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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

As Fronteiras da Intimidade


Fala-se muito da importância de colocar limites às crianças. Esta expressão ficou bastante associada à imposição de regras, deixando na penumbra outro tipo de limites, tão ou mais importantes: a intimidade e a privacidade de cada um. A intimidade e a privacidade são dois conceitos importantíssimos à estruturação psíquica do sujeito, duas fronteiras básicas da individualidade do ser humano.  
Dentro da mesma casa, ou seja, partilhando espaços físicos, há tendência a confundir o espaço de cada um. Por vezes, os adultos não sabem como é importante ter alguns cuidados, invadindo o espaço das crianças, outras vezes, permitindo em excesso que a criança invada o seu espaço. Se as crianças pudessem defender-se, diriam então: “Pressinto que há coisas minhas que não te dizem respeito e que há coisas tuas que não quero saber; que há momentos e lugares meus onde não podes entrar e momentos e lugares teus que não quero presenciar. Eu ainda não sei muito bem o quê mas tu, que és crescido, ajudas-me com esta tarefa?”
O filtro tem de ser, em primeiro lugar, uma competência dos adultos. É importante respeitar a intimidade da criança, ensinando-a, aos poucos, a reservar (e preservar) tudo aquilo que é seu. Como se ensina isto? Pelo exemplo, como tudo o resto. Se uma criança está na casa de banho, não há que irromper pelo espaço sem pedir licença. Criança ou não criança, o respeito é o mesmo. E antes de entrar no quarto, não custa nada bater à porta e perguntar: “Posso?” É que, por vezes, os adultos têm tanta necessidade de controlar as crianças que as desrespeitam profundamente. Quantos pais já terão lido o diário das suas meninas? Quantos pais já terão espiolhado os telemóveis dos seus filhos? Quantos pais já terão desejado ser confidentes absolutos dos filhos? Não havendo qualquer indício de problemas, para quê e porquê fazê-lo?

Também os pais devem reservar para si aquilo que é seu. Mas quando confrontados, muitos adultos respondem: “Eu também não me importo que o meu filho entre no meu quarto sem bater, nem que queira saber de tudo da minha vida. Não tenho nada a esconder.” Tudo bem. Mas não acham isso estranho? Não se trata de esconder, mas de valorizar o que é meu e poder distingui-lo do que é do outro. De perceber que estas confusões em nada medem o amor e os afectos, apenas revelam tentativas de controlar angústias que ora são dos adultos, ora das crianças, e que é preciso contê-las de outra forma. Que saibamos que amar o outro é respeitar a sua individualidade, permitir-lhe uma existência diferenciada. Para isso, lutamos contra os nossos medos, se preciso. Pelo direito a não se deixar invadir e respectivo dever de não invadir também.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

No fim vai tudo dar ao mesmo


"Eu penso assim. Eu penso assim. Mas quero perceber o que tu pensas. Eu sinto assim. Mas quero ouvir o que tu sentes. E tu, queres saber o que eu penso? Queres saber o que eu sinto?" É que uma das poucas certezas que podemos ter é que poucas coisas são certas. Por 'certas', entenda-se, verdades absolutas. Exceptuando talvez o mundo matemático (ciência dita exacta em que 2 + 2 são sempre 4). Tirando isso e pouco mais, a leitura que fazemos da vida, das pessoas e das situações é apenas a nossa leitura. Por mais objectivos que tentemos ser, ela é sempre fruto de quem somos e do que vivemos. Dos 'óculos' que usamos. É, por isso, preciso cada vez mais interesse e respeito pela opinião do outro ao invés de viver em campos de batalha entre o que eu penso e o que tu pensas, o que eu sinto e o que tu sentes. Entre o 'certo' e o 'errado'. O que é isso de querer ter razão? Os conflitos surgem da incapacidade de ouvir e entender a perspectiva do outro. É preciso respeito. E depois, já agora, flexibilidade. É preciso descentrarmo-nos dos nossos umbigos. E o mais simples e paradoxalmente complexo de tudo isto é perceber que no fim de contas o que é mesmo preciso é amar o outro. O amor pelo outro implica sempre o respeito pela diferença.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Não se diz ao triste que se alegre


João dos Santos, mestre pedagogo, médico e psicanalista português do séc. XX, dizia que “não há melhor remédio para a tristeza do que chorar”. No entanto, se alguém chora junto de nós, com quanta facilidade dizemos “deixa lá, não chores”, sem nos apercebermos como somos chatos quando não damos espaço para o outro chorar. Mais do que chatos, somos pouco empáticos e mesmo desrespeitosos, pois respeitar a tristeza de alguém implica aceitar esse sentimento, legitimá-lo e permitir a sua expressão.
A verdade é que quando dizemos a alguém para não chorar ou para não ficar triste, fazemo-lo por nós e não pelo outro. Zangando-se, muitos pais ficam melindrados ou sentidos com o choro dos seus filhos. Acham que lhes dão tudo do bom e do melhor e que, assim sendo, eles não têm motivos para chorar, “esquecendo-se” que todos temos tristezas incompreensíveis. Por vezes mandamos o outro não chorar porque o choro nos é incómodo, desconfortável ou mesmo perfeitamente insuportável, espelhando como é difícil suportar a tristeza e o desamparo de alguém. Aceitar o choro do outro implica aceitar o sofrimento do outro e mais, recorda-nos de sofrimentos muito nossos, que tantas vezes tentamos esquecer. Contactar com as partes mais frágeis do outro é contactar também com as nossas, e é aí, nesse lugar escuro, que pedimos, “não chores”.
É que para além de não conseguir lidar com o outro que chora, muitos não podem ou conseguem, eles próprios, chorar. Uns não choram porque nem se apercebem que estão tristes, o que é algo ainda mais triste. É uma existência robotizada. Outras pessoas sabem que estão tristes, mas aprenderam a esconder do mundo a tristeza. Talvez porque em pequeninos ninguém lhes tenha dado liberdade de chorar. Talvez alguém lhes tenha ensinado (fundamentalmente aos rapazes) que chorar é sinal de fraqueza. Chorar é também uma questão cultural, mas quantas vezes a cultura nos oprime e limita nos nossos instintos mais básicos e saudáveis? Chorar é melhor do que qualquer antidepressivo. Chorar é catártico. Permite libertar tensão, aliviando a angústia e pondo fora o sofrimento, ao invés de o guardar cá dentro, como uma espécie de “dor de estimação”.

Como dizia Luís de Camões, “pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre”. Perante o choro de alguém, em vez de conselhos, ofereça-se antes um colo ou um abraço, ainda que isso intensifique o choro. Mais vale pôr para fora do que para dentro. Em psicoterapia, muitas melhoras acontecem quando alguns pacientes se tornam capazes de chorar. Chorar é aceitar a nossa humanidade e parar de fugir do sofrimento. Só não sofre quem está morto.