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sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Estranho e o Medo


Eis o estranho e o medo, tão mal amados. Porém, sem o estranho e sem o medo, permanecemos na repetição do familiar — do que já conhecemos, do que já sabemos, do que nos mantêm confortáveis. Conforto é seguro, é gostoso e é preciso; mas é o desconforto que nos ensina tudo o resto. Tudo o que não conhecemos, tudo o que não sabemos, tudo o que pode, um dia, deixar-nos igualmente confortáveis, mas de outra maneira: nova. E é o novo que nos acrescenta. Vamos abrir os braços ao estranho, vamos olhar de frente o medo, e descobrir o que acontece depois.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Conformismo, Acomodações e Outras Histórias

I)
— “Conformei-me”, disse-me.
Quando o conheci, parecia condenado. No rosto, a ausência de esperança, na alma, a incapacidade de se afirmar senhor do seu destino. Como mente bem, o Homem. Como se engana a si mesmo. Como se defende e se justifica perante si próprio, como se ilude e finta o julgamento que faz de si todas as noites. Como tenta não se olhar de frente no espelho quando receia reconhecer ali os seus medos e incapacidades. Como quer esconder da sua alma que não foi capaz de lutar por ela. Dói, o remorso. Dói, a impotência. Dói, o medo. Mas, no íntimo mais íntimo de nós, sabemos.
— Conformaste-te ou tens medo?
— Tenho medo. Eu tentei mas era sempre tão difícil. Fui desistindo. Eu sonhava mas deixei de sonhar. Conformei-me.
— O medo fez com que te conformasses e por te conformares abriste caminho ao medo. O medo come tudo. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.
Por cada momento em que nos falha a possibilidade de “ser” ou a coragem de “continuar a ser” matamos um pedaço de nós. Ficamos mais frágeis e mais perdidos a cada “derrota” percebida. E a cada batalha que recuamos, sabemos menos quem somos.

II)
— “Não sei porque me acomodei, disse-me.
A história repete-se. Quando a conheci era uma mulher, sobretudo, confusa. Não tinha ainda consciência de que tinha deixado, há demasiado tempo, de ser feliz.
— Tu sentias mas acho que só agora consegues pensar sobre isso.
— Sim, eu já sabia. Eu sentia-me só mas não quis ver. E isso deixa-me zangada. Comigo.
— Por cada pensamento reprimido, por cada discussão adiada, por cada zanga amordaçada, por cada grito silenciado, é um pedaço de ti que matas. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.

III) 
Duas vidas. Várias vidas. O mesmo dia. O mesmo medo. O medo de se permitir ser pessoa inteira. Como se faz? Por onde se vai? Então lembro-me do Alexandre O’Neill, que sabia destas coisas do medo, companheiro da condição humana, e contava, em parte, assim:

(…)
Ah o medo vai ter tudo  
tudo 
(Penso no que o medo vai ter  
e tenho medo  
que é justamente  
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo  
quase tudo  
e cada um por seu caminho  
havemos todos de chegar  
quase todos  
a ratos (…)

IV) Ou não.

