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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Histórias de Psicoterapia


"(...) Com que ferramentas trabalha? A realidade é o próprio paciente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora, há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se passa no consultório para a sua vida real.

Como é que decorre o processo terapêutico? É o mesmo de sempre. Decorre a partir da conversa entre analista e paciente. A forma de conduzir é que é diferente. Em vez de termos na cabeça uma teoria que aplicamos, procuramos observar o que se passa com aquele paciente, vamos interpretando e construindo hipóteses em conjunto. Para mim, a questão fundamental é que uma pessoa seja capaz de se autoanalisar e que acabe a análise com uma capacidade de reflexão sobre si próprio maior do que a tinha. (...) "


António Coimbra de Matos (em entrevista ao jornal Expresso, a 3/8/2010)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bons, maus e assim-assim


A separação entre o Bem e o Mal remonta ao dia em que Adão e Eva comeram o fruto proibido. De forma semelhante, existe, desde sempre, uma tendência para dividir também as pessoas em duas categorias consequentes: os bons e os maus. Essa divisão perpetua-se de geração em geração, sendo apresentada aos mais pequenos também pelos contos infantis, confirmando-se depois em páginas de livros e enredos de filmes.

Na verdade, bom e mau co-existem dentro de cada um de nós. Tal como, mais especificamente, existem emoções e sentimentos diferentes como a raiva, o ódio, a inveja, o ciúme, a tristeza, a ternura, o amor ou a paixão, habitando como vizinhos de um mesmo prédio. Ninguém é completamente bom e ninguém é absolutamente mau. Somos bons e somos maus em situações diferentes ao longo da vida. Catalogar o mundo rigidamente em preto e branco é demasiado redutor. É bom aceitar que certas coisas, são, simplesmente, cinzentas, se quisermos ser realistas e, logo, mais ajustados.

Somos dinâmicos, não estáticos. Somos complexos. Negar que possuímos características boas e más é negar essa complexidade. Uma ferramenta chave para compreender e aceitar esta perspectiva é a tolerância. Para com os outros e para connosco próprios. Essa tolerância permite-nos viver e sentir mais pacificamente as relações humanas que nos envolvem e aceitar que temos direito a cometer erros, tal como todos os outros.

Efectivamente, a cultura judaico-cristã moldou-nos ao longo dos tempos segundo esta grande divisão entre o Bem e o Mal. Promovem-se os sentimentos/actos bons, deixando a culpabilidade a pairar em cima das cabeças (ou bem agarrada às costas) quando nos apercebemos que fizemos ou sentimos algo menos bom. Por outro lado, se quisermos justificar-nos com isso, essa mesma cultura católica também nos ensina o perdão e a tolerância, logo, dá-nos igualmente a chave para a questão. Talvez, mais do que um fundamento cultural ou religioso, seja sim uma forma de sossegar o espírito. No fundo, encontrar e atribuir rótulos é uma forma de serenar a dificuldade que temos em aceitar tudo o que é ambíguo, indefinido e instável. Sim, gostamos de fingir que sabemos as respostas a todas as perguntas.

Se pensarmos que o nosso único defeito é a teimosia (exemplo que se retira de inúmeras entrevistas que se encontram por aí) ou somos descaradamente mentirosos ou, mais grave que isso, nunca parámos para pensar sobre o que há de menos bom dentro de nós. Todos temos a nossa bagagem de vida, produto da nossa história. Gostemos ou não, essa bagagem faz de nós quem somos e, embora possamos sempre (e felizmente) transformarmo-nos e melhorarmos, para isso é preciso, primeiro, questionar-nos sobre nós próprios e reconhecer que temos falhas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

Era uma vez uma família


“Uma criança satisfeita brinca livremente na presença confiante dos pais, sem precisar de estar permanentemente colada a eles. Ou seja, a boa relação com os pais permite-lhe fazer descobertas por conta própria e estabelecer novas relações (diversificando a forma de se relacionar com vários objectos e ampliando o seu mundo de interesses). Ao mesmo tempo, por sua vez, também permite , com facilidade, que os pais se relacionem entre si e com outras pessoas, aceitando com agrado que os pais também tenham os seus próprios interesses. Assim, convivem uns com os outros, respeitando a condição de serem cada vez mais separados e diferenciados uns dos outros. Gostam de estar com os outros, mas não se perseguem – de vez em quando aparecem, para trocar uma graça, para revelarem o afecto que sentem ou quando alguma coisa os ameaça; para logo depois seguirem caminho, seguros uns dos outros (do amor que os une, da certeza que permanecem fora de perigo). E assim se funda a verdadeira intimidade, semente de novos amores; experiência adquirida nas boas relações de infância, ou mais tarde na relação terapêutica.”

