Naquele tempo acordava várias vezes por noite com o coração
transpirado. Era como se ele trabalhasse arduamente durante aquelas horas mais
escuras, enquanto o corpo inerte descansa. Imaginei-o de mangas arregaçadas,
expressão séria de profunda concentração, envolvido em limpezas de fundo e
outras coisas que durante o dia não tem tempo de fazer, como as obras nas autoestradas,
que acontecem sempre pela madrugada fora. Imaginei-o ainda em arrumações
necessárias e organização logística
do que estaria por vir. Chamou-me à atenção este assunto pois tornou-se
matemático que a meio da noite ele precisava de limpar a testa com a palma da
mão e sossegar um pouco. Bebia um copo de água e, quando eu adormecia, ele
recomeçava. Senti um enorme respeito. Sabia que eram tempos conturbados e
atingiu-me que havia certamente muito trabalho a fazer lá por dentro, tarefas
de uma complexidade cósmica. Achei que se lhe perguntassem ele diria com toda a
certeza que ser coração ali nunca tinha sido propriamente fácil, que era um
trabalho exigente e que havia picos de grande turbulência. Desconfio que nem
sempre recebia o necessário. Ainda assim, eram desafios que ele tinha sempre a
competência de superar. Ainda assim, se lhe perguntassem, ele não quereria ser
coração do lado esquerdo do peito de mais ninguém.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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sábado, 7 de janeiro de 2017
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Contas à Vida
A
vida vai em crescendo. Primeiro é-se nada. Depois é-se um. Depois é-se dois.
Depois é-se três.
Primeiro
é-se nada e o mundo gira sem nós. Pessoas, terras e animais existem sem sequer
imaginar que um dia chegaremos. Quando cá chegamos, já milhões de eventos se
passaram, milhões de vidas se viveram, milhões de histórias se contaram.
Guerras, catástrofes, amores, descobertas; o mundo é imenso sem nós. Porém, cá estamos.
Fazemos parte. É-se um em muitos.
É-se
um e para ser-se um, é preciso saber estar só (mesmo na presença do outro).
Saber estar só é saber ser ímpar: sentir-se uno, sentir unidade e coesão
interna. A construção da individualidade é condição primária para o resto da
nossa vida. Vai-se fazendo aos poucos, desde o nascimento, num processo cheio
de avanços e retrocessos: quem somos, de onde vimos, para onde vamos, o que nos
move, o que nos atormenta? Apesar de ser um caminho nosso, neste processo é
fundamental ser-se apoiado: pelas relações mais próximas, pelos nossos
cuidadores, pelo meio envolvente. Com demasiadas falhas em nosso redor, o
caminho passará mais pela busca da sobrevivência do que pela busca de nós mesmos
— há
prioridades. Mas se as coisas correm bem, se temos o que precisamos, podemos
dedicar-nos com relativa tranquilidade à descoberta do nosso mundo interno,
através da relação com os outros e com o mundo, através da brincadeira, através
das aprendizagens e das experiências.
Então,
quando se sabe ser ímpar, pode então ser-se par. É-se dois. O encontro com o
outro é difícil mas será tanto mais fácil quanto mais soubermos quem somos.
Ser-se dois implica saber respeitar a liberdade de cada um. Ser-se dois implica
não nos perdermos de nós próprios ou fundirmo-nos com o outro. Ser-se dois é
ser-se um mais um e nunca ser-se um só. O que liga o par é outra coisa, é a
comunhão dos afectos e dos projectos, são os sonhos.
Quando
o par já não chega e se transborda, é-se três. Ser-se três é uma circunstância
que nasce desses sonhos partilhados numa relação que está viva e que, portanto,
se expande. Ser-se três é ainda mais desafiante. Ser-se três é saber alternar
entre todas estas posições: há momentos para ser-se um, há momentos para ser-se
dois e outros em que se é três. E daqui em diante pode ser-se quatro, cinco,
seis, sendo que entendido o processo as questões serão sempre semelhantes a
partir daqui.