sábado, 13 de junho de 2015

A pergunta do eterno retorno





      Se pudéssemos repetir a nossa vida tal e qual como ela se desenrolou até hoje, desejaríamos fazê-lo? O sábio Zaratustra, de Nietzsche, vai mais além, e pergunta: “E se um dia ou uma noite um demónio fosse atrás de ti até à tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há-de retornar.” Que sentiríamos?
A ideia de repetir ciclicamente a mesma vida, passando por tudo da mesma exacta maneira, pode funcionar como um exercício importante para questionarmos a direcção e o sentido que temos dado à nossa aparentemente curta existência. Embora uma existência em loop seja, por si só, assustadora, a melhor hipótese seria fazer dela o mais agradável possível. Então, se fosse garantido o nosso eterno regresso, exactamente nos mesmos moldes que na actualidade, até onde estaríamos dispostos a mudar coisas por forma a assegurarmo-nos de uma eternidade feliz? É importante ir questionando se o nosso percurso tem sido fundamentalmente prazeroso ou se é, pelo contrário, insatisfatório, ou mesmo terrível. Quantos de nós amam a sua vida? Ao fazer este balanço, o propósito não é mergulharmos em lamentações quanto ao que já passou mas sim dirigir o olhar para o que ainda pode vir. Amar o seu destino ou, mais adequadamente, criar um destino que sejamos capazes de amar.
Porém, nenhuma transformação positiva pode ter lugar se vivermos exclusivamente agarrados à ideia de que a nossa vida é como é por forças exteriores a nós: azar, má sorte, karma, sina, fado ou destino. A pergunta de Zaratustra obriga-nos a olhar a forma como pensamos as responsabilidades. Percebemos que o perigo de depositar a responsabilidade da nossa caminhada (e/ou da nossa insatisfação) no universo ou em qualquer outro exterior a nós mesmos, é que a situação poderá não sair do impasse. Então, se o demónio de Zaratustra nos condenasse, hoje, ao eterno retorno, continuaríamos no mesmo exacto lugar, estado e formato em que nos encontramos? Sentiríamos contentamento e satisfação em regressar à nossa existência assim como a temos conduzido? Ou seria um sufoco? E se assim for, seríamos passivos ou activos? Quanto tempo mais permaneceríamos no mesmo lugar? Até quando ficaríamos à espera? Até onde aguentaríamos? E se, efectivamente, nada acontecer? Nenhum milagre, nenhuma reviravolta fácil, nenhum chamamento ou insight? E se só nós somos responsáveis pela vida que levamos e pelos pilares que a sustentam? Transformaríamos a nossa vida, perseguindo sonhos, concretizando projectos, assumindo desejos? A liberdade de escolher fazê-lo é nossa. E a responsabilidade de escolher não o fazer, também.
É desconfortável pensar estas questões. É duro sentir este peso da hipótese mais certa: em última análise, os agentes da nossa felicidade e infelicidade somos nós. Que terrível sermos o nosso próprio carrasco. Sim, é desconfortável, mas é, garantidamente, o caminho possível nisto que é o curso da nossa vida. Sem essa consciência, mínima, talvez passemos o tempo que nos sobra à espera de algum milagre. Pode chegar. Ou não. Entretanto, é importante irmos aferindo o que se passa cá dentro. É preciso ouvirmo-nos a nós mesmos, escutar a voz que às vezes soa baixinho e que tantas vezes ignoramos (escondidos na ideia de que não há volta a dar ou no medo de tudo e mais alguma coisa) para que, caso o dito demónio nos obrigue a regressar, a coisa seja o mais simpática possível. E mesmo que não regressemos, mesmo que seja "só" isto, não será igualmente crucial aproveitar o melhor possível?

