A curiosidade é um dos indicadores de saúde mental. Sinal de
mente em expansão, insaturada, que quer conhecer e perceber mais e melhor o
mundo em que se insere. O seu e o dos outros, ou seja, o nosso mundo interno
(os nossos desejos, sonhos e angústias) e o mundo interno
dos outros (na medida em que é possível conhecer aqueles que nos rodeiam). E
ainda conhecer o mundo propriamente dito, a chamada realidade e suas
manifestações: cultura, política, ciência ou geografia. Tanto há para conhecer que
é de estranhar quando não há o menor sinal de interesse em perceber um pouco
melhor este lugar (mente, corpo e planeta) onde moramos. Nas crianças, a
curiosidade é um acto espontâneo. Pelo menos, até ao dia em que seja castrado.
Pois nem sempre a curiosidade infantil é bem recebida e quando assim é, a mente
começa a definhar ainda antes de se poder expandir. Perguntar é sinal de
reflexão. Querer saber é indicador de entusiasmo. Estudar, experimentar e
pensar são os promotores da evolução. Se assim não fosse, se nos bastasse a
rotina mecânica de um quotidiano qualquer, ainda hoje viveríamos nas cavernas,
sem fogo, sem roda e sem nada do que hoje conhecemos.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Respirar
Não somos máquinas, somos pessoas. É importante poder respirar. Entre tarefas, entre assuntos, entre relações. Num mundo que bate palmas àqueles que vivem em "modo TGV" (que vivem um dia com 24h como se ele tivesse 36h) é difícil fazer crescer esta ideia, mas que fique a semente, pois em solo fértil, germinará.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Histórias de Desespero e de Esperança
Podíamos
contar uma história, que pode ser a história de qualquer um de nós. Por norma, estas
histórias começam com esperança, nem que seja por dois minutos. Depois, mais
cedo ou mais tarde, acabaremos por conhecer o desânimo. Perante um desânimo de
cadência continuada, irrompe então o desespero. E é aí, no lugar do desespero, que
a história sempre se divide em dois finais diferentes: ou retomamos o caminho
da esperança, ou perdemos a fé nas coisas boas e entregamo-nos a uma qualquer
forma de desistência.
Assim,
o desespero e a esperança são dois sentimentos antagónicos no que toca à
reacção às contrariedades, sempre em função daquilo que esperamos da vida. Esperança
é fé e entusiasmo. Se na nossa história encontramos sempre algo em que
acreditar, que nos segure e nos empurre em frente, é porque somos
fundamentalmente movidos a esperança. E isso é bom. Desespero é a sensação de exaustão.
É o fim de um caminho. Irrompe nos momentos em que não se espera absolutamente
mais nada de uma situação. É, no entanto, por isto que muitos pensadores
defendem que a esperança vem depois do desespero. A exaustão pode proporcionar
rupturas importantes na nossa vida. Nem todas as crises são más.
E
a verdade é que, não raras vezes, oscilamos entre ambos, conforme os tempos e as
circunstâncias. Os momentos de desespero fazem, sim, parte da vida, contudo, é
na capacidade de reencontrar o caminho da esperança que mora a saúde mental. Afastamo-nos
da saúde mental quando deparamos com desesperos tão desesperados que se torna
impossível recorrer ao pensamento e retomar o caminho do desenvolvimento. Não é
invulgar, pois o desespero é, de certa forma, uma emoção-limite, algo da ordem
do insuportável. E é muito doloroso passar por estes estados emocionais. Seria
possível viver uma vida inteira deprimido, mas não seria possível viver a vida
inteira em desespero, seria um desgaste que o corpo e a mente não aguentariam. Assim,
o desespero surge em picos e vai alternando com alguma serenidade que, por
norma, conseguimos sempre reencontrar. Com maior ou menor eficácia, a maioria
de nós consegue embalar-se nos momentos mais difíceis e reencontrar uma forma
de tornar a acreditar. Na mais pequena coisa que seja. A maioria de nós
reencontra sempre a esperança dentro de si. Até porque o fim de um caminho
permite sempre a descoberta de outro. E é nessa capacidade de reencontrar novos
trilhos que reside a esperança. Sabemos que depois de cada tempestade vem
sempre a bonança, como diz o povo.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014
sábado, 2 de agosto de 2014
Sobre a Pequenez
![]() |
| Randy P. Martin Photography |
Somos pequeninos. Somos imensamente pequenos. Somos tão
pequenos que quando nos lembramos disso nos assustamos com a nossa fragilidade.
Por outro lado, como somos pequenos também temos muito para nos entreter. Muito
que descobrir. Podemos encontrar coisas novas em cada esquina. Podemos surpreender-nos com milhões
de quilómetros quadrados de desconhecido e com biliões de pessoas que ainda não
pudemos conhecer. O que seria se o mundo fosse à nossa escala e fossemos
obrigados a habitar a vida inteira circunscritos a três ou quatro metros de
terreno? Definharíamos. Somos pequeninos mas temos um mundo inteiro à nossa
espera. Somos pequeninos, mas não pequeninos o suficiente para sermos
insignificantes. Podemos fazer a diferença. E o melhor é que podemos
simultaneamente passar despercebidos. Podemos errar e fazer disparates sem que
o mundo se desmorone em absoluto por nossa responsabilidade. Somos pequeninos e
isso não é necessariamente mau, pelo contrário, é um mundo inteiro de
possibilidades.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Higiene Mental Familiar
Num momento em que a prioridade é segurar o
mais possível a capacidade económica da estrutura familiar há frequentemente
uma diminuição acentuada da disponibilidade dos pais para os seus filhos, por
falta de tempo e/ou falta de paciência. Mas apesar das dificuldades serem reais, desde o início dos tempos que com menores ou maiores dificuldades sempre houve famílias mestras em pôr o afecto 'na mesa' em qualquer circunstância, pelo que a 'crise' nem sempre é desculpa. Assim, não custa lembrar que ser pai e ser mãe é profissão a
tempo inteiro e que cabe aos pais unir a família (o investimento é, primeiro, de pais para filhos), desenvolvendo os esforços
necessários para que os filhos usufruam a boa companhia dos pais e os pais da
companhia dos filhos.
Porque “perdemos” tanto tempo a falar e a pensar nas famílias
e nas crianças? Não é só porque as crianças de hoje são as mais protegidas de todos os tempos. É também porque hoje sabemos que pensar nas crianças é pensar na evolução da humanidade e
no que está para vir. Toda a saúde mental passa em primeiro lugar pela saúde
mental infantil. E no
que respeita às nossas crianças, esta higiene mental pratica-se em casa e na
escola. Sempre tendo em conta que, sem as condições emocionais minimamente satisfeitas (o que varia de caso para caso), não há possibilidade de uma boa integração e aprendizagem
na escola. Os preconceitos ditam, ainda, que muitos educadores (não todos!) pensem que as dificuldades
da criança na escola assentam em uma de duas hipóteses: incapacidade
intelectual ou preguiça do aluno. E num mundo cada vez mais competitivo é
tentador cair na ilusão de uma educação para o sucesso em detrimento de uma
educação para os afectos.
Que
se perceba que só uma árvore bem nutrida e enraizada em solo fértil dá os
melhores frutos. Uma alfabetização emocional antecede obrigatoriamente o
percurso académico. Para que as crianças integrem a leitura é necessário que
tenham tido a possibilidade de aprender a relacionar-se com o mundo, ligando
percepções, pensamentos e afectos, antes de aprender a ligar as letras. Ler à
nossa volta. Para aprenderem a fazer contas é preciso que possam “subtrair” e
“dividir” sem medo de ficarem sem nada ao sentirem que já têm pouco. Afecto,
atenção, disponibilidade.
Quando
os momentos em família se resumem a uma correria para o banho, trabalhos e
jantar, um dia após o outro, sobra pouco tempo para os laços familiares. O lazer em família deve ser
encarado com o mesmo respeito que qualquer outra tarefa do quotidiano. Porque
um passeio, um jogo de futebol, um desenho, andar de bicicleta ou um mero
ataque de cócegas de vez em quando dão força e entusiasmo às crianças para
crescer afectivamente mais estruturadas e esse é o único caminho para que mais
tarde possam enfrentar os obstáculos com a barriga cheia de amor, coragem e
confiança. As crianças precisam sentir que são importantes na vida dos seus
pais. O alimento para a alma é tão importante que todas as crianças prefeririam
passar mais tempo com os seus pais em detrimento de outros bens materiais. Uma
família unida por laços de afecto e pelo prazer em estar na companhia uns dos
outros será a força motriz para enfrentar tudo o que está para vir.
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terça-feira, 29 de julho de 2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
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https://www.facebook.com/pedratoque
Mas não se vão embora. Por aqui tudo continua igual. Até já!
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segunda-feira, 21 de julho de 2014
Medo e Desconforto de Pensar
Um artigo publicado pela revista Science (Just think: The challenges of the disengaged mind) revelou, entre outras coisas, que alguns inquiridos preferem auto-administrar choques eléctricos do que ficarem a sós com os seus pensamentos.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Let the Children Play
![]() |
| Finn Beales |
Deixem as crianças brincar. "Isto é um assunto muito sério". Em algum
momento esquecemos o significado do conceito 'férias'. Foi no momento em que
nos tornámos escravos do sucesso académico das nossas crianças. Em busca da
criança mais espectacular (como comprovativo dos educadores espectaculares que
somos) servimos-lhes uma cópia ao pequeno-almoço, contas de dividir ao almoço
e, com sorte, uma ficha de estudo do meio ao jantar. Deixem as crianças
brincar. Que esqueçam a tabuada mas aproveitem para contar o troco do gelado,
que esqueçam o corpo humano mas sintam os músculos cansados, que esqueçam as
dinastias mas possam visitar os castelos. Viver, em vez de decorar. Que do
Verão recordem os mergulhos, a bicicleta, o sal na pele, os golos, o cabelo
molhado, as raquetes de ténis e a boca suja de açúcar. Que não se recordem de
mais que isso. Como criamos espaço para o novo se não nos libertamos do que é
velho?
Respire-se fundo.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Sobre o Handling à moda de Osho
Se
não exploraste o teu corpo, não saberás explorar a alma. A metodologia da
exploração é a mesma, mas começa com o corpo porque o corpo é a parte visível
da alma.
Osho
terça-feira, 15 de julho de 2014
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Do Outro Lado do Espelho
O
que nos mostra afinal um espelho? O espelho reflecte uma imagem, mas o que nós percepcionamos
dessa imagem é sempre uma interpretação pessoal e única. Ou seja, a percepção é
subjectiva. O “espelho” reflecte aquilo que queremos/conseguimos ver e, por
isso, é “mentiroso”. Às vezes mostra algo em excesso, outras, mostra por
defeito. Por vezes, entorta o que está direito mas também endireita o que está
torto. Assim, quando duas pessoas se encontram em frente a um mesmo espelho,
vêem coisas diferentes e avaliam o que vêem de maneira diferente. Como também
cada artista aborda de maneira