Nem sempre o coração consegue comunicar ao pensamento o que lhe dói. Nem sempre o coração sabe ao certo o que lhe dói: só sabe que dói. Quando o inconsciente domina o nosso funcionamento e não conseguimos compreender porque sentimos o que sentimos e porque fazemos o que fazemos estamos perante um dos bloqueios que torna mais difícil o crescimento e a construção de um lugar de bem estar. É traduzindo as emoções por palavras que nos tornamos mais senhores de nós e menos submissos às forças mais ocultas que nos habitam. Se alguma coisa nos liberta do sofrimento é a capacidade de pensar e de dar sentido à dor.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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segunda-feira, 5 de junho de 2017
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Esta Coisa da Verdade
Verdades esperam-nos, serenamente, ao longo do
caminho. Não têm a nossa urgência e por isso deixam-se estar, sabendo que tudo
tem um tempo mesmo que esse tempo nos pareça fora de tempo. O nosso tempo é
diferente do tempo do Universo. Não se sabe muito bem porquê mas é, quase
sempre, assim. Pois então que tarde, mas que chegue, por fim, essa coisa da
verdade. Outras vezes ela já se tinha mostrado, em sinais de fumo à beira da estrada, mas nós, distraidamente
ou propositadamente, não vemos. Aí o problema da verdade já não é o tempo que
ela demora mas sim a nossa dificuldade de olhar de frente para ela. Pois então
que se olhe tarde, mas que se olhe, por fim, para essa coisa da verdade.
É que como dizia Thoreau, pensador do séc. XIX: “Mais do que amor, do que dinheiro, do que fama, dêem-me a
verdade”. E à semelhança de Thoreau, também a psicoterapia e a
psicanálise (assim como outras disciplinas que abordam o desenvolvimento
pessoal) colocam a verdade acima de todas as outras coisas. Se algo não assenta em
verdade, não tem validade. De pouco nos serve um amor se este não é sincero: amor
de aparências, amor conformado, exigido ou manipulado, não nos preenche, não
nos satisfaz. De pouco nos serve dinheiro se não nos permite viver honestamente:
se nos faz viver no medo ou na ilusão da nossa competência. De pouco nos serve
a fama que não derive da autenticidade: se o reconhecimento nos chega através
de uma falsidade, de uma artimanha ou “personagem”, sentiremos sempre o vazio
dessa ficção, de uma história que não é nossa, e sentir-nos-emos sempre pouco
amados na nossa essência.
Porém, a
espécie humana prefere muitas vezes a superficialidade, preferindo mentiras
confortáveis à profundeza da verdade. Mentiras confortáveis sobre a vida, sobre
os outros e sobre nós mesmos. As verdades nem sempre nos confortam, pelo
contrário, obrigam-nos a mexer: obrigam-nos a olhar as falhas, a trabalhar
mais, a continuar à procura, a perder coisas e a seguir em frente. As verdades
doem porque fazem crescer, mas se crescer dói, não crescer mata. Viver na
mentira, principalmente a interna, mata a vida psíquica porque viver de forma
não genuína é o mesmo que não viver, é simular uma vida. É no encontro connosco
próprios, na nossa verdade, que se constrói o único caminho que nos realiza, e
que assegura que um dia mais tarde, sintamos a paz de ter existido de forma
real neste mundo.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Tudo aquilo que pedires
Tem estado na moda uma tendência ligeiramente omnipotente que
diz que temos tudo aquilo que pedimos. Diz que de cada vez que nos erguemos, o
Universo ergue-se connosco. Começou, talvez, com 'O Segredo' e proliferou como
cogumelos. É uma abordagem da vida
mais 'mágica', com forte ligação a correntes energéticas e espirituais. Se é
exactamente assim ou não, não posso saber ao certo. O que eu sei e concordo é
que somos, sim, imensamente maestros da nossa vida e que a sinfonia também vai,
sim, correndo segundo indicação da nossa batuta. E as teorias dizem: Pede
alegria, terás alegria. Pede sofrimento, terás sofrimento. Pois aqui entra a
psicanálise: o problema disto tudo é que nem sempre temos consciência daquilo
que andamos a pedir. Por exemplo, o conceito e fenómeno de 'compulsão à
repetição' diz-nos que apresentamos uma tendência inconsciente para o regresso
às situações traumáticas da nossa vida, como tentativa de as resolver
internamente/emocionalmente. Como se quiséssemos corrigir uma experiência
passada. Não damos por isso. São coisas que se passam aquém da nossa
consciência. Não é algo que esteja sujeito a racionalização. Só quando, a dada
altura, em vez de nos queixarmos do nosso eterno azar (também lhe chamamos
karma), nos sai da boca ou do pensamento algo do género:
— "Porque é que me rodeio sempre das pessoas erradas?"
