Eis o estranho e o medo, tão mal amados. Porém, sem o
estranho e sem o medo, permanecemos na repetição do familiar — do que já
conhecemos, do que já sabemos, do que nos mantêm confortáveis. Conforto é
seguro, é gostoso e é preciso; mas é o desconforto que nos ensina tudo o resto.
Tudo o que não conhecemos, tudo o que não sabemos, tudo o que pode, um dia,
deixar-nos igualmente confortáveis, mas de outra maneira: nova. E é o novo que
nos acrescenta. Vamos abrir os braços ao estranho, vamos olhar de frente o medo,
e descobrir o que acontece depois.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
Mostrar mensagens com a etiqueta Mudança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mudança. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 22 de julho de 2016
O Estranho e o Medo
Etiquetas:
Angústia,
Crescimento,
Desenvolvimento,
Estranho,
Familiar,
Insegurança,
Medo,
Mudança,
Nova Relação,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Segurança,
Transformação
terça-feira, 23 de junho de 2015
Conformismo, Acomodações e Outras Histórias
I)
— “Conformei-me”,
disse-me.
Quando o conheci, parecia condenado. No
rosto, a ausência de esperança, na alma, a incapacidade de se afirmar senhor do
seu destino. Como mente bem, o Homem. Como se engana a si mesmo.
Como se defende e se justifica perante si próprio, como se ilude e finta o
julgamento que faz de si todas as noites. Como tenta não se olhar de frente no
espelho quando receia reconhecer ali os seus medos e incapacidades. Como quer esconder da sua alma que não foi
capaz de lutar por ela. Dói, o remorso. Dói, a impotência. Dói, o medo. Mas, no
íntimo mais íntimo de nós, sabemos.
— Conformaste-te
ou tens medo?
— Tenho medo. Eu
tentei mas era sempre tão difícil. Fui desistindo. Eu sonhava mas deixei de
sonhar. Conformei-me.
— O medo fez com que te conformasses e por te conformares abriste
caminho ao medo. O medo come tudo. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A
incapacidade de “continuar a ser”.
Por cada momento em que
nos falha a possibilidade de “ser” ou a coragem de “continuar a ser” matamos um
pedaço de nós. Ficamos mais frágeis e mais perdidos a cada “derrota” percebida.
E a cada batalha que recuamos, sabemos menos quem somos.
II)
— “Não sei porque me acomodei, disse-me.
A história repete-se. Quando a conheci era uma mulher, sobretudo, confusa. Não tinha ainda consciência
de que tinha deixado, há demasiado tempo, de ser feliz.
— Tu sentias mas acho que só agora consegues pensar sobre isso.
— Sim, eu já sabia. Eu sentia-me só mas não quis ver. E isso
deixa-me zangada. Comigo.
— Por cada pensamento
reprimido, por cada discussão adiada, por cada zanga amordaçada, por cada grito
silenciado, é um pedaço de ti que matas. Foi precisamente isso que te
enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.
III)
Duas vidas. Várias vidas. O mesmo dia. O mesmo medo. O
medo de se permitir ser pessoa inteira. Como se faz? Por onde se vai? Então lembro-me do Alexandre O’Neill,
que sabia destas coisas do medo, companheiro da condição humana, e
contava, em parte, assim:
(…)
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos (…)
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos (…)
IV) Ou não.
Etiquetas:
Angústia,
Conformismo,
Coragem,
Desenvolvimento,
Função Psicanalítica,
Insegurança,
Medo,
Mudança,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Relação Primária,
Transformação,
Winnicott
sábado, 13 de junho de 2015
A pergunta do eterno retorno
Se pudéssemos repetir a nossa vida tal e qual como ela se desenrolou até hoje, desejaríamos fazê-lo? O sábio Zaratustra, de Nietzsche, vai mais além, e pergunta: “E se um dia ou uma noite um demónio fosse atrás de ti até à tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há-de retornar.” Que sentiríamos?
A ideia de repetir ciclicamente a mesma vida,
passando por tudo da mesma exacta maneira, pode funcionar como um exercício
importante para questionarmos a direcção e o sentido que temos dado à nossa aparentemente curta existência. Embora uma existência em loop seja, por si só, assustadora, a melhor hipótese seria fazer dela o mais agradável possível. Então, se fosse
garantido o nosso eterno regresso, exactamente nos mesmos moldes que na actualidade,
até onde estaríamos dispostos a mudar coisas por forma a assegurarmo-nos de uma
eternidade feliz? É importante ir questionando se o nosso percurso tem sido
fundamentalmente prazeroso ou se é, pelo contrário, insatisfatório, ou mesmo
terrível. Quantos de nós amam a sua vida? Ao fazer este balanço, o
propósito não é mergulharmos em lamentações quanto ao que já passou mas sim
dirigir o olhar para o que ainda pode vir. Amar o seu destino ou, mais
adequadamente, criar um destino que sejamos capazes de amar.
