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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Disponibilidade Emocional

A Família - Gustav Klimt
O conceito de disponibilidade emocional começou a ser trabalhado na década de 70. Terá nascido, assim como muitos outros constructos, dos trabalhos de John Bolwby sobre a teoria da vinculação (a forma como se desenvolviam os laços afetivos entre as mães e os seus bebés). Estávamos nos anos 50 e soube-se então que um dos principais requisitos para uma relação saudável entre as mães e os seus filhos (hoje diríamos “entre os pais e os seus filhos”) é a disponibilidade emocional dos progenitores. Actualmente, este conceito já não se aplica unicamente às relações parentais, tendo sido alargado para as várias relações que desenvolvemos ao longo da vida.
A disponibilidade emocional é um estado de “concavidade”, como diria Maria João Saraiva. Se disponibilidade é, por exemplo, receber alguém em minha casa, disponibilidade emocional é receber alguém “em mim”. Isso implica deixá-lo aproximar-se e ceder-lhe espaço mental e afetivo (pensar nele, preocupar-me com ele, cuidar dele, brincar com ele, estar com ele, sofrer com ele). Implica ainda abrir o meu coração a uma relação íntima com os riscos que todas as relações implicam: conflitos, tristezas, sacrifícios. Estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida. Exige criar um lugar dentro de mim onde moram as coisas do outro: as suas necessidades emocionais e os seus desejos mais sensíveis. Em certa medida, o outro passa a habitar em mim. E a “coisa” deixa de ser somente sobre nós.
A disponibilidade emocional é-nos exigida em grau diferente em função das relações, sendo entre pais e filhos que atinge o seu expoente máximo, pelo grau de dependência e fragilidade dos mais pequenos. As relações românticas, pelo grau de intimidade que se estabelece, também são exigentes, assim como as amizades mais próximas. As relações terapêuticas, idem, um bom terapeuta tem de ser “espaçoso”. Também em momentos de crise dos entes mais queridos nos é pedido, quase intuitivamente, maior disponibilidade emocional: para acolher a sua dor, os seus medos ou a sua zanga.
Porém, somos humanos. A nossa disponibilidade emocional é variável, mas estaremos sempre mais disponíveis para o outro quanto maior o nosso bem-estar. É preciso que estejamos relativamente tranquilos e que a nossa “barriga” esteja mais ou menos satisfeita, afetivamente falando, para que possamos, tantas vezes, abdicar de nós em detrimento de alguém. Em certos momentos, podemos não conseguir (e em outros nem sequer devemos) fazê-lo. Ainda, quando existe trauma severo na nossa vida e estamos focados na proteção do nosso próprio psiquismo, torna-se impossível intuir e responder às necessidades afetivas do outro. Imperam as dificuldades relacionais — as intolerâncias, os desencontros, as inseguranças, as birras, as “claustrofobias”, angústias de várias espécies que impedem um encontro amoroso sintónico. Infelizmente, a indisponibilidade emocional funciona, tantas vezes, como um “tiro no pé”: quem não se dá, também não recebe. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Uma Outra Definição Para o Amor


"Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo." — in O Principezinho

quinta-feira, 17 de março de 2016

Reciprocidade



"Why does the lamb love Mary so?"
The eager children cry;
"Why, Mary loves the lamb, you know,"
The teacher did reply.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Coisas Bonitas


Deixa-me fazer-te cócegas. Deixa-me fazer-te rir. Deixa-me falar-te das coisas bonitas que passam despercebidas. Deixa-me fazer-te sorrir no dia mais triste. Vem dançar comigo. Deixa-me aquecer-te os recantos gelados onde o sol nunca entrou. Falo-te da alegria de estarmos aqui no mundo ao mesmo tempo. Podíamos nunca nos ter encontrado, já pensaste nisso? E agora, já sorris? Falo-te da graça escondida nas cabeçadas que damos todos os dias aqui neste lugar onde nos enfiaram. É tão tristemente engraçado. Falo-te da sublime arte de rir e chorar ao mesmo tempo. Falo-te também da curta gargalhada dos momentos simples e ligeiros. Vá, deixa-me fazer-te cócegas. Deixa-me fazer-te rir. Deixa-me fazer-te bem.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Uma Psicanálise do Encontro Educativo

