É pelo toque do outro que conhecemos o nosso corpo. Pela ponta dos seus dedos. É nos contornos do corpo do outro que conhecemos os nossos contornos. Dentro do seu abraço. Tudo assim começa e depois assim continua porque o conhecimento não se basta a si mesmo e precisa de ser reforçado em novos e outros re-conhecimentos, em outros toques e outros abraços, que nos marquem a pele e assim nos recordem que somos um todo e que estamos aqui. Sentimo-nos na relação com o outro e mais precisamente na relação com o seu sentir. Se o outro não nos sentir, não conta. Sem isso, na falta desse ‘handling’ (como lhe chama Winnicott), sobra-nos um corpo desconhecido, ou mesmo traumatizado (se, para além ou no lugar da privação, o nosso corpo sofrer outros embates). Não é um estranho que habita em nós mas somos, sim, nós, que habitamos um estranho. O corpo torna-se matéria, desligado da mente e dos afectos; torna-se um meio de transporte, desintegrado, desinvestido e descontrolado; clivado e posto fora do lugar onde pertence — não é mais nosso. Torna-se fonte de mal-estar, de dores várias e que nos são alheias, que não entendemos, pois ele já não mais nos diz respeito. Não pertence a ninguém. Não é nosso e também já não pode ser oferecido ao outro. O toque pode até começar a queimar. E ele, corpo, que nasceu organismo vivo e vibrante, ponte entre nós e o universo, é agora só um pedaço de carne onde habita uma alma ou onde, se calhar, já não habita coisa nenhuma.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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quarta-feira, 18 de março de 2015
Handling
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quarta-feira, 25 de junho de 2014
Com Cinco Sentidos
![]() |
| ilustração de Justine Brax |
Foram-nos
dados cinco sentidos. Cinco instrumentos maravilhosos sem os quais seria muito
mais difícil relacionarmo-nos com o mundo. São, todos eles, ferramentas
relacionais e, sendo nós “animais relacionais”, quanto melhor usamos essas
ferramentas, mais integrados nos sentiremos. A pergunta que se coloca é: desses
cinco sentidos, com quantos verdadeiramente vivemos a nossa vida?
Olhamos,
mas olhar é diferente de ver. Ver é olhar com interesse e com presença. Estando
verdadeiramente ali. Observar os detalhes do mundo é uma forma de viver o
momento presente, retirando o foco da nossa atenção do passado e do futuro. Ver
o céu, o mar, as árvores. Ver as pessoas.
Precisamos
de escutar, que é diferente de ouvir. Escutar é ouvir com atenção, com
disponibilidade e com abertura de espírito. Parar de priorizar todas as
emoções, pensamentos, crenças e/ou preconceitos com que recebemos, a priori, tudo o que ouvimos. Tudo isso
que carregamos connosco satura-nos o espaço mental de tal forma que não somos
capazes de escutar mais nada. Para escutar é preciso ter espaço dentro de nós
para acolher aquilo que estamos a ouvir. Seja música, seja a palavra do outro
ou as nossas próprias palavras.
Precisamos
de usar bem o nosso tacto. Usá-lo para sentir, que é diferente de tocar. Somos
seres de pele, o órgão mais sensível que temos. Tocar as plantas, os animais, receber
essa energia que arrepia, sentir o frio e o calor, o suave e o áspero, que nos
produzem emoções distintas (ora agradáveis ora desagradáveis) mas que por isso
mesmo nos fazem sentir vivos. Sentir o outro. Abraçar.
Precisamos
de cheirar. O cheiro é armazenador e despoletador de memórias e, por isso, tão
relacional como todos os outros sentidos. Cheirar a terra molhada, a relva
cortada, as flores, o mar, o fumo dos carros ou das chaminés, o cabelo dos
nossos amores e as sardinhas assadas.
Também
precisamos de saborear, que é diferente de comer. Saborear é desfrutar, com
prazer. Sem pressa nem avidez. Com tranquilidade e presença. Saborear o
alimento ou saborear um beijo (que também alimenta).
