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quarta-feira, 18 de março de 2015

Handling


É pelo toque do outro que conhecemos o nosso corpo. Pela ponta dos seus dedos. É nos contornos do corpo do outro que conhecemos os nossos contornos. Dentro do seu abraço. Tudo assim começa e depois assim continua porque o conhecimento não se basta a si mesmo e precisa de ser reforçado em novos e outros re-conhecimentos, em outros toques e outros abraços, que nos marquem a pele e assim nos recordem que somos um todo e que estamos aqui. Sentimo-nos na relação com o outro e mais precisamente na relação com o seu sentir. Se o outro não nos sentir, não conta. Sem isso, na falta desse ‘handling’ (como lhe chama Winnicott), sobra-nos um corpo desconhecido, ou mesmo traumatizado (se, para além ou no lugar da privação, o nosso corpo sofrer outros embates). Não é um estranho que habita em nós mas somos, sim, nós, que habitamos um estranho. O corpo torna-se matéria, desligado da mente e dos afectos; torna-se um meio de transporte, desintegrado, desinvestido e descontrolado; clivado e posto fora do lugar onde pertence — não é mais nosso. Torna-se fonte de mal-estar, de dores várias e que nos são alheias, que não entendemos, pois ele já não mais nos diz respeito. Não pertence a ninguém. Não é nosso e também já não pode ser oferecido ao outro. O toque pode até começar a queimar. E ele, corpo, que nasceu organismo vivo e vibrante, ponte entre nós e o universo, é agora só um pedaço de carne onde habita uma alma ou onde, se calhar, já não habita coisa nenhuma. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Corpos que Falam o que a Cabeça não Pensa



O drama maior é que em muitas pessoas, e em particular nas crianças, a ansiedade e a tristeza se resolvem por doenças e por comportamentos.

João dos Santos (1980)

domingo, 13 de janeiro de 2013

Corpo e Psique - Definhar e Florescer



"Os estados afectivos persistentes de natureza penosa, ou, como se costuma dizer, 'depressiva', tais como desgosto, a preocupação e a tristeza, abatem a nutrição do corpo como um todo, causam o embranquecimento dos cabelos, fazem a gordura desaparecer e provocam alterações patológicas nas paredes dos vasos sanguíneos. Inversamente, sob a influência de excitações mais alegres, da 'felicidade', vê-se o corpo inteiro desabrochar e a pessoa recuperar muitos sinais de juventude. Evidentemente, os grandes afectos têm muito a ver com a capacidade de resistência às doenças infecciosas; um bom exemplo disso é a observação médica de que a propensão a contrair tifo e disenteria é muito mais significativa nos membros de um exército derrotado do que na situação de vitória. Ademais, os afectos – embora quase que exclusivamente os depressivos – muitas vezes bastam por si mesmos para ocasionar doenças, tanto no tocante aos males do sistema nervoso com alterações anatómicas demonstráveis quanto no que concerne às doenças de outros órgãos." (Freud em "Tratamento Psíquico (ou Anímico)", 1905)

quinta-feira, 31 de março de 2011

De corpo e alma


No século XVII, Descartes considerava que corpo e alma, embora diferentes e separados (dualismo cartesiano), se influenciam mutuamente (através da glândula pineal, dizia). Espinosa, afirmou que corpo e mente não são elementos distintos, como defendia Descartes, mas sim dois atributos diferentes da mesma substância (ou seja, corpo e mente são exactamente a mesma coisa vista de perspectivas diferentes).
Há, indiscutivelmente, um continuum entre corpo e mente. Como tal, muito frequentemente, algumas dores do corpo não são mais do que manifestações das dores da alma e esse fenómeno chama-se psicossomática. Conflitos que parecem impossíveis de ser mentalizados, expressam-se através do adoecer do corpo. Funciona como uma descarga agressiva do corpo sobre os órgãos (o sujeito não tem a capacidade de elaborar mentalmente os impulsos, nem sequer de os descarregar pelo comportamento sobre o exterior, no mundo, virando assim a agressividade contida contra si mesmo). De forma inconsciente, naturalmente.
Toda a doença psicossomática implica uma perspectiva holistica, operando num campo interdisciplinar que integra várias especialidades da medicina e da psicologia para estudar os efeitos de factores sociais, psicológicos e comportamentais sobre processos orgânicos e sobre o bem-estar das pessoas. A mente chega a todos os recantos do corpo. Destacam-se algumas patologias amplamente associadas a factores psicológicos, frequentemente encontradas em doentes psicossomáticos, como algumas doenças gastrointestinais (síndrome do cólon irritável; doença de Crohn; colite ulcerosa), doenças do foro respiratório (asma brônquica), doenças cardiovasculares, doenças endócrinas (diabetes); doenças dermatológicas (dermatite atópica; psoríase); doenças musculo-esqueléticas (fibromialgia; artrite reumatóide) e cefaleias (enxaqueca, cefaleias de tensão). Há ainda um artigo interessantíssimo que analisa as dimensões psicológicas do estrabismo e o contexto familiar das crianças estrábicas (Coimbra de Matos, 2003). Sobre o cancro, impera a necessidade de mais estudos.
Afirmar que uma dada doença num dado indivíduo é uma condição psicossomática não implica minimizá-la ou ignorá-la, pois as doenças são reais, não imaginadas. Na sua origem encontram-se factores psicológicos (em aliança com factores biológicos) mas a sua expressão é real e orgânica, o que implica um tratamento médico adequado, em paralelo a uma terapia que permita a expressão emocional do indivíduo sem ser através do seu corpo. Em Fernão Capelo Gaivota lemos, “Quebrem as correntes do pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo”. Nem mais.

Referências úteis: Coimbra de Matos, A., (2003). Mais amor, menos doenças. Climepsi Editores.