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domingo, 3 de setembro de 2017

Em Busca da Perfeição


          Querer dar o melhor de si é uma virtude. É o que faz um indivíduo e uma sociedade desenvolver-se. Porém, o perfeccionismo é outra coisa. É sobretudo uma insatisfação permanente. É uma urgência em alcançar um ideal que raramente é real, pois o sujeito vê sempre mais a falha do que a concretização, isto é, o copo está sempre meio vazio e, muitas vezes, não se chega a gozar nem o processo em si nem o resultado.
Na verdade, o perfeccionismo não assenta literalmente sobre o aperfeiçoamento das coisas em si: o trabalho, um projeto específico, a nossa aparência ou as relações que estabelecemos. A um nível mais profundo, o perfeccionismo é sobre aperfeiçoar-se a si mesmo, é sobre uma sensação de insuficiência que transborda para todos os campos da nossa vida. E esta necessidade (ou angústia) não vem de um lugar saudável. Todos os componentes e dimensões do perfeccionismo envolvem, em última análise, uma “obsessão” em aperfeiçoar um self imperfeito.
De onde vem esta forma de funcionamento? O perfeccionismo está enraizado no mundo relacional do indivíduo. Deriva das relações primárias, aquelas que desenvolvemos nos estágios mais precoces da vida, quando nelas experienciamos uma grande exigência, desamor ou vinculação frágil: vivências primitivas de insegurança, vergonha, culpa. Ambientes de pouca aceitação/valorização, crítica sistemática, busca permanente de uma validação que não chega, rejeição ou mesmo abandono, maltrato, humilhação e desespero. Assim, o perfeccionismo entende-se à luz das características mais fundamentais dos humanos: a necessidade de ligação/pertença e necessidade de uma autoestima positiva (que enraíza nessa percepção de fazer parte e ser importante). Desejo de ser aceite, reconhecido no seu valor, respeitado, cuidado e de ser importante para os outros, i.e, ser amado.
O paradoxo é que, embora enraizando em questões relacionais, o perfeccionismo veicula o desligamento, o afastamento e uma certa falta de intimidade, em resultado da alienação de um indivíduo que está tão focado nos seus processos que nem sempre olha para o outro. A sensação de falha permanente contribui para uma insatisfação com a vida em geral,  que tantas vezes posiciona as pessoas em lugares menos bons nas relações que estabelecem.
Talvez o perfeccionismo seja também um resquício de uma omnipotência primordial, uma manifestação das nossas partes mais infantis que ainda perseguem metas pouco ajustadas e muito idealizadas. O crescimento permite-nos aceitar a nossa falibilidade, as nossas limitações, com tolerância para connosco mesmos. O momento em que aceitamos aquilo em que somos menos bons é um momento de libertação e é um processo que elaboramos cada vez melhor à medida que conseguimos constatar que para cada coisa em que somos menos bons há outra em que somos melhores.
Apesar do perfeccionismo poder trazer benefícios tangíveis, como, por exemplo, ser bem sucedido, ele é, na verdade, uma vulnerabilidade da nossa personalidade. A perseguição de metas pouco realistas é uma forma de viver o Inferno na Terra. Que possamos dar o nosso melhor (assim a vida o permita), reconhecendo sempre o nosso empenho mas também os nossos limites; com respeito por nós mesmos, pelo nosso trabalho, pela nossa dedicação; sem depreciações ou ruminações que não nos permitem avançar com maior simplicidade. Pede-se, àquele que nunca está bem consigo, um olhar de lucidez e justiça para com quem é e para com aquilo que já conquistou.

domingo, 8 de novembro de 2015

Do que aprendi


Aprendi com tudo isso que aprende mais rápido quem sabe olhar em diferentes direcções e adopta novos ângulos de visão; aprende mais rápido quem escuta o outro, quem se dispõe a abandonar os seus desejos ou crenças para criar espaço; aprende mais rápido quem é humilde e também quem aceita sem oferecer excessiva resistência; aprende mais rápido quem não tem medo de dobrar ou de cair e quem se ri de si mesmo quando tal acontece; aprende mais rápido quem não se deixa apanhar pela vergonha de falhar, de fazer mal feito; aprende mais rápido quem se expõe, porque se arrisca; aprende mais rápido quem se desapega da prepotência de querer aquilo naquele momento e daquela maneira: às vezes não dá. Aprende mais rápido quem tenta distinguir o possível do impossível. Ou seja, aprende mais rápido quem respeita a realidade enquanto ser gigante que não se verga e por isso aceita a impotência de viver nela e com ela. Aprende mais rápido quem não perde mais que o tempo suficiente a lamentar-se ou a enraivecer-se com isso. Aprende mais rápido que tem essa capacidade de ajustamento e/ou adaptação. Porém, aprende mais rápido quem se permite sair da harmonia da adaptação quando surgem perguntas e se impõe um outro entendimento. De resto, e enquanto isto, aprende sempre mais rápido quem intui que o tempo também tem o seu papel e escolhe avançar — à distância entendem-se melhor as coisas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Engano da Perfeição


Querer ser e fazer melhor é um desejo que funciona como motor do crescimento humano mas a busca da perfeição é uma atitude de natureza totalmente diferente. O perfeccionismo é uma forma rígida e insatisfeita de existir, que encara com severidade e intransigência as falhas ou as dificuldades (as próprias e, consequentemente, as dos outros). Nem sempre é uma escolha pessoal. Os "perfeccionistas" são, vulgarmente, aqueles que mais sofrem. Vivem aprisionados num rigor prepotente, que não admite nada menos que a excelência, mesmo quando sabemos que tudo tem o seu defeito, tudo tem o seu senão. É, bem vistas as coisas, uma atitude resistente à condição humana, condição de imperfeição, já que só o divino cumpre, eventualmente, o ideal de perfeição. Logo, revela alguma omnipotência da nossa parte. Quem pensamos que somos para ambicionar a perfeição? E mais, será que a perfeição nos faria mais felizes? Com certeza que não é por aí. O bem-estar é um estado de espírito independente do grau de "perfeição" de cada um. É por isso que entre o perfeccionismo e o desejo de querer ser melhor há todo um universo de moderação e aceitação. Aceitação de nós próprios, em primeiro lugar. Pois a busca da perfeição é, em primeiro lugar, espelho da falta de amor que temos por nós e que nos leva em busca de um ideal a que queremos corresponder. Mais amor, por favor. Só em amor podemos evoluir de forma bonita e natural.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Aqui vou eu!


Segunda-feira. 2015. Lua cheia. Não nos podemos esconder mais porque a luz incide hoje em pleno sobre nós. Ilumina a penumbra onde tantas vezes nos escondemos e recorda-nos que é tempo de recomeçar. É que o fim das festas (ou o fim das férias) nem sempre é fácil. Há um pequeno luto que se faz quando o quotidiano retoma o seu curso e as responsabilidades chamam por nós. São as dores da realidade, sempre impiedosa. No entanto, é a realidade (e os limites que nos impõe) que nos permite saborear as festas e as férias e a vida com a alegria de uma criança. Sem ela, tudo perderia a sua riqueza. Pior, sem ela, tudo perderia o norte. A realidade dá-nos direcção, um sentido e um significado. Sem ela, os dias seriam uma sucessão de dias sem conteúdo, conduzindo-nos inevitavelmente à apatia, ao tédio e ao vazio. Pois por mais que neguemos, o ser humano precisa absolutamente de produzir e de criar para se sentir pessoa.

domingo, 24 de novembro de 2013

Ainda sobre a realidade...

... porque na realidade o óptimo é frequentemente inimigo do bom.

Contos de Gente


Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o princípio e fim de quase todos os contos de fadas que povoam o imaginário das crianças. É inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a vitória. Com eles aprendemos também a gerir emoções semelhantes às sentidas nos enredos da vida real. São fundamentais, os contos de fadas.
O que é de pensar é que embora em todas estas histórias haja sempre lugar para as desventuras e percalços, o final, no entanto, é sempre inquestionavelmente feliz e nunca nenhum deles nos conta o que acontece depois. O “felizes para sempre” é um momento estático, fechado, é a frase que não deixa espaço para imaginar o que podia acontecer durante os 20 anos que se seguem, encerrando com o fim do conto todas as angústias. E se quando somos pequenos, acreditar nos desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente com esperança, crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a ser mais felizes. Crescer é poder tolerar a dúvida e aceitar que as certezas pertencem a um mundo que não é humano nem real, mas sim tranquilizadoramente encantado, pois cá fora a realidade é dinâmica e está sempre em movimento, envolvendo as pessoas e as suas relações nessas oscilações.
Para lá dos contos de fadas, há no mundo adulto muita literatura e cinema que assenta igualmente neste ideal de que no fim tudo está bem quando acaba bem. Aliás, muitas pessoas não toleram uma história cujo final não inclua esse momento “cor-de-rosa”. Porque aí há uma angústia que fica em aberto. Assim, percebemos que a problemática dos contos de fadas não se limita às crianças nem aos adolescentes. Quando falamos nessa fantasia infantil de não querer aceitar a montanha-russa da nossa existência falamos também duma parte de todos nós, adultos, que fica mais ou menos presa a um ideal de felicidade que nos acompanha desde pequenos.
Viver é encarar com optimismo essa realidade que não é eternamente nem estaticamente cor-de-rosa, aceitando que há muitos outros tons que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, laranjas, azuis, verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante, viva e saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.