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quarta-feira, 21 de março de 2012

Prisioneiros do Corpo


O conceito de motricidade diz respeito a um conjunto de mecanismos que nos permitem mover o corpo e os membros em relação aos objectos que nos rodeiam. É também o que permite manter uma postura, isto é, a atitude do corpo no espaço.

A motricidade é uma função absolutamente fundamental, sendo não só uma das mais claras evidências da vida, mas também a nossa principal forma de subsistência, devido à capacidade de interacção com o meio ambiente. É através do movimento dos corpos que podemos transformar pensamentos em acções e sonhos em realidade.

Existem três tipos de movimentos, os voluntários, os voluntários automáticos e os actos reflexos. Os movimentos voluntários são dependentes da vontade do organismo, implicam uma tomada de decisão. Os movimentos voluntários automáticos são de início e cessação voluntários mas o seu ritmo de base é automático como, por exemplo, no caso da locomoção e da escrita. Podemos decidir quando começar e parar de andar mas, enquanto andamos, o movimento é automático. Os movimentos reflexos têm um padrão rígido e automático, sendo também independentes da vontade, na medida em que o organismo não pode de modo algum decidir se o reflexo vai ou não acontecer.

Do mais simples ao mais complexo, dotam a espécie humana de capacidades invulgares e, quando “adoecem”, fazem-nos imensa falta. Estamos, lamentavelmente expostos, à possibilidade de sofrer lesões a nível motor (acidentes, AVC, doenças degenerativas) alterando e condicionando (consoante a gravidade das lesões) a nossa vida em vários aspectos: pessoais, relacionais, profissionais, familiares. Também o próprio processo de envelhecimento deteriora, em maior ou menor grau, as capacidades motoras do indivíduo. Perder capacidades ao nível motor implica muitas vezes a perda de competências, de autonomia, de auto-estima e de liberdade. Inevitavelmente, tudo isto implica grande sofrimento psicológico para o próprio, mas também para aqueles que se relacionam com ele.

Aliado às outras intervenções terapêuticas, o psicólogo assume aqui um papel extremamente importante, pois após a perda do controle dos movimentos, ficamos vulneráveis a crises de depressão e despersonalização. Estão presentes a nostalgia do passado, a tristeza do presente e o medo do futuro. O quotidiano muda, as expectativas mudam, os sonhos mudam (ou perde-se a capacidade de sonhar), e o psicólogo deve intervir tanto junto do próprio paciente como da família de modo a ajudar a minorar o sofrimento e o choque, bem como ajudar a perspectivar a situação e as mudanças que ela implica.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Os desafios da meia-idade



