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sábado, 25 de fevereiro de 2012

A rígida existência dos Asperger


Fala-se da Síndrome de Asperger, uma perturbação do espectro do autismo que, ao contrário deste, permite que o indivíduo, apesar das dificuldades, seja minimamente funcional em sociedade. Foi Hans Asperger, físico austríaco, quem primeiramente descreveu esta síndrome, em 1944.

Esta perturbação, cuja grande limitação é a dificuldade relacional do indivíduo com os outros que o rodeiam, é normalmente diagnosticada durante a infância ou pré-adolescência (consoante o meio envolvente estiver mais ou menos atento ao desenvolvimento da criança). Os Asperger isolam-se frequentemente, embora estejam plenamente conscientes da existência do(s) outro(s) e do mundo externo e até desejem fazer amigos e conhecer pessoas. Contudo, quando interagem com alguém, a sua abordagem é estranha ou mesmo desadequada, insensível ao sentir do outro e ao impacto dos seus comportamentos (expressões faciais de aborrecimento, pressa, evitamento do olhar ou, por oposição, olhar fixamente). Há ainda uma incapacidade de compreensão da ironia, de metáforas ou outras formas de comunicação mais abstractas e simbólicas, o que origina mal-entendidos e a retirada das relações. Há ainda uma dificuldade a nível dos contactos físicos. No fundo, sofrem de uma enorme dificuldade em compreender e viver as relações humanas, com a intersubjectividade que lhe é inerente e as suas complexas regras de interacção e convívio social.

Uma outra característica muito comum desta perturbação é a presença de interesses excêntricos (às vezes coleccionam obsessivamente coisas invulgares). Vão perguntando e falando insistentemente sobre esses seus interesses, numa espécie de monólogo ou dissertação, sem aparentemente questionar se o seu interlocutor está ou não interessado e sem reconhecer nos outros alguns sinais primários de enfado ou desinteresse (de novo, a incapacidade de “ler” os outros). Existe uma grande rigidez do pensamento, pouco plástico, bem como uma forte intolerância para com as falhas dos outros e também para com as suas próprias. Curiosamente, há também uma rigidez corporal (são crianças e adultos fisicamente desajeitados, de andar duro e pouco gracioso). Rigidez, também, ao nível da capacidade de adaptação às mudanças. Estas crianças e adultos necessitam de rotinas e reagem sempre mal perante alterações súbitas.

Ao nível das capacidades cognitivas, estas crianças situam-se a um nível de inteligência média ou acima da média (especialmente no campo verbal) mas falham nas capacidades de compreensão e abstracção. Tendem a ser muito concretos. Assim, também a memória é frequentemente excelente, mas de natureza mecânica, sendo que as suas habilidades de solução de problemas são fracas. Fica-nos a imagem de um funcionamento robotizado, sem dinâmica ou pulsão de vida, numa alma algures impedida da sua possibilidade de brincar, de imaginar, de experimentar, de pensar e de sentir.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

As crianças que vêm do frio



Numa carta, dois pais escrevem: “Primeiro, há uma certa estranheza, que chega aos poucos e acaba por se instalar como um mau presságio. A nossa criança está ali, linda e perfeita como a sonhámos, ao mesmo tempo não está bem ali. Parece estar noutro sítio, os olhos olham outro mundo que nos escapa, a fala tropeça em repetições obsessivas que lhe atrapalham o sentido.” (in Eu sinto um tormento com a ideia do fim definitivo).
O autismo, essa perturbação sobre a qual se sabe muita coisa mas parece ainda pouco se sabe. Uma patologia tão grave e tão precoce que nunca será totalmente eliminada. Não há consenso. Várias causas são apontadas como origem da perturbação autista e as manifestações são igualmente variáveis de caso para caso, assim como as perspectivas evolutivas. Como tal, preferimos falar num espectro do autismo ao invés de simplesmente autismo.
Em qualquer dos casos, é sempre assustador. Pela sensação de impotência que despoleta nos outros e pelo prognóstico sempre reservado para estas crianças. Não obstante as nuances de indivíduo para indivíduo, são descritas como crianças que não reagem aos estímulos como as outras crianças, quer sejam sonoros, quer sejam visuais. Uma perturbação por vezes silenciosa quando estes meninos não incomodam os adultos e apenas quando nos relacionamos com eles, verificamos, então, que falta qualquer coisa. Fecham-se num sistema solitário, repetem-se, incessantemente, podendo ganhar movimentos estereotipados. Há uma ausência de movimentos de antecipação e não há um diálogo corporal com a mãe. Não há procura. Mas por vezes, acessos de raiva explodem, mortificando as mães desorientadas com o caos emocional do seu filho.
Existe uma falta de interesse aparente pelos outros, o olhar é diferente, baço, não expressa nem dialoga. Há uma ausência de sorriso, e simultaneamente uma ausência de angústia, face à mãe ou face ao estranho. A indiferença. Têm uma insónia calma, acordam e não gritam. Não têm actividade conjunta e não brincam em conjunto. Não são capazes de fazer de conta. Não usam os objectos com a finalidade que eles têm. No entanto, alguns demonstram uma habilidade especialmente desenvolvida como a pintura, a memória, o desenho, que espantam e deliciam quem os conhece. Estas crianças necessitam de uma relação de objecto (um vínculo privilegiado com alguém que cuida deles, habitualmente, a mãe) mas em relação a este objecto há uma indistinção, tanto lhes faz quem seja.
A relação com uma criança autista é uma relação frustrante, dá-se sem receber. No entanto, pequenas pérolas de comunicação surgem por vezes, e daí advém a força que leva a continuar. Para promover e facilitar a comunicação hoje há também terapêuticas de mediação com a água, técnicas com espelho, e outros tipos de intervenções corporais, bem como a hipoterapia, golfinhoterapia e terapias da música e da dança e, ainda, a psicomotricidade e os benefícios da prática da escalada. Quem sabe o tempo e o conhecimento um dia quebrem o gelo?