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terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Homem na Arena

Arena de Pula, Croácia
"Não é o crítico que importa; nem aquele que aponta onde foi que o homem tropeçou ou como poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está na arena, cujo rosto está manchado de pó e suor e sangue; que luta com bravura; que erra, que desaponta uma e outra vez, porque não há esforço sem erros e decepções; mas que, na verdade, se empenha nos seus feitos; que conhece grandes entusiasmos, as maiores paixões; que se entrega a uma causa digna; que, no melhor dos casos, conhece por fim o triunfo da grande conquista e, no pior, se fracassar, fracassa ousando grandemente (...)"

— Theodore Roosevelt

terça-feira, 23 de junho de 2015

Conformismo, Acomodações e Outras Histórias

I)
“Conformei-me”, disse-me.
Quando o conheci, parecia condenado. No rosto, a ausência de esperança, na alma, a incapacidade de se afirmar senhor do seu destino. Como mente bem, o Homem. Como se engana a si mesmo. Como se defende e se justifica perante si próprio, como se ilude e finta o julgamento que faz de si todas as noites. Como tenta não se olhar de frente no espelho quando receia reconhecer ali os seus medos e incapacidades. Como quer esconder da sua alma que não foi capaz de lutar por ela. Dói, o remorso. Dói, a impotência. Dói, o medo. Mas, no íntimo mais íntimo de nós, sabemos.
Conformaste-te ou tens medo?
Tenho medo. Eu tentei mas era sempre tão difícil. Fui desistindo. Eu sonhava mas deixei de sonhar. Conformei-me.
O medo fez com que te conformasses e por te conformares abriste caminho ao medo. O medo come tudo. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.
Por cada momento em que nos falha a possibilidade de “ser” ou a coragem de “continuar a ser” matamos um pedaço de nós. Ficamos mais frágeis e mais perdidos a cada “derrota” percebida. E a cada batalha que recuamos, sabemos menos quem somos.

II)
“Não sei porque me acomodei, disse-me.
A história repete-se. Quando a conheci era uma mulher, sobretudo, confusa. Não tinha ainda consciência de que tinha deixado, há demasiado tempo, de ser feliz.
Tu sentias mas acho que só agora consegues pensar sobre isso.
Sim, eu já sabia. Eu sentia-me só mas não quis ver. E isso deixa-me zangada. Comigo.
Por cada pensamento reprimido, por cada discussão adiada, por cada zanga amordaçada, por cada grito silenciado, é um pedaço de ti que matas. Foi precisamente isso que te enfraqueceu. A incapacidade de “continuar a ser”.

III) 
Duas vidas. Várias vidas. O mesmo dia. O mesmo medo. O medo de se permitir ser pessoa inteira. Como se faz? Por onde se vai? Então lembro-me do Alexandre O’Neill, que sabia destas coisas do medo, companheiro da condição humana, e contava, em parte, assim:

(…)
Ah o medo vai ter tudo  
tudo 
(Penso no que o medo vai ter  
e tenho medo  
que é justamente  
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo  
quase tudo  
e cada um por seu caminho  
havemos todos de chegar  
quase todos  
a ratos (…)

IV) Ou não.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pessoas


Toda a prática de yoga remete para o equilíbrio, i.e., para a harmonização de forças opostas. E assim sendo, oscila entre movimentos de avanço e retrocesso, actos de coragem e rendição, momentos de segurar e largar, trabalho de transição e permanência, consciência de força e ligeireza, sensações de prazer e dor. Nessa oscilação no tapete, perfeita metáfora da vida, buscamos o centro de todas as coisas. Principalmente o nosso corpo e mente. Esse lugar de conforto onde nos encontramos connosco. Onde respiramos sem dificuldade e onde nada dói. Onde sentimos paz. Só que não podemos ficar muito tempo aí porque a oscilação é o estado natural do mundo e porque o crescimento e expansão se faz pelo desconforto, pelo risco, pelo negativo. E saímos do centro. Essa dinâmica é a condição mais básica do desenvolvimento: onde há paragem, não há vida. Nesse processo, há momentos de força extraordinária. Saímos do centro, atiramo-nos de cabeça e somos capazes de fazer qualquer coisa. Na força descobrimo-nos, ultrapassamo-nos. Encontramos mundos e talentos desconhecidos, potencialidades e possibilidades. E de cada vez que assim é, mudamos o nosso rumo, transformamo-nos a cada novo encontro. Depois, há os desafios que não superamos. Repetimos, ruminamos, ficamos ali. E aí, o contrabalanço dos momentos de humildade e vulnerabilidade profunda que remetem para a nossa absoluta impotência perante os caminhos de evolução das coisas. E aí, rendemo-nos. Rendemo-nos perante os paradoxos. Perante a constatação de que somos tudo e ao mesmo tempo não somos nada. Estendemos os braços e encostamos a testa ao chão e que seja o que for quando tiver que ser. Quem somos nós afinal? E na rendição também nos descobrimos e ultrapassamos. Quando nos rendemos, todo o peso desaparece e é sublime porque somos, subitamente, leves, muito leves. Assim leves, um pequeno sopro pode levar-nos para onde calhar e poderemos descobrir coisas que ainda não conhecíamos nem esperávamos. Quando nos rendemos, entregamo-nos nos braços de algo seguramente maior que nós, que somos tão pequenos para compreender toda a dimensão da vida. E aqui vamos existindo, oscilando entre rendições e actos de coragem, porque a leveza do ser é insustentável por muito tempo mas a coragem sistemática é para guerreiros sobre-humanos. E nós somos e seremos, sempre, simplesmente pessoas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Give Me Truth