“O diálogo que me foi construindo como profissional, assente numa dupla filiação em Psicanálise e Educação, devo-o certamente a João dos Santos e aos momentos em que nas salas da Universidade, ainda na Pinheiro Chagas, nos encontrávamos com ele, uns com os outros e com a Psicologia. Nesses encontros João dos Santos fazia entrar sem cerimónia o mundo grande, a complexidade e o enigma, a cultura e a educação, a escola e a infância, a pedagogia e a terapia, a psicanálise e a importância de nos questionarmos a nós próprios.
É uma curiosa e feliz coincidência que o ano de nascimento de João dos Santos (1913) seja o ano em que Sigmund Freud publicava o seu trabalho “O interesse da Psicanálise”, apontando nesse magnífico texto o denominador comum entre a Psicanálise e a Educação: o facto de ambas reconhecerem a importância decisiva da infância na evolução do homem. Escreve então : ” A Psicanálise viu-se obrigada a fazer derivar a vida psíquica do adulto da vida psíquica da criança e a tomar a sério o adágio popular de que a criança é o pai do homem. Estudou a continuidade da psique infantil no adulto, identificou as transformações e as mudanças que se cumprem nesse caminho e encontrou a confirmação do que já havíamos frequentemente pressentido: a extraordinária importância, para todo o curso ulterior da vida do homem, das suas experiências infantis e em particular das que ocorrem nos primeiros anos da infância (…) A contribuição principal da Psicanálise para a educação é o reconhecimento da importância da Infância”.
É também neste texto de 1913 que podemos ler: «O maior interesse da Psicanálise para a Ciência da Educação funda-se sobre um enunciado que se tornou evidente, o de que não pode ser educador senão aquele que pode sentir do interior a vida psíquica infantil e quando nós, adultos, não compreendemos as crianças é porque deixámos de compreender a nossa própria infância».
Como que respondendo a este desafio, João dos Santos, psicanalista e pedagogo, pioneiro do diálogo entre a Psicanálise e a Educação em Portugal, torna o enunciado freudiano o fundamento da sua obra convidando cada adulto e nele cada educador a encontrar-se com  a criança que guarda dentro de si para que, sentindo do interior a vida psíquica infantil,  possa  encontrar-se com a criança e educar… Educar, é oferecer-se como modelo (JS).
Educação designa simultaneamente um processo e o resultado desse processo. O processo consiste num trabalho de formação pelo qual a criança é chamada a desenvolver as faculdades que a definem como ser humano e o produto deste trabalho de formação, a bem dizer interminável, é a realização no sujeito das características constituivas dessa humanidade. Sabemos que o processo educativo implica um campo de influências múltiplas e recíprocas entre adultos – pais, professores, educadores – crianças e adolescentes e que o caminho da educação é pontuado por encontros que vão permitindo a construção do ser e o seu desenvolvimento. No coração do desenvolvimento está a relação. A complexidade desta relação é tal que é difícil de dizer o que nela age e o que ela transforma, mas que é da ordem do encontro, parece indubitável. E se é bem verdade que todo o encontro humano é um enigma, não temos hoje qualquer dúvida de que os agentes de transformação são as pessoas e não as estruturas. No coração do desenvolvimento está a relação e  é também a relação que está no coração do encontro educativo: “Só se educa quando uma relação humana se estabelece, se desenvolve e se confirma na intimidade de cada uma da crianças e adultos em presença” (JS).
Marcel Postic no seu livro A relação pedagógica esclarece: “A relação pedagógica torna-se educativa quando em vez de se reduzir à transmissão do saber, compromete as pessoas em presença num encontro onde cada um descobre o outro e se vê a si mesmo e onde começa uma aventura humana pela qual o adulto vai nascer na criança. João dos Santos não se cansa de o lembrar: “Educar é basicamente estabelecer uma relação, a relação implica que o objeto de amor seja investido. Aquele que faz o primeiro movimento deve ter disponibilidade para receber as descargas afetivas no esboço de comunicação que se estabelece. A comunicação define-se como energia que passa num certo sentido e no sentido inverso (…) “A pedagogia e a didática funcionam melhor quando são instrumentos de comunicação reciproca”(…). No plano pré-educativo da relação básica, como no plano da educação, a relação deve ser entendida como uma disponibilidade afetiva para dar e receber amor terno e amor agressivo” (JS).
Parece-me que a formação de educadores e professores dever dar uma prioridade absoluta à relação pedagógica, pois que o trabalho educativo é essencialmente um trabalho de ligação. É um trabalho que se inicia sempre por uma ligação humana, a partir da qual se torna possível levar o aluno a estabelecer ligações com os objectos mais distantes que constituem a cultura e os saberes. Toda a relação é sustentada e animada por processos de identificação recíproca ou mútua e o encontro educativo não foge a esta regra: ao desejo de apropriação por parte do educando tem que corresponder um desejo de dádiva do educador. O educador/professor oferece-se como objeto desejável de aprendizagem e o educando como objeto desejável de educar. “O encontro não é só obra do acaso, é também obra da disponibilidade recíproca daqueles que se encontram. O encontro depende da convicção do que de perene existe nos nossos semelhantes” (JS).
Na relação com os outros, mesmo que mediada pela transmissão de um conhecimento, como é o caso da escola, não estamos nunca desimplicados, estamos com a nossa história, feita a nossa pessoa. Cada um de nós sabe-o, sentiu-o, experimentou-o. Basta que evoquemos o nosso passado escolar para que surja toda a gama de sentimentos que tecem a relação com a aprendizagem: angústias e alegrias, entusiasmos e deceções, proximidade e afastamento, adesões e ruturas. A escola está em cada momento e em cada sala cheia de fenómenos afetivos, de narrativas de vida silenciosas, que uns e outros contam, escutam e às quais respondem. Cada momento de ensino/aprendizagem é a história de um encontro, mais ou menos conseguido, entre um professor, um aluno e um saber. Cada actor em cena quando convoca o saber, convoca igualmente em cada um dos seus actos toda a sua pessoa, uma história de vida e um projecto de vida, melhor ou pior sucedidos, uma memória implícita, activa, representações, sentimentos, valores, uma ideia de humano, de criança, de adulto, uma ideia de crescimento, uma ideia de aprendizagem, expectativas, dúvidas, paixões, violências, desilusões, sucessos e frustrações, desejos de reconhecimento, pulsões construtivas mas igualmente pulsões destrutivas de domínio e de controlo. Uma tal implicação é em si mesma constitutiva do encontro e, sendo inevitável, longe de ser inoportuna é mesmo útil e desejável. Não encontramos os outros e os outros não se encontrarão connosco senão através da nossa presença e autenticidade.
“Não existe, nem creio que alguma vez exista, uma forma exata de educar, pois que a sociedade está constantemente a evoluir e a sua própria evolução implica a negação pela juventude da validade dos princípios educativos imposta pelos antecessores. Não existem educadores perfeitos, e quando há pretensos educadores perfeitos, os seus produtos são casos patológicos” pensava João dos Santos, e tudo quanto aconselhava, no estado atual dos nossos conhecimentos, precisava, era que “cada um eduque com verdade e espontaneamente e que os educadores sejam personagens reais e não autómatos eruditos e sofisticados (…) Se a educação pode ser encarada como um fenómeno cultural que orienta o diálogo com o educando e os outros educadores, a ação educativa deve sempre basear-se na relação espontânea, afetiva e instintiva pois que quem educa são as personagens verdadeiras e não as figuras ideais. Não se educa com teorias mas com princípios e preconceitos adquiridos na experiência e no convívio familiar e comunitário, não sendo a educação uma matéria que se ensine, mas fundamentalmente uma atitude que reflete o confronto entre as vivências do educando que fomos com o educador que pretendemos ser” (JS).
Que educadores pretendemos ser?
