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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A dor que me deixaste


Há dores que os outros depositam em nós por não terem capacidade para tomar conta delas. Podemos guardá-las durante algum tempo, podemos tentar transformá-las em algo bom, mas nem sempre é possível. E quando assim é, quando o outro apenas tem para nos dar a sua dor e nada mais, quando o nosso único lugar é não ter lugar, chega a hora de partir. 

― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pedrinha (Da Solidão)



A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.


José Saramago

sábado, 19 de abril de 2014

Super-Vidas


Na prática clínica somos, cada vez mais, confrontados com queixas que remetem para um sentimento de vazio interior. Como se a pessoa não se sentisse completa, preenchida ou satisfeita. Como se procurasse algo que não encontra, repetidamente. Em simultâneo, é mencionada a solidão. Estas questões remetem fundamentalmente para uma fragilidade narcísica (falta de amor pelo meu Eu) e para falhas nos processos de construção da identidade e de autonomização (constituição de um Eu maduro e que não precise em absoluto do outro). Como é do conhecimento geral, as questões da estruturação da nossa identidade e autonomia estão intimamente relacionadas com as nossas relações precoces e ambiente familiar do sujeito.
Contudo, não deixa de ser interessante perceber que o seu maior aparecimento coincide com uma época em que a cultura vigente deixa mais a nu a insatisfação das pessoas consigo próprias. O indivíduo, na sociedade actual, tem sido convocado para a busca do perfeito: corpo/imagem, status, carreira profissional, eficiência, estilo de vida. Vivendo sempre em comparação com o outro, discutindo lugares nos mais diversos rankings (o mais bonito, o mais bem-sucedido, o mais rico, o mais inteligente), como podemos escapar dessa solicitação?
Percebemos que, tal como diz Carlo Strenger no livro O Medo da Insignificância: “o mito do just do it conduziu a um incrível aumento do reino da fantasia. Procurar menos do que tudo é procurar a mediocridade. Pouco ou nada se diz sobre o processo doloroso de descobrir quem realmente somos e quais as nossas reais capacidades e limitações. Pelo contrário, a ideia que vende é: não há limites.”
A verdade é que há limites (os da realidade interna e externa) e é bom que recuperemos essa consciência. Há limites para o meu Eu (não posso ser perfeito em tudo), para as minhas capacidades (não posso fazer tudo), para os meus talentos (não sei fazer tudo), para os meus valores (não aceito tudo). Vivemos tempos em que se incentiva a diferença mas na verdade, ao querermos todos ser especiais em tudo, tornamo-nos iguais. Já não basta ter uma vida, é preciso ter uma “super-vida”.
Aqueles que, de nós, vão encontrando dentro de si recursos para manterem o bem-estar perante a competitividade e agressividade do marketing pessoal, estão sossegados. Mas muitos, com grandes dúvidas sobre o seu valor enquanto pessoa, geralmente apresentam sintomas de enorme insegurança. O caminho passa por olhar mais para dentro e menos para fora. E quando encontrarmos os nossos vazios, procuremos preenchê-los com um pouco mais de Eu e um pouco menos dos Outros.