Verdades esperam-nos, serenamente, ao longo do caminho. Não têm a nossa urgência e por isso deixam-se estar, sabendo que tudo tem um tempo mesmo que esse tempo nos pareça fora de tempo. O nosso tempo é diferente do tempo do Universo. Não se sabe muito bem porquê mas é, quase sempre, assim. Pois que seja. Que tarde, mas que chegue, essa coisa da verdade. Outras vezes ela já se tinha mostrado, em sinais de fumo à beira da estrada, mas nós, distraidamente ou propositadamente, não vemos. Mas aí o problema da verdade já não é o tempo que ela demora mas sim a nossa incapacidade de olhar de frente para ela. Pois que seja. Que se olhe tarde, mas que se olhe, por fim, para essa coisa da verdade. Como dizia Thoreau: "rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth". Pois tudo o resto, quando não assenta em verdade, não tem validade.

― Fotografia de Finn Beales, in Mývatn, Islândia

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Pedir Desculpa: Fácil, Difícil ou Impossível?


Pedir desculpa nem sempre é fácil. É que este acto acarreta ramificações psicológicas que vão além da palavra em si. Embora possamos justificar a relutância em pedir desculpa com orgulho, por norma há uma dinâmica psicológica muito mais profunda e complexa.
Ao contrário do que parece, recusarmo-nos a pedir desculpa não reflecte uma “personalidade forte” mas sim, pelo contrário, um esforço para nos protegermos das nossas fragilidades e de angústias fundamentais (conscientes ou inconscientes). Comecemos:
  1. Admitir que se fez algo errado pode ser sentido como ameaçador quando se confunde acção e carácter: como se aquilo que fazemos definisse totalmente quem somos. Por exemplo, confundir um erro ou uma negligência com estupidez ou ignorância. Nestas circunstâncias, quando se pensa desta forma, as desculpas representam naturalmente uma grande ameaça para o nosso sentido básico de identidade e auto-estima.
  2. Pedir desculpa pode abrir as portas ao sentimento de culpa ou ao sentimento de vergonha. E enquanto a culpa faz-nos sentir mal relativamente às nossas acções, a vergonha faz-nos sentir mal em relação à nossa pessoa, o que faz dela uma emoção muito mais tóxica que a culpa. Mais uma vez, encontramos aqui uma confusão entre acção e carácter.
  3. Embora o pedido de desculpa seja uma oportunidade de resolver um conflito, quem não consegue fazê-lo normalmente receia o inverso: que abra um precedente para outras acusações e mais conflitos. E embora haja pessoas que efectivamente não aceitam o pedido de desculpa como reparação, as pessoas mais saudáveis não utilizam um momento de sinceridade e humildade para humilhar ou enxovalhar o outro, pois aí o problema já não é de quem pede desculpa, mas sim de quem não sabe aceitá-las.
  4. A dificuldade de pedir desculpa esconde ainda o receio que fazê-lo signifique assumir a responsabilidade total do assunto e libertar a outra parte do seu quinhão de responsabilidade. Aqui, há uma confusão entre as partes e o todo. Uma história tem sempre dois lados e cada um deve olhar para o seu.
  5. A recusa em pedir desculpa é, ainda, uma forma de manter as emoções sob controlo. Há o receio que, ao “baixar a guarda”, as defesas psicológicas se desmoronem e abram as portas a uma cascata de sentimentos desconfortáveis. Mas a verdade é que, quanto mais nos abrimos perante o outro, quanto mais honestos e autênticos formos, mais saudáveis nos tornamos, e mais saudáveis as relações em nosso redor. Viver de espada em riste é um tremendo cansaço e uma ardilosa armadilha.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Elefante Acorrentado


"Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas. No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani­mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente. 
O que é que o prende, então? Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
— Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta. Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele. Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino. Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer. Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer. E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação. Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força."

Jorge Bucay in “Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver”