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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Matemática dos Beijos


— Um, dois, três, duzentos e cinquenta e sete, cinco mil setecentos e quarenta e nove: quantos beijos cabem na vida?
— Talvez quarenta milhões? (sorriso) Não sei. Curtos ou longos? Tudo depende da duração. Num dia cabem mil quatrocentos e quarenta beijos de um minuto ou um beijo de mil quatrocentos e quarenta minutos. Tu é que escolhes.
— Tens razão. Isso da duração importa. Fizeste-me lembrar também daqueles beijos que ficam connosco já depois de se irem, sabes? E às vezes até se cruzam com outros que hão-de vir: "Olá, ainda por aqui?".
— É, há beijos que se demoram e acho até que alguns nunca acabam. Mas a memória de um beijo vale por um beijo, não?
— Olha que não sei. Cada beijo lembrado pode contar como um novo beijo. Podemos escolher também aqui.
— Hum. E incluindo beijos de que tipo?
— De todos. Dos beijos dados, dos beijos roubados, dos beijos perdidos e dos achados. Dos beijos que procuram e dos beijos que encontram. Dos que fracturam e dos que reparam. Dos que rompem e dos que ligam. Dos beijos que acordam, dos que adormecem. Dos que se encontram à esquina e dos que chocam de frente. Dos de passarinho e dos de corpo inteiro. Dos enternecidos e dos apaixonados. Dos que nos esclarecem e dos que nos confundem. Dos que quase enlouquecem, no bom sentido. Beijo é sempre no bom sentido. Dos beijos que acalmam e dos que assustam. Dos que respiram e dos que sufocam. Dos beijos que nos dissolvem, sabes? Dos beijos-buracos-negros que acabam com a gravidade e nos sugam em espiral para lá do tempo e do espaço. Dos beijos que desaparecem. E dos que nos perseguem. Perseguem. Perseguem. Perseguem.
— Mas queres fazer contas ou escrever um poema?
— Pois se calhar a matemática não se aplica a isto. Teríamos ainda a questão dos beijos sonhados.
— Também querias ir por aí?!
— Claro. Quero ir por todos os lados.
— (sorriso)
— ah! E o beijo dos beijos. Teríamos que contar com o beijo dos beijos.
— Qual?
— Tu sabes. É aquele que não se pode lembrar...
— O que há-de vir?
— Pois. Também não custaria nada. É só somar um no fim.
— (sorriso) Qual fim? Contigo será impossível contabilizar beijos.
— Se calhar. Que se lixem as contas. O que importa é que é sempre a somar. E para que não haja desperdícios lembra-te disto que é importante: um beijo que não se dá é um beijo que não se deu.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

D'Os Passos em Volta

Series Seven Chair by Arne Jacobsen
“- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, Às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-lo a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui a um médico.
– Doutor, estou louco – disse. – Devo estar louco.
– Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?
– Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
– Não preciso de remédios – disse eu. – Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me serve barbitúricos?
A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura… Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este.(…)”

Herberto Helder, Os Passos em Volta (Assírio e Alvim), pp. 9-11

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Higiene Mental Familiar


Num momento em que a prioridade é segurar o mais possível a capacidade económica da estrutura familiar há frequentemente uma diminuição acentuada da disponibilidade dos pais para os seus filhos, por falta de tempo e/ou falta de paciência. Mas apesar das dificuldades serem reais, desde o início dos tempos que com menores ou maiores dificuldades sempre houve famílias mestras em pôr o afecto 'na mesa' em qualquer circunstância, pelo que a 'crise' nem sempre é desculpa. Assim, não custa lembrar que ser pai e ser mãe é profissão a tempo inteiro e que cabe aos pais unir a família (o investimento é, primeiro, de pais para filhos), desenvolvendo os esforços necessários para que os filhos usufruam a boa companhia dos pais e os pais da companhia dos filhos. 
Porque “perdemos” tanto tempo a falar e a pensar nas famílias e nas crianças? Não é só porque as crianças de hoje são as mais protegidas de todos os tempos. É também porque hoje sabemos que pensar nas crianças é pensar na evolução da humanidade e no que está para vir. Toda a saúde mental passa em primeiro lugar pela saúde mental infantil. E no que respeita às nossas crianças, esta higiene mental pratica-se em casa e na escola. Sempre tendo em conta que, sem as condições emocionais minimamente satisfeitas (o que varia de caso para caso), não há possibilidade de uma boa integração e aprendizagem na escola. Os preconceitos ditam, ainda, que muitos educadores (não todos!) pensem que as dificuldades da criança na escola assentam em uma de duas hipóteses: incapacidade intelectual ou preguiça do aluno. E num mundo cada vez mais competitivo é tentador cair na ilusão de uma educação para o sucesso em detrimento de uma educação para os afectos.
Que se perceba que só uma árvore bem nutrida e enraizada em solo fértil dá os melhores frutos. Uma alfabetização emocional antecede obrigatoriamente o percurso académico. Para que as crianças integrem a leitura é necessário que tenham tido a possibilidade de aprender a relacionar-se com o mundo, ligando percepções, pensamentos e afectos, antes de aprender a ligar as letras. Ler à nossa volta. Para aprenderem a fazer contas é preciso que possam “subtrair” e “dividir” sem medo de ficarem sem nada ao sentirem que já têm pouco. Afecto, atenção, disponibilidade.

Quando os momentos em família se resumem a uma correria para o banho, trabalhos e jantar, um dia após o outro, sobra pouco tempo para os laços familiares. O lazer em família deve ser encarado com o mesmo respeito que qualquer outra tarefa do quotidiano. Porque um passeio, um jogo de futebol, um desenho, andar de bicicleta ou um mero ataque de cócegas de vez em quando dão força e entusiasmo às crianças para crescer afectivamente mais estruturadas e esse é o único caminho para que mais tarde possam enfrentar os obstáculos com a barriga cheia de amor, coragem e confiança. As crianças precisam sentir que são importantes na vida dos seus pais. O alimento para a alma é tão importante que todas as crianças prefeririam passar mais tempo com os seus pais em detrimento de outros bens materiais. Uma família unida por laços de afecto e pelo prazer em estar na companhia uns dos outros será a força motriz para enfrentar tudo o que está para vir.