— "Porque é que me rodeio sempre das pessoas erradas?"
Ou então pensamos,
— "Se eu quero tanto ser independente porque é que continuo a depender dos outros?"
Ou ainda,
— " Se eu quero tanto ter uma relação sólida porque é que não consigo manter um relacionamento?"
Este é o primeiro passo em direcção à tomada de posse na nossa vida. Ou seja, enquanto não nos apercebermos que estamos presos a um padrão de funcionamento, queremos conscientemente ser felizes mas estamos inconscientemente a retornar ao lugar da dor. Enquanto maestros das nossas vidas, o nosso trabalho é questionar porque é que a orquestra está desafinada. Porque é que certas coisas nos acontecem. Com responsabilidade. Com coragem. É um dos trabalhos em psicoterapia e em psicanálise. Trazer à luz o que está no escuro. Somos, de facto, muito responsáveis. Muito mais responsáveis que o azar ou a sorte. Se calhar temos realmente o que pedimos. Então a questão que fica é: saberemos realmente o que andamos a pedir?
terça-feira, 6 de maio de 2014
Sigmund Freud, O Pai
Neste dia, no
ano de 1856, nascia em Freiberg, na Moravia (antigo Império Austríaco, actual
República Checa), Sigmund Schlomo Freud. Sendo inequivocamente um dos
mais importantes e controversos pensadores do século 20, Freud criou, não
apenas um método, mas todo um inovador e aprofundado entendimento da
complexidade do Homem, levando em conta os aspectos conscientes e inconscientes
da sua vida mental. É justamente
designado como "Pai" da Psicanálise, por "dar à
luz" a teoria mais completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe
que sabe). E que tanto sabe que usa (inconscientemente) as melhores manobras de
ilusão na arte de se enganar a si mesmo.
Freud
mostrou-nos, em parte, as "trevas" que carregamos dentro de nós mas
ofereceu-nos igualmente o caminho que nos conduz à "luz". Hoje, a
Psicanálise (e as suas “filhas”, as psicoterapias de inspiração psicanalítica) continua
a ser uma viagem fabulosa que nos oferece o conhecimento, a verdade e a
liberdade. Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das Tormentas e enfrentar
os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!
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terça-feira, 8 de abril de 2014
O Tigre e a Coisa em Si
“Psychoanalysis itself is just a stripe on the coat
of the tiger. Ultimately it may meet the
Tiger - The Thing Itself - O.”
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Pedrinha (Da Censura do Inconsciente)
“O inconsciente é o capítulo da minha história que é marcado
por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado."
Jacques Lacan (Escritos)
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
O misterioso e maravilhoso mundo inconsciente
Este ano, no Dia da Mãe, comemorou-se também o dia de
um Pai. Celebrou-se o 156º aniversário do nascimento de Sigmund Freud. Ele, que "deu à luz" a teoria mais
completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe que sabe), a Psicanálise.
Tanto sabe, que usa (inconscientemente) as melhores manobras de ilusão na arte
de se enganar a si mesmo, quando não quer ou não suporta saber.