E
eventualmente, se quisermos falar de um sexto sentido, talvez pensar que só se
possa desenvolver se usarmos em pleno os outros cinco. Se vivermos com
presença, com atenção e disponibilidade para o mundo – sabendo ver, escutar, sentir, cheirar e
saborear os momentos e as pessoas. Só assim podemos eventualmente aceder a
algum tipo de insight a que podemos,
então, chamar de intuição.
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Pedrinha (Dos Abraços)
"A duração média de um abraço entre duas pessoas é de 3
segundos. Mas os investigadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço
dura 20 segundos há um efeito terapêutico sobre o corpo e mente. A razão é que
um abraço sincero produz uma hormona chamada "oxitocina", também
conhecida como a hormona do amor. Esta substância tem muitos benefícios na
nossa saúde física e mental, ajuda-nos, entre outras coisas, para relaxar, a
sentir segurança e a acalmar os nossos medos e ansiedade. Este maravilhoso
calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa nos nossos
braços"
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Pedrinha (De saber amar)
Aquilo que faz dos humanos seres
transcendentes é a capacidade de amar. E saber amar é a razão da felicidade.
António
Coimbra de Matos
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quinta-feira, 3 de maio de 2012
Crash
It's the sense of touch. In any
real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In
L.A., nobody touches you. We're always behind this metal and glass. I think we
miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel
something.
Crash (vencedor do Oscar para
o Melhor Filme em 2006)
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
O toque (História de Harlow e os macaquinhos)
Somos seres relacionais. Como tal, o toque e o contacto físico são duas dimensões fundamentais para um desenvolvimento harmonioso.
Harry F. Harlow (1905-1981), psicólogo norte-americano, levou a cabo uma série de experiências com macacos Rhesus sobre a privação maternal e social. Nessas experiências, ficou demonstrada, entre outras coisas, a importância central do toque e do conforto no processo de desenvolvimento.
Foram criadas duas “mães” artificiais, uma feita unicamente com armação de arame e outra que, para além da estrutura em arame, estava envolvida num tecido felpudo e macio. Numa primeira fase, observando a escolha dos macacos, Harlow constatou que os macacos bebés preferiam claramente as “mães” mais macias. Mais, mesmo quando o alimento era fornecido apenas pela “mãe” de arame, mantinha-se a preferência pela “mãe” macia. Harlow concluiu que a variável contacto reconfortante suplementava a variável amamentação.
E, aparentemente, o que estava em causa ia ainda além da procura de conforto. Esse contacto acolhedor parecia ser essencial ao estabelecimento de uma relação que transmitisse segurança. Ou seja, durante outro bloco de experiências, na presença de um estímulo gerador de medo, os macaquinhos criados com a “mãe” macia agarravam-se a ela, em busca de protecção. Este comportamento nunca era observado junto das “mães” de arame (os macaquinhos criados com ela, privados do contacto e do conforto, não sentiam a mãe como “porto de abrigo”).
Foram estudadas não apenas as reacções momentâneas, mas também processo o desenvolvimento em ambos os grupos de macacos (criados pela mãe de arame vs. criados com a mãe felpuda). Neste sentido, perante uma situação com muitos estímulos novos (factores estranhos e desconhecidos dos pequenos macaquinhos) verificou-se que, na presença da “mãe” confortável, as reacções de medo dos macacos rapidamente davam lugar à exploração curiosa dos objectos (claro, com regressos periódicos à “mãe” para recuperar a segurança). Possuiam a segurança interna necessária para lhes ser possível explorar o mundo, um factor essencial para o desenvolvimento da autonomia (não só nos macacos!). Pelo contrário, na ausência de uma “mãe” confortável, os macaquinhos ficavam paralisados pelo medo e não exploravam o ambiente.
Por fim, naturalmente, Harlow observou ainda que os macacos com mães reais, demonstravam comportamentos evolutivos (sociais e sexuais) mais adiantados dos que os criados com mães substitutas de pano. Sim, nunca a pele poderá ser substituída pelo pano. E nos panos não se sente amor…!
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