sábado, 6 de setembro de 2014

Opinião só não muda quem não tem



Não é raro encontrarmos pessoas incapazes de mudar de opinião mesmo quando os factos mostram que estão enganadas. Outras vezes, não é raro observar-se alguma dificuldade em assumi-lo, quando acontece. Há quem lhe chame teimosia. No entanto, não usamos palas como os burros e, assim sendo, não precisamos de olhar só em frente, podendo utilizar a visão periférica para alargar perspectivas. Tristemente, mudar de opinião está muitas vezes associado a incoerência e a falhas de carácter, contrariamente à citação de Mário Quintana que originou o título desta reflexão. É encarado como falta de personalidade. Como se a personalidade não fosse ela mesma construída ao longo do tempo. Como se o certo fosse mantermo-nos rígidos e formatados do princípio ao fim. Como se, desde o nascimento até à morte, a vida não fosse um processo de transformação e evolução constante.
Quantos educaram os seus filhos de uma forma e hoje gostariam de os ter educado de forma diferente? Quantos começaram a sua vida com determinados ideais políticos e hoje pensam de outra forma? Quantos alteraram as suas crenças religiosas com o passar do tempo? Quantos se envolveram em projectos pessoais e desistiram ao perceber que não iriam a lado nenhum? Ainda bem que assim acontece.
Perante evidências de que aquilo em que acreditamos não nos conduz a bom porto ou já não faz sentido, não é inteligente permanecer no engano. Os factos são soberanos e frequentemente chega a hora de revermos até as nossas mais caras convicções. O apego exagerado às ideias faz-nos portadores de mentes endurecidas e cristalizadas. O pensamento é uma função plástica e pobre daquele que fica confinado a uma crença eterna e inquestionável.
 Por vezes, essa mudança de pensamento parece difícil de concretizar. São demasiadas resistências. Do latim resistentia, que significa oposição, obstáculo, reacção ou defesa. De facto, defendemo-nos da maioria das mudanças. Externas e internas. Persistimos com frequência, até porque temos uma certa tendência à repetição. E o familiar é sempre mais confortável que o desconhecido. 
Viver é ter incertezas. Percebemos o quão difícil isto pode ser, pois ao abandonarmos as nossas antigas convicções, perdemos o referencial que sempre nos guiou. E nem sempre dispomos imediatamente de conceitos novos e mais adequados, ou seja, por um tempo, conviveremos com dúvidas. Se isto não me faz mais sentido então qual será o caminho?

Para poder viver em paz com o permanente processo de aprimoramento e mudança é preciso aceitar o convívio com as dúvidas e a angústia que elas causam. E posto isso, felizes os que mudam de ideias, pois questionam o sentido das coisas e pensam sobre o que lhes faz ou não sentido.

Conhece-te a ti mesmo


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Pedrinha (Das Perdas)

Mais do que a transitoriedade, o que incomoda é o luto.

Carlos Amaral Dias (VI Encontro da AP – Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

domingo, 13 de abril de 2014

Theaters of Trauma - Excerto de Sessão de Richard Raubolt

A (Re)Criação do Trauma: VI Encontro da AP - Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica (12 de Abril de 2014)

"Chris was a large, muscular man looking much younger than his fifty-two years of age. (…) Chris was also a non-using addict (not using presently but not in recovery either) who had brutally beaten his son for not answering the phone quickly enough. (…) Chris suggested the boy was exaggerating for attention and “besides he didn’t have it nearly so bad as I did.” He went on: “I could tell you stories but what’s the use? I had it coming.”
After listening to Chris’s stories, which he vaguely began to describe and to which I remained relatively quiet for three months, I began this session as soon as he was seated.
– “When we first began talking I asked you to tell me ‘your story’. We both know you have told me very little but that doesn’t mean I haven’t learned a good deal about you or the kind of help you might need.”
At this point, Chris started to interrupt. Cutting him off firmly, I said:
– “You will extend the same respect I extended you. You will listen while I speak because you have no idea what I am going to say to you or about you.” (…) 
Chris remained silent although he continued a dialogue without words. (…)
– “Despite your denials to the contrary, you were beaten again and again as a boy and without mercy or reason. Your mother cowered from your father. She was present, as she had no place to go, but she was empty. She could offer you only a disguise hint of affection. (…) You survive by feeling hate, not showing it to your father… (…). Your mind was so fueled with fantasies of revenge… (…). You became like your father… (…). Still, through it all you wanted your father to notice you, spend time with you and teach you. I think you still want it from him, but since you won’t get it neither will your son. Keep going as you are and you will break your son into the mixed-up, crazy pieces you live with inside of you.
Now the question is: Is this what you want your legacy to be? I don’t want your answer now. (…) I will meet you next week, which gives you time to consider who you are and what you want. This session is over.”
In the next session, Chris started to loudly attack my “story-line”. I stopped him by saying:
–    Are you in or out?
–    … 
(Richard Raubolt, PhD – In “From the Other Side”, Theaters of Trauma, 2010)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Elefante Acorrentado


"Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas. No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani­mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente. 
O que é que o prende, então? Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
— Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta. Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele. Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino. Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer. Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer. E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação. Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força."