Depois,
se acrescentarmos às contas as nossas restantes relações, podemos mesmo dizer
que somos muitos. E se um dia nos encontrarmos pensando que no fim voltaremos a
ser nada, lembremo-nos antes que depois de tanta construção e ligação seremos
sempre dois, três, quatro, tantos quantos aqueles a quem tivermos deixado neste
mundo um pouco de nós.
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Uma Outra Definição Para o Amor
"Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço
galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com
as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às
vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de
sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros
passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora
da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo
ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada.
Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus
cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser
maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar
do som do vento a bater no trigo." — in O Principezinho
quinta-feira, 17 de março de 2016
Reciprocidade
"Why does the lamb love Mary
so?"
The eager children cry;
"Why, Mary loves the lamb,
you know,"
The teacher did reply.
sábado, 5 de março de 2016
Beijos dão-se a quem os quer
![]() |
| The Kiss, 1891, Mary Cassat |
Chegou
ao pé de mim e baixei-me para lhe dar um beijinho, ao que ele não correspondeu.
Aliás, encolheu-se, parecia incomodado. Mais tarde, a sós, perguntei-lhe se
gostava de beijinhos. Disse-me que não. Desde então, cumprimento-o com um olá e
um sorriso. Beijos só se dão a quem os quer.
Embora
muitos miúdos gostem de beijinhos e abraços, uma outra parte das crianças não
gosta de ser tocada como forma de cumprimento. Entre adultos, e particularmente
em Portugal, generalizou-se este cumprimento, mais informal. Mas não é por
acaso que em muitas culturas o beijinho só é bem recebido a partir de um
determinado grau de intimidade. “Dá um beijinho à tia Maria”, ordenam-lhe os
pais, quando chega aquela mulher estranha, que nunca viu na sua vida. Que raio,
mas porquê? “É uma questão de boa educação”, respondem-lhe. Mas onde está
escrito que a boa educação implica distribuir beijos quando não nos apetece? O
beijo forçado é um gesto extremamente intrusivo. O corpo é da criança, não é de
mais ninguém.
Quando
uma criança demonstra claramente não gostar de dar ou receber beijos ou abraços
é suposto haver respeito. Para que ela saiba que tem o direito de escolher quem
a abraça, quem a beija e quem a toca. Para que aprenda que o seu corpo não tem
de servir as convenções ou o interesse alheio. Quando
expomos uma criança a estes abusos estamos a passar a perigosa e errada mensagem
que a criança “boazinha” e “bonita” é aquela que se permite ser tocada, aquela
que expressa educação e simpatia através do contacto corporal; que a criança
“boazinha” e “bonita” e, consequentemente, aceite e aprovada pelos outros, é
aquela que não coloca limites sobre seu próprio corpo. O desrespeito
surge também sob a forma de chantagem emocional: “Não gostas de mim?”,
perguntam. Estão a confundir tudo, o afecto não se mede aos beijos. E se a
pessoa está carente de beijos, pode sempre arranjar um namorado.
Ainda
que seja com a melhor das intenções, obrigar uma criança a dar um beijo é
violento. Que responda, que cumprimente, sim. Beijar ou abraçar, no interesse
de quem? Se a criança quiser dar beijinho, dará. Se a criança diz que não quer,
que não lhe apetece, ou simplesmente vira a cara, não o levemos a peito. A
criança tem direito ao seu espaço, à sua intimidade e ao controlo do seu corpo.
