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domingo, 23 de novembro de 2014

O conflito de gerações


Há algum tempo a capa da revista Time apresentou-nos a “Me Me Me Generation”, categorizando a juventude actual como extremamente narcísica, individualista e egocêntrica. Rapidamente se instalou a polémica perante essa capa que correu o mundo. Em defesa dos jovens se diga que, por exemplo, é mais comum desenvolverem comportamentos pró-ambientais do que um indivíduo de 50 ou 60 anos. Sendo o planeta responsabilidade de todos, quem serão os mais individualistas? Há na juventude, claramente, narcisismo e egocentrismo, o que é diferente de individualismo. É que os dois primeiros estão intimamente ligados ao processo de crescimento: narcisismo, porque a identidade própria está em construção e necessita de ser reafirmada; egocentrismo, porque a imaturidade torna difícil entender as coisas sob outros e diferentes pontos de vista que não o próprio. Mas individualismo, atitude de não se preocupar com os outros, será uma acusação injusta, pois se há coisa que caracteriza a adolescência é a sensibilidade social e a busca de justiça. Vendo bem, quantos adultos não são igualmente narcísicos e egocêntricos, tendo ficado suspensos no seu caminho de crescimento pessoal?
Acusações mediáticas à parte há sempre tensão entre gerações. É com frequência que opiniões públicas ou privadas a denegrir as gerações mais novas se fazem ouvir. Porque se atacam tanto os jovens? Que os jovens possam criticar os “velhos” até se entende, já que são eles os “miúdos”, inexperientes e justiceiros, para quem é tão fácil apontar o dedo. Que os adultos respondam na mesma linguagem é que se torna mais difícil de entender, pois deveriam ter algum entendimento sobre o que ficou para trás. Será tão fácil esquecer o quanto as gerações sempre chocaram entre si? Será tão difícil lembrar como os jovens de antigamente também se diferenciaram dos seus pais? Tudo o que é diferente é estranho, mas não necessariamente mau. O futuro o dirá.

Todas as gerações são diferentes das gerações que as precederam. Se o mundo está em permanente transformação como poderia ser de outra maneira? A verdade é que o ser humano tem alguma dificuldade em responsabilizar-se pelo que acontece em seu redor mas somos nós quem define a direcção em que se move o mundo. Para falar sobre jovens, teremos de sempre de falar um pouco sobre quem foram os pais dos jovens e de que cultura de valores foi criada para eles, seja em que época for. Se não gostamos dos jovens que criámos teremos sempre de fazer um mea culpa sobre o mundo que construímos para eles.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O conflito de gerações


Há algum tempo a capa da revista Time apresentou-nos a “Me Me Me Generation”, categorizando a juventude actual como extremamente narcísica, individualista e egocêntrica. Rapidamente se instalou a polémica perante essa capa que correu o mundo. Em defesa dos jovens se diga que, por exemplo, é mais comum desenvolverem comportamentos pró-ambientais do que um indivíduo de 50 ou 60 anos. Sendo o planeta responsabilidade de todos, quem serão os mais individualistas? Há na juventude, claramente, narcisismo e egocentrismo o que é diferente de individualismo. É que os dois primeiros estão intimamente ligados ao processo de crescimento: narcisismo, porque a identidade própria está em construção e necessita de ser reafirmada; egocentrismo, porque a imaturidade torna difícil entender as coisas sob outros e diferentes pontos de vista que não o próprio. Mas individualismo, atitude de não se preocupar com os outros, será uma acusação injusta, pois se há coisa que caracteriza a adolescência é a sensibilidade social e a busca de justiça. Vendo bem, quantos adultos não são igualmente narcísicos e egocêntricos, tendo ficado suspensos no seu caminho de crescimento pessoal?
Acusações mediáticas à parte, há sempre tensão entre gerações. É com frequência que opiniões públicas ou privadas a denegrir as gerações mais novas se fazem ouvir. Porque se atacam tanto os jovens? Que os jovens possam criticar os “velhos” até se entende, já que são eles os “miúdos”, inexperientes e justiceiros, para quem é tão fácil apontar o dedo. Que os adultos respondam na mesma linguagem é que se torna mais difícil de entender, pois deveriam ter algum entendimento sobre o que ficou para trás. Será tão fácil esquecer o quanto as gerações sempre chocaram entre si? Será tão difícil lembrar como os jovens de antigamente também se diferenciaram dos seus pais? Tudo o que é diferente é estranho, mas não necessariamente mau. O futuro o dirá.

Todas as gerações são diferentes das gerações que as precederam. Se o mundo está em permanente transformação como poderia ser de outra maneira? A verdade é que o ser humano tem alguma dificuldade em responsabilizar-se pelo que acontece em seu redor mas somos nós quem define a direcção em que se move o mundo. Para falar sobre jovens, teremos de sempre de falar um pouco sobre quem foram os pais dos jovens e de que cultura de valores foi criada para eles, seja em que época for. Se não gostamos dos jovens que criámos teremos sempre de fazer um mea culpa sobre o mundo que construímos para eles.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Crash


It's the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We're always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.

Crash (vencedor do Oscar para o Melhor Filme em 2006)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na companhia da solidão



Fala-se de solidão. Ela já foi cantada, declamada e narrada por um sem fim de artistas mas, fundamentalmente, é sentida e vivida em algum momento por nós, seres pensantes (e relacionais). Pode durar esse exacto momento, mas pode, também, durar uma vida inteira. Embora a noção de solidão tenha existido desde sempre (como condição intrínseca do ser humano), considera-se que há também uma vertente social que tem lugar neste “debate”. Assim, para compreender melhor a solidão, parece indispensável uma articulação entre a dimensão psicológica e essa dimensão social do conceito.

Entende-se que um dos rostos da modernidade é a valorização da autonomia individual. Ser auto-suficiente, ser independente, ser livre, são ideais que, na ausência de equilíbrio, conduziram à exacerbação do individualismo. Já na obra “A Cultura do Narcisismo” (1983), Christopher Lasch falou do modo como as sociedades capitalistas se estruturaram, material e simbolicamente, segunda essa preocupação intensa com a realização individual (estreitamente relacionada com o universo do consumo), em detrimento dos ideais colectivos. Ocorreu, gradualmente, uma centralização no Eu e um desinvestimento nas relações com os outros. Como dado significativo, recordemos que, consoante os países (do primeiro mundo), há estatísticas que situam entre os 25% e os 40% a percentagem de indivíduos que moram sozinhos.

Na verdade, muitos ainda não desistiram de tentar incluir no seu projecto de vida as ligações aos outros, mas vêem-se confrontados com relações interpessoais difíceis e complexas, sentindo-se frequentemente tentados/obrigados a recuar. Evidentemente, se inseridos numa sociedade esquecida de comportamentos de tolerância, que desvalorizou os afectos e as relações humanas, os indivíduos vivem em conflito permanente com o outro. E aí, acontece que o ser humano se sente de novo só, embora acompanhado. Fica uma pergunta: o “mal” estará realmente no outro, ou seremos todos nós também um produto da modernidade, acolhendo já inconscientemente essa incapacidade?

Sozinhos e sós, ou acompanhados e sós, são solidões distintas, que muitas vezes se fundem numa só, esmagadora. Se a solidão representa o sentimento quotidiano da nossa vida, talvez ajude verdadeiramente perceber, com ajuda técnica, qual a origem desse sentimento dentro de nós. E, em tempos de crise, talvez possamos recordar, por fim, que o afecto e as ligações humanas serão sempre os melhores ingredientes da felicidade.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pedrinha (Do individualismo)


Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros.
José Luís Peixoto (Diário de Notícias, 2007)