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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Infinitudes


Não penses que te esqueço. Então ainda não sabes que trago comigo todos aqueles que amo? Não sabes que o coração é infinito e que há tantas formas de amor quantas pessoas há no mundo? É que eu acredito mesmo que o amor liga as almas mesmo quando os corpos não se encontram e os olhos não se cruzam. Não te queiras esquecer de mim. Esquecer é perder. Pelo contrário. Guarda. Guarda e lembra-te e será teu para sempre. Não sabes que quanto mais guardares mais pleno serás? Não sabes que corações cheios são corações vivos? Dizes-me que chegou ao fim e eu acho que começou. O amor não tem tempo e sem tempo não há princípio nem fim. Dizes-me que é difícil e dói. Sim. Mas não esqueças aquilo que dói. Dói porque é importante. Dói porque está vivo. Dói porque é amor. E pelo amor, tudo. Pelo amor, mais. Ele acrescenta-nos sempre.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pedrinha (Das Separações e das Zangas)

Na última sessão, três meses depois, Celina (11 anos) repetia para o pai sem o olhar: “Não gosto de ti! Não te quero ver!”.
Eu intervenho com a tradução latente, para o pai: “ A Celina não quer ver, não porque não gosta, mas porque gosta mesmo muito do seu pai!...”
O tom afirmativo e seguro da minha voz ajudou Celina a aceitá-lo. Fica muito menos tensa e caem-lhe lágrimas em silêncio.
O pai, que era de facto um homem inteligente e seguro, colabora de modo excelente. Após um silêncio pergunta-lhe suavemente quando pode ir buscá-la a casa para lancharem juntos.
Esta responde: “Lá para Novembro!” (estamos em Agosto). Numa intuição notável, o pai insiste: “Então talvez logo às cinco da tarde…” – “Bem, não sei! Não sei se tenho compromissos. Tenho que perguntar à mãe se posso.”
Já que a mãe e a terapeuta consentem este amor, ele não é mais causa de sofrimento. Saio do gabinete e deixo-os a combinar pormenores.


Teresa Ferreira in A Defesa da Criança

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Adição


Quando pensamos em dependências associamos frequentemente à toxicodependência, talvez a mais debatida nas últimas décadas. Mas aos poucos fomos percebendo outras manifestações de dependência, expressas no álcool, jogo, alimentos ou sexo. Hoje estendemos este conceito às compras, aos jogos, à internet e qualquer outro comportamento aparentemente fora do controlo do indivíduo e/ou que limite e prejudique a sua vida quotidiana.
Chamamos-lhes dependências, adições (ou comportamentos aditivos), e entendemos por isto quaisquer acções que o sujeito realize de forma compulsiva, com base num impulso incontrolável que faz com que não sossegue enquanto não o concretiza (independentemente de “em quê” irá aplicar esse impulso). Esta problemática acarreta sempre uma diminuição ou perda de liberdade, pois é-se escravo da compulsão. Sendo dominado por estes impulsos, o desejo de consumir (seja lá o que for) torna-se frequentemente mais importante do que a relação com os outros e, inclusivamente, do que os próprios interesses e necessidades. É possível que esta compulsão conduza à ruína da vida familiar, social, profissional ou financeira, no entanto, também há comportamentos aditivos mais mascarados e sem uma forma de prejuízo tão visível a olho nu.
Os comportamentos aditivos são comportamentos que visam a procura de prazer imediato. Por norma procura-se com eles preencher um vazio interno e dissipar algum tipo de mal-estar psicológico, mais ou menos leve e muitas vezes inconsciente. Contudo, sendo uma solução enganosa, muito rapidamente o prazer se dissipa e torna a sentir-se vazio ou mal-estar, repetindo-se o comportamento em busca de novo alívio. No caso da toxicodependência e do alcoolismo é amplamente conhecido o efeito dos agentes químicos causadores de dependência (física) mas a compreensão dos mecanismos aditivos (dependência psicológica) exige sobretudo a compreensão das “falhas afectivas” subjacentes.
A grande maioria dos autores que estudam as perturbações do comportamento aditivo (e das dependências no geral) falam de uma espécie de falha no desenvolvimento afectivo mais precoce, normalmente relacionada com dificuldades no processo primário de separação entre o bebé e a sua mãe (e consequente dificuldade de individuação do sujeito - que, no limite, todos temos em maior ou menor grau).  Falam ainda de uma falha na função paterna (o pai “separa” a mãe do seu bebé introduzindo-se como um terceiro na relação de dependência primordial). Não se concretizando adequadamente o processo de separação e autonomização (talvez o processo mais delicado na vida do ser humano), dá-se, inconscientemente, uma busca externa, compulsiva, do objecto perdido, sob a forma de adição.

É, assim, importante perceber de que é o indivíduo está à procura e, simultaneamente, do que é que está a fugir, pois a adição serve também para obscurecer e manter afastadas da consciência as experiências dolorosas. Somos peritos em manobras de ilusionismo para negar a nossa própria dor, contudo, estando lá, cedo ou tarde se manifesta.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pedrinha (Do Direito de Ser)

To be nobody but yourself in a world that’s doing its best to make you somebody else is to fight the hardest battle you are ever going to fight. Never stop fighting.

E.E. Cummings

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os filhos do divórcio


A separação da família implica não só uma necessidade de reorganização individual de cada um dos cônjuges, mas também uma reorganização da vida afectiva da criança. Os “filhos do divórcio” devem ser acompanhados cuidadosamente pelos pais, que não devem deixar que as suas desavenças influenciem o crescimento do seu filho.
Há regras básicas, sendo a primeira deixar sempre bem claro que a separação dos pais não vai afectar de modo algum o amor sentido pela criança. O final da relação deve ser comunicado antes que um dos cônjuges abandone o núcleo familiar, não sendo necessário concretizar demasiado os motivos da separação. Explicações simples poupam as crianças a mais sofrimento. No entanto, deve haver abertura para todas as questões e possibilidade de expressar as emoções e os sentimentos relacionados com a situação, não fugindo do assunto por incómodo ou falta de paciência.
A estabilidade do quotidiano das crianças deve ser mantida na medida do possível, ou seja, quanto menos alterações a vida da criança sofrer, mais fácil será a adaptação às novas circunstâncias. Fundamental também, evitar a tendência para fazer dos filhos um pombo-correio, pois só os pais são responsáveis pela comunicação entre si. O esforço por um relacionamento aceitável com o ex-cônjuge é importante e é desumano esperar (ou provocar) que a criança tome partido por um dos pais.
O contacto da criança com os familiares e amigos que sempre estiveram presentes na sua vida familiar deve ser preservado, para que esta sinta que a família continua razoavelmente unida. Essencial, ainda, o respeito pelo tempo em conjunto com a criança por parte de cada um dos pais, agora separados. Devem ser proporcionados momentos de qualidade, com frequência e assiduidade. Na impossibilidade de estar com a criança não se pode negligenciar uma explicação, para que esta não fique a fantasiar que o seu pai/ mãe já não gostam de si da mesma forma. Apesar da separação da família ser dura para a criança, estes cuidados essenciais, assim como a certeza de continuar a ser amado pelos pais, permitem que a situação seja ultrapassada de forma gradual e natural.