O corpo de uma criança tem de ser tratado com muito respeito. Embora ela
precise de nós na relação com ele (tomar banho, vestir-se) se ela começa a
colocar limites (querer tomar banho sozinha, querer vestir sozinha, não querer
ser abraçada) há que começar a pensar sobre isso. No que respeita à nossa
intimidade, “não” significa “não”, em qualquer idade. E só se nos respeitarem
poderemos também aprender a respeitar o outro.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Altruísmo, Egoísmo e Amor-Próprio
A
nossa cultura, de forte tradição judaico-cristã, apela ao amor ao próximo. Mas
se amar os outros é uma virtude, tantas vezes se insinuou que amar-se a si mesmo seria um “pecado”. Aliás, Calvino referia-se
ao amor-próprio como se fosse
uma “peste”. Fazia-se então, mais do que hoje, o elogio da capacidade de
sacrifício. Partia-se do ponto de vista que o amor pelo outro e o amor por nós
mesmos são dois tipos de amor que se excluem mutuamente. Hoje sabemos que o
amor pelo outro não pode sequer existir sem que, primeiro e/ou simultaneamente,
exista amor-próprio.
O
amor pelo outro implica o respeito pelo ser humano em geral, e eu sou tão ser
humano quanto todos os outros. Repare-se que mesmo a Bíblia não nos ensinou a
colocar o outro como prioridade, mas sim em igualdade, pois diz-nos “ama o
próximo como a ti mesmo”. O respeito pela nossa integridade e o amor pelo nosso
“eu” não podem ser dissociados do respeito e amor pelos outros seres. Assim, as
atitudes de amor (por nós e pelo outro) não são uma disjunção (ou uma ou outra)
mas, sim, uma conjunção (uma e outra).
Apesar
de todo este conhecimento teórico, é com facilidade que, no dia-a-dia, ainda se
apregoa como grande virtude de carácter o facto de se "pensar mais nos
outros do que em si mesmo". É uma tendência enraizada da dita cultura, que
conduz a uma incondicional admiração do chamado “altruísmo” (dedicação ao
outro) e da instituída confusão entre amor-próprio e egoísmo (dedicação a si
mesmo). Quanto ao altruísmo, entenda-se que um sujeito cujo sentido da vida
é viver para os outros, não pode viver em amor: a negligência de si mesmo,
resulta, mais cedo ou mais tarde, numa hostilidade escondida e/ou inconsciente
para com o mundo ― zanga, amargura, frustração e sensação de injustiça/défice ―
dados os sucessivos desrespeitos a que a pessoa se sujeita. O esvaziar-se de si
não pode ser considerado uma coisa boa. Da mesma forma, o encher-se de si e só
de si, aquilo a que chamamos egoísmo, não se pode confundir com amor-próprio.
Egoísta é aquele que apenas se interessa por si mesmo, que quer tudo para si e
que não retira qualquer prazer do acto de dar, pois apenas pretende receber. E
o segredo está no facto de que o sujeito egoísta, ao contrário do que possa
parecer, não se ama a si mesmo: está profundamente necessitado, como tal, pouco
tem a oferecer. Assim, egoísmo e amor-próprio, não só não são nada semelhantes,
como são profundamente distintos e mesmo contraditórios. Torna-se
então fácil distinguir aquele que se ama (pois também ama o outro mas sempre
com equilíbrio e com balizas) daquele que, precisamente por não se amar, não
pode nem consegue amar mais ninguém.
Queiramos
ou não, nós somos e devemos ser o nosso centro. E só em paz com isso, capazes
de nos amarmos, seremos capazes de amar o próximo. Mães mais felizes são
melhores mães. Filhos mais felizes são melhores filhos. Homens e mulheres mais
felizes são melhores amantes. Que cada um se respeite e se ame
para, de barriga cheia, possamos amar o outro e dedicar-lhe o melhor de nós,
sempre porque queremos e não porque devemos.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Coisas Bonitas
Deixa-me fazer-te
cócegas. Deixa-me fazer-te rir. Deixa-me falar-te das coisas bonitas que passam
despercebidas. Deixa-me fazer-te sorrir no dia mais triste. Vem dançar comigo.
Deixa-me aquecer-te os recantos gelados onde o sol nunca entrou. Falo-te da
alegria de estarmos aqui no mundo ao mesmo tempo. Podíamos nunca nos ter
encontrado, já pensaste nisso? E agora, já sorris? Falo-te da graça escondida
nas cabeçadas que damos todos os dias aqui neste lugar onde nos enfiaram. É tão
tristemente engraçado. Falo-te da sublime arte de rir e chorar ao mesmo tempo.