Cá dentro, possuímos processos conscientes, que
percebemos relativamente bem e dos quais damos conta, mas ao mesmo tempo, muito
daquilo que somos remete para dados vivenciais aos quais não temos acesso. A
descoberta da existência do Inconsciente foi um legado imprescindível que
Sigmund Freud nos deixou, permitindo-nos hoje perceber que há mecanismos
psicológicos complexos por detrás dos nossos pensamentos, afectos e
comportamentos.
Porque não acedemos a esse inconsciente? Porque não
podemos (senão não seria inconsciente!). O que fica inconsciente é precisamente
aquilo que não somos capazes de pensar. Para nos ajudar com estas histórias
escondidas, construímos mecanismos de defesa, todos eles inconscientes, para ajudar
(ou não) a lidar com as dificuldades que se vão sentindo ao longo do
desenvolvimento. Temos defesas para evitar, recalcar, deslocar ou projectar afectos
e pensamentos para outro sítio qualquer bem longe da consciência. Sobre estes
mecanismos de defesa, pode dizer-se que uns são mais saudáveis que outros. Pode
dizer-se também, que a capacidade de suportar e pensar o sofrimento é
fundamental para um crescimento mental e afectivo estruturado, mas frequentemente
essas defesas instalam-se maciçamente, desorganizando e prejudicando o nosso
funcionamento e personalidade. Freud mostrou-nos as "trevas" que
carregamos dentro de nós mas ofereceu-nos as técnicas que nos conduzem à
"luz", trazendo à consciência aquilo que precisa de ser pensado e
compreendido. Hoje, a Psicanálise continua a ser uma viagem fabulosa que nos
oferece o conhecimento, a verdade e a liberdade.
Actualmente,
tem como “filhas” as psicoterapias de orientação psicanalítica, que invés de
usarem o clássico divã para deitar os seus pacientes, trabalham face-a-face.
Contudo, em ambas, o acesso aos fenómenos inconscientes permite descobrir a
chave de mistérios fantásticos do ser humano. Para descobrir isto, temos que
ter a força e a coragem de olhar a nossa história, pela mão de uma relação
sanígena (relação que cura). Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das
Tormentas e enfrentar os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!
(29/05/2012)
sábado, 10 de novembro de 2012
Pedrinha (Sobre a Psicanálise?)
"We work in the dark — we do what we can — we
give what we have. Our doubt is our passion and our passion is our task. The
rest is the madness of art."
Henry James
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Marylin, O Mais Belo Fantasma do Mundo
"Ninguém podia adivinhar que
se tratava de um fantasma. Ela era demasiado bonita para isso, demasiado doce, resplandecente.
Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, um tecido, uma sombra
inquietante. Ela, ela encantava-nos. Devíamos ter desconfiado. Que poder tinha
ela para nos fascinar tanto, para nos impressionar e nos levar à nossa maior
felicidade? Deixamo-nos cair na armadilha a ponto de não compreendermos que já estava
morta havia muito tempo.
Na verdade, Marylin Monroe
não estava completamente morta, estava apenas um pouco, às vezes um pouco mais.
O seu charme, ao fazer nascer em nós um sentimento delicioso, impedia-nos de
compreender que não é necessário estar morto para não viver. Começara a não estar
viva desde que nascera. A sua mãe, desumanamente infeliz, expulsa da humanidade
por ter trazido ao mundo uma filha ilegítima, estava estupidificada de
infelicidade. Um bebé não se pode desenvolver de outra forma que não seja no
meio das leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, mesmo
antes de nascer, encontrava-se fora da lei. A melancolia que sentia preenchia
de tal forma o seu mundo que a mãe não teve força para lhe oferecer uns braços
tranquilizadores. Foi necessário colocar a futura Marylin em orfanatos gelados
e confiá-la a uma série de famílias de acolhimento entre as quais era difícil
aprender a amar.
As crianças sem família não têm
tanto valor como as outras. O facto de serem exploradas sexual ou socialmente não
pode ser considerado um crime grave, uma vez que estes pequenos seres
abandonados não são totalmente crianças verdadeiras. Algumas pessoas pensam
assim. Para sobreviver apesar das agressões, a pequena Marylin teve de começar
a “imaginar”, a alimentar-se da própria dor, antes de se afundar na melancolia
e na loucura da sua mãe. Então, declarou que Clark Gable era o seu verdadeiro pai,
e que pertencia a uma família real. Não tinha outra alternativa! Desta forma construía
uma identidade vaga, já que, sem sonhos loucos, teria sido forçada a viver num
mundo de lama. Quando a realidade morre, o delírio dá origem a uma maré de
felicidade. Assim, casou-se com um campeão de basebol para quem cozinhava todas
as noites cenouras e ervilhas , cujas cores tanto lhe agradavam.
Em Manhattan, onde tirou
cursos de teatro, passou a ser a aluna preferida de Lee Strasberg, que era
fascinado pelo seu estranho encanto. Já tinha estado morta muitas vezes. Era
necessário estimulá-la bastante para que não se deixasse levar para o mundo dos
mortos. Ela hibernava, não saia da cama e já não se lavava. Quando acordava com
um beijo, de Arthur Miller, por quem se tornou judia, de John Kennedy ou de
Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e afectuosa, e nenhum deles se
apercebia de que tinha sido encantado por um fantasma. No entanto, ela dizia-o
quando cantava I’m Through With Love. Estando
já afastada do mundo dos mortais, refulgente em plena glória, sabia que só lhe
restavam três anos de vida antes de oferecer a si própria um último presente: a
morte.
Marylin nunca esteve
completamente viva, mas nós não o podíamos saber, pois o seu fantasma era tão
maravilhoso que nos enfeitiçava."
Boris
Cyrulnik in O Murmúrio dos Fantasmas
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Poesia
É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro
entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.
Fernando Pessoa
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sábado, 28 de julho de 2012
Pedrinha (Do mundo interno)
"Cada
pessoa transporta dentro de si um mundo feito de tudo o que viu e amou; e é
para este mundo que incessantemente retorna (...)”
Chateaubriand (in Voyage
en Italie)
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
O relógio avariado
O
relógio da cozinha continua parado e avariado há mais de um ano. Quantas vezes
pensei que bastaria pôr-me em cima de um banco, pegar nele e atirá-lo para o
lixo? Mas nunca o fiz. Nunca o fiz porque aquele relógio sou eu. Ele precisa de
estar assim, porque algumas coisas precisam de denunciar o que se passa dentro
de nós. Não é a preguiça que me impede de o deitar fora, é a verdade. E a
verdade é que o tempo está parado dentro de mim. A minha casa sou eu. Está
parada. Quando eu começar a funcionar, vai aparecer um relógio a funcionar.
Marta Gautier
domingo, 6 de maio de 2012
Sigmund Freud (156 anos)
Dia da
Mãe, mas também dia de um Pai. Comemora-se hoje o 156º aniversário do
nascimento de Sigmund Freud, o "Pai" da
Psicanálise. Homenageamo-lo, também, por "dar à luz" a teoria mais
completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe que sabe). Tanto sabe que
usa (inconscientemente) as melhores manobras de ilusão na arte de se enganar a
si mesmo.
Freud
mostrou-nos as "trevas" que carregamos dentro de nós mas ofereceu-nos
as técnicas que nos conduzem à "luz". Hoje, a Psicanálise
continua a ser uma viagem fabulosa que nos oferece o conhecimento, a verdade e a
liberdade. Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das Tormentas e enfrentar
os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!
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sábado, 5 de maio de 2012
Sonho meu
Falar
de sonhos não é simples. Sonhar faz parte de uma função psíquica fundamental do
ser humano, a função simbólica. Assim sendo, para compreender o que representam
os sonhos, é preciso perceber, primeiro, o conceito de símbolo.
Um
símbolo, elemento essencial na comunicação e pensamento humanos, é um termo, um
nome ou uma imagem que nos pode ser familiar, mas que possui uma conotação
especial para além do seu significado evidente. Assim, uma palavra/imagem é
simbólica quando implica algo mais do que o seu significado manifesto e
imediato.
A
nossa mente trabalha com símbolos no seu quotidiano. Mas este uso consciente
que fazemos dos símbolos é apenas um detalhe óbvio que remete para um facto
psicológico menos conhecido: o homem também produz, ele próprio, os seus símbolos,
inconsciente e espontaneamente, sob a forma de sonhos.
Há
acontecimentos (vivências com pensamentos, afectos e emoções associados) na
nossa vida de que não tomamos consciência. Ficam “guardados” abaixo do limiar
da consciência. E, apesar de os termos ignorado (mesmo sem saber que os ignoramos), mais tarde brotam do inconsciente, de forma camuflada: por exemplo, sob a forma de um sonho. Saiba-se que um sonho raramente representa
aquilo que nos parece. Por isso são, tantas vezes, desprovidos de lógica ou nexo. Para
além do sentido manifesto (evidente) do sonho, possui um poderoso sentido
latente (simbólico, escondido, mascarado), dificilmente acessível sem um
conhecimento muito profundo de nós próprios.
Do
ponto de vista histórico, foi o estudo dos sonhos que permitiu, em grande parte,
aos psicólogos, a investigação do lado inconsciente do funcionamento e
comportamento humano. De facto,
por serem produzidos de forma inconsciente, raramente o indivíduo percebe o que
simbolizam, na verdade, os elementos do sonho. Os livros de interpretação de
sonhos pouco ajudam, pois todo o sonho merece uma análise global e
contextualizada, não podendo ser analisado “às fatias” ou de forma standardizada.
Os sonhos são um mundo intrigante para a maioria das
pessoas. Sabemos que apenas conhecemos uma ínfima parte do que se
passa dentro de nós. O “resto” fica bem lá no fundo e, muitas vezes, só um
processo de psicanálise ou psicoterapia psicanalítica pode trazer à consciência
aquilo que, sozinhos, não compreendemos (ou que “escondemos” de nós próprios). Relembrando
o que disse Carl Jung em O Homem e os seus Símbolos (1987), “aquele que nega a existência do inconsciente está, de
facto, a admitir que, hoje em dia, temos um conhecimento total da psique. É uma
suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a
respeito do universo físico. A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma
é, igualmente, sem limites.”
quinta-feira, 1 de março de 2012
Pedrinha (De Freud, o "abre-caminhos")
Permitindo-se levar a sério e compreender cada palavra, cada fantasia, cada mentira (verdade esquecida, para o poeta Mario Quintana), Freud estava dando um recado para o século: é necessário ouvir as crianças. Assim, abria um campo enorme que continua sendo aberto. Cem anos depois, começamos a ouvir melhor em algumas casas, escolas ou consultórios.
Celso Gutfreind in O Pequeno Hans discutido e sentido entre o passado e presente (Revista Brasileira de Psicanálise)
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Tormentos
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”
(Excerto retirado de uma carta escrita por Florbela Espanca a 10 de Julho de 1930 e enviada a Guido Battelli).
Obesidade
É um tema na ordem do dia e ainda propósito da Conferência Internacional de Obesidade Infantil, que decorreu em Oeiras entre 6 e 9 de Julho, entenda-se que a obesidade é uma doença que afecta os indivíduos fisicamente, psicologicamente e socialmente. Na sua origem estão diversos factores, tais como comportamento alimentar inadequado, doenças endocrinológicas, perturbações psiquiátricas, questões genéticas, ausência ou diminuição da actividade física, bem como factores emocionais.
