não aparece apenas em torno do abuso de substâncias químicas. Por exemplo, se
um dos meus pais é infantil, irresponsável, gasta todo o dinheiro que ganha, e eu sinto que tenho que tomar conta dele,
controlar os seus passos, salvá-lo de si mesmo — isso é ser co-dependente. Se o meu
companheiro está permanentemente insatisfeito e infeliz e eu vivo para tentar
animá-lo ou gratificá-lo, isso é co-dependência. No fundo, é deixar que a vida
do outro se torne a minha vida, que o problema do outro se torne o meu problema
e, muitas vezes, sem que a pessoa em questão faça alguma coisa para o resolver.
De
uma forma geral, podemos enumerar assim os pontos-chave da problemática da
co-dependência (ou dependência afectiva): a) Sentir-se responsável por outras
pessoas – pelos sentimentos, pensamentos, acções, escolhas, desejos,
necessidades, bem-estar, e até pelo seu destino; b) Sentir ansiedade, pena e
culpa quando a outra pessoa tem um problema; c) Sentir-se compelido – quase
forçado – a ajudar a resolver o problema; d) Ter raiva quando a nossa ajuda não
é eficiente; e) Comprometer-se demais; f) Culpar o outro pela situação em que estamos;
g) Achar que a outra pessoa está a levar-nos à loucura; h) Sentir raiva, sentir-se
vítima, como se não tivesse liberdade de escolha.
Claro está que nem todas as forma de apoio e compreensão são
problemáticas, porém, é preciso perceber se nos tornámos os principais responsáveis
por quem não quer tomar conta de si mesmo. Esse é um lugar de grande sofrimento
e que também não ajuda a resolver o comportamento patológico da
pessoa-problema.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016
segunda-feira, 27 de junho de 2016
O Que Arde, Cura
Lembro-me de cair muito ao chão em pequena. Lembro-me do ardor dos curativos na ferida e de ouvir, variadíssimas vezes, que “o que arde, cura”. O curioso é que, anos depois, entendemos que este dizer tem um significado muito vasto. De facto, não há cura sem dor, quer no plano físico, quer no emocional. Os processos de cicatrização e regeneração, sejam que que ordem forem, são sempre processos difíceis, na sua generalidade. É a coragem de enfrentar essas dores que permite a cura. Porém, o medo é muitas vezes maior que a coragem. Temos medo de sofrer. Na melhor das hipóteses, é um estado desconfortável. Na pior, insuportável.
O problema é que, se fugimos da dor, fugimos de nós. Depois da morte do seu pai, Simba estava só e triste com a sua dor e a sua culpa quando conhece Timon e Pumba, em O Rei Leão, que rapidamente o ensinam a viver segundo o lema “Hakuna Matata”, que significa “atira o passado para trás das costas”. E este assim o faz durante um tempo, esquecendo os problemas, saboreando a festa de viver livre na selva, longe da realidade que lhe causou tanta dor. Mas, na verdade, Simba só se sente inteiro quando regressa ao lugar da sua dor para reviver e resolver a situação difícil que a vida lhe apresentou. Assim, “atirar o passado para trás das costas” só é possível depois de olhar para ele de frente, e de resolvê-lo externa e internamente. Só aí, mais sarados, podemos arrumar devidamente o passado dentro de nós.
Carl Jung disse-nos, em A Prática da Psicoterapia, que não há despertar de consciência sem dor mas que “as pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma.” É o medo e o desconforto que nos faz fugir: de chorar, de recordar, de sentir (raiva, tristeza, frustração). O medo de reviver emoções difíceis. Para quê lá voltar? Por estranho que pareça, é preciso. É preciso lá voltar as vezes que forem necessárias. Sabendo, porém, que de cada vez que voltamos a dor é menor. Ficaremos cada vez mais fortes e cada vez mais sabedores de que essa dor não nos destrói. E se a dor é assustadora demais, podemos voltar acompanhados. Seja por um terapeuta, um familiar ou um amigo: que seja alguém que nos pegue pela mão e nos ajude a percorrer essa escuridão dentro de nós, até que o caminho não seja mais assustador. Simba também não foi sozinho.
O processo de cura passa também pela dor. O que muitas vezes não sabemos é que, depois da dor, está a liberdade, a plenitude, a inteireza. Já dizia Luís de Camões “Quem quer passar além do Bojador/ Tem de passar além da dor”. Descobrir-nos-emos, na manhã seguinte, cada vez mais fortes, mais integrados e mais competentes para enfrentar os nossos Adamastores.