Falo-te também da curta gargalhada dos momentos simples e ligeiros. Vá,
deixa-me fazer-te cócegas. Deixa-me fazer-te rir. Deixa-me fazer-te bem.
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segunda-feira, 1 de junho de 2015
Bala de Canhão
Recordam-nos que quase tudo é possível — eles sabem melhor
que nós que os monstros existem e ensinam-nos que é preciso acreditar em magia
uma vez por outra. Reconduzem-nos o olhar para baixo — eles mostram-nos que
quem ergue demasiado o queixo perde a noção do chão e tropeça mais.
Relembram-nos que é preciso sonhar — eles levam-nos em altos vôos no Bala de
Canhão mesmo que o nariz fique todo amassado das mil vezes em que se despenha a
pique. Que todos possam ter sempre uma criança por perto para mantermos fresco
o nosso pensamento e doce a nossa alma. Eu cá tenho muita sorte!
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terça-feira, 28 de abril de 2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Matemática dos Beijos
— Um, dois, três, duzentos e cinquenta e
sete, cinco mil setecentos e quarenta e nove: quantos beijos cabem na vida?
— Talvez quarenta milhões? (sorriso) Não
sei. Curtos ou longos? Tudo depende da duração. Num dia cabem mil quatrocentos
e quarenta beijos de um minuto ou um beijo de mil quatrocentos e quarenta
minutos. Tu é que escolhes.
— Tens razão. Isso da duração importa.
Fizeste-me lembrar também daqueles beijos que ficam connosco já depois de se
irem, sabes? E às vezes até se cruzam com outros que hão-de vir: "Olá,
ainda por aqui?".
— É, há beijos que se demoram e acho até
que alguns nunca acabam. Mas a memória de um beijo vale por um beijo, não?
— Olha que não sei. Cada beijo lembrado
pode contar como um novo beijo. Podemos escolher também aqui.
— Hum. E incluindo beijos de que tipo?
— De todos. Dos beijos dados, dos beijos
roubados, dos beijos perdidos e dos achados. Dos beijos que procuram e dos
beijos que encontram. Dos que fracturam e dos que reparam. Dos que rompem e dos
que ligam. Dos beijos que acordam, dos que adormecem. Dos que se encontram à
esquina e dos que chocam de frente. Dos de passarinho e dos de corpo inteiro.
Dos enternecidos e dos apaixonados. Dos que nos esclarecem e dos que nos
confundem. Dos que quase enlouquecem, no bom sentido. Beijo é sempre no bom
sentido. Dos beijos que acalmam e dos que assustam. Dos que respiram e dos que
sufocam. Dos beijos que nos dissolvem, sabes? Dos beijos-buracos-negros que
acabam com a gravidade e nos sugam em espiral para lá do tempo e do espaço. Dos
beijos que desaparecem. E dos que nos perseguem. Perseguem. Perseguem.
Perseguem.
— Mas queres fazer contas ou escrever um
poema?
— Pois se calhar a matemática não se
aplica a isto. Teríamos ainda a questão dos beijos sonhados.
— Também querias ir por aí?!
— Claro. Quero ir por todos os lados.
— (sorriso)
— ah! E o beijo dos beijos. Teríamos que
contar com o beijo dos beijos.
— Qual?
— Tu sabes. É aquele que não se pode
lembrar...
— O que há-de vir?
— Pois. Também não custaria nada. É só
somar um no fim.
— (sorriso) Qual fim? Contigo será
impossível contabilizar beijos.
— Se calhar. Que se lixem as contas. O
que importa é que é sempre a somar. E para que não haja desperdícios lembra-te
disto que é importante: um beijo que não se dá é um beijo que não se deu.
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segunda-feira, 6 de abril de 2015
Morrer de Amor
"Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo..."