Escolhermos ocupar-nos de crianças ou jovens é reencontrar a nossa própria infância e juventude. Mesmo que não guardemos recordações conscientes, não  deixamos de ser menos habitados por essas idades pois foi lá que nascemos para para a relação, para a percepção de nós e dos outros. Cada educador revive e transpõe afetos e sentimentos com origem em lugares do seu passado (mas nem por isso menos presentes e atuantes no seu mundo interno) para os lugares e relações do presente e também para a sua relação com o conhecimento e com cada um dos seus educandos, dos seus alunos. Este é um dos maiores contributos da Psicanálise para as Ciências da Educação e aquele que João dos Santos, como psicanalista do encontro educativo, permanentemente nos lembra. Em cada uma das suas histórias – contador de histórias como gostava de se apelidar – fala-nos deste Outro em nós, desta nossa parte de enigma, irracional e secreta “Toda a pessoa guarda um segredo e o segredo do homem é a própria Infância” eda sua influência nas relações que estabelecemos. Este Outro, dimensão Inconsciente na terminologia psicanalítica, é o que nos move, o que permanentemente nos escapa e o que teima em reaparecer em cada um dos nossos encontros educativos. É importante conhecê-lo, dizendo de outro modo, é importante que nos conheçamos.
“A motivação para os problemas da criança, escreve João dos Santos, reside na própria infância de cada um, a experiência infantil acompanha-nos pela vida fora, e assim, podemos admitir que, tal como a Obra tem uma estrutura de base e toda a construção um alicerce, também a personalidade tem uma base ou alicerce, que é a infância. Tal como o edifício depois de acabado, retocado e experimentado não pode dispensar os alicerces, também a pessoa não pode mentalmente anular a experiência e as vivências da sua criação. As pessoas adultas equilibradas guardam saudavelmente certos factos infantis ou juvenis. O adulto vê a infância e juventude do outro através do imago que ele se fez da sua própria infância e juventude, para se rever nas suas aspirações bem-sucedidas ou para reagir contra o fracasso das suas rebeldias. O educador pensa em termos daquilo que deve ser mas, com frequência, aquilo que o educador acha que deve ser corresponde à maneira como ele próprio se organizou, quando criança ou jovem, de acordo ou em desacordo com aquilo que lhe impuseram” (JS).
Como Ciência do Humano a Psicanálise procura dar voz a este Outro, escutando a dinâmica do mundo interior, as experiências e personagens que o habitaram e habitam, trazer compreensibilidade aos comportamentos e atitudes que não se reduzem nunca apenas ao que dão a ver. Ciência das profundidades, não das superfícies, a Psicanálise do Encontro Educativo propõe-nos uma Investigação/ação que toma como objeto a dinâmica dos processos psíquicos que influenciam a intersubjetividade e as vias através das quais um ser humano se constrói, se desconstrói e se pode ainda reconstruir, reconhecendo em cada ser humano um sujeito que ainda não é… paradigma tão caro a João dos Santos: a educabilidade. Convida-nos a um diálogo entre observação e auto-observação, à reflexividade e a questionarmos as nossas atitudes e atos pedagógicos, de uma forma aberta e atenta ao educando. Um convite a que trabalhando com a criança, o educador trabalhe igualmente sobre si próprio, para que não fique aprisionado nas malhas da repetição “(…) Os mestres são modelos, modelos de disponibilidade. Ser ou estar disponível é ter uma vida interior que se organiza em termos de deixar espaço para a sensibilidade e para a sabedoria dos outros” (JS).
A Psicanálise do encontro educativo ensina-nos sobretudo que a afetividade é indissociável do desenvolvimento da inteligência e que a palavra que o adulto dirige à criança traz com ela afetos que ressoam longamente pela vida, pois que as palavras antes de significarem alguma coisa significam alguma coisa para alguém.
Se como diz Edgar Morin, em entrevista ao Jornal Le Monde, a missão essencial da educação e do ensino é a de nos preparar para viver, então os conhecimentos vitais, do Ensino Básico à Universidade, não serão essencialmente os conhecimentos “sobre” o Ser Humano mas os de “como” ser Humano. Esse é também o ensinamento e o desafio que João dos Santos parece lançar a este novo século e ao educador em cada um de nós."
Santarém, 8 de Novembro 2013
Maria Teresa Casanova Sá

