Se o que é belo para uns nunca será belo para outros, sendo a
beleza um dos conceitos mais subjectivos e voláteis da humanidade, o que é o
belo senão aquilo que nos faz felizes? O poema — Alberto Caeiro, com certeza.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
As Fronteiras da Intimidade
Fala-se muito da importância de
colocar limites às crianças. Esta expressão ficou bastante associada à
imposição de regras, deixando na penumbra outro tipo de limites, tão ou mais
importantes: a intimidade e a privacidade de cada um. A intimidade e a
privacidade são dois conceitos importantíssimos à estruturação psíquica do
sujeito, duas fronteiras básicas da individualidade do ser humano.
Dentro da mesma casa, ou seja, partilhando
espaços físicos, há tendência a confundir o espaço de cada um. Por vezes, os
adultos não sabem como é importante ter alguns cuidados, invadindo o espaço das
crianças, outras vezes, permitindo em excesso que a criança invada o seu
espaço. Se as crianças pudessem defender-se, diriam então: “Pressinto que há
coisas minhas que não te dizem respeito e que há coisas tuas que não quero
saber; que há momentos e lugares meus onde não podes entrar e momentos e lugares
teus que não quero presenciar. Eu ainda não sei muito bem o quê mas tu, que és
crescido, ajudas-me com esta tarefa?”
O filtro tem de ser, em primeiro
lugar, uma competência dos adultos. É importante respeitar a intimidade da
criança, ensinando-a, aos poucos, a reservar (e preservar) tudo aquilo que é
seu. Como se ensina isto? Pelo exemplo, como tudo o resto. Se uma criança está
na casa de banho, não há que irromper pelo espaço sem pedir licença. Criança ou
não criança, o respeito é o mesmo. E antes de entrar no quarto, não custa nada
bater à porta e perguntar: “Posso?” É que, por vezes, os adultos têm tanta
necessidade de controlar as crianças que as desrespeitam profundamente. Quantos
pais já terão lido o diário das suas meninas? Quantos pais já terão espiolhado
os telemóveis dos seus filhos? Quantos pais já terão desejado ser confidentes
absolutos dos filhos? Não havendo qualquer indício de problemas, para quê e
porquê fazê-lo?
Também os pais devem reservar para
si aquilo que é seu. Mas quando confrontados, muitos adultos respondem: “Eu
também não me importo que o meu filho entre no meu quarto sem bater, nem que queira
saber de tudo da minha vida. Não tenho nada a esconder.” Tudo bem. Mas não acham isso estranho? Não se trata de esconder, mas de valorizar o que é meu e poder
distingui-lo do que é do outro. De perceber que estas confusões em nada medem o
amor e os afectos, apenas revelam tentativas de controlar angústias que ora são
dos adultos, ora das crianças, e que é preciso contê-las de outra forma. Que
saibamos que amar o outro é respeitar a sua individualidade, permitir-lhe uma
existência diferenciada. Para isso, lutamos contra os nossos medos, se preciso.
Pelo direito a não se deixar invadir e respectivo dever de não invadir também.
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sábado, 2 de agosto de 2014
Sobre a Pequenez
![]() |
| Randy P. Martin Photography |
Somos pequeninos. Somos imensamente pequenos. Somos tão
pequenos que quando nos lembramos disso nos assustamos com a nossa fragilidade.
Por outro lado, como somos pequenos também temos muito para nos entreter. Muito
que descobrir. Podemos encontrar coisas novas em cada esquina. Podemos surpreender-nos com milhões
de quilómetros quadrados de desconhecido e com biliões de pessoas que ainda não
pudemos conhecer. O que seria se o mundo fosse à nossa escala e fossemos
obrigados a habitar a vida inteira circunscritos a três ou quatro metros de
terreno? Definharíamos. Somos pequeninos mas temos um mundo inteiro à nossa
espera. Somos pequeninos, mas não pequeninos o suficiente para sermos
insignificantes. Podemos fazer a diferença. E o melhor é que podemos
simultaneamente passar despercebidos. Podemos errar e fazer disparates sem que
o mundo se desmorone em absoluto por nossa responsabilidade. Somos pequeninos e
isso não é necessariamente mau, pelo contrário, é um mundo inteiro de
possibilidades.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Poesia
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos in "Poemas"
quinta-feira, 20 de março de 2014
terça-feira, 12 de novembro de 2013
domingo, 3 de março de 2013
Viver ou Sobreviver?
Nascemos.
Num determinado lugar e numa certa família, que não escolhemos. Dão-nos um
nome, que também não escolhemos, mas somos donos de um corpo e de uma alma. A
nossa alma (ou mente ou psique) permite-nos pensar e sentir, e esse corpo
permite-nos concretizar coisas. Chegados aqui, o que fazemos com isso? Que faço
eu da minha vida e que pretendo ainda fazer? Dar um sentido à vida é algo que vive
na mente de alguns mas não na mente de todos. Perspectivar o passado e planear
o futuro, sabendo de onde viemos mas olhando principalmente para onde nos
dirigimos é atribuir significado à nossa existência. E é fundamental. O sentido
da vida diverge de pessoa para pessoa, de dia para dia e, por vezes, de hora
para hora, pois o que interessa, sobretudo, não é um objectivo geral, único e
rígido, mas o significado específico que vamos atribuindo ao longo do tempo e
dos acontecimentos e que, naturalmente, se modifica e adapta em função do nosso
desenvolvimento pessoal.
Em
meados do século passado já tínhamos compreendido que os indivíduos que melhor
sobreviveram aos campos de concentração durante a II Guerra Mundial (os que
ficaram menos debilitados física e psicologicamente) foram maioritariamente
aqueles que se agarraram a uma razão para sobreviver e mantiveram em mente uma
motivação forte para o conseguirem. Mais recentemente, investigação médica
descobriu que um forte sentido de existência (e o bem-estar subjacente a esse
sentimento) se correlaciona com uma melhor saúde física e longevidade. E, por
fim, chegou-se à Saúde Mental: aqueles que desenvolvem objectivos para a sua
vida e que se empenham e comprometem na sua concretização tornam-se pessoas
mais felizes e saudáveis. Dar sentido à nossa vida protege-nos da depressão, da
ansiedade e mesmo da deterioração cognitiva. Novas evidências científicas
sugerem ainda que é uma capacidade essencial para atenuar os sintomas de
doenças degenerativas como o Alzheimer, num estudo que tem permitido concluir
que aqueles que em vida atribuem mais significado à sua existência e mantêm
presente os seus propósitos estão mais protegidos contra este mal.
São
aqueles que não se limitam a viver um dia de cada vez sem pensar no futuro, são
os que se sentem bem com o que fizeram da sua vida e com o que planeiam fazer
futuramente, aplicando-se na concretização dos sonhos, e ainda os que não
desistiram desses objectivos com o passar no tempo nem mesmo perante as
adversidades. O vazio existencial é uma morte lenta. Sonhar com esperança,
planear com entusiamo, concretizar com perseverança. Viver, e nunca apenas
sobreviver.
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Psicanálise,
Psicoterapia Psicanalítica,
Saúde Mental,
Sentido da Vida
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
What if ?
“E se, algum dia ou alguma noite, um demónio fosse atrás de ti até a tua solidão mais solitária e dissesse: Esta vida, como agora a vives e tens vivido, vais ter de a viver mais uma e inúmeras vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, do mais pequenino pormenor aos momentos mais grandiosos, terão de regressar a ti na exacta mesma sucessão e sequência. E perante isto, o que sentiríamos? Seria uma maldição ou uma bênção?”
Irvin Yalom
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