— Mário Quintana, Conversa Fiada in Baú de Espantos (1986)
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quarta-feira, 18 de março de 2015
Handling
É pelo toque do outro que conhecemos o nosso corpo. Pela ponta dos seus dedos. É nos contornos do corpo do outro que conhecemos os nossos contornos. Dentro do seu abraço. Tudo assim começa e depois assim continua porque o conhecimento não se basta a si mesmo e precisa de ser reforçado em novos e outros re-conhecimentos, em outros toques e outros abraços, que nos marquem a pele e assim nos recordem que somos um todo e que estamos aqui. Sentimo-nos na relação com o outro e mais precisamente na relação com o seu sentir. Se o outro não nos sentir, não conta. Sem isso, na falta desse ‘handling’ (como lhe chama Winnicott), sobra-nos um corpo desconhecido, ou mesmo traumatizado (se, para além ou no lugar da privação, o nosso corpo sofrer outros embates). Não é um estranho que habita em nós mas somos, sim, nós, que habitamos um estranho. O corpo torna-se matéria, desligado da mente e dos afectos; torna-se um meio de transporte, desintegrado, desinvestido e descontrolado; clivado e posto fora do lugar onde pertence — não é mais nosso. Torna-se fonte de mal-estar, de dores várias e que nos são alheias, que não entendemos, pois ele já não mais nos diz respeito. Não pertence a ninguém. Não é nosso e também já não pode ser oferecido ao outro. O toque pode até começar a queimar. E ele, corpo, que nasceu organismo vivo e vibrante, ponte entre nós e o universo, é agora só um pedaço de carne onde habita uma alma ou onde, se calhar, já não habita coisa nenhuma.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Infinitudes
Não penses que te esqueço. Então ainda não
sabes que trago comigo todos aqueles que amo? Não sabes que o coração é
infinito e que há tantas formas de amor quantas pessoas há no mundo? É que eu
acredito mesmo que o amor liga as almas mesmo quando os corpos não se encontram e os olhos não se cruzam.
Não te queiras esquecer de mim. Esquecer é perder. Pelo contrário. Guarda.
Guarda e lembra-te e será teu para sempre. Não sabes que quanto mais guardares
mais pleno serás? Não sabes que corações cheios são corações vivos? Dizes-me
que chegou ao fim e eu acho que começou. O amor não tem tempo e sem tempo não
há princípio nem fim. Dizes-me que é difícil e dói. Sim. Mas não esqueças
aquilo que dói. Dói porque é importante. Dói porque está vivo. Dói porque é
amor. E pelo amor, tudo. Pelo amor, mais. Ele acrescenta-nos sempre.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Boyhood
― So what's the point?
― Of what?
― I don't know, any of this. Everything.
― Everything? What's the point? I mean, I sure as shit don't know. Neither does anybody else, okay? We're all just winging it, you know? The good news is you're feeling stuff. And you've got to hold on to that.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
A dor que me deixaste
Há dores que os
outros depositam em nós por não terem capacidade para tomar conta delas.
Podemos guardá-las durante algum tempo, podemos tentar transformá-las em algo
bom, mas nem sempre é possível. E quando assim é, quando o outro apenas tem para nos dar a sua dor e nada mais, quando o nosso único
lugar é não ter lugar, chega a hora de partir.
― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.
― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
O melhor presente de Natal
Os presentes no Natal fazem
parte da nossa cultura. São símbolos de afecto e de pertença, possivelmente associados
ao gesto dos Reis Magos, acarretando uma tradição de celebração da família. Mas
ao longo dos tempos o ritual acabou confundido e contaminado por fortíssimos
apelos ao consumo.