No desenvolvimento humano, todas as etapas do ciclo de vida implicam desafios específicos. Como tal, não só durante a infância e adolescência se processam grandes movimentos e consequentes mudanças. Também ao atingir a meia-idade surgem grandes e novos desafios. A percepção do envelhecimento, a relação conjugal revisitada, os filhos tornados adultos e a competição com pessoas mais jovens no mercado do trabalho podem conduzir à chamada “crise da meia-idade”. Assim, como em todas as restantes etapas da vida, o bem-estar psicológico está em muito ligado à capacidade de enfrentar e resolver com sucesso esses mesmos desafios.
O primeiro desafio, aceitar o envelhecimento do corpo. Por norma, esta tarefa de aceitação tem mais impacto no ser feminino (fomentada pelo peso do estigma social da perfeição do corpo feminino e boicotada pelas transformações associadas à realidade da menopausa). No homem, o envelhecimento do corpo é encarado de forma mais tolerante mas impõe-se igualmente uma dolorosa consciencialização do mesmo nos casos em que se possa associar ao declínio do funcionamento sexual. Esta aceitação implica a consciência de que o corpo não volta a ser o que foi um dia, percebendo, porém, que o corpo é apenas uma pequena parte do nosso ser e que, por isso, vale o que vale. Quanto ao declínio do funcionamento sexual, na maioria dos casos o problema é de origem ansiosa, muito mais do que fisiológica. E no fundo, quanto maior a pressão para nos mantermos excessivamente jovens, maior tristeza e maior irritabilidade sentiremos e mais dificilmente o seremos.
O segundo desafio, lidar com a limitação do tempo e com a ideia de morte. Embora estas questões possam surgir muito mais cedo em certas pessoas, nesta etapa da vida é mais vulgar que apareçam alguns receios mais prementes relativos ao tempo que nos resta, bem como algumas angústias associadas a uma maior proximidade do momento da morte. Porém, seremos tão mais livres disso quanto mais realizados nos sentirmos com a nossa vida  presente, bem como com aquilo que construímos até à data. Seremos ainda mais livres disso se os nossos dias forem bem vividos e se nos sentirmos amados e úteis. 
O terceiro desafio, manter/aprofundar a intimidade. Chegado o momento de autonomização dos filhos por excelência, impera um novo olhar sobre a vida conjugal. De facto, os maiores índices de divórcio acontecem nesta fase, pois após tantos anos a olhar pelos descendentes e a cuidar dos objectivos familiares nem sempre os casais conseguem ir olhando um para o outro da forma mais adequada. E por fim, quando marido e mulher se olham novamente a sós, sem a presença de um terceiro, encontram tantas vezes um certo (ou mesmo enorme) desconforto. Obrigados a conviver sem mediação, muitas vezes desistem da aventura da redescoberta do outro antes de sequer tentar, e logo no preciso momento em que recuperam a intimidade perdida ao longo dos anos.
O quarto desafio, transformar a relação com os filhos. O desafio da parentalidade está em constante transformação. De miúdos a graúdos, as exigência dos filhos para com os pais (e vice-versa) está sempre em transformação. Esta transformação não deve acontecer com nostalgia, mas sim com agrado, energia e positivismo perante um acontecimento natural do ciclo de vida. Se os filhos estão a crescer, é porque fomos bons pais. E assim torna-se fundamental aprender a ler nas entrelinhas o que os filhos pedem de nós, quais são as suas reais necessidades, para nos ajustarmos a elas com bom senso.
O quinto desafio, actualizar-se profissionalmente. Perceber que é fabuloso poder aliar a sabedoria e experiência da idade a todas as ferramentas de renovação de conhecimentos que hoje temos ao nosso dispor. Por mais que os jovens, sem dúvida, mereçam oportunidades, na meia-idade ainda há trabalho a fazer. A reforma vem mais tarde.
O sexto desafio, tornar-se avô/avó. Consequência mais ou menos directa do quarto desafio, há que descobrir os prazeres de poder mimar sem tanta pressão para educar (ou educando sem ansiedade, pelo menos) e de poder acrescentar um novo papel à nossa vida, que nos proporcionará descobertas maravilhosas, até sobre nós próprios.  
O sétimo desafio, cuidar dos mais velhos, os pais dos pais. Há frequentemente uma geração anterior que precisa de ternura e cuidado. Nem sempre é fácil inverter os papéis. Em caso de doença, falamos de um apoio muito exigente e desgastante.
Verifica-se que a meia-idade é um período fértil na procura de aconselhamento ou de uma psicoterapia. Poder contar com ajuda para se redescobrir, para reinvestir no casamento ou mesmo para ganhar coragem para mudar tudo é uma atitude de cuidado e responsabilidade. Sem nunca esquecer que provavelmente esta será a fase mais adequada para usufruir de alguma qualidade de vida e para se permitir investir na felicidade com mais serenidade e sabedoria (se muito já passou, muito ainda virá!).

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Velhos são os trapos


No processo de envelhecimento, a idade de um indivíduo pode ser encarada sob diversos ângulos. O conceito de idade biológica refere-se, sobretudo, ao envelhecimento orgânico, que engloba todas as alterações no funcionamento dos órgãos e do corpo. A idade psicológica, por sua vez, está ligada às competências sócio-emocionais que podem ser mobilizadas e à capacidade de adaptação do indivíduo. Podemos falar ainda de idade funcional, ou seja, a forma como a pessoa funciona apesar da sua idade cronológica. Actualmente, o processo de envelhecimento pode, na generalidade, ser tocado pela mão do Homem, visto que muitos dos seus parâmetros podem ser controlados através de recursos pessoais, sociais, económicos e médicos.
Para lá das questões associadas à falência do corpo, é decisivo para o processo de envelhecimento a existência de saúde mental, que afecta tanto a idade psicológica como a idade funcional. Sabendo que há diversas doenças mentais associadas à velhice, a identificação de sinais ou factores de risco no idoso (perdas de memória, alteração de linguagem, de consciência e de julgamento, entre outras) é uma tarefa importante para promover o envelhecimento saudável. Para tal, é preciso alertar, prevenir, diagnosticar precocemente e iniciar um acompanhamento/tratamento eficaz o mais rapidamente possível. Esta função recai fundamentalmente na atenção do próprio e da sua família a estes e outros sinais e, ainda, na capacidade de resposta dos Serviços de Saúde nas suas várias valências. Para além da necessidade de, socialmente e politicamente, se adoptar um olhar atento às condições de envelhecimento no geral, há um trabalho que pode ser feito pelo próprio idoso, para evitar a tendência depressiva do envelhecimento. Estes afectos escuros, que começam muitas vezes na altura da reforma (fonte de stress pelo estigma de inutilidade que carrega), devem ser combatidos com a consciência de que esta fase da vida não é o vazio nem o início do fim. É a aurora dos hobbies, dos passeios, da família e dos netos, do casamento, que pode ser mais mimado. Com um olhar fresco e sereno, surgirá, sim, a possibilidade de realizar tarefas, actividades e sonhos anteriormente negligenciados por falta de tempo e disponibilidade.