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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Boyhood


― So what's the point?
― Of what?
― I don't know, any of this. Everything.
― Everything? What's the point? I mean, I sure as shit don't know. Neither does anybody else, okay? We're all just winging it, you know? The good news is you're feeling stuff. And you've got to hold on to that.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Nem tanto ao mar nem tanto à terra



Ainda hoje muitos estudiosos se questionam acerca da origem da agressividade: será inata (um instinto ou pulsão) ou adquirida (por frustração ou trauma)? Por outras palavras, será genética e constitucional ou será resultado de experiências muito precoces? O que é inquestionável é que a incidência da agressividade nos seres humanos varia amplamente de indivíduo para indivíduo.
Sabemos desde muito cedo demonstrar o nosso desagrado. Pedir e reclamar são acções que exigem um “mínimo” de agressividade. A criança pode demonstrar assim algumas reacções de raiva quando não obtém o que pretende (gritos, choro, agitação, morder) pois a raiva é o afecto básico subjacente à agressividade. Estas reacções directamente agressivas vão normalmente cessando à medida que a criança é capaz de se exprimir pela linguagem. Recorrendo às palavras, podemos expressar as emoções sem ter como único recurso a explosão corporal, na forma de gritos e agitação motora, sendo estes, recursos mais primários.
Contudo, algumas crianças continuam a manifestar-se mais explosivas, agredindo colegas, adultos, ou partindo coisas. São crianças ditas impulsivas que, face à mínima contrariedade, se enfurecem violentamente. Por vezes, esta atitude é selectiva, acontecendo apenas com uma determinada pessoa, geralmente com adultos incapazes de acolher, conter e dar significado à zanga, tudo isto, de forma madura e adequada. Não se responde a uma birra com outra birra. Por outro lado, este tipo de zanga que mora à flor da pele, geralmente remete para duas situações opostas: ou frustração a mais, ou frustração a menos. Ou seja, ou há muita falta de afecto e disponibilidade para a criança ou, por vezes, demasiada permissividade, reforçando a omnipotência típica das crianças pela incapacidade de se lhes colocar os "tão falados" limites (pouca assertividade e dificuldade em dizer não)  muitas vezes já por receio de uma reacção “complicada”. É importante a existência de uma figura de autoridade. Tradicionalmente, este papel é desempenhado pelo pai que, simbolicamente, representa a “lei” mas, muitas vezes, pode ser a mãe capaz de desempenhar igualmente bem a função. Ou seja, na estruturação psicológica das crianças, terá que haver pelo menos uma figura parental que introduza e represente as normas (com algum acordo da outra figura parental), bem como a gradual aceitação das frustrações e contrariedades inerentes ao viver. Percebe-se que este comportamento também se encontra com frequência em famílias onde o entendimento entre os pais (ou figuras cuidadoras) é frágil ou artificial.
Em escalada e não percebida, esta zanga permanente ou "também chamada" intolerância à frustração (seja por falta ou excesso dela) adquire, em algumas crianças, proporções inquietantes, culminando por vezes em comportamentos de risco na chegada à adolescência: destruição de objectos, ameaças permanentes, fugas de casa, etc.

É de realçar que do outro lado da moeda há a problemática da inibição grave da agressividade. Quando encontramos uma criança que evita por completo qualquer situação de carácter agressivo, não protestando e nunca se enfurecendo, é momento de questionar. Crianças vulgarmente submissas e aparentemente muito ajuizadas estarão provavelmente a reprimir as suas emoções mais agressivas, o que não é facilitador de um desenvolvimento saudável e equilibrado. Desde a leve inibição à total incapacidade em defender-se, o “lugar da vítima” começa a definir-se cedo, podendo evoluir para modalidades de funcionamento relacional em que aceitar tudo o que acontece sem nunca se zangar, reclamar ou reivindicar, se torna um padrão de relação com os outros, originando sofrimento psicológico.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Manifesto


No exercício da parentalidade, todos os dias se encontram histórias de papéis invertidos, trocados ou confundidos entre pais e filhos. São histórias de fronteiras mal definidas entre os lugares de cada um e que boicotam infâncias, embora sem intenção. Nem sempre o equilíbrio familiar é conseguido e a confusão inicia-se, cresce e invade as crianças, surgindo as dificuldades de autonomização e bom desenvolvimento.
Um dos sintomas deste caos familiar é a incapacidade de alguns adultos/pais de se separarem dos seus próprios filhos e a inexistência de fronteiras claras (banhos comuns, camas comuns, falta de privacidade ou intimidade). A obrigatoriedade de partilhar tudo em família, sejam segredos, interesses ou ideologias, amputa a individualidade fundamental de qualquer criança/adolescente. Outro sintoma do caos é quando os pais carregam os seus filhos com confidências e desabafos permanentes, procurando um “colo” para as suas angústias naqueles que deviam estar a recebê-lo. Outro sintoma, ainda, quando pais pretendem ser os “melhores amigos” dos seus filhos em vez de serem apenas aquilo que lhes compete e lhes é pedido, serem pais. Se certas crianças pudessem comunicar sobre aquilo que as rodeia, redigiriam um manuscrito que seria seguramente parecido com isto:

“Pais e Crescidos:

Na descoberta de nós próprios muitas vezes somos confundidos. A individualização é um caminho básico para o bom desenvolvimento: 1) Não queremos partilhar todos os nossos segredos convosco como se fossem os nossos melhores amigos e não queremos igualmente saber dos vossos segredos, fardos ou intimidades. Pai é pai, mãe é mãe, amigo é amigo e “cada macaco no seu galho”; 2) Não nos usem para preencher vazios conjugais. Não podemos nem queremos preencher o lugar do pai ou da mãe e não se iludam pensando que não damos conta; 3) Não nos usem para repetir “abandonos” a que foram sujeitos e não nos usem para descarregar as vossas zangas, frustrações e ansiedades; 4) Se não são suficientemente capazes de tomar conta de vós próprios não deviam tomar conta de mais ninguém, não conseguimos dar-vos o colo que os vossos pais não vos deram nem salvar-vos dos vossos abismos; 5) Precisamos muito de vocês e não podem ser vocês a precisar muito de nós. NOTA: Em boa verdade quando estamos todos misturados dá-nos a ilusão de protecção eterna e até gostaríamos de dormir para sempre no vosso quentinho mas sabemos que nem sempre os nossos desejos são adequados, porque somos pequeninos e, por isso, os bons pais ajudam-nos a separar devagarinho a fantasia da realidade. Não queremos com isto dizer que não façam o melhor que podem ou que sabem. Mas como diz o ditado, de boas intenções está o Inferno cheio.

Obrigado,


As Vossas Crianças.” 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sensibilidade e bom senso


Educar é uma arte que exige bom senso e muito amor. Quando educamos uma criança, estamos não só a ensinar-lhe as regras básicas de funcionamento em sociedade, mas também a vincar-lhe o carácter e a moldar o seu desenvolvimento, cognitivo, social e afectivo. Na área da Psicologia da Família, fala-se comummente em estilos parentais educativos. Baumrind (1971) propôs uma categorização em três estilos que, embora seja uma generalização, abrange os padrões mais comuns de exercer a parentalidade: estilo autoritário, estilo permissivo (indulgente ou negligente) e estilo autoritativo.
O estilo autoritário implica um controlo rígido das atitudes da criança (associado ao uso de medidas punitivas verbais ou físicas), sem negociação, numa atmosfera de pouco envolvimento emocional. Exige-se obediência absoluta, no entanto, o apoio e suporte emocional fornecido é habitualmente fraco.
O estilo permissivo, na versão indulgente, caracteriza-se pela ausência de normas, apesar de o ambiente familiar ser geralmente muito rico em afectos. Os desejos dos filhos assumem um papel central na família. Há, portanto, um baixo nível de controlo e são feitas poucas exigências aos filhos, nomeadamente a nível da obediência, da responsabilidade e da maturidade. Na versão negligente verificamos a mesma ausência de limites e estruturação mas, neste caso, aliada a um desinteresse e demissão das funções parentais. São, no fundo, pais ausentes em todos os sentidos.
O estilo autoritativo (ou estilo participativo) é exercido com partes aproximadamente iguais de controlo e apoio familiar, impondo regras mas estimulando simultaneamente a independência dos filhos, através de um nível médio e adaptativo de exigências ao nível da responsabilidade e crescimento. Quando a circunstância o permite, há negociações e comunicação familiar, contudo, noutros contextos, verifica-se uma maior rigidez e assertividade, devendo assentar este equilíbrio na especificidade de cada criança no que respeita à sua idade, maturidade e motivações.
A investigação tem demonstrado que, de uma forma geral, o estilo parental autoritário conduz a um desenvolvimento com base na obediência e responsabilidade, produzindo, contudo, maiores níveis de ansiedade, insegurança e sentimentos de infelicidade, bem como uma baixa auto-estima e um índice elevado de depressão. Por outro lado, o estilo permissivo está habitualmente associado a problemas de comportamento, devido à falta de estruturação, sendo o impacto ainda maior nos casos de negligência, tendo em conta o défice nos afectos. Os estudos apontam, assim, para que seja o estilo autoritativo que conduz a um maior sucesso ao nível do desenvolvimento emocional, escolar e social.