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segunda-feira, 13 de junho de 2016
Contas à Vida
A
vida vai em crescendo. Primeiro é-se nada. Depois é-se um. Depois é-se dois.
Depois é-se três.
Primeiro
é-se nada e o mundo gira sem nós. Pessoas, terras e animais existem sem sequer
imaginar que um dia chegaremos. Quando cá chegamos, já milhões de eventos se
passaram, milhões de vidas se viveram, milhões de histórias se contaram.
Guerras, catástrofes, amores, descobertas; o mundo é imenso sem nós. Porém, cá estamos.
Fazemos parte. É-se um em muitos.
É-se
um e para ser-se um, é preciso saber estar só (mesmo na presença do outro).
Saber estar só é saber ser ímpar: sentir-se uno, sentir unidade e coesão
interna. A construção da individualidade é condição primária para o resto da
nossa vida. Vai-se fazendo aos poucos, desde o nascimento, num processo cheio
de avanços e retrocessos: quem somos, de onde vimos, para onde vamos, o que nos
move, o que nos atormenta? Apesar de ser um caminho nosso, neste processo é
fundamental ser-se apoiado: pelas relações mais próximas, pelos nossos
cuidadores, pelo meio envolvente. Com demasiadas falhas em nosso redor, o
caminho passará mais pela busca da sobrevivência do que pela busca de nós mesmos
— há
prioridades. Mas se as coisas correm bem, se temos o que precisamos, podemos
dedicar-nos com relativa tranquilidade à descoberta do nosso mundo interno,
através da relação com os outros e com o mundo, através da brincadeira, através
das aprendizagens e das experiências.
Então,
quando se sabe ser ímpar, pode então ser-se par. É-se dois. O encontro com o
outro é difícil mas será tanto mais fácil quanto mais soubermos quem somos.
Ser-se dois implica saber respeitar a liberdade de cada um. Ser-se dois implica
não nos perdermos de nós próprios ou fundirmo-nos com o outro. Ser-se dois é
ser-se um mais um e nunca ser-se um só. O que liga o par é outra coisa, é a
comunhão dos afectos e dos projectos, são os sonhos.
Quando
o par já não chega e se transborda, é-se três. Ser-se três é uma circunstância
que nasce desses sonhos partilhados numa relação que está viva e que, portanto,
se expande. Ser-se três é ainda mais desafiante. Ser-se três é saber alternar
entre todas estas posições: há momentos para ser-se um, há momentos para ser-se
dois e outros em que se é três. E daqui em diante pode ser-se quatro, cinco,
seis, sendo que entendido o processo as questões serão sempre semelhantes a
partir daqui.
Depois,
se acrescentarmos às contas as nossas restantes relações, podemos mesmo dizer
que somos muitos. E se um dia nos encontrarmos pensando que no fim voltaremos a
ser nada, lembremo-nos antes que depois de tanta construção e ligação seremos
sempre dois, três, quatro, tantos quantos aqueles a quem tivermos deixado neste
mundo um pouco de nós.
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Esta Coisa da Verdade
Verdades esperam-nos, serenamente, ao longo do
caminho. Não têm a nossa urgência e por isso deixam-se estar, sabendo que tudo
tem um tempo mesmo que esse tempo nos pareça fora de tempo. O nosso tempo é
diferente do tempo do Universo. Não se sabe muito bem porquê mas é, quase
sempre, assim. Pois então que tarde, mas que chegue, por fim, essa coisa da
verdade. Outras vezes ela já se tinha mostrado, em sinais de fumo à beira da estrada, mas nós, distraidamente
ou propositadamente, não vemos. Aí o problema da verdade já não é o tempo que
ela demora mas sim a nossa dificuldade de olhar de frente para ela. Pois então
que se olhe tarde, mas que se olhe, por fim, para essa coisa da verdade.
É que como dizia Thoreau, pensador do séc. XIX: “Mais do que amor, do que dinheiro, do que fama, dêem-me a
verdade”. E à semelhança de Thoreau, também a psicoterapia e a
psicanálise (assim como outras disciplinas que abordam o desenvolvimento
pessoal) colocam a verdade acima de todas as outras coisas. Se algo não assenta em
verdade, não tem validade. De pouco nos serve um amor se este não é sincero: amor
de aparências, amor conformado, exigido ou manipulado, não nos preenche, não
nos satisfaz. De pouco nos serve dinheiro se não nos permite viver honestamente:
se nos faz viver no medo ou na ilusão da nossa competência. De pouco nos serve
a fama que não derive da autenticidade: se o reconhecimento nos chega através
de uma falsidade, de uma artimanha ou “personagem”, sentiremos sempre o vazio
dessa ficção, de uma história que não é nossa, e sentir-nos-emos sempre pouco
amados na nossa essência.
