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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Vínculos


Nos anos 50, John Bowlby efetuou um trabalho muito importante no estudo das ligações humanas, desenvolvendo a Teoria da Vinculação. Mais tarde, durante a década de 70, Mary Ainsworth expandiu o trabalho de Bowlby, estudando as reações a uma separação curta entre crianças (dos 12-18 meses ) e suas mães, e relacionando essas reações com o tipo de ligação existente entre ambos. Abstraíram-se desta experiência três tipos básicos de vinculação bebé-mãe e suas consequências.
Então, o mais adaptativo tem o nome de vinculação segura, um estilo relacional em que a criança se relaciona com a mãe com segurança (e vice-versa), e com essa confiança mútua a criança torna-se capaz de explorar o meio ativamente. Chora pouco na presença da mãe mas nos momentos de separação mostra-se naturalmente perturbada (e não é reconfortada por outras pessoas). Nos reencontros com a mãe, a criança saúda-a efusivamente e procura o contacto com ela. Existe equilíbrio entre os comportamentos de ligação à mãe e de exploração do mundo envolvente. Depois, há a vinculação insegura ambivalente, em que a criança permanece muito juntinho da mãe, aparenta ansiedade e explora pouco o meio envolvente. Nos momentos de separação mostra-se muito perturbada e nos reencontros com a mãe o comportamento da criança pode alternar entre tentativas de contacto e sinais de rejeição (empurrar, pontapés). Após esse reencontro a criança fica vigilante e talvez se aproxime ainda mais, logo, os comportamentos de vinculação predominam face aos comportamentos exploratórios. Por último, a vinculação insegura evitante, onde a criança, defensivamente, “faz de conta que não se importa”. Permanece mais ou menos indiferente quanto à proximidade da mãe e entrega-se à exploração do meio. Na ausência da mãe a criança pode chorar ou não, e nos reencontros desvia o olhar e evita o contacto com ela. Os comportamentos exploratórios prevalecem face aos comportamentos de vinculação. Mais tarde veio a acrescentar-se um quarto tipo, vinculação desorganizada, em que o comportamento da criança é confuso e parece não ter um objetivo claro ou explicação.
O tipo de vinculação que se estabelece entre uma criança e a figura materna é um fenómeno complexo mas realçam-se, como fatores facilitadores de uma vinculação segura: a disponibilidade emocional para esse encontro amoroso, empático, intuindo e respondendo adequadamente às necessidades afetivas do bebé, i.e., estar com ele psicologicamente, mesmo no sofrimento, ir dando voz às suas sensações e aguardando em conjunto o fim do mal-estar; destaca-se a importância da previsibilidade, i.e., de a criança saber com o que pode contar por parte da mãe; destaca-se a importância do toque, da forma segura e amorosa como se pega o bebé, bem como o respeito de o deixar estar quando ele de nada precisa. Uma vinculação segura na infância será atualizada pela vida fora, providenciando relações saudáveis, com base na confiabilidade, que nos permitem viver com o outro e ao mesmo tempo partir à descoberta de nós e do mundo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Estranho e o Medo


Eis o estranho e o medo, tão mal amados. Porém, sem o estranho e sem o medo, permanecemos na repetição do familiar — do que já conhecemos, do que já sabemos, do que nos mantêm confortáveis. Conforto é seguro, é gostoso e é preciso; mas é o desconforto que nos ensina tudo o resto. Tudo o que não conhecemos, tudo o que não sabemos, tudo o que pode, um dia, deixar-nos igualmente confortáveis, mas de outra maneira: nova. E é o novo que nos acrescenta. Vamos abrir os braços ao estranho, vamos olhar de frente o medo, e descobrir o que acontece depois.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Medo do Sucesso (Ou a Paz dos Perdedores)

