Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
domingo, 30 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
Quem pensas que enganas?
Procuramos
frequentemente esconder os nossos afectos e emoções. Ocultamos a irritação, disfarçamos
a desilusão, camuflamos o ciúme e mascaramos o medo. Escondemos a tristeza, a
raiva e mesmo o amor. Por vezes, conscientemente, outras, sem sequer nos
apercebermos desse conflito inevitável entre o que sentimos cá dentro e o que
queremos (ou que não queremos) passar para fora.
Fazemo-lo
por tantos motivos! Pode ser para seguirmos o “politicamente correcto” ou porque
não queremos admitir as nossas fragilidades. Porque não queremos criar
conflitos ou magoar alguém. Fazemo-lo porque, racionalmente, achamos que não
temos legitimidade para sentir certas coisas, ou porque queremos esconder de
nós próprios o que sentimos. Não importa aqui o porquê mas importa sobretudo perceber
que normalmente falhamos redondamente na nossa intenção de camuflar os nossos
afectos. É que os seres humanos são excelentes detectores de “mentiras
afectivas” uns nos outros.
Para
enganar (ou outro ou a nós próprios) usamos as palavras. Por trás das palavras,
usamos racionalizações (raciocínios lógicos).
Uma mãe diz que respeita muito a liberdade do seu filho mas de cada vez que ele
lhe omite algo íntimo fica sentida por ser posta de lado. Um homem chega a casa
e conta que ficou desempregado, ao que a sua mulher responde que tudo se irá
resolver mas nos seus gestos seguintes revela todo o medo, ansiedade e falta de
confiança no marido. Um filho apresenta um teste com uma nota mais baixa que o
costume e a sua mãe diz que não tem importância e que acontece aos melhores mas
nos seus olhos está espelhado o desapontamento. Um pai pergunta ao filho como
correu o seu dia mas depois, na verdade, não presta a mínima atenção ao que o
filho conta quando chega da escola. Em todas estas cenas há uma coisa que é
dita e uma outra diferente que é percebida e sentida na relação.
As
palavras contêm um significado objectivo e são uma arma de argumentação
poderosa nas relações. Só que há algo muito especial e subjectivo nos seres
humanos que é mais poderoso do que as palavras: os afectos. Na relação com os
outros, essa nossa subjectividade dança com a subjectividade do outro e descobrem-se
mutuamente. Chamamos a isto a intersubjectividade
na relação, ou seja, “eu sinto o que tu sentes e tu sentes o que eu sinto”.
Há
quem esconda bem os afectos. Com mecanismos de defesa muito sólidos. E, por
outro lado, também há quem tenha muito pouca capacidade de ler o outro para lá
dessas barreiras. Tristeza das tristezas é não vivermos essas danças a dois por
não estarmos verdadeiramente em relação com o outro. Numa relação sem comunhão afectiva
ficaremos meramente restringidos à troca de palavras, passando-nos ao lado os
afectos escondidos e deixando escapar as nuances
mais belas das relações humanas.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
sábado, 27 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
A construção da identidade
Não
se nasce com uma identidade estática e definida. Parte-se de uma identidade
biológica mas não é, contudo, isso que nos limita, na medida em que o nosso
programa genético é plástico e permite-nos seguir inúmeras direcções. A
construção da identidade é um processo dinâmico e pessoal, cuja base assenta
nas primeiras relações afectivas que nos rodeiam mas também no meio
sociocultural em que nos inserimos. Como tudo começa?
Durante
os primeiros 18 meses de vida, dá-se aquilo a que se chama a identificação
imagóico-imagética. O bebé identifica-se com a imagem que os outros
significativos lhe reconhecem e lhe transmitem. É uma identificação em espelho:
“eu sou aquilo que acham/dizem que eu sou e serei”. Pode originar um
desenvolvimento saudável ou, inversamente, patológico, pois o bebé sente e
assimila sentimentos, expectativas, crenças, medos e desejos (mesmo os mais
inconscientes ou mesmo os mais indesejáveis) que encontra junto daqueles que o
cuidam (ou descuidam). Pensa-se que seja a fase mais fundamental para a
construção de uma identidade própria.
Entre
os 18 e os 30 meses, a construção da identidade passa por um processo de
identificação idiomórfica, ou seja, identificamo-nos à nossa própria forma. Por
auto-observação. Olhamo-nos e olhamos também para o outro que será mais
parecido ou mais diferente de nós, estabelecendo comparações. Começamos a reconhecer-nos
como alguém e a percebermo-nos. Nasce também uma identidade sexuada onde percebemos
que somos menina ou menino e as diferenças de género subjacentes.
