Nem tudo é
pensamento. Nem tudo é imediatamente analisável e prontamente dotado de um
significado e de um sentido. Há coisas que acontecem aquém (ou além?) do
pensamento. Sonhamos e pensamos o mundo também com nossas emoções, na fina malha
que liga as representações simbólicas. São emoções que, grávidas de
significado, procuram trazê-lo à luz para que possam ter um sentido. À arte de
sonhar essas emoções com o outro, podemos chamar rêverie. Um termo cunhado por
Bion, em 1971. É o que se espera que as mães façam com os seus bebés, muito
antes do verbo; é também o que se espera que os psicanalistas possam fazer com
os seus analisandos — é o que
acontece numa relação a dois onde se pode sonhar acordado em conjunto. É a
capacidade de estar em ressonância com aquilo que o outro projecta dentro de
nós. Para isso é preciso poder viajar e perder-se, livre curso, sem medo do que
não se entende. Perder-se entre devaneios, fantasias, sensações corporais,
percepções fugazes, imagens, dormências, melodias e tudo o que mais atravesse a
nossa mente, ainda que temporariamente sem um sentido. A rêverie é uma bússola,
em que o norte é dado pela intuição. É tão importante poder flutuar com o outro,
ainda que aparentemente à deriva, enquanto esperamos que, naturalmente, esse
sonho a dois ganhe um sentido.
Sim, nem tudo é pensamento. Debussy também acreditava que música era o espaço
entre as notas.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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quinta-feira, 26 de março de 2015
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