Jorge Bucay in “Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver”

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pedrinha (Dos Bons Investimentos)


"A despesa envolvida na psicanálise é excessiva apenas na aparência. Inteiramente à parte do facto de nenhuma comparação ser possível entre a saúde e a eficiência restauradas, por um lado, e um moderado dispêndio financeiro por outro, quando adicionamos os custos incessantes das casas de saúde e do tratamento médico e contrastamo-los com o aumento de eficiência e de capacidade de ganhar a vida que resulta de uma análise inteiramente bem sucedida, temos o direito de dizer que os pacientes fizeram um bom negócio. Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez."


Freud em "Sobre o início do tratamento", 1913

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Os recomeços


Costuma dizer-se que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Que é isto que dá sentido às coisas, como se fosse o esqueleto que sustenta as histórias. É uma sequência temporal que se aplica a acções concretas como comer, dormir, tomar banho ou viajar, mas também a outras facetas mais complexas da vida como relações humanas, empregos e projectos vários. No limite, aplica-se à nossa própria vida.
Induzidos pelo ritmo exacto do relógio, já que o próprio dia tem princípio, meio e fim, sentimos que há um tempo para tudo, que ele está sempre presente. Os ponteiros correm apressados e fora do nosso controlo, marcando o início e o fim dos acontecimentos. E assim, no corre-corre do dia-a-dia, podemos facilmente entrar em piloto automático, fugindo à reflexão e perdendo oportunidades de virar à esquerda ou à direita em vez de seguir sempre em frente. É muito bom ter um foco e caminhar em direcção a ele (sem objectivos a nossa existência perderia o sentido) mas igualmente importante será não perder de vista o que se passa nas redondezas, tudo aquilo que pode estar por perto e ser ainda melhor.
De facto, cada dia o sol nasce e cada dia o sol se põe, sabendo nós, de antemão, que no dia seguinte o sol regressa sempre, trazendo consigo mais uma rodada de horas para nos oferecer. O próprio dia parece ensinar-nos também que tudo tem um princípio, um meio e um fim, mas olhando com mais atenção, percebemos que o que ele verdadeiramente nos ensina é que todos os dias podemos recomeçar. Os recomeços são momentos de oportunidade que podem surgir num qualquer momento de qualquer história e essa é a sua magia. A qualquer momento podemos reescrever tudo, podemos encontrar outros caminhos, outros sentidos e, começar de novo.
Os recomeços podem ser motivo de alegria ou de medo, mas serão sempre emocionantes. Porque o recomeço implica sempre alguma mudança, por mais pequena que seja. E a mudança faz-nos sentir vivos, embora sejamos frequentemente aversos a ela, persistindo no hábito e naquilo que nos é familiar. Chamamos-lhe a zona de conforto.
Face a tudo o que se passa em nosso redor, importa perceber que momentos de crise são também momentos de recomeço. Momentos de pensar novas possibilidades e construir algo diferente, mais apropriado ou proveitoso. Mário Quintana dizia que “a vida jamais continua, ela recomeça”. Quantos recomeços reconhecemos na nossa história? Eventualmente, nem todos os recomeços terão sido proveitosos, mas a boa notícia é que a possibilidade de recomeçar nunca acaba, podemos sempre recomeçar mais uma vez.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Pedrinha (Do Tactear)


“É mesmo essencial, para o seu equilíbrio psíquico e para a salutar expansão  da sua personalidade, que o adolescente possa tactear ou encetar vários caminhos antes de verdadeiramente escolher o que melhor corresponde à sua maneira de ser, de sentir o mundo e de perspectivar o futuro. Não lho permitir será amputá-lo para todo o sempre nas suas potencialidades evolutivas.”