Posto
isto, entre os 3 e os 6 anos, numa terceira fase chamada identificação
alotriomórfica, a criança passa a identificar-se a um modelo, um objecto de
eleição ao qual procura assemelhar-se, alguém que admira e ama. Copia o que vê
o seu modelo fazer, pensar, agir, sentir e comunicar. Para o bem e para o mal.
Há modelos piores e modelos melhores. Mas importa dizer que mesmo os melhores modelos
não serão bons se não nos ajudarem a encontrar o nosso próprio estar e o nosso
próprio sentir. Pobre daquele que é apenas uma cópia do outro.
Assim,
pensar que a identidade só está estabelecida na idade adulta é um engano, pois
as bases começam muito antes. Contudo, certamente que este processo é uma
construção contínua, do início ao fim, e as nossas experiências de vida
continuarão sempre a moldar-nos. Por isso, aceitar tacitamente que somos
produto do que vivemos não será também caminho pois não nos podemos subtrair à
responsabilidade que temos nas escolhas que fazemos. A construção de uma
identidade será, sobretudo, uma criação própria. Temos capacidade de reflectir
e transformar e, como disse um dia Ray Charles, somos os nossos próprios
engenheiros.
Nota: Baseado no modelo de
construção de identidade de António Coimbra de Matos
quarta-feira, 20 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Pedrinha (Do Tactear)
“É mesmo essencial,
para o seu equilíbrio psíquico e para a salutar expansão da sua personalidade, que o adolescente possa
tactear ou encetar vários caminhos antes de verdadeiramente escolher o que
melhor corresponde à sua maneira de ser, de sentir o mundo e de perspectivar o
futuro. Não lho permitir será amputá-lo para todo o sempre nas suas
potencialidades evolutivas.”
António Coimbra de Matos
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Sobre outras perspectivas
"What if I should fall right through the center
of the earth... Oh, and come out the other side, where people walk upside down?
"
Lewis Carroll in Alice in Wonderland
domingo, 3 de março de 2013
Viver ou Sobreviver?
Nascemos.
Num determinado lugar e numa certa família, que não escolhemos. Dão-nos um
nome, que também não escolhemos, mas somos donos de um corpo e de uma alma. A
nossa alma (ou mente ou psique) permite-nos pensar e sentir, e esse corpo
permite-nos concretizar coisas. Chegados aqui, o que fazemos com isso? Que faço
eu da minha vida e que pretendo ainda fazer? Dar um sentido à vida é algo que vive
na mente de alguns mas não na mente de todos. Perspectivar o passado e planear
o futuro, sabendo de onde viemos mas olhando principalmente para onde nos
dirigimos é atribuir significado à nossa existência. E é fundamental. O sentido
da vida diverge de pessoa para pessoa, de dia para dia e, por vezes, de hora
para hora, pois o que interessa, sobretudo, não é um objectivo geral, único e
rígido, mas o significado específico que vamos atribuindo ao longo do tempo e
dos acontecimentos e que, naturalmente, se modifica e adapta em função do nosso
desenvolvimento pessoal.
Em
meados do século passado já tínhamos compreendido que os indivíduos que melhor
sobreviveram aos campos de concentração durante a II Guerra Mundial (os que
ficaram menos debilitados física e psicologicamente) foram maioritariamente
aqueles que se agarraram a uma razão para sobreviver e mantiveram em mente uma
motivação forte para o conseguirem. Mais recentemente, investigação médica
descobriu que um forte sentido de existência (e o bem-estar subjacente a esse
sentimento) se correlaciona com uma melhor saúde física e longevidade. E, por
fim, chegou-se à Saúde Mental: aqueles que desenvolvem objectivos para a sua
vida e que se empenham e comprometem na sua concretização tornam-se pessoas
mais felizes e saudáveis. Dar sentido à nossa vida protege-nos da depressão, da
ansiedade e mesmo da deterioração cognitiva. Novas evidências científicas
sugerem ainda que é uma capacidade essencial para atenuar os sintomas de
doenças degenerativas como o Alzheimer, num estudo que tem permitido concluir
que aqueles que em vida atribuem mais significado à sua existência e mantêm
presente os seus propósitos estão mais protegidos contra este mal.