Maria do Rosário Belo* in Lutos, perdas, desafios e conquistas, na vida e no processo analítico
*Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pedrinha (Do que eu sou)

O importante é aquilo que eu sou para mim próprio. O que eu sou. O que eu fui. Ou serei. O que é que queres ser? O importante é sermos autênticos. É isso que nos faz ser únicos. Somos incutidos a ser milhões de coisas mas só somos aquilo que realmente queremos. Eu sou o que eu dou. Eu dou o que eu sou. (...) Eu sou o que eu sou.

Sam the Kid (O que eu sou)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pensar os pensamentos

Mesmo suponho a existência de um aparelho de pensar os pensamentos bastante eficaz, mesmo assim, existem ainda muitos pensamentos que o sujeito não é capaz de pensar sozinho e que são colocados no interior do analista para ele pensar. Uma das principais funções do analista é pensar aquilo que o analisando não é capaz de pensar.

Carlos Amaral Dias (Freud para além de Freud)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Amor em tempos de análise

No fim, não vivemos para analisar, nem vivemos para amar; simplesmente, analisamos e analisamo-nos para amar e para viver melhor.

João Pedro Dias (2010) (in Amor em tempos de análise: o amor do analista na perspectiva e vivência do analisando)

sábado, 4 de junho de 2011

Pedrinha (Das relações não-estanques)

“E se toda e qualquer relação é feita de ajustamentos, desajustamentos e reajustamentos; encontros, desencontros e reencontros corrigidos; momentos fecundos, traumáticos e mortos; acontecimentos previstos e imprevistos; sequências determináveis e indetermináveis; em condições de limpidez ou de névoa – uma coisa é certa: conhecer o que se passa intra e interpsiquicamente, no sujeito e no par ou no grupo, é importante na vida e fundamental na análise.”

António Coimbra de Matos

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O caminho

- E agora, Siddhartha, o que és agora?
- Não sei, sei tão pouco como tu. Estou a caminho.

Herman Hesse (Siddhartha)

domingo, 1 de maio de 2011

Viagens dentro de nós


Há viagens que temos que fazer dentro de nós. Nelas encontramos vivências, lugares, afectos desaguados em estranhas penumbras de nada; este, aquele e o outro, num tempo que às vezes não liga, como uma fiada de pérolas, tudo isto que habita cá dentro e vai e vem, vai e vem.
                Quando  descem as pálpebras, abre-se o silêncio da plácida contemplação de mim – é lá o lugar, o lugar ímpar do encontro connosco, em toda as formas que demos às memórias,  guardiãs de vividos,  aos sonhos, relicários de esperanças e cálidos desejos.
                Por vezes sossobramos à dor, vergamo-nos sob o peso de histórias aparentemente acabadas de perda e sofrimento. Mas é nestas viagens e no regresso delas que vamos retocando de cor buracos de mágoa, que vamos suavizando desilusões perdidas em entrelinhas de histórias que, afinal, ainda podemos reescrever e até terminar.
                Regresso: dessa viagem guardo às vezes na mão o querer, o querer aceder àquele assustador mas deslumbrante mundo de mim.

Maria João Saraiva* (in A dor que me deixaste)
*Psicanalista associada da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica

domingo, 3 de abril de 2011

Pedrinha (Da psicanálise)

(...) A análise, a cura analítica, muito mais que recriar o que foi — isso será tão-só a necessária base de dados para o mais importante e nobre trabalho ulterior —, a análise, dizíamos, é criar “aquilo que não foi mas podia ter sido” (como fala o eloquente verso do poeta brasileiro Manuel Bandeira); quero dizer, criar — porque de criação se trata — um novo crescimento mental; no local vazio ou desértico do crescimento anulado ou abortado, lá e outrora. (...)