*   Comunicação na Conferência “XXI Jornadas da Prática Profissional da Escola Superior de Educação de Santarém – O Segredo do Homem é a própria Infância: pensar em Educação com João dos Santos”, proferida pela Dra Maria Teresa Casanova Sá, 8 de Novembro de 2013



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A função paterna


 
No princípio são três, mãe, pai e filho. O acto de conceber um filho é da responsabilidade de dois indivíduos e parece que há uma boa razão para que assim seja, fundamentalmente na espécie humana, a mais complexa de todas. Embora hoje muitas crianças cresçam na realidade da monoparentalidade, a investigação psicológica tem demonstrado, de há algumas décadas para cá, a necessidade absoluta e presença insubstituível da figura paterna.

Como se sabe, o nosso equilíbrio emocional e bem-estar psicológico estão completamente relacionados com a qualidade da relação primária, nome atribuído à relação entre mãe e filho, que começa logo durante a gravidez. É esta ligação primordial que nos dá as ferramentas internas para descobrirmos quem somos e conduzirmos a nossa vida com entusiasmo, segurança e responsabilidade. É nessa relação que ganhamos (ou não) o embalo para acreditar, projectar e realizar, bem como para ultrapassar as dores e os dissabores que encontramos pelo caminho.

Contudo, o pai junta-se à díade mãe-filho com uma função igualmente importante para a estruturação psíquica da criança. De certa forma, inicialmente o pai representa a primeira “frustração” introduzida na vida de uma criança: o pai é aquele que “impede” que o filho tenha a mãe exclusivamente para si. Experiência dolorosa, esta, mas necessária para um desenvolvimento saudável. Embora sem essa intenção, um pai permite e prepara, assim, a separação e a autonomia da criança, evitando uma fusão (que não é suposta) entre mãe e filho. Tem uma função separadora mas, ao mesmo tempo, estruturante.

Não fica por aqui, a questão da função paterna. Tal como a mãe, o pai desempenha, também, um importante papel nas interacções com o filho, estimulando e atendendo às suas necessidades básicas (afecto, segurança, alimentação, higiene, brincar e aprender). Alternando com a mãe nestes cuidados, permite à criança conhecer, desde cedo, dois diferentes modelos de relação, um com o pai e outro com a mãe. E nós, espécie inteligente, rapidamente começamos a guardar connosco o melhor de cada um.

Depois, o pai enriquece a identidade de género dos seus filhos, apresentando-se como modelo de admiração ao seu filho-homem e narcisa a feminilidade da sua menina-mulher. Mais. Pai e mãe são o primeiro e mais importante modelo de uma relação amorosa. É através das discórdias entre pai e mãe (se acontecem com respeito e sem depreciação um do outro) que se enriquece a mente da criança, oferecendo-lhe múltiplas perspectivas da realidade. Se o casal lida bem com essas “discussões”, mostra à criança que com liberdade se pode amar alguém que pode ser e pensar de forma diferente de nós.

domingo, 25 de março de 2012

Sabedoria Centenária



Meus amigos do "Pasquim", outro dia, me perguntaram: "Oscar, e a vida?" Eu disse: "A vida é mulher do lado e seja o que Deus quiser".

Oscar Niemeyer (104 anos)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A rígida existência dos Asperger


Fala-se da Síndrome de Asperger, uma perturbação do espectro do autismo que, ao contrário deste, permite que o indivíduo, apesar das dificuldades, seja minimamente funcional em sociedade. Foi Hans Asperger, físico austríaco, quem primeiramente descreveu esta síndrome, em 1944.

Esta perturbação, cuja grande limitação é a dificuldade relacional do indivíduo com os outros que o rodeiam, é normalmente diagnosticada durante a infância ou pré-adolescência (consoante o meio envolvente estiver mais ou menos atento ao desenvolvimento da criança). Os Asperger isolam-se frequentemente, embora estejam plenamente conscientes da existência do(s) outro(s) e do mundo externo e até desejem fazer amigos e conhecer pessoas. Contudo, quando interagem com alguém, a sua abordagem é estranha ou mesmo desadequada, insensível ao sentir do outro e ao impacto dos seus comportamentos (expressões faciais de aborrecimento, pressa, evitamento do olhar ou, por oposição, olhar fixamente). Há ainda uma incapacidade de compreensão da ironia, de metáforas ou outras formas de comunicação mais abstractas e simbólicas, o que origina mal-entendidos e a retirada das relações. Há ainda uma dificuldade a nível dos contactos físicos. No fundo, sofrem de uma enorme dificuldade em compreender e viver as relações humanas, com a intersubjectividade que lhe é inerente e as suas complexas regras de interacção e convívio social.

