Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Boyhood
― So what's the point?
― Of what?
― I don't know, any of this. Everything.
― Everything? What's the point? I mean, I sure as shit don't know. Neither does anybody else, okay? We're all just winging it, you know? The good news is you're feeling stuff. And you've got to hold on to that.
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terça-feira, 8 de abril de 2014
Nem tanto ao mar nem tanto à terra
Ainda hoje muitos estudiosos se questionam acerca da origem da
agressividade: será inata (um instinto ou pulsão) ou adquirida (por frustração
ou trauma)? Por outras palavras, será genética e constitucional ou será
resultado de experiências muito precoces? O que é inquestionável é que a
incidência da agressividade nos seres humanos varia amplamente de indivíduo
para indivíduo.
Sabemos desde muito cedo demonstrar o nosso desagrado. Pedir e
reclamar são acções que exigem um “mínimo” de agressividade. A criança pode
demonstrar assim algumas reacções de raiva quando não obtém o que pretende
(gritos, choro, agitação, morder) pois a raiva é o afecto básico subjacente à
agressividade. Estas reacções directamente agressivas vão normalmente cessando
à medida que a criança é capaz de se exprimir pela linguagem. Recorrendo às
palavras, podemos expressar as emoções sem ter como único recurso a explosão
corporal, na forma de gritos e agitação motora, sendo estes, recursos mais
primários.
Contudo, algumas crianças continuam a manifestar-se mais
explosivas, agredindo colegas, adultos, ou partindo coisas. São crianças ditas
impulsivas que, face à mínima contrariedade, se enfurecem violentamente. Por
vezes, esta atitude é selectiva, acontecendo apenas com uma determinada pessoa,
geralmente com adultos incapazes de acolher, conter e dar significado à zanga,
tudo isto, de forma madura e adequada. Não se responde a uma birra com outra
birra. Por outro lado, este tipo de zanga que mora à flor da pele, geralmente
remete para duas situações opostas: ou frustração a mais, ou frustração a
menos. Ou seja, ou há muita falta de afecto e disponibilidade para a criança
ou, por vezes, demasiada permissividade, reforçando a omnipotência típica das
crianças pela incapacidade de se lhes colocar os "tão falados"
limites (pouca assertividade e dificuldade em dizer não) ‒ muitas vezes
já por receio de uma reacção “complicada”. É importante a existência de uma
figura de autoridade. Tradicionalmente, este papel é desempenhado pelo pai
que, simbolicamente, representa a “lei” mas, muitas vezes, pode ser a mãe capaz
de desempenhar igualmente bem a função. Ou seja, na estruturação psicológica
das crianças, terá que haver pelo menos uma figura parental que introduza e
represente as normas (com algum acordo da outra figura parental), bem como a
gradual aceitação das frustrações e contrariedades inerentes ao
viver. Percebe-se que este comportamento também se encontra com frequência
em famílias onde o entendimento entre os pais (ou figuras cuidadoras) é frágil
ou artificial.
Em escalada e não percebida, esta zanga permanente ou "também
chamada" intolerância à frustração (seja por falta ou excesso dela)
adquire, em algumas crianças, proporções inquietantes, culminando por vezes em
comportamentos de risco na chegada à adolescência: destruição de objectos,
ameaças permanentes, fugas de casa, etc.
É de realçar que do outro lado da moeda há a problemática da
inibição grave da agressividade. Quando encontramos uma criança que evita por
completo qualquer situação de carácter agressivo, não protestando e nunca se
enfurecendo, é momento de questionar. Crianças vulgarmente submissas e aparentemente
muito ajuizadas estarão provavelmente a reprimir as suas emoções mais
agressivas, o que não é facilitador de um desenvolvimento saudável e
equilibrado. Desde a leve inibição à total incapacidade em defender-se, o
“lugar da vítima” começa a definir-se cedo, podendo evoluir para modalidades de
funcionamento relacional em que aceitar tudo o que acontece sem nunca se
zangar, reclamar ou reivindicar, se torna um padrão de relação com os outros,
originando sofrimento psicológico.
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sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Manifesto
No
exercício da parentalidade, todos os dias se encontram histórias de papéis
invertidos, trocados ou confundidos entre pais e filhos. São histórias de
fronteiras mal definidas entre os lugares de cada um e que boicotam infâncias, embora
sem intenção. Nem sempre o equilíbrio familiar é conseguido e a confusão
inicia-se, cresce e invade as crianças, surgindo as dificuldades de
autonomização e bom desenvolvimento.
Um
dos sintomas deste caos familiar é a incapacidade de alguns adultos/pais de se
separarem dos seus próprios filhos e a inexistência de fronteiras claras (banhos
comuns, camas comuns, falta de privacidade ou intimidade). A obrigatoriedade de
partilhar tudo em família, sejam segredos, interesses ou ideologias, amputa a
individualidade fundamental de qualquer criança/adolescente. Outro sintoma do
caos é quando os pais carregam os seus filhos com confidências e desabafos
permanentes, procurando um “colo” para as suas angústias naqueles que deviam
estar a recebê-lo. Outro sintoma, ainda, quando pais pretendem ser os “melhores
amigos” dos seus filhos em vez de serem apenas aquilo que lhes compete e lhes é
pedido, serem pais. Se certas crianças pudessem comunicar sobre aquilo que as
rodeia, redigiriam um manuscrito que seria seguramente parecido com isto:
“Pais
e Crescidos:
Na
descoberta de nós próprios muitas vezes somos confundidos. A individualização é
um caminho básico para o bom desenvolvimento: 1) Não queremos partilhar todos
os nossos segredos convosco como se fossem os nossos melhores amigos e não
queremos igualmente saber dos vossos segredos, fardos ou intimidades. Pai é
pai, mãe é mãe, amigo é amigo e “cada macaco no seu galho”; 2) Não nos usem
para preencher vazios conjugais. Não podemos nem queremos preencher o lugar do pai
ou da mãe e não se iludam pensando que não damos conta; 3) Não nos usem para
repetir “abandonos” a que foram sujeitos e não nos usem para descarregar as
vossas zangas, frustrações e ansiedades; 4) Se não são suficientemente capazes
de tomar conta de vós próprios não deviam tomar conta de mais ninguém, não
conseguimos dar-vos o colo que os vossos pais não vos deram nem salvar-vos dos
vossos abismos; 5) Precisamos muito de vocês e não podem ser vocês a precisar
muito de nós. NOTA: Em boa verdade quando estamos todos misturados dá-nos a
ilusão de protecção eterna e até gostaríamos de dormir para sempre no vosso
quentinho mas sabemos que nem sempre os nossos desejos são adequados, porque somos
pequeninos e, por isso, os bons pais ajudam-nos a separar devagarinho a fantasia
da realidade. Não queremos com isto dizer que não façam o melhor que podem ou
que sabem. Mas como diz o ditado, de boas intenções está o Inferno cheio.
Obrigado,
As
Vossas Crianças.”
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Sensibilidade e bom senso
Educar é uma arte que exige bom senso e muito amor. Quando educamos uma criança, estamos não só a ensinar-lhe as regras básicas de funcionamento em sociedade, mas também a vincar-lhe o carácter e a moldar o seu desenvolvimento, cognitivo, social e afectivo. Na área da Psicologia da Família, fala-se comummente em estilos parentais educativos. Baumrind (1971) propôs uma categorização em três estilos que, embora seja uma generalização, abrange os padrões mais comuns de exercer a parentalidade: estilo autoritário, estilo permissivo (indulgente ou negligente) e estilo autoritativo.
O estilo autoritário implica um controlo rígido das atitudes da criança (associado ao uso de medidas punitivas verbais ou físicas), sem negociação, numa atmosfera de pouco envolvimento emocional. Exige-se obediência absoluta, no entanto, o apoio e suporte emocional fornecido é habitualmente fraco.
O estilo permissivo, na versão indulgente, caracteriza-se pela ausência de normas, apesar de o ambiente familiar ser geralmente muito rico em afectos. Os desejos dos filhos assumem um papel central na família. Há, portanto, um baixo nível de controlo e são feitas poucas exigências aos filhos, nomeadamente a nível da obediência, da responsabilidade e da maturidade. Na versão negligente verificamos a mesma ausência de limites e estruturação mas, neste caso, aliada a um desinteresse e demissão das funções parentais. São, no fundo, pais ausentes em todos os sentidos.
O estilo autoritativo (ou estilo participativo) é exercido com partes aproximadamente iguais de controlo e apoio familiar, impondo regras mas estimulando simultaneamente a independência dos filhos, através de um nível médio e adaptativo de exigências ao nível da responsabilidade e crescimento. Quando a circunstância o permite, há negociações e comunicação familiar, contudo, noutros contextos, verifica-se uma maior rigidez e assertividade, devendo assentar este equilíbrio na especificidade de cada criança no que respeita à sua idade, maturidade e motivações.
A investigação tem demonstrado que, de uma forma geral, o estilo parental autoritário conduz a um desenvolvimento com base na obediência e responsabilidade, produzindo, contudo, maiores níveis de ansiedade, insegurança e sentimentos de infelicidade, bem como uma baixa auto-estima e um índice elevado de depressão. Por outro lado, o estilo permissivo está habitualmente associado a problemas de comportamento, devido à falta de estruturação, sendo o impacto ainda maior nos casos de negligência, tendo em conta o défice nos afectos. Os estudos apontam, assim, para que seja o estilo autoritativo que conduz a um maior sucesso ao nível do desenvolvimento emocional, escolar e social.
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