Porém, a
espécie humana prefere muitas vezes a superficialidade, preferindo mentiras
confortáveis à profundeza da verdade. Mentiras confortáveis sobre a vida, sobre
os outros e sobre nós mesmos. As verdades nem sempre nos confortam, pelo
contrário, obrigam-nos a mexer: obrigam-nos a olhar as falhas, a trabalhar
mais, a continuar à procura, a perder coisas e a seguir em frente. As verdades
doem porque fazem crescer, mas se crescer dói, não crescer mata. Viver na
mentira, principalmente a interna, mata a vida psíquica porque viver de forma
não genuína é o mesmo que não viver, é simular uma vida. É no encontro connosco
próprios, na nossa verdade, que se constrói o único caminho que nos realiza, e
que assegura que um dia mais tarde, sintamos a paz de ter existido de forma
real neste mundo.
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Uma Outra Definição Para o Amor
"Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço
galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com
as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às
vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de
sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros
passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora
da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo
ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada.
Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus
cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser
maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar
do som do vento a bater no trigo." — in O Principezinho
terça-feira, 19 de abril de 2016
O Medo do Sucesso (Ou a Paz dos Perdedores)
![]() |
| Robert Montgomery |
No outro dia contavam-me que Fernando Mamede, atleta do Sporting Clube de Portugal, possuía enorme e reconhecido talento. Que apesar de todos os recordes internacionais por ele batidos no atletismo, não conseguiu vencer algumas barreiras psicológicas, medalhando apenas numa grande competição internacional. Contaram-me que um dos momentos mais dramáticos do seu percurso deu-se em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nem um mês depois do seu recorde mundial nos 10.000 metros. A pressão nos ombros de Fernando Mamede era enorme pois era já o grande favorito ao ouro olímpico, porém, a meio da corrida, o atleta abandonou a prova, para espanto de todos os que assistiam.
Mas se muitos ficaram espantados, certamente Sigmund Freud
não ficaria. Uma das coisas que ele nos ensinou na sua vasta
obra, através do estudo de pacientes neuróticos, é que os erros catastróficos e
as explosões na vida particular normalmente não acontecem após um fracasso, mas
sim após uma vitória. De facto, encontramos situações semelhantes não só no
mundo da alta competição mas também no mundo empresarial, artístico e claro, na
esfera relacional de cada um de nós. Há pessoas que parecem não suportar muito
bem uma coisa fantástica: seja uma carreira fulgurante ou um casamento feliz. Porém,
ninguém estraga o que fez ou trabalha contra si
mesmo conscientemente. Com raízes inconscientes, o "medo do sucesso" associa-se
geralmente a duas questões: ansiedade e/ou culpa.
O sentimento de culpa perante o sucesso,
explicação que Freud mais explorou, pode ter raízes no fantasma do triunfo sobre
os próprios pais, seja uma superação académica, financeira, romântica ou
social. Pode até dar-se o caso de haver um
medo inconsciente de retaliação, sob a forma de perda do amor, zanga ou inveja,
preferindo o sujeito manter-se num nível “igual ou inferior” aos mesmos,
evitando essa “competição”. Outra explicação para a culpa, também com raízes
antigas, prender-se-á talvez com a baixa auto-estima, desvalorização pessoal e
sentimento de desmerecimento. Como se um “sabotador interno” (citando Fairbain)
nos impedisse de concretizar um feito por não nos acharmos dignos de tal.
Entre os
factores explicativos para estes actos “auto-destrutivos” encontramos também a
ansiedade: que nasce de uma sensação de insegurança, incapacidade ou medo do
crescimento (no sentido de tudo o que é expansão). É a angústia de não estar à
altura, é o querer ser sempre mais “pequenino”. É o
medo de conseguir e depois perder. Toda a felicidade
e/ou poder envolve tensão, riscos e responsabilidade. E muitos preferem a
chamada "paz dos perdedores".
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domingo, 3 de abril de 2016
O Valor das Coisas
Na era moderna iniciou
reinado “Sua Majestade, Os Mercados” e, consequentemente, aquilo a que podemos
chamar a mercantilização das coisas. A mercantilização deriva em grande parte
da difusão do capitalismo global e da sua tendência para a
quantificação/qualificação de tudo, o que acontece muitas vezes de forma
redutora. E assim chegamos a uma questão importante: a disseminada confusão
entre o preço e o valor das coisas.