Uma outra característica muito comum desta perturbação é a presença de interesses excêntricos (às vezes coleccionam obsessivamente coisas invulgares). Vão perguntando e falando insistentemente sobre esses seus interesses, numa espécie de monólogo ou dissertação, sem aparentemente questionar se o seu interlocutor está ou não interessado e sem reconhecer nos outros alguns sinais primários de enfado ou desinteresse (de novo, a incapacidade de “ler” os outros). Existe uma grande rigidez do pensamento, pouco plástico, bem como uma forte intolerância para com as falhas dos outros e também para com as suas próprias. Curiosamente, há também uma rigidez corporal (são crianças e adultos fisicamente desajeitados, de andar duro e pouco gracioso). Rigidez, também, ao nível da capacidade de adaptação às mudanças. Estas crianças e adultos necessitam de rotinas e reagem sempre mal perante alterações súbitas.

Ao nível das capacidades cognitivas, estas crianças situam-se a um nível de inteligência média ou acima da média (especialmente no campo verbal) mas falham nas capacidades de compreensão e abstracção. Tendem a ser muito concretos. Assim, também a memória é frequentemente excelente, mas de natureza mecânica, sendo que as suas habilidades de solução de problemas são fracas. Fica-nos a imagem de um funcionamento robotizado, sem dinâmica ou pulsão de vida, numa alma algures impedida da sua possibilidade de brincar, de imaginar, de experimentar, de pensar e de sentir.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quem (não) sai aos seus



Todos os pais têm sonhos para os seus filhos. Quando um bebé desejado começa a crescer na barriga da mãe, infinitos planos e projectos ganham forma na mente dos seus pais. Nasce um nome e, associado a esse nome, uma fantasia. Sonham que ele seja feliz, saudável, sonham que ele seja bem-sucedido e que constitua um dia uma família. Sonham, de certa maneira, que esse filho reúna em si aquilo que pensam ser o melhor deles próprios.

Fantasiar é bom e natural. Sonhar uma boa vida para um filho é sinal de amor. Sonhar que um filho se torne um adulto com valores adequados, orientando-o nesse sentido, também. A criança cresce, torna-se jovem e, por fim, adulto. Cresce enriquecida pelas suas ideias, crenças, gostos, opiniões e escolhas. Vai-se definindo, num processo dinâmico e intersubjectivo com o meio envolvente. E, naquilo que é tão seu, torna-se um ser único e insubstituível.

Acontece, contudo, que nem sempre os sonhos dos pais correspondem aos sonhos dos filhos. Seja no seu carácter, na sua personalidade ou nas suas variadíssimas opções de vida, nem sempre os filhos se tornam aquilo que os pais imaginaram um dia. E nem sempre os pais encaram com bons olhos a diferença. Alguns necessitam de um clone deles próprios como condição para seu amor, um filho que seja um prolongamento do que eles são ou que não conseguiram ser. Onde fica o espaço para o indivíduo se permitir a conhecer-se, avançar e retroceder, crescer, sem medo de perder o afecto dos outros?

Nem todos têm capacidade para avaliar que estão a viver não os seus sonhos mas os sonhos de outro alguém. Não raras vezes, este falso Self (um Eu postiço) manifesta-se apenas como um vazio imenso, sem nome, que habita dentro de nós, indivíduos. É algo que se instala muito precocemente e torna-se um padrão de funcionamento. Viver para agradar aos outros é um teatro, ou mais precisamente, uma prisão. É uma prisão depressígena, que nos deprime e nos engole por não permitir ser-se amado por aquilo que realmente se é. Viver com medo de desiludir (para desiludir é preciso que alguém esteja iludido) e consequentemente perder o amor dos outros significativos, é definhar dentro de um corpo sem existência própria.

            No nosso quotidiano, dizer “sai à mãe” ou “sai ao pai” é a expressão mais genuína e evidente de que há uma tendência generalizada, quiçá de inscrição genética, para procurar desde cedo traços de semelhança com os progenitores. Apesar disso, o mais importante é permitir que a criança saia a ela própria. E, incondicionalmente (não é o amor dos pais o único amor verdadeiramente incondicional?) poder amar os filhos nas suas semelhanças e diferenças, respeitando a sua individualidade e o seu caminho.

domingo, 11 de dezembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

O admirável ser humano



Não existe, no mundo vivo, espécie mais dependente dos outros do que a espécie humana. É na primeira infância, fase de dependência absoluta, que esta característica se afirma de forma mais evidente. O bebé e a mãe constituem uma unidade e, sem um cuidador, o bebé não sobrevive. Porque tem a nossa espécie esta particularidade, tão incontornável?

Primeiro, as justificações da Biologia: o bebé humano nasce com um desenvolvimento neuromotor muito inferior ao dos bebés de outras espécies animais. Exemplificando, para que um bebé humano nascesse com o mesmo nível de desenvolvimento de um primata, seria necessário mais um ano de gestação (o que corresponderia a uma gravidez de 21 meses). Assim, nascendo com um desenvolvimento “insuficiente”, entende-se que o bebé humano seja muito mais dependente dos cuidados maternos. Felizmente, a Natureza alinha os detalhes e constatamos que, normalmente, nasce apenas uma cria humana por cada gestação, e não uma ninhada de filhos, como acontece com outras espécies animais. No caso de nascimento de gémeos, sabem as mães melhor que ninguém quão complicado é cuidar de dois bebés em simultâneo.

Depois, para lá das questões neurológicas ou motoras, existe a complexidade singular da mente humana e do seu processo de desenvolvimento afectivo, relacional e social. O bebé humano precisa de cuidados muito particulares (e exigentes!) para o bom desenvolvimento da sua estrutura psíquica e das suas capacidades cognitivas, afectivas e sociais. Esta interacção única entre a mãe e o seu bebé tem alguns contornos muito funcionais (alimentação, higiene, saúde) mas também tem contornos relacionais (amor, afectividade, comunicação, brincadeira, empatia). Como resultado da soma de tudo isto, percebe-se que é a mãe quem promove as condições para que se desenvolvam as capacidades físicas e a confiança/segurança necessária para o bebé poder explorar o mundo e integrar as aprendizagens. Para passar da dependência à autonomia e à capacidade de criar relações saudáveis com os outros, deve haver respostas adequadas às solicitações do bebé.

O que se torna curioso realçar é que, afinal, antes do verbo, veio o amor. Nas teias desta nossa complexidade, tornámo-nos seres altamente sensíveis à comunicação não verbal, àquilo que não precisa ser dito para ser sentido. Usando essa capacidade, a mãe tem de “adivinhar” as necessidades do seu filho, sejam elas de ordem fisiológica ou psicológica. Com a mesma capacidade (não se subestime o pequeno ser), o bebé detecta muito facilmente qual o lugar que ocupa no mundo da mãe e, mais tarde, no mundo dos outros. Quando algo corre menos bem nesta fase, a estrutura e funcionamento psicológicos do indivíduo podem ficar, de alguma maneira, condicionados.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pedrinha (Do que é novo)


O prazer com o novo é o motor do desenvolvimento pessoal e colectivo. O medo do novo é sinal de insegurança e causa de paragem do desenvolvimento ou mesmo regressão.

António Coimbra de Matos

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pedrinha (Das relações criativas)


Não procures alguém que te complete. Completa-te a ti mesmo e procura alguém que te transborde.

Clarice Lispector

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Intimamente


Freud dizia que possuímos um desejo profundo de nos unirmos com o mundo que nos rodeia, estabelecendo uma comunhão íntima com as outras pessoas. Meltzer, psicanalista inglês que sempre se interessou pelo tema da intimidade, falava da solidão e de como a nossa existência se torna mais agradável se for possível vivenciar estados de intimidade.
A intimidade é um estado de comunhão dos afectos, um sentimento de familiaridade, um encontro único e genuíno entre pessoas que partilham as vidas e, fundamentalmente, as almas. Porque é que encontramos pessoas que não são capazes da intimidade, parecendo não se entregar/revelar verdadeiramente a ninguém? Porque, naturalmente, a intimidade acarreta riscos. É, amar é um risco (não será toda a nossa vida uma aventura de risco?). Não deixarmos que ninguém nos toque ou nos veja no mais profundo e íntimo de nós mantém-nos a salvo de algumas desilusões. Pelo menos, aparentemente.
Na realidade, este funcionamento é um mecanismo de defesa. Por medo ou incapacidade, são erguidas barreiras defensivas contra a intimidade, como forma de evitar qualquer tipo de sofrimento emocional. Não acontece de forma consciente e, quem age assim, raramente compreende porque o faz. São defesas inconscientes, frequentemente camufladas por personalidades pretensamente indiferentes e desprendidas. Contudo, honestamente, não resulta. Há um vazio que permanece e que nos mostra que ao amputarmo-nos do que mais belo e singular existe nos seres humanos, a nossa maravilhosa capacidade afectiva, não se encontra nenhuma espécie de felicidade.
Não se faça confusão. O adolescente que se movimenta entre curtes, está em idade natural para isso. Ele experiencia vários objectos amorosos, em busca daquele com quem estabelecerá um dia mais tarde uma relação de intimidade. Estranho será o adulto que diz nunca ter amado ninguém ou o adulto que não consegue fixar-se numa só relação amorosa, entre outros casos. Tendencialmente, ao crescer deixamos de alinhar em relações fortuitas. Aliás, não há nada de gratuito quando duas pessoas se tocam, como afirma o Prof. Carlos Amaral Dias. Essa pretensa gratuitidade que por vezes nos ilude, atinge-se à custa da negação, da negação daquilo que realmente necessitamos, a intimidade.
Para a construção de uma relação, é fundamental que se consiga experimentar e viver as emoções, o amor e o ódio, a ambivalência, o medo ou a ansiedade. A confiança (em nós e nos outros) também é um elemento importante para que nos possamos entregar num encontro com o outro sempre desconhecido, com todos os mistérios e riscos que esse encontro envolve. São capacidades que adquirimos a partir da qualidade do vínculo materno, na experiência mais precoce, e se não as posssuirmos, teremos alguma dificuldade em desenvolver a disponibilidade suficiente necessária para o estabelecimento de uma relação de intimidade.

domingo, 25 de setembro de 2011

Pedrinha (Das misteriosas possibilidades do amor)


Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"

sábado, 6 de agosto de 2011

Pedrinha (Do paradigma relacional)


O paradigma actual, na física como na psicologia, não é o dos corpos ou entidades mas o das relações. A matéria existe em relação com outras matérias.

António Coimbra de Matos

sábado, 30 de julho de 2011

Pedrinha (de Santo Agostinho)

Afinal, a psicanálise não é só feita de palavras, é feita de afectos, de emoções, de relação. É que sem isso, para parafrasear Santo Agostinho, palavras são apenas palavras, ou seja, o som e o ruído das palavras. Falar é outra coisa.

Carlos Amaral Dias

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pedrinha (Do medo)

"Imaginar-se ali, numa relação boa, acendia-lhe o temor de a perder e aí ficava muitas vezes impávida, imóvel, perante a possibilidade de se ligar ou de se afastar, evitando o medo, o medo da perda, do abandono, que o ligar-se podia trazer consigo. Por outro lado, o que queria era a ligação, o enlace dos afectos numa harmonia melodiosa, o encontro, a sintonia, a afinação da reciprocidade. O medo não era o sinal do não querer, era o falar silenciado, escondido do querer, o medo escondia o que ela mais queria, o medo era uma concha.”

Maria João Saraiva (in Até mim: vivência da psicanálise)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pedrinha (Do amor na empatia)

A capacidade de amar, na espécie humana, cresce exponencialmente em função da empatia - possibilidade de colocar-se no lugar do outro e entrar em ressonância com o seu sentir.

António Coimbra de Matos


Nota: Empatia  - “Eu sinto o que tu sentes e tu sentes que eu sinto o que tu sentes”