São
aqueles que não se limitam a viver um dia de cada vez sem pensar no futuro, são
os que se sentem bem com o que fizeram da sua vida e com o que planeiam fazer
futuramente, aplicando-se na concretização dos sonhos, e ainda os que não
desistiram desses objectivos com o passar no tempo nem mesmo perante as
adversidades. O vazio existencial é uma morte lenta. Sonhar com esperança,
planear com entusiamo, concretizar com perseverança. Viver, e nunca apenas
sobreviver.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Pedrinha (Da Censura do Inconsciente)
“O inconsciente é o capítulo da minha história que é marcado
por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado."
Jacques Lacan (Escritos)
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Certeza da Incerteza
Em todos os
manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Fernando Pessoa, Tabacaria
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Fernando Pessoa, Tabacaria
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Pedrinha (das Ligações Empáticas)
A empatia é a ferramenta mais poderosa que possuímos para nos conectarmos com os outros. É a cola da conectividade humana
e permite-nos sentir, a um nível profundo, o que a outra pessoa sente em
determinado momento.
Irving
Yalom
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Culpas e desculpas
A
culpa é um sentimento ligado ao sentido de responsabilidade e à reflexão sobre
as consequências dos nossos actos. Para lá da sua definição mais básica, a
culpa é um sentimento complexo. É complexo porque existe a culpa dita normal,
lógica, mas também uma culpa que pode ser ilógica, logo, patológica. Este último
sentimento de culpa implica assumir uma culpa que não nos “pertence”, traduzindo-se
num estado constante de angústia e sistemática desvalorização de si mesmo. É deixar-se
culpar facilmente pelo outro em situações em que não é suposto, ou mesmo pedir desculpa ainda antes de sermos anunciados culpados. Deve
dizer-se que estes fenómenos se passam de forma mais ou menos inconsciente, ou
seja, sem alguém que nos ajude a pensar os nossos pensamentos não temos bem noção
do que fazemos com os nossos sentimentos de culpa.
Culturalmente,
durante muito tempo os indivíduos viveram em sociedades
limitadas pela culpa, onde muito era reprimido e pouco era permitido. A
culpabilidade é a uma belíssima forma de dominar o outro e o sentimento de
culpa é um severo carrasco. Uma pessoa dominada pela culpa fica amarrada ao outro
e presa dentro de si mesma. Neste contexto, há mais
de cem anos atrás, Freud descreveu o sentimento de culpa
como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização desse tempo. Os
seus pacientes sofriam sobretudo de patologias associadas à grande culpabilidade
que sentiam. Reprimidos, não se permitiam ser autênticos, não se permitiam a
pensar pela sua cabeça nem a viver os seus afectos. O ser humano tinha muito
pouca liberdade de “ser”.
Aos
poucos, ao longo do séc. XX, as sociedades foram mudando e a culpa foi
abandonando o seu papel tão castrante no desenvolvimento do ser humano. Nesta
linha, Jacques Lacan, psicanalista francês do séc. XX, dizia que, em última
instância, a única coisa de que podemos realmente sentir-nos culpados é de abrir
mão dos nossos desejos. E assim foi. Sedentos de liberdade, fomos dando azo às
nossas vontades, cada vez com maior confiança e assertividade. Teremos caído no
outro extremo? Hoje, séc. XXI, fala-se muito da falta de limites nos indivíduos
(principalmente a propósito das crianças e dos adolescentes). Eventualmente mas
não generalizando, há casos de exageros, mas para não cairmos em tentação de
voltar aos “regimes” da culpa, queremos escolher um caminho mais adequado. Uma
consciência social, relacional, parental, e individual, com a responsabilidade inerente
ao bom desenvolvimento psicológico de cada um. Os
limites não são impostos só porque sim, é a realidade per si que nos continua a colocar os limites. Seremos sempre
movidos pela procura do prazer e da realização individual, mas embatemos todos
os dias nas interdições colocadas pela realidade. Esta é, inevitavelmente, a
condição humana.
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sábado, 2 de fevereiro de 2013
Pedrinha (do Ler, Escrever e Contar)
A partir
das minhas investigações sobre o comportamento evolutivo dos bebés, concluí que
geneticamente convém chamar leitura ao que cada um observa à sua volta; escrita
ao que se regista espontaneamente sobre coisas diversas; contar ao que se vive
corporalmente como ordem e quantidade.
João dos Santos
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