Sabe-se, ainda, que a incidência da obesidade na infância tem vindo a aumentar em todo o mundo, aliás, “a nível nacional, 32,2% das crianças têm peso a mais e 14,6% enquadram-se já num quadro clínico de obesidade” (i, 06/07/2011). De relevar que, ao contrário do que muitas famílias pensam, a criança obesa não terá nenhuma facilidade em perder a gordura mais tarde. É por volta dos dois anos e meio que se define o número de células gordas do indivíduo. Assim, uma criança com excesso de peso possui maior número de células gordas do que uma criança com peso normal. Possuindo maior número de células gordas, o indivíduo terá mais dificuldade em ser um adulto magro.
A obesidade não é considerada uma perturbação do foro psiquiátrico, uma vez que está muito relacionada com causas orgânicas (distinguindo-se assim do grupo das Perturbações do Comportamento Alimentar). No entanto, encontra-se profundamente relacionada com factores emocionais, especialmente de natureza psicossomática (o corpo como veículo da mente). Quer no caso das perturbações do comportamento alimentar, quer da obesidade, estamos perante manifestações clínicas onde convergem, como principais factores emocionais subjacentes, a perspectiva psicossomática, os comportamentos aditivos (dependências) e, ainda, a depressão e a ansiedade.
A obesidade pode, em muitos casos, ser pensada como um sintoma. Um sintoma que consiste numa comunicação simbólica que esconde (mas ironicamente também revela) aspectos inconscientes de um conflito interno. A comida representa na maioria dos casos um fenómeno compensatório, profundamente inconsciente, muitas vezes utilizado como um recurso de contenção de um sofrimento, de uma angústia, de um vazio.
É muito importante poder compreender e desmontar esta doença, inclusivamente porque não podemos ignorar a circularidade que a envolve: há uma causa (explícita ou não) na origem da obesidade que, por sua vez, provoca ainda mais sofrimento, que potencia a perpetuação da obesidade. É igualmente importante não esquecer que a prevenção tem um papel fundamental. Felizmente, vivemos num concelho que faz, naquilo que sabe e pode, o seu papel, criando estruturas e iniciativas que incentivam e promovem o exercício físico e um estilo de vida saudável.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Os enigmas da psique
A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.
Carl G. Jung
terça-feira, 15 de novembro de 2011
(Ainda) os sonhos de Jung
"O sonho recorrente é um fenómeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até à idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer.
Sonhei durante muitos anos com um mesmo motivo, no qual eu “descobria” uma parte da minha casa que até então me era desconhecida. Algumas vezes, apareciam os aposentos onde os meus pais, há muito falecidos, viviam e onde o meu pai, para grande surpresa minha, montara um laboratório de estudo de anatomia comparada dos peixes e onde a minha mãe dirigia um hotel para hóspedes fantasmas. Habitualmente, esta ala desconhecida surgia como um edifício histórico, há muito esquecido, mas de que eu era proprietário. Continha interessantes mobílias antigas e, lá para o fim desta série de sonhos, descobri também uma velha biblioteca, com livros que não conhecia.
Por fim, no último sonho, abri um dos livros e encontrei nele uma série de gravuras simbólicas maravilhosas. Quando acordei, o meu coração pulsava de emoção. Algum tempo antes de ter este último sonho, havia encomendado a um vendedor de livros antigos uma colecção clássica de alquimistas medievais. Encontrara, numa obra, uma citação que me parecia relacionada com a antiga alquimia bizantina e queria verificar este facto. Algumas semanas depois de ter tido o sonho com o livro que me era desconhecido, chegou um pacote do livreiro. Dentro, havia um volume em pergaminho, datado do século dezasseis. Era ilustrado com fascinantes gravuras simbólicas, que logo me lembraram as que vira no meu sonho.
Como a redescoberta dos princípios da alquimia se tornou parte importante do meu trabalho pioneiro na psicologia, o motivo do meu sonho recorrente é de fácil compreensão. A casa, certamente, era o símbolo da minha personalidade e do seu campo consciente de interesses; e a ala desconhecida da residência representava a antecipação de um novo campo de interesse e pesquisa de que, na época, a minha consciência não se apercebera. Desde aquele momento, há trinta anos, o sonho não se repetiu."
Carl Jung in O Homem e os seus símbolos
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