António Coimbra de Matos

Sobre outras perspectivas



"What if I should fall right through the center of the earth... Oh, and come out the other side, where people walk upside down? "

 Lewis Carroll in Alice in Wonderland

domingo, 6 de janeiro de 2013

Reflexão no Sapatinho (em Dia de Reis)



No Natal passado especulou-se sobre o que estaria para chegar. Continuamos aqui, ainda inteiros, e depois de um ano de dificuldades, penso que podemos pensar sobre o outro lado da moeda, que mostra que estamos humanamente mais “crescidos”. Arriscando dizer que somos hoje menos individualistas, já que nunca como agora houve tanta consciência social. Repare-se no aumento exponencial de movimentos solidários de recolha e distribuição de alimentos, brinquedos, vestuário, livros, e tudo o mais que possa faltar numa casa de família. E não só a nível institucional, mas atitudes solidárias em pequena escala, que nascem do coração de alguns.
Sabemos de famílias que este ano produziram, criativamente, os seus próprios enfeites de Natal, recorrendo a materiais caseiros ou recolhidos na rua, trabalhando afincadamente na exploração de tintas, papéis e tesouras. Tudo o que é feito com as nossas mãos tem cheiro a afectos e com um carinho especial se orgulham dos seus enfeites mais do que de qualquer outro adquirido anteriormente num balcão alheio.
Parece também que todos reduziram a sua lista de presentes, que não só incluía a “prima da vizinha” (tantas vezes só para parecer bem) como também incluía presentes de valor o mais elevado possível (como se o valor fosse espelho do afecto nutrido pelo outro). Hoje procuram-se presentes mais adequados e em quantidade mais adequada. Sobretudo, é o acto de compra impulsiva que perde força este Natal. Pensa-se mais antes de agir. Mais, muitos fazem este ano os seus próprios presentes ao invés de comprar e há ainda quem prefira aderir a iniciativas de pequenos comerciantes ou artesãos. Porque prosperam negócios caseiros, de elevada qualidade e preço acessível, nascidos da necessidade e da criatividade de gente cheia de talento que nunca deu oportunidade a si mesma de pôr mãos ao trabalho e deixar a imaginação voar. Trabalhos de bijuteria, de costura, de culinária, de pintura e experiências a tantos níveis. Artesãos dos tempos de crise que talvez encontrem aqui, este Natal, a semente de uma ideia que venha a germinar no futuro.
Em poucos meses, e embora quase por obrigatoriedade, caiu por terra a atitude excessivamente consumista e passiva que coloriu o Natal dos últimos anos. E, curiosamente, não deixamos de sentir um “espírito natalício” por aí, que agora parece vir mais de dentro para fora e não tanto de fora para dentro. Nem tudo o que nasce no seio de uma crise é necessariamente mau, e assim, começando com um Natal mais humano, quem sabe depois esta postura possa ir entrando devagarinho pelas nossas casas, ensinando-nos um equilíbrio social e económico que poderíamos estar quase a perder de vista. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Histórias de Psicoterapia


"(...) Com que ferramentas trabalha? A realidade é o próprio paciente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora, há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se passa no consultório para a sua vida real.

Como é que decorre o processo terapêutico? É o mesmo de sempre. Decorre a partir da conversa entre analista e paciente. A forma de conduzir é que é diferente. Em vez de termos na cabeça uma teoria que aplicamos, procuramos observar o que se passa com aquele paciente, vamos interpretando e construindo hipóteses em conjunto. Para mim, a questão fundamental é que uma pessoa seja capaz de se autoanalisar e que acabe a análise com uma capacidade de reflexão sobre si próprio maior do que a tinha. (...) "


António Coimbra de Matos (em entrevista ao jornal Expresso, a 3/8/2010)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O "conforto" do familiar


Não se aprende sozinho nem de repente a ser aquilo que nunca fomos. Não se aprende por instinto a sentir essa espécie de paz/felicidade que nunca foi sentida. É algo que nos é estranho. Mesmo quando ao nosso redor se encontram circunstâncias felizes, podemos “preferir”, inconscientemente, a familiaridade da melancolia ou da depressividade. Podemos não conseguir sair desse lugar que tão bem conhecemos. Podemos não nos permitir sequer tentar. No fim de contas, querendo ou não, são sempre as nossas amarras internas que nos limitam.

“Os meus estados deprimidos ainda me seduzem e fazem falta para me sentir preenchida por dentro. Ainda confio nas minhas tristezas e ainda as chamo, admito. Aconteça o que acontecer, desde que as chame, aparecem sempre. São de confiança. E depois, o que se faz mesmo com a felicidade? É-se feliz, e depois? Depois deve ser preciso aprender a viver-se feliz, a acreditar que se merece, a aprender a não ter medo que algo de terrível aconteça, a fazer as pazes com o que se passou connosco, a aceitar, a perdoar, a aprender a continuar, a acreditar, a confiar, a transmitir, a não desistir, a lidar com o vazio e a preenchê-lo com coisas bonitas feitas por nós. A infelicidade não me exige nada disso, é só deixar-me estar.”

Marta Gautier

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Depressão na Recessão


Faz algum tempo, no dia 19 de Janeiro, foi entrevistado num canal da nossa televisão o Prof. Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista português. O conceito central discutido foi “depressão na recessão”, que diz respeito ao súbito aumento da taxa de suicídio em Portugal (e também em outros países, como a Grécia ou a Irlanda) e de perturbações depressivas associadas à conjuntura económica actual. O impacto da crise económica e social na saúde mental dos portugueses é inquestionável, uma vez que “a pobreza, o desemprego e a exclusão social são factores que levam a um conjunto de afectos como a tristeza, sentimentos de ruína e sobretudo os sentimentos de desespero”, como foi referido. Estes afectos estão correlacionados com o aumento do índice suicidário, bem como com o aumento do número de depressões.

O desemprego e a precariedade em que muitos portugueses hoje vivem originam frequentemente sentimentos de auto desvalorização e a sensação de fracasso. Contudo, o impacto psicológico da crise assume contornos diferentes em função da faixa etária da população. É fundamentalmente na meia-idade que se verifica maior incidência de sintomas de depressão, esta estreitamente relacionada com o sentimento de perda, já que muitos indivíduos tinham a sua vida relativamente organizada e, subitamente, são forçados a lidar com a perda de rendimentos, de emprego ou de casa. Em acréscimo, torna-se muito angustiante para um indivíduo de meia-idade imaginar a possibilidade a oportunidade de “recomeçar do zero”. No que respeita à juventude, o impacto psicológico não está tão relacionado com a depressão, mas encontram-se muitos sintomas de ansiedade, espelhando o medo do futuro.

Em momento de “cortes” na Saúde e na Segurança Social e, portanto, na ausência de um sistema nacional que possibilite um suporte psicológico adequado ao momento de crise, impera a necessidade de o indivíduo procurar apoio na sua rede social, isto é, na família, nos amigos e na comunidade. Contudo, para que isso aconteça é essencial que cada um reconheça (perante si próprio e muitas vezes perante os outros) as suas dificuldades, pois existe sempre muita vergonha associada às situações de carência económica e, mais ainda, vergonha relativamente à fragilidade psicológica. Paradoxalmente, importa dizer que existe sempre mais força no indivíduo que assume as suas fragilidades do que naquele que as esconde. Em acréscimo, sabe-se que negar e fugir da nossa verdade (interna e externa) é uma das causas de mal-estar psicológico. O acto de pedir ajuda (seja de que ordem for) é, por si só, um acto de Saúde Mental.