António Coimbra de Matos (in Comunicação do I Congresso Luso-Brasileiro de Psicanálise, Maio 2006)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mudanças


De que forma a nossa infância influencia quem somos e como funcionamos? Influencia muito. Durante o percurso de vida, vamos sendo condicionados por acontecimentos e vivências, que nos conduzem por determinados caminhos. Contudo, há um molde inicial que se constrói desde os primeiros momentos e que formata os nossos comportamentos, atitudes e valores de forma bem vincada.
O objectivo de compreender as raízes do nosso funcionamento vai muito além de procurar um bode expiatório para o sofrimento humano. Durante uma análise ou outra terapia, procura-se compreender para transformar e nunca, jamais, compreender para acusar e julgar. Através da compreensão dos porquês surge a capacidade de transformar certos padrões de funcionamento, ciclicamente repetidos.
Por norma, qualquer mãe-ou-pai-digno-desse-nome faz o seu melhor e, quando age, age na melhor das intenções. No entanto, criar uma criança é uma tarefa árdua. E aceitar a falibilidade humana é tarefa crucial para o desenvolvimento emocional (a nossa e a dos outros). Em acréscimo, cada progenitor traz também consigo uma bagagem emocional, legado dos seus próprios pais e das suas vivências, que condicionaram igualmente a sua personalidade e funcionamento perante os filhos. Estamos perante um fenómeno transgeracional. Sim, a nossa família molda-nos. E molda-nos a vida emocional, molda-nos a vida profissional, molda-nos a vida familiar…! Molda o nosso pensamento, as nossas acções, reacções e relações.
“Então, os meus pais (ou educadores, outros) tiveram influência na minha personalidade? E também na minha forma de encarar a vida? E já agora, porque fracassam todas as minhas relações amorosas?! Porque sou assim? Será que o problema é meu ou será que escolho as pessoas erradas?” Ora, que boas perguntas! Sim, o meio familiar (com todas as suas variáveis) influencia garantidamente a personalidade. Sim, condiciona a nossa forma de olhar a vida (e o mundo). E sobre as relações, muito mais se pode descobrir, pois num sistema (nós e o outro) não só existem as nossas características como também as características do outro. Um verdadeiro cocktail...! Poderá, sim, haver uma falha na forma de se relacionar com o parceiro. Poderá, sim, por outro lado, haver uma escolha viciada e inconsciente de pessoas problemáticas (problemáticas na relação connosco e não necessariamente problemáticas "de fundo") como parceiro. Poderá ainda haver um bloqueio na relação em função do choque de personalidades, choque esse que eventualmente se ultrapassa se ambas as partes reconhecerem a raiz dos conflitos e a trabalharem, bem como trabalharem na sua evolução pessoal. Ou então não se ultrapassa, mas pelo menos o indivíduo fica a perceber porque falhou a relação e seguramente aprenderá algo útil à sua próxima escolha. Quanto melhor nos conhecermos, mais fácil ser feliz.
Com ajuda, em terapia, tudo isso se trabalha. Tudo se muda, tudo se transforma. De dia para dia. E se falar numa mudança absoluta é algo utópico, uma mudança suficiente é perfeitamente alcançável. Começa com um exercício conjunto de descoberta dos padrões de funcionamento. Fazem-se as pazes com o passado, quando necessário. Depois do entendimento, um novo exercício, algumas vezes penoso e prolongado, de tentar contrariar e modificar a questão problemática.
Iniciar uma terapia não implica doença mental. A existência de um sofrimento ou limitação é motivo suficiente para procurar a mudança. Ter a capacidade de reconhecer que uma ou mais áreas da nossa vida não estão a fluir como deveriam, procurar compreender as causas e as perspectivas de mudança, demonstra inteligência e capacidade de insight. Há quem diga que viemos ao mundo para sofrer. Não é um bom princípio. Se a nossa evolução pessoal nos trouxer menos sofrimento, porque não?