Se isto é verdade entre
adultos, mais confuso é para as crianças, obrigando-nos a estar atentos ao que
se passa dentro delas e ao que lhes estamos a transmitir, enquanto modelo para
a vida. A criança, cada vez mais exposta ao meio consumista, vai expressando o
seu desejo de receber um certo presente, mas cabe-nos a nós ter a sensibilidade
de decifrar se o que é pedido é realmente uma escolha sua, algo que lhe trará
verdadeira satisfação, ou uma imposição/influência do ambiente envolvente
(media, grupo de pares, etc.). Ou seja, é importante perceber qual a real
motivação da criança quando pede determinado presente.
O que acontece frequentemente
é que a criança nem sempre pede um presente que seja verdadeiramente importante
para si. Repare-se que não é invulgar a criança ir mudando de ideia a cada anúncio
que passa na televisão, ou mesmo consoante aquilo que alguns amigos pediram
como presente. Mas esta dúvida é, na verdade, uma falsa dúvida. É fruto do
bombardeamento de informações que ela não tem maturidade emocional para gerir,
ou fruto da dificuldade em se conhecer a si mesma e aos seus desejos, imitando
os outros em alternativa. O que acontece depois é que, ao receber o presente, percebe
que afinal não o queria, e este acaba por ser posto de lado.
O melhor presente de Natal
(ou de outra coisa qualquer) é um presente que vai ao encontro do desejo autêntico
da criança e, em geral, esse desejo
está relacionado com os seus afectos mais íntimos e com a sua fase de
crescimento (e respectivos desafios). Assim, um menino que tem vários medos
pode pedir um conjunto de tanques e soldadinhos, uma menina que começou a montar
a cavalo pode pedir uma boneca cavaleira, ou uma criança que acha que ser
cientista pode pedir um microscópio. O exemplo não importa, mas ilustra que, em
todos os casos, o valor do presente em questão, para a criança, não é aleatório,
nem financeiro (pedir o presente mais caro), nem uma imitação, mas sim emocional.
Diz respeito às suas vivências: sejam medos, descobertas ou desejos. Isso é o
que deve conter num presente. O desejo deve ser o desejo da criança e não o
desejo do mercado ou de quem lhe dá um presente (ex: quero que o meu filho seja
médico portanto vou oferecer-lhe um estojo médico).
E se, no fim de tudo isto, o
presente não é possível por qualquer razão, basta dizer à criança sobre a
impossibilidade real de oferecer aquele presente. A vida é feita de limitações
e são esses limites que nos ensinam a esperar e que nos permitem sonhar e
desejar.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Olívia
Olha, vou começar! Espero que gostes! Era uma vez uma menina
chamada Olívia que vivia num grande palácio. Ela não era uma princesa mas era
uma menina muito rica, filha de uns pais muito ricos. No palácio havia todos os
luxos possíveis e imaginários e a
Olívia passava os seus dias entre cortinados de cetim e porcelanas chinesas,
escondendo-se e encontrando-se atrás de todos os objectos que pudessem servir
de esconderijo. Sim, não me interrompas, ela é que se encontrava a ela própria
porque não havia ninguém à procura dela! Deixa-me continuar a história. Um dia
a Olívia cansou-se de se procurar a si mesma e começou a criar teatros de
marionetas. Havia três personagens, três colheres de pau roubadas da grande
cozinha e transformadas no pescador, na mulher do pescador e na filha do
pescador. Mas a Olívia só tinha duas mãos para as três colheres de pau e a
plateia dos seus espectáculos (todos os bonecos que tinha) não era muito
participativa e também isso acabou por perder a graça. Por esta altura, a
Olívia descobriu os livros. Os livros tornaram-se a sua terceira grande
companhia. Pelas histórias dos outros a Olívia integrou a sua própria história
e coloriu os espaços em branco que ia encontrando. Sim, a Olívia assim não se
sentia só. Xiu, deixa-me continuar. Foi assim que a Olívia foi crescendo,
graças à sua capacidade de criar e colorir o seu próprio mundo, tão fisicamente
despido e tão simbolicamente rico. Foi assim que foi crescendo até poder
descobrir o mundo. Até perceber que fora do grande palácio existia um sem fim
de possibilidades e de plateias e de olhos interessados em si. E foi quando se
tornou mais parte do mundo que se sentiu mais zangada. Não, não é nada
estúpido. Foi porque cá fora começou a comparar a vida no palácio com outras vidas
e as pessoas do palácio com outras pessoas e percebeu que tinha perdido coisas
importantes pelo caminho, não te parece evidente? Desculpa, não queria ser
rude. Tomara eu que me fizessem tantas perguntas como tu fazes e que se
interessassem tanto como tu te interessas. Não, claro que não estávamos a falar
de mim, estávamos a falar da Olívia! Eu só estou a contar uma história!