Porém, nenhuma transformação positiva pode ter lugar se vivermos exclusivamente agarrados à ideia de que a
nossa vida é como é por forças exteriores a nós: azar, má sorte, karma, sina, fado ou destino. A pergunta de Zaratustra obriga-nos a olhar a forma como pensamos as responsabilidades. Percebemos que o perigo de depositar a
responsabilidade da nossa caminhada (e/ou da nossa insatisfação) no universo ou em qualquer outro exterior a nós mesmos, é que a situação poderá não
sair do impasse. Então, se o demónio de Zaratustra nos condenasse, hoje, ao eterno retorno, continuaríamos no mesmo exacto lugar, estado e formato em que nos encontramos? Sentiríamos contentamento e satisfação em regressar à nossa existência assim como a temos conduzido? Ou seria um sufoco? E se assim for, seríamos passivos ou activos? Quanto tempo mais permaneceríamos no mesmo lugar? Até quando ficaríamos à espera? Até onde aguentaríamos? E se, efectivamente, nada acontecer? Nenhum milagre, nenhuma reviravolta fácil, nenhum chamamento ou insight? E se só nós somos responsáveis pela vida que levamos e pelos
pilares que a sustentam? Transformaríamos a nossa vida, perseguindo sonhos, concretizando projectos, assumindo desejos? A liberdade de escolher fazê-lo é
nossa. E a responsabilidade de escolher não o fazer, também.
É desconfortável pensar estas questões. É duro sentir este peso da hipótese mais certa: em última análise, os agentes da nossa felicidade e infelicidade somos nós. Que terrível sermos o nosso próprio carrasco. Sim, é desconfortável, mas é, garantidamente, o caminho possível nisto que é o curso da nossa vida. Sem essa consciência, mínima, talvez passemos o tempo que nos sobra à espera de algum milagre. Pode chegar. Ou não. Entretanto, é importante irmos aferindo o que se passa cá dentro. É preciso ouvirmo-nos a nós mesmos, escutar
a voz que às vezes soa baixinho e que tantas vezes ignoramos (escondidos na ideia de
que não há volta a dar ou no medo de tudo e mais alguma coisa) para que, caso o dito demónio nos obrigue a regressar, a coisa seja o mais simpática possível. E mesmo que não regressemos, mesmo que seja "só" isto, não será igualmente crucial aproveitar o melhor possível?
Etiquetas:
Angústia Existencial,
Escolha,
Estabilidade,
Existencialismo,
Insegurança,
Medo,
Mudança,
Nietzsche,
Reflexão,
Segurança,
Sentido da Vida,
Transformação,
Vida
sábado, 6 de setembro de 2014
Opinião só não muda quem não tem
Não é raro encontrarmos pessoas incapazes de
mudar de opinião mesmo quando os factos mostram que estão enganadas. Outras
vezes, não é raro observar-se alguma dificuldade em assumi-lo, quando acontece.
Há quem lhe chame teimosia. No entanto, não usamos palas como os burros e,
assim sendo, não precisamos de olhar só em frente, podendo utilizar a visão
periférica para alargar perspectivas. Tristemente, mudar de opinião está muitas
vezes associado a incoerência e a falhas de carácter, contrariamente à citação
de Mário Quintana que originou o título desta reflexão. É encarado como falta
de personalidade. Como se a personalidade não fosse ela mesma construída ao
longo do tempo. Como se o certo fosse mantermo-nos rígidos e formatados do
princípio ao fim. Como se, desde o nascimento até à morte, a vida não fosse um
processo de transformação e evolução constante.
Quantos educaram os seus filhos de uma forma e
hoje gostariam de os ter educado de forma diferente? Quantos começaram a sua
vida com determinados ideais políticos e hoje pensam de outra forma? Quantos alteraram
as suas crenças religiosas com o passar do tempo? Quantos se envolveram em
projectos pessoais e desistiram ao perceber que não iriam a lado nenhum? Ainda
bem que assim acontece.
Perante evidências de que aquilo em que
acreditamos não nos conduz a bom porto ou já não faz sentido, não é inteligente
permanecer no engano. Os factos são soberanos e frequentemente chega a hora de
revermos até as nossas mais caras convicções.
O apego exagerado às ideias faz-nos portadores de mentes endurecidas e
cristalizadas. O pensamento é uma função plástica e pobre daquele que fica
confinado a uma crença eterna e inquestionável.
Por vezes, essa mudança de pensamento parece difícil
de concretizar. São demasiadas resistências. Do latim resistentia, que significa oposição, obstáculo, reacção ou defesa. De facto,
defendemo-nos da maioria das mudanças. Externas e internas. Persistimos com
frequência, até porque temos uma certa tendência à repetição. E o familiar é
sempre mais confortável que o desconhecido.
Viver é ter incertezas. Percebemos o quão difícil isto pode ser, pois ao
abandonarmos as nossas antigas convicções, perdemos o referencial que sempre
nos guiou. E nem sempre dispomos imediatamente de conceitos novos e mais
adequados, ou seja, por um tempo, conviveremos com dúvidas. Se isto não me faz
mais sentido então qual será o caminho?
Para
poder viver em paz com o permanente processo de aprimoramento e mudança é
preciso aceitar o convívio com as dúvidas e a angústia que elas causam. E posto
isso, felizes os que mudam de ideias, pois questionam o sentido das coisas e
pensam sobre o que lhes faz ou não sentido.
Etiquetas:
Crescimento,
Dúvida,
Flexibilidade,
Mudança,
Opinião,
Pensar,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Questionamento,
Reflexão,
Rigidez,
Transformação
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Pedrinha (Das Perdas)
Mais do que a transitoriedade, o que
incomoda é o luto.
domingo, 13 de abril de 2014
Theaters of Trauma - Excerto de Sessão de Richard Raubolt
![]() |
| A (Re)Criação do Trauma: VI Encontro da AP - Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica (12 de Abril de 2014) |
"Chris was a large, muscular man looking much younger than his fifty-two years of age. (…) Chris was also a non-using addict (not using presently but not in recovery either) who had brutally beaten his son for not answering the phone quickly enough. (…) Chris suggested the boy was exaggerating for attention and “besides he didn’t have it nearly so bad as I did.” He went on: “I could tell you stories but what’s the use? I had it coming.”
After listening to Chris’s stories, which he vaguely began to describe and to which I remained relatively quiet for three months, I began this session as soon as he was seated.
– “When we first began talking I asked you to tell me ‘your story’. We both know you have told me very little but that doesn’t mean I haven’t learned a good deal about you or the kind of help you might need.”
At this point, Chris started to interrupt. Cutting him off firmly, I said:
– “You will extend the same respect I extended you. You will listen while I speak because you have no idea what I am going to say to you or about you.” (…)
Chris remained silent although he continued a dialogue without words. (…)
– “Despite your denials to the contrary, you were beaten again and again as a boy and without mercy or reason. Your mother cowered from your father. She was present, as she had no place to go, but she was empty. She could offer you only a disguise hint of affection. (…) You survive by feeling hate, not showing it to your father… (…). Your mind was so fueled with fantasies of revenge… (…). You became like your father… (…). Still, through it all you wanted your father to notice you, spend time with you and teach you. I think you still want it from him, but since you won’t get it neither will your son. Keep going as you are and you will break your son into the mixed-up, crazy pieces you live with inside of you.
Now the question is: Is this what you want your legacy to be? I don’t want your answer now. (…) I will meet you next week, which gives you time to consider who you are and what you want. This session is over.”
In the next session, Chris started to loudly attack my “story-line”. I stopped him by saying:
– Are you in or out?
– …
(Richard Raubolt, PhD – In “From the Other Side”, Theaters of Trauma, 2010)
Etiquetas:
Agressão,
Agressor,
Emoções,
Limites,
Medo,
Mudança,
Padrões,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Raiva,
Repetição,
Setting,
Transformação,
Trauma
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O Elefante Acorrentado
"Quando eu era pequeno, adorava o circo e
aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o
elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos
outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um
peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de
voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca
cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas. No
entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns
centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me
óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua
força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me
evidente.
O que é que o prende, então? Porque é
que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos,
ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um
professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me
que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
— Se é amestrado, porque é que o
acorrentam?
Não me
lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o
mistério do elefante e da estaca e
só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito
essa pergunta. Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão
inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque
esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso
elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o
elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos
seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para
ele. Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e
no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o
animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino. Esse elefante
enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não
é capaz de o fazer. Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois
de nascer. E o pior é que nunca
mais tornou a questionar seriamente essa recordação. Jamais, jamais tentou pôr
novamente à prova a sua força."
Jorge Bucay in “Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver”
Etiquetas:
Autonomia,
Competências,
Confiança,
Coragem,
Crescimento,
Desenvolvimento,
Liberdade,
Medo,
Mudança,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Transformação
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Pedrinha (Dos Bons Investimentos)
"A despesa envolvida na psicanálise é excessiva apenas
na aparência. Inteiramente à parte do facto de nenhuma comparação ser possível
entre a saúde e a eficiência restauradas, por um lado, e um moderado dispêndio
financeiro por outro, quando adicionamos os custos incessantes das casas de
saúde e do tratamento médico e contrastamo-los com o aumento de eficiência e de
capacidade de ganhar a vida que resulta de uma análise inteiramente bem
sucedida, temos o direito de dizer que os pacientes fizeram um bom negócio.
Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez."
Freud em "Sobre
o início do tratamento", 1913
Etiquetas:
Aprendizagem,
Crescimento,
Desenvolvimento,
Desenvolvimento Pessoal,
Felicidade,
Mudança,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Saúde,
Saúde Mental,
Sigmund Freud,
Transformação
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Os recomeços
Costuma
dizer-se que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Que é isto que dá sentido
às coisas, como se fosse o esqueleto que sustenta as histórias. É uma sequência
temporal que se aplica a acções concretas como comer, dormir, tomar banho ou viajar,
mas também a outras facetas mais complexas da vida como relações humanas, empregos
e projectos vários. No limite, aplica-se à nossa própria vida.
Induzidos
pelo ritmo exacto do relógio, já que o próprio dia tem princípio, meio e fim,
sentimos que há um tempo para tudo, que ele está sempre presente. Os ponteiros
correm apressados e fora do nosso controlo, marcando o início e o fim dos
acontecimentos. E assim, no corre-corre do dia-a-dia, podemos facilmente entrar
em piloto automático, fugindo à reflexão e perdendo oportunidades de virar à
esquerda ou à direita em vez de seguir sempre em frente. É muito bom ter um
foco e caminhar em direcção a ele (sem objectivos a nossa existência perderia o
sentido) mas igualmente importante será não perder de vista o que se passa nas
redondezas, tudo aquilo que pode estar por perto e ser ainda melhor.
De
facto, cada dia o sol nasce e cada dia o sol se põe, sabendo nós, de antemão,
que no dia seguinte o sol regressa sempre, trazendo consigo mais uma rodada de
horas para nos oferecer. O próprio dia parece ensinar-nos também que tudo tem
um princípio, um meio e um fim, mas olhando com mais atenção, percebemos que o
que ele verdadeiramente nos ensina é que todos os dias podemos recomeçar. Os
recomeços são momentos de oportunidade que podem surgir num qualquer momento de
qualquer história e essa é a sua magia. A qualquer momento podemos reescrever
tudo, podemos encontrar outros caminhos, outros sentidos e, começar de novo.
Os
recomeços podem ser motivo de alegria ou de medo, mas serão sempre
emocionantes. Porque o recomeço implica sempre alguma mudança, por mais pequena
que seja. E a mudança faz-nos sentir vivos, embora sejamos frequentemente
aversos a ela, persistindo no hábito e naquilo que nos é familiar. Chamamos-lhe
a zona de conforto.
Face
a tudo o que se passa em nosso redor, importa perceber que momentos de crise
são também momentos de recomeço. Momentos de pensar novas possibilidades e
construir algo diferente, mais apropriado ou proveitoso. Mário Quintana dizia que
“a vida jamais continua, ela recomeça”. Quantos recomeços reconhecemos na nossa
história? Eventualmente, nem todos os recomeços terão sido proveitosos, mas a
boa notícia é que a possibilidade de recomeçar nunca acaba, podemos sempre
recomeçar mais uma vez.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
sábado, 27 de abril de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Pedrinha (Do Tactear)
“É mesmo essencial,
para o seu equilíbrio psíquico e para a salutar expansão da sua personalidade, que o adolescente possa
tactear ou encetar vários caminhos antes de verdadeiramente escolher o que
melhor corresponde à sua maneira de ser, de sentir o mundo e de perspectivar o
futuro. Não lho permitir será amputá-lo para todo o sempre nas suas
potencialidades evolutivas.”
António Coimbra de Matos
Etiquetas:
Adolescência,
Autonomia,
Crescimento,
Desenvolvimento,
Experiência,
Família,
Identidade,
Liberdade,
Mudança,
Personalidade,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Vivência
Sobre outras perspectivas
"What if I should fall right through the center
of the earth... Oh, and come out the other side, where people walk upside down?
"
Lewis Carroll in Alice in Wonderland
domingo, 6 de janeiro de 2013
Reflexão no Sapatinho (em Dia de Reis)
No
Natal passado especulou-se sobre o que estaria para chegar. Continuamos aqui,
ainda inteiros, e depois de um ano de dificuldades, penso que podemos pensar
sobre o outro lado da moeda, que mostra que estamos humanamente mais
“crescidos”. Arriscando dizer que somos hoje menos individualistas, já que nunca
como agora houve tanta consciência social. Repare-se no aumento exponencial de
movimentos solidários de recolha e distribuição de alimentos, brinquedos,
vestuário, livros, e tudo o mais que possa faltar numa casa de família. E não
só a nível institucional, mas atitudes solidárias em pequena escala, que nascem
do coração de alguns.
Sabemos
de famílias que este ano produziram, criativamente, os seus próprios enfeites
de Natal, recorrendo a materiais caseiros ou recolhidos na rua, trabalhando
afincadamente na exploração de tintas, papéis e tesouras. Tudo o que é feito
com as nossas mãos tem cheiro a afectos e com um carinho especial se orgulham
dos seus enfeites mais do que de qualquer outro adquirido anteriormente num balcão
alheio.
Parece
também que todos reduziram a sua lista de presentes, que não só incluía a “prima
da vizinha” (tantas vezes só para parecer bem) como também incluía presentes de
valor o mais elevado possível (como se o valor fosse espelho do afecto nutrido
pelo outro). Hoje procuram-se presentes mais adequados e em quantidade mais
adequada. Sobretudo, é o acto de compra impulsiva que perde força este Natal. Pensa-se
mais antes de agir. Mais, muitos fazem este ano os seus próprios presentes ao
invés de comprar e há ainda quem prefira aderir a iniciativas de pequenos
comerciantes ou artesãos. Porque prosperam negócios caseiros, de elevada
qualidade e preço acessível, nascidos da necessidade e da criatividade de gente
cheia de talento que nunca deu oportunidade a si mesma de pôr mãos ao trabalho
e deixar a imaginação voar. Trabalhos de bijuteria, de costura, de culinária, de
pintura e experiências a tantos níveis. Artesãos dos tempos de crise que talvez
encontrem aqui, este Natal, a semente de uma ideia que venha a germinar no
futuro.
Em
poucos meses, e embora quase por obrigatoriedade, caiu por terra a atitude
excessivamente consumista e passiva que coloriu o Natal dos últimos anos. E,
curiosamente, não deixamos de sentir um “espírito natalício” por aí, que agora
parece vir mais de dentro para fora e não tanto de fora para dentro. Nem tudo o
que nasce no seio de uma crise é necessariamente mau, e assim, começando com um
Natal mais humano, quem sabe depois esta postura possa ir entrando devagarinho
pelas nossas casas, ensinando-nos um equilíbrio social e económico que
poderíamos estar quase a perder de vista.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Histórias de Psicoterapia
"(...) Com que ferramentas trabalha? A
realidade é o próprio paciente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise
clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora,
há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um
processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de
psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que
um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na
adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo
de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise
consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de
estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se
passa no consultório para a sua vida real.
Como é que decorre o processo terapêutico?
É o mesmo de sempre. Decorre a partir da conversa
entre analista e paciente. A forma de conduzir é que é diferente. Em vez de
termos na cabeça uma teoria que aplicamos, procuramos observar o que se passa
com aquele paciente, vamos interpretando e construindo hipóteses em conjunto.
Para mim, a questão fundamental é que uma pessoa seja capaz de se autoanalisar
e que acabe a análise com uma capacidade de reflexão sobre si próprio maior do
que a tinha. (...) "
António Coimbra de Matos (em entrevista ao jornal Expresso, a 3/8/2010)
Etiquetas:
Análise,
Comportamento,
Emoções,
Funcionamento,
Insight,
Interpretação,
Mudança,
Nova Relação,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Reflexão,
Relação Terapêutica,
Relações Humanas,
Sentimentos
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O "conforto" do familiar
Não
se aprende sozinho nem de repente a ser aquilo que nunca fomos. Não se aprende por
instinto a sentir essa espécie de paz/felicidade que nunca foi sentida. É algo que
nos é estranho. Mesmo quando ao nosso redor se encontram circunstâncias
felizes, podemos “preferir”, inconscientemente, a familiaridade da melancolia
ou da depressividade. Podemos não conseguir sair desse lugar que tão bem
conhecemos. Podemos não nos permitir sequer tentar. No fim de contas, querendo
ou não, são sempre as nossas amarras internas que nos limitam.
“Os
meus estados deprimidos ainda me seduzem e fazem falta para me sentir
preenchida por dentro. Ainda confio nas minhas tristezas e ainda as chamo,
admito. Aconteça o que acontecer, desde que as chame, aparecem sempre. São de
confiança. E depois, o que se faz mesmo com a felicidade? É-se feliz, e depois?
Depois deve ser preciso aprender a viver-se feliz, a acreditar que se merece, a
aprender a não ter medo que algo de terrível aconteça, a fazer as pazes com o
que se passou connosco, a aceitar, a perdoar, a aprender a continuar, a
acreditar, a confiar, a transmitir, a não desistir, a lidar com o vazio e a
preenchê-lo com coisas bonitas feitas por nós. A infelicidade não me exige nada
disso, é só deixar-me estar.”
Marta Gautier
Etiquetas:
Angústia,
Ansiedade,
Depressão,
Depressividade,
Emoções,
Funcionamento,
Melancolia,
Mudança,
Personalidade,
Psicanálise,
Psicoterapia,
Psicoterapia Psicanalítica,
Relações Humanas,
Sentimentos
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Depressão na Recessão
Faz algum tempo, no dia 19 de Janeiro, foi entrevistado num canal da nossa televisão o Prof.
Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista português. O conceito central
discutido foi “depressão na recessão”, que diz respeito ao súbito aumento da
taxa de suicídio em Portugal (e também em outros países, como a Grécia ou a
Irlanda) e de perturbações depressivas associadas à conjuntura económica actual.
O impacto da crise económica e social na saúde mental dos portugueses é
inquestionável, uma vez que “a pobreza, o desemprego e a exclusão social são
factores que levam a um conjunto de afectos como a tristeza, sentimentos de
ruína e sobretudo os sentimentos de desespero”, como foi referido. Estes
afectos estão correlacionados com o aumento do índice suicidário, bem como com
o aumento do número de depressões.
O
desemprego e a precariedade em que muitos portugueses hoje vivem originam
frequentemente sentimentos de auto desvalorização e a sensação de fracasso.
Contudo, o impacto psicológico da crise assume contornos diferentes em função
da faixa etária da população. É fundamentalmente na meia-idade que se verifica
maior incidência de sintomas de depressão, esta estreitamente relacionada com o
sentimento de perda, já que muitos
indivíduos tinham a sua vida relativamente organizada e, subitamente, são
forçados a lidar com a perda de rendimentos, de emprego ou de casa. Em
acréscimo, torna-se muito angustiante para um indivíduo de meia-idade imaginar a
possibilidade a oportunidade de “recomeçar do zero”. No que respeita à
juventude, o impacto psicológico não está tão relacionado com a depressão, mas encontram-se
muitos sintomas de ansiedade, espelhando o medo do futuro.
Em
momento de “cortes” na Saúde e na Segurança Social e, portanto, na ausência de
um sistema nacional que possibilite um suporte psicológico adequado ao momento
de crise, impera a necessidade de o indivíduo procurar apoio na sua rede
social, isto é, na família, nos amigos e na comunidade. Contudo, para que isso
aconteça é essencial que cada um reconheça (perante si próprio e muitas vezes perante
os outros) as suas dificuldades, pois existe sempre muita vergonha associada às
situações de carência económica e, mais ainda, vergonha relativamente à
fragilidade psicológica. Paradoxalmente, importa dizer que existe sempre mais
força no indivíduo que assume as suas fragilidades do que naquele que as
esconde. Em acréscimo, sabe-se que negar e fugir da nossa verdade (interna e
externa) é uma das causas de mal-estar psicológico. O acto de pedir ajuda (seja
de que ordem for) é, por si só, um acto de Saúde Mental.
Etiquetas:
Ansiedade,
Auto-estima,
Confiança,
Depressão,
Desamparo,
Desemprego,
Desespero,
Insegurança,
Medo,
Mudança,
Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Suicídio
quinta-feira, 15 de março de 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