Robert Montgomery

         No outro dia contavam-me que Fernando Mamede, atleta do Sporting Clube de Portugal, possuía enorme e reconhecido talento. Que apesar de todos os recordes internacionais por ele batidos no atletismo, não conseguiu vencer algumas barreiras psicológicas, medalhando apenas numa grande competição internacional. Contaram-me que um dos momentos mais dramáticos do seu percurso deu-se em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nem um mês depois do seu recorde mundial nos 10.000 metros. A pressão nos ombros de Fernando Mamede era enorme pois era já o grande favorito ao ouro olímpico, porém, a meio da corrida, o atleta abandonou a prova, para espanto de todos os que assistiam.
Mas se muitos ficaram espantados, certamente Sigmund Freud não ficaria. Uma das coisas que ele nos ensinou na sua vasta obra, através do estudo de pacientes neuróticos, é que os erros catastróficos e as explosões na vida particular normalmente não acontecem após um fracasso, mas sim após uma vitória. De facto, encontramos situações semelhantes não só no mundo da alta competição mas também no mundo empresarial, artístico e claro, na esfera relacional de cada um de nós. Há pessoas que parecem não suportar muito bem uma coisa fantástica: seja uma carreira fulgurante ou um casamento feliz. Porém, ninguém estraga o que fez ou trabalha contra si mesmo conscientemente. Com raízes inconscientes, o "medo do sucesso" associa-se geralmente a duas questões: ansiedade e/ou culpa.
O sentimento de culpa perante o sucesso, explicação que Freud mais explorou, pode ter raízes no fantasma do triunfo sobre os próprios pais, seja uma superação académica, financeira, romântica ou social. Pode até dar-se o caso de haver um medo inconsciente de retaliação, sob a forma de perda do amor, zanga ou inveja, preferindo o sujeito manter-se num nível “igual ou inferior” aos mesmos, evitando essa “competição”. Outra explicação para a culpa, também com raízes antigas, prender-se-á talvez com a baixa auto-estima, desvalorização pessoal e sentimento de desmerecimento. Como se um “sabotador interno” (citando Fairbain) nos impedisse de concretizar um feito por não nos acharmos dignos de tal.
Entre os factores explicativos para estes actos “auto-destrutivos” encontramos também a ansiedade: que nasce de uma sensação de insegurança, incapacidade ou medo do crescimento (no sentido de tudo o que é expansão). É a angústia de não estar à altura, é o querer ser sempre mais “pequenino”. É o medo de conseguir e depois perder. Toda a felicidade e/ou poder envolve tensão, riscos e responsabilidade. E muitos preferem a chamada "paz dos perdedores".


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Confiabilidade


Todos os seres humanos são dotados de uma tendência inata ao desenvolvimento/crescimento. Mas, embora inata, a tendência por si só não basta, nem a mera passagem do tempo. Trata-se de uma tendência mas não de uma determinação, ou seja, as coisas não acontecem necessariamente assim. Para que essa tendência venha a realizar-se, dependemos, antes de mais nada, de um ambiente facilitador e promotor do bom desenvolvimento nos primeiros anos das nossas vidas. Para além do amor, alimento mais básico, há a necessidade de um ambiente seguro, que é como quem diz: confiabilidade.
Confiabilidade é uma dessas coisas que valem ouro. Dizemos que uma pessoa é confiável quando sabemos que é possível contar com ela. Quando uma pessoa é confiável acreditamos que fará o que lhe compete, o que prometeu e aquilo com que se comprometeu. E sabemos que não fará mau uso do que lhe confiamos (seja um segredo, uma tarefa ou a nossa própria vida). A confiabilidade implica também uma certa previsibilidade: uma coerência que não abala à mais pequena brisa. É destas pessoas e deste ambiente que precisamos para nos sentirmos seguros e podermos dar asas ao nosso potencial de expansão. E precisamos tanto mais disto, quanto mais dependentes somos (ou estamos). É por isso que a confiabilidade adquire uma importância vital no início das nossas vidas: Quais as primeiras marcas que o mundo deixa em nós? É um local seguro ou assustador?
É que é preciso perceber que o bebé humano, ao contrário do bebé animal, vem ao mundo com uma certa prematuridade, sendo “lançado às feras” muito antes de poder ser minimamente autónomo. Então, pobres de nós que estamos à mercê do outro se o outro não for confiável — se não sabemos o que esperar, se não sabemos com o que contar. Há ambientes que deixam o bebé entregue à imprevisibilidade. Há ambientes que deixam os bebés assim inseguros, e portanto, entregues aos seus próprios recursos, ainda tão parcos: nesses casos, a criança experienciará vivências de desamparo, por vezes da ordem do insuportável. Se a criança nunca sabe se pode contar com a resposta adequada no momento adequado, e se isso exceder o que é capaz de suportar, a sensação será da ordem do aniquilamento.  Naturalmente, embora a vida prossiga o seu rumo, na melhor das hipóteses não escaparemos de uma existência cheia de ansiedade e angústias. Teremos que nos organizar para subsistir sozinhos pois não pudemos contar com o meio que nos envolveu. O perigo incide, sobretudo, se este for o cenário recorrente: uma criança que está sistematicamente entregue a si mesma pode ver o seu desenvolvimento severamente comprometido.