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Os outros em nós e nós nos outros
I carry your heart (I carry it in
my heart)
Assim começa um dos poemas mais bonitos de E.E. Cummings (1952). E a seguir diz:
i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
No fundo é tão simples quanto isto, não é?
Quando o amor do outro mora dentro de nós, nunca estamos sós. Em psicanálise chamamos-lhes objectos internos. Mas o E.E. Cumming tem mais jeitinho. E é assim que aguentamos todas as ausências e separações e perdas.
E depois eu acho ainda que este poema fala de outra coisa. Fala também daquilo que é o meu trabalho, fala de trazer comigo (e dentro de mim) tantos corações que se cruzam comigo.
I carry your heart (I carry it in
my heart)
De me lembrar das pessoas tantas e tantas vezes fora do setting.
(anywhere
i go you go, my dear;
E ainda do quanto elas nos ajudam a ajudá-las.
whatever is done
by only me is your doing, my darling)
Tantos corações que carrego comigo. Tão bom!
my heart)
Assim começa um dos poemas mais bonitos de E.E. Cummings (1952). E a seguir diz:
i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
No fundo é tão simples quanto isto, não é?
Quando o amor do outro mora dentro de nós, nunca estamos sós. Em psicanálise chamamos-lhes objectos internos. Mas o E.E. Cumming tem mais jeitinho. E é assim que aguentamos todas as ausências e separações e perdas.
E depois eu acho ainda que este poema fala de outra coisa. Fala também daquilo que é o meu trabalho, fala de trazer comigo (e dentro de mim) tantos corações que se cruzam comigo.
I carry your heart (I carry it in
my heart)
De me lembrar das pessoas tantas e tantas vezes fora do setting.
(anywhere
i go you go, my dear;
E ainda do quanto elas nos ajudam a ajudá-las.
whatever is done
by only me is your doing, my darling)
Tantos corações que carrego comigo. Tão bom!
domingo, 5 de outubro de 2014
Gesto Espontâneo
Enquanto não nos conhecemos ou não nos damos a conhecer
reunimos à nossa volta relações pouco verdadeiras. O que é natural porque assim
os outros também não sabem bem quem somos e portanto também têm o direito de se
enganar. Uma das melhores consequências de nos encontrarmos e de nos assumirmos tal e
qual como somos é o facto de vermos afastar-se quem então andou por perto ao
engano. Se queremos viver relações mais autênticas, as primeiras perguntas a
fazer são: Sei quem sou? Estou a mostrar-me como sou? E aí entramos num
processo de libertação de tudo o que não interessa, não só por fora como por
dentro. Cá dentro, entendemos por fim o que significa isso da 'liberdade de
ser'. O gesto espontâneo, como diria Winnicott. Não há maior alegria que a de
nos reconhecermos na nossa forma mais genuína e praticar a nossa verdade, não
mais nos importando com o julgamento alheio. Lá fora, um pouco mais de certeza
de que quem está, está de verdade e em verdade. O ciclo é simples: abrir o
coração e assumir a nossa verdade atrai mais amor e mais verdade; a verdade de
saber que quem está por perto nos conhece, nos ama e nos respeita. Já não há
grandes enganos a recear. Ficam os que querem manter-se por perto e esses, sim,
são bem-vindos. Bom domingo!
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Winnicott
terça-feira, 30 de setembro de 2014
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