Segundo a
teoria económica, o preço de determinado bem resulta do confronto, no mercado,
entre a sua procura por parte dos consumidores e a sua oferta por parte dos produtores. Tem também que ver com o processo de
concepção do produto mas é cada vez mais fundamentando no que o mercado “pensa”
e “diz” que algo vale. O preço é ainda ditado pela moda, pelo marketing e pela publicidade.
O preço é algo que é atribuído, a sua origem é externa, o que implica que nem
sempre o preço de algo é equivalente ao seu valor.
Valor é
um conceito diferente. Há coisas muitos valiosas que nem sequer têm preço e,
inversamente, há coisas muito caras sem grande valor. Valor é outra coisa. Se o
preço é ditado, o valor é intrínseco. O valor vem de dentro, é uma propriedade independente
do exterior. O valor não está dependente de nada, está dissociado (ou deveria estar)
dos mercados, das modas, da procura e da publicidade. É também uma característica
bastante subjectiva: difere consoante o olhar de cada um.
O olhar mercantilista da era moderna conduz, talvez, à confusão.
Observamos que as pessoas vão sendo sucessivamente influenciadas pelo valor que
o mercado atribui às coisas (preço) e não pelo valor intrínseco das mesmas. Ou
seja, as pessoas vão perdendo a sua capacidade crítica, o seu livre arbítrio e
mesmo a sua identidade, deixando de escolher (ou mesmo saber) o que querem e
passando a escolher o que os mercados aprovam ou recomendam.
Depois, e talvez mais
grave, deu-se uma aplicação do mesmo raciocínio às próprias pessoas, num
processo que Carlo Strenger chamou a “mercantilização do Eu”. É hoje possível
dizer que muita da nossa angústia narcísica (qual é o meu valor?) talvez derive
do facto de vermos pessoas procurar o seu “preço” ao invés do seu valor. Querem
saber o valor que o “mercado” lhes atribui — quantos amigos, que estatuto, quanto sucesso, que ordenado,
quantos “gostos” — quando na
verdade, aquilo que nos permite gostar de nós é sabermos o nosso valor, i.e.,
sabermos quem somos e o que nos torna diferentes: diga o mundo o que disser, recomende-nos
o que quiser, pague-nos o que pagar, goste de nós ou não.
segunda-feira, 21 de março de 2016
quinta-feira, 17 de março de 2016
Reciprocidade
"Why does the lamb love Mary
so?"
The eager children cry;
"Why, Mary loves the lamb,
you know,"
The teacher did reply.
sábado, 5 de março de 2016
Beijos dão-se a quem os quer
![]() |
| The Kiss, 1891, Mary Cassat |
Chegou
ao pé de mim e baixei-me para lhe dar um beijinho, ao que ele não correspondeu.
Aliás, encolheu-se, parecia incomodado. Mais tarde, a sós, perguntei-lhe se
gostava de beijinhos. Disse-me que não. Desde então, cumprimento-o com um olá e
um sorriso. Beijos só se dão a quem os quer.
Embora
muitos miúdos gostem de beijinhos e abraços, uma outra parte das crianças não
gosta de ser tocada como forma de cumprimento. Entre adultos, e particularmente
em Portugal, generalizou-se este cumprimento, mais informal. Mas não é por
acaso que em muitas culturas o beijinho só é bem recebido a partir de um
determinado grau de intimidade. “Dá um beijinho à tia Maria”, ordenam-lhe os
pais, quando chega aquela mulher estranha, que nunca viu na sua vida. Que raio,
mas porquê? “É uma questão de boa educação”, respondem-lhe. Mas onde está
escrito que a boa educação implica distribuir beijos quando não nos apetece? O
beijo forçado é um gesto extremamente intrusivo. O corpo é da criança, não é de
mais ninguém.
Quando
uma criança demonstra claramente não gostar de dar ou receber beijos ou abraços
é suposto haver respeito. Para que ela saiba que tem o direito de escolher quem
a abraça, quem a beija e quem a toca. Para que aprenda que o seu corpo não tem
de servir as convenções ou o interesse alheio. Quando
expomos uma criança a estes abusos estamos a passar a perigosa e errada mensagem
que a criança “boazinha” e “bonita” é aquela que se permite ser tocada, aquela
que expressa educação e simpatia através do contacto corporal; que a criança
“boazinha” e “bonita” e, consequentemente, aceite e aprovada pelos outros, é
aquela que não coloca limites sobre seu próprio corpo. O desrespeito
surge também sob a forma de chantagem emocional: “Não gostas de mim?”,
perguntam. Estão a confundir tudo, o afecto não se mede aos beijos. E se a
pessoa está carente de beijos, pode sempre arranjar um namorado.
Ainda
que seja com a melhor das intenções, obrigar uma criança a dar um beijo é
violento. Que responda, que cumprimente, sim. Beijar ou abraçar, no interesse
de quem? Se a criança quiser dar beijinho, dará. Se a criança diz que não quer,
que não lhe apetece, ou simplesmente vira a cara, não o levemos a peito. A
criança tem direito ao seu espaço, à sua intimidade e ao controlo do seu corpo.
O corpo de uma criança tem de ser tratado com muito respeito. Embora ela
precise de nós na relação com ele (tomar banho, vestir-se) se ela começa a
colocar limites (querer tomar banho sozinha, querer vestir sozinha, não querer
ser abraçada) há que começar a pensar sobre isso. No que respeita à nossa
intimidade, “não” significa “não”, em qualquer idade. E só se nos respeitarem
poderemos também aprender a respeitar o outro.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Quando dói
![]() |
| Memory (The Heart) - Frida Kahlo |
Há muitos anos atrás
visitei uma exposição interactiva chamada “Bom dia medo!”. À entrada, todos os
meninos escolhiam e sinalizavam, de entre vários, qual o seu maior medo. Entre
as opções encontravam-se o medo do escuro, o medo dos animais ou o medo dos
desconhecidos mas recordo-me de constatar que quase todas as
crianças escolhiam o medo da dor.
Numa
fase precoce do entendimento, tememos mais a dor física (as quedas e
trambolhões, as feridas, as vacinas) mas mais tarde, percebemos com facilidade
que há outras dores mais terríveis: as dores da alma. Hoje sabemos que
toda a dor se processa no cérebro, seja lá de que origem for. Mas é noutro
lado que se sente: ninguém quer sofrer cá dentro, no coração.
O
fenómeno da dor (ou das várias formas de se sentir dor) é algo muito complexo:
onde uns a sentem, outros não sentem nada, e o que representa dor para uns é
diferente do que representa dor para outros. Coisas que antes doíam, deixam de
doer. Coisas que nunca doeram, passam a doer. A dor é uma percepção plástica e
móvel, que se altera e migra no espaço e no tempo. A dor é também um sintoma: a
dor fala sobre muitas coisas. Uma dor de cabeça pode falar de ansiedade, uma
dor de barriga pode falar-nos de medo, uma dor nas pernas pode falar-nos de
dificuldades no processo de autonomia, entre outras situações. Em boa verdade,
sentimos medo da dor física mas aquilo que nos marca é a correspondente dor
mental.
Como
se não bastasse, não só tememos a dor-em-si como tememos a hipótese de a
sentir. Essa mesma antecipação da dor, já causa, em certa medida, sofrimento.
Chamamos-lhe angústia, mas a angústia também “dói”. Corrói por dentro,
torce-nos as entranhas, tira-nos o sono, a fome, a paz. Ou seja, há o medo da
dor mas há também a dor do medo. O medo nasce cedo porque cedo se sabe que
muita coisa, no nosso existir, dói. As experiências da dor são inevitáveis.
Muitas surpreendem-nos logo dentro da barriga da mãe: desconfortos vários, de
maior ou menor intensidade, que a cada sensação rapidamente nos condicionam a
não experienciar aquilo mais nenhuma vez. Mas ela regressa sempre, de todas as
maneiras. Em desconfortos, outros. Em desencontros, muitos, entre o nosso
sentir e o sentir dos outros, pelas perdas sucessivas que vamos acumulando,
pelas doenças do corpo e pelos males da alma, há demasiada coisa que dói e é
disso que fugimos.
Talvez
a melhor forma de lidar com a dor seja, em primeiro lugar, parar de fugir:
aceitá-la. É preciso aceitar a dor. É preciso aceitar que ela faz parte da
vida: da nossa e da dos outros. É na aceitação da dor que o caminho se torna
mais fácil. A vida vai doer, não nos iludamos — coragem. Que isso não nos impeça, jamais, de viver. A vida vai doer mas há
outra coisa que sabemos: à partida, nada dói para sempre. Tudo passa. E é nessa
certeza que encontramos o conforto necessário para não morrermos de medo todos
os dias. Venha o que vier, venha a pior tempestade, haverá sempre de seguida,
uma bonança. É desse agridoce que surgem as melhores histórias, os melhores contos, os melhores poemas.
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