 Para nos podermos dedicar às nossas tarefas de crescimento e de exploração do mundo, não podemos estar preocupados com o que nos pode acontecer. Precisamos de confiar, pela repetição de experiências positivas, que haja o que houver, a dormir ou acordados, o mundo olha por nós, acompanha as nossas necessidades, e permanece presente, vivo, atento, disponível e confiável. Se tudo correr bem, a autonomia conquistar-se-á sem medos e enfrentaremos a vida com confiança. A confiança nasce dentro de quem, desde sempre, pôde confiar.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Conformismo, Acomodações e Outras Histórias

I)
“Conformei-me”, disse-me.
Quando o conheci, parecia condenado. No rosto, a ausência de esperança, na alma, a incapacidade de se afirmar senhor do seu destino. Como mente bem, o Homem. Como se engana a si mesmo. Como se defende e se justifica perante si próprio, como se ilude e finta o julgamento que faz de si todas as noites. Como tenta não se olhar de frente no espelho quando receia reconhecer ali os seus medos e incapacidades. Como quer esconder da sua alma que não foi capaz de lutar por ela. Dói, o remorso. Dói, a impotência. Dói, o medo. Mas, no íntimo mais íntimo de nós, sabemos.
Conformaste-te ou tens medo?
Tenho medo. Eu tentei mas era sempre tão difícil. Fui desistindo. Eu sonhava mas deixei de sonhar. Conformei-me.
O medo fez com que te conformasses e por te conformares abriste caminho ao medo. O medo come tudo. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.
Por cada momento em que nos falha a possibilidade de “ser” ou a coragem de “continuar a ser” matamos um pedaço de nós. Ficamos mais frágeis e mais perdidos a cada “derrota” percebida. E a cada batalha que recuamos, sabemos menos quem somos.

II)
“Não sei porque me acomodei, disse-me.
A história repete-se. Quando a conheci era uma mulher, sobretudo, confusa. Não tinha ainda consciência de que tinha deixado, há demasiado tempo, de ser feliz.
Tu sentias mas acho que só agora consegues pensar sobre isso.
Sim, eu já sabia. Eu sentia-me só mas não quis ver. E isso deixa-me zangada. Comigo.
Por cada pensamento reprimido, por cada discussão adiada, por cada zanga amordaçada, por cada grito silenciado, é um pedaço de ti que matas. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.

III) 
Duas vidas. Várias vidas. O mesmo dia. O mesmo medo. O medo de se permitir ser pessoa inteira. Como se faz? Por onde se vai? Então lembro-me do Alexandre O’Neill, que sabia destas coisas do medo, companheiro da condição humana, e contava, em parte, assim:

(…)
Ah o medo vai ter tudo  
tudo 
(Penso no que o medo vai ter  
e tenho medo  
que é justamente  
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo  
quase tudo  
e cada um por seu caminho  
havemos todos de chegar  
quase todos  
a ratos (…)

IV) Ou não.

sábado, 13 de junho de 2015

A pergunta do eterno retorno





      Se pudéssemos repetir a nossa vida tal e qual como ela se desenrolou até hoje, desejaríamos fazê-lo? O sábio Zaratustra, de Nietzsche, vai mais além, e pergunta: “E se um dia ou uma noite um demónio fosse atrás de ti até à tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há-de retornar.” Que sentiríamos?
A ideia de repetir ciclicamente a mesma vida, passando por tudo da mesma exacta maneira, pode funcionar como um exercício importante para questionarmos a direcção e o sentido que temos dado à nossa aparentemente curta existência. Embora uma existência em loop seja, por si só, assustadora, a melhor hipótese seria fazer dela o mais agradável possível. Então, se fosse garantido o nosso eterno regresso, exactamente nos mesmos moldes que na actualidade, até onde estaríamos dispostos a mudar coisas por forma a assegurarmo-nos de uma eternidade feliz? É importante ir questionando se o nosso percurso tem sido fundamentalmente prazeroso ou se é, pelo contrário, insatisfatório, ou mesmo terrível. Quantos de nós amam a sua vida? Ao fazer este balanço, o propósito não é mergulharmos em lamentações quanto ao que já passou mas sim dirigir o olhar para o que ainda pode vir. Amar o seu destino ou, mais adequadamente, criar um destino que sejamos capazes de amar.
Porém, nenhuma transformação positiva pode ter lugar se vivermos exclusivamente agarrados à ideia de que a nossa vida é como é por forças exteriores a nós: azar, má sorte, karma, sina, fado ou destino. A pergunta de Zaratustra obriga-nos a olhar a forma como pensamos as responsabilidades. Percebemos que o perigo de depositar a responsabilidade da nossa caminhada (e/ou da nossa insatisfação) no universo ou em qualquer outro exterior a nós mesmos, é que a situação poderá não sair do impasse. Então, se o demónio de Zaratustra nos condenasse, hoje, ao eterno retorno, continuaríamos no mesmo exacto lugar, estado e formato em que nos encontramos? Sentiríamos contentamento e satisfação em regressar à nossa existência assim como a temos conduzido? Ou seria um sufoco? E se assim for, seríamos passivos ou activos? Quanto tempo mais permaneceríamos no mesmo lugar? Até quando ficaríamos à espera? Até onde aguentaríamos? E se, efectivamente, nada acontecer? Nenhum milagre, nenhuma reviravolta fácil, nenhum chamamento ou insight? E se só nós somos responsáveis pela vida que levamos e pelos pilares que a sustentam? Transformaríamos a nossa vida, perseguindo sonhos, concretizando projectos, assumindo desejos? A liberdade de escolher fazê-lo é nossa. E a responsabilidade de escolher não o fazer, também.
É desconfortável pensar estas questões. É duro sentir este peso da hipótese mais certa: em última análise, os agentes da nossa felicidade e infelicidade somos nós. Que terrível sermos o nosso próprio carrasco. Sim, é desconfortável, mas é, garantidamente, o caminho possível nisto que é o curso da nossa vida. Sem essa consciência, mínima, talvez passemos o tempo que nos sobra à espera de algum milagre. Pode chegar. Ou não. Entretanto, é importante irmos aferindo o que se passa cá dentro. É preciso ouvirmo-nos a nós mesmos, escutar a voz que às vezes soa baixinho e que tantas vezes ignoramos (escondidos na ideia de que não há volta a dar ou no medo de tudo e mais alguma coisa) para que, caso o dito demónio nos obrigue a regressar, a coisa seja o mais simpática possível. E mesmo que não regressemos, mesmo que seja "só" isto, não será igualmente crucial aproveitar o melhor possível?

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Bicho Verde


Há três conceitos que por vezes se confundem: ciúme, cobiça e inveja. Mas ciúme, é não querer perder o que se tem, cobiça é querer o que o outro tem, e inveja é não querer que o outro tenha. Esta deriva do latim invidia, que quer dizer “olhar com malícia”, o que explica a crença popular do “mau-olhado”. Traduz-se como: “eu até posso nem ter nada desde que tu também não tenhas.” 
Dos três, talvez a inveja seja o mais difícil de admitir. É difícil de admitir porque remete para um desejo que não tem directamente relação comigo ou com algo eu gostaria de manter (ciúme) ou ganhar (cobiça), mas sim com aquilo que eu desejo que o outro perca. Talvez a inveja seja profundamente difícil de admitir porque a maioria tem alguma vergonha de reconhecer que retira prazer da desgraça alheia. Além disso, a cultura judaico-cristã penaliza severamente a inveja. Considera-a um pecado capital, embora seja talvez o único pecado que na realidade é totalmente inútil, ao contrário da gula ou da luxúria. Com a gula e com a luxúria eu tenho algum tipo de prazer. Com a inveja, pelo contrário, apesar de poder sentir um gozo imediato perante as perdas dos outros, na maioria das vezes, isto é, no dia-a-dia, sinto ódio das suas vitórias. Não só das conquistas alheias se tem inveja pois, por vezes, a simples paz de espírito ou serenidade de alguém pode ser motivo de inveja, mesmo que não possua nada mais que isso.
Porque se inveja, então? Há quem nem o saiba, porque a inveja pode estar mais ou menos consciente (creio que muitas pessoas escondem habilidosamente de si mesmas que invejam os outros), mas é alimentada por sentimentos de inferioridade e insegurança, sensação de abandono ou injustiça, sensação de incapacidade, vazio interior, frustração, como se fossem afluentes de um grande rio composto de egoísmo, raiva e ódio, em diferentes medidas. Por vezes, é tão dissimulada ou mesmo inconsciente que nem é expressada de forma directa ou evidente, contudo, sentimos um mal-estar em certa presença, um olhar estranho ou um tom de voz incoerente. Também aparece sob a forma de bisbilhotices, críticas (normalmente destrutivas) ou conselhos traiçoeiros. 
Quem inveja, sofre, mesmo que não o saiba ainda. É uma espécie de amargura invasiva, qual veneno que corre nas veias, e possui um carácter destrutivo, não para os outros mas principalmente para o próprio, que azeda, mirra e definha. Admitir a inveja será uma confissão de inferioridade pois o mecanismo responsável é a comparação sistemática entre a pessoa e os outros, comparação, essa, em que a pessoa se sente sempre em plano inferior. No fundo, quanto menos me basto a mim próprio, mais olho para os outros. Quanto menos satisfeito estou com a minha vida, mais observo a vida dos outros. Logo, quanto maior for o vazio, maior a inveja e por isso o melhor remédio contra ela é ter uma vida cheia de nós próprios, construir um destino que nos preencha e sermos plenos de amor-próprio, pois só quem se ama a si mesmo poderá amar o próximo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Certeza da Incerteza



Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Fernando Pessoa, Tabacaria

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Marylin, O Mais Belo Fantasma do Mundo


 
"Ninguém podia adivinhar que se tratava de um fantasma. Ela era demasiado bonita para isso, demasiado doce, resplandecente. Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, um tecido, uma sombra inquietante. Ela, ela encantava-nos. Devíamos ter desconfiado. Que poder tinha ela para nos fascinar tanto, para nos impressionar e nos levar à nossa maior felicidade? Deixamo-nos cair na armadilha a ponto de não compreendermos que já estava morta havia muito tempo.

Na verdade, Marylin Monroe não estava completamente morta, estava apenas um pouco, às vezes um pouco mais. O seu charme, ao fazer nascer em nós um sentimento delicioso, impedia-nos de compreender que não é necessário estar morto para não viver. Começara a não estar viva desde que nascera. A sua mãe, desumanamente infeliz, expulsa da humanidade por ter trazido ao mundo uma filha ilegítima, estava estupidificada de infelicidade. Um bebé não se pode desenvolver de outra forma que não seja no meio das leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, mesmo antes de nascer, encontrava-se fora da lei. A melancolia que sentia preenchia de tal forma o seu mundo que a mãe não teve força para lhe oferecer uns braços tranquilizadores. Foi necessário colocar a futura Marylin em orfanatos gelados e confiá-la a uma série de famílias de acolhimento entre as quais era difícil aprender a amar.

As crianças sem família não têm tanto valor como as outras. O facto de serem exploradas sexual ou socialmente não pode ser considerado um crime grave, uma vez que estes pequenos seres abandonados não são totalmente crianças verdadeiras. Algumas pessoas pensam assim. Para sobreviver apesar das agressões, a pequena Marylin teve de começar a “imaginar”, a alimentar-se da própria dor, antes de se afundar na melancolia e na loucura da sua mãe. Então, declarou que Clark Gable era o seu verdadeiro pai, e que pertencia a uma família real. Não tinha outra alternativa! Desta forma construía uma identidade vaga, já que, sem sonhos loucos, teria sido forçada a viver num mundo de lama. Quando a realidade morre, o delírio dá origem a uma maré de felicidade. Assim, casou-se com um campeão de basebol para quem cozinhava todas as noites cenouras e ervilhas , cujas cores tanto lhe agradavam.

Em Manhattan, onde tirou cursos de teatro, passou a ser a aluna preferida de Lee Strasberg, que era fascinado pelo seu estranho encanto. Já tinha estado morta muitas vezes. Era necessário estimulá-la bastante para que não se deixasse levar para o mundo dos mortos. Ela hibernava, não saia da cama e já não se lavava. Quando acordava com um beijo, de Arthur Miller, por quem se tornou judia, de John Kennedy ou de Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e afectuosa, e nenhum deles se apercebia de que tinha sido encantado por um fantasma. No entanto, ela dizia-o quando cantava I’m Through With Love. Estando já afastada do mundo dos mortais, refulgente em plena glória, sabia que só lhe restavam três anos de vida antes de oferecer a si própria um último presente: a morte.

Marylin nunca esteve completamente viva, mas nós não o podíamos saber, pois o seu fantasma era tão maravilhoso que nos enfeitiçava."

Boris Cyrulnik in O Murmúrio dos Fantasmas

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Depressão na Recessão


Faz algum tempo, no dia 19 de Janeiro, foi entrevistado num canal da nossa televisão o Prof. Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista português. O conceito central discutido foi “depressão na recessão”, que diz respeito ao súbito aumento da taxa de suicídio em Portugal (e também em outros países, como a Grécia ou a Irlanda) e de perturbações depressivas associadas à conjuntura económica actual. O impacto da crise económica e social na saúde mental dos portugueses é inquestionável, uma vez que “a pobreza, o desemprego e a exclusão social são factores que levam a um conjunto de afectos como a tristeza, sentimentos de ruína e sobretudo os sentimentos de desespero”, como foi referido. Estes afectos estão correlacionados com o aumento do índice suicidário, bem como com o aumento do número de depressões.

O desemprego e a precariedade em que muitos portugueses hoje vivem originam frequentemente sentimentos de auto desvalorização e a sensação de fracasso. Contudo, o impacto psicológico da crise assume contornos diferentes em função da faixa etária da população. É fundamentalmente na meia-idade que se verifica maior incidência de sintomas de depressão, esta estreitamente relacionada com o sentimento de perda, já que muitos indivíduos tinham a sua vida relativamente organizada e, subitamente, são forçados a lidar com a perda de rendimentos, de emprego ou de casa. Em acréscimo, torna-se muito angustiante para um indivíduo de meia-idade imaginar a possibilidade a oportunidade de “recomeçar do zero”. No que respeita à juventude, o impacto psicológico não está tão relacionado com a depressão, mas encontram-se muitos sintomas de ansiedade, espelhando o medo do futuro.

Em momento de “cortes” na Saúde e na Segurança Social e, portanto, na ausência de um sistema nacional que possibilite um suporte psicológico adequado ao momento de crise, impera a necessidade de o indivíduo procurar apoio na sua rede social, isto é, na família, nos amigos e na comunidade. Contudo, para que isso aconteça é essencial que cada um reconheça (perante si próprio e muitas vezes perante os outros) as suas dificuldades, pois existe sempre muita vergonha associada às situações de carência económica e, mais ainda, vergonha relativamente à fragilidade psicológica. Paradoxalmente, importa dizer que existe sempre mais força no indivíduo que assume as suas fragilidades do que naquele que as esconde. Em acréscimo, sabe-se que negar e fugir da nossa verdade (interna e externa) é uma das causas de mal-estar psicológico. O acto de pedir ajuda (seja de que ordem for) é, por si só, um acto de Saúde Mental.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Histórias ao adormecer


À noite acontecem coisas estranhas. Somos, em algum momento da nossa vida, vulgarmente atacados por criaturas assustadoras, monstros e fantasmas, que não estão necessariamente debaixo da cama ou atrás do armário, mas sim bem dentro de nós (como diria Stephen King).

De onde vêm estes monstros, que têm especial preferência em “assustar” os mais pequenos? Há quem responsabilize os programas televisivos ou os videojogos mas, na verdade, o cerne da questão está na insegurança da criança, que fornece o terreno ideal para que se instalem. A criança internaliza os elementos mais assustadores da realidade, sejam bruxas, papões ou ladrões, e eles são sempre tão mais horrendos quanto maiores forem as suas angústias. Não é apenas desligando a TV que desaparecem, pois surgirão numa outra esquina qualquer da vida dos mais pequenos, nem que seja numa noite de trovoada. E ajuda muito um abraço apertado e um colo que aconchegue, côncavo, muito mais eficaz do que uma racionalização qualquer do género: “Os monstros não existem!”.

Muitas vezes, quando a criança não quer ir dormir, percebemos que aquilo que ela realmente teme é acordar na manhã seguinte e ter perdido alguma coisa. Não o cabelo, não os dentes, nem sequer perder um brinquedo. Simplesmente, medo de perder os pais. Não estamos a falar de processos conscientes mas sim inconscientes. Nenhuma criança tem capacidade de aceder ao seu inconsciente e descobrir por si própria o motivo que se esconde por detrás dos seus medos (nem os adultos, quanto mais as crianças…!).

Dormir é uma separação, equivalente a ir para a escola ou para a casa de um amigo. Dormir é estar fisicamente longe de quem amamos, o que só é simples e natural para crianças suficientemente confiantes no amor dos seus pais. Porque há tantas crianças a querer dormir bem juntinho à sua mãe? É necessário existir confiança no outro e no amor que o outro nutre por nós, para que a distância física não seja confundida com distância afectiva. Para que seja possível largar a mão da mãe sem medo e arriscar fechar os olhos, sabendo de antemão que quando os reabrirmos está tudo exactamente como dantes: no sítio.

Num mundo em que pais e filhos guardam pouco tempo para se mimar mutuamente, onde as crianças crescem cada vez mais entregues a si mesmas, e quando nasce a noite, no escuro e no silêncio do quarto, tem que haver alguma coisa que garanta que, apesar disso, não estamos, nem ficaremos, sós. Essa convicção tem que morar dentro de nós, sendo da responsabilidade dos pais fornecer satisfação e segurança suficiente à criança para que ela nunca se sinta só, nem nos momentos em que está efectivamente mais sozinha.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pedrinha (Do que é novo)


O prazer com o novo é o motor do desenvolvimento pessoal e colectivo. O medo do novo é sinal de insegurança e causa de paragem do desenvolvimento ou mesmo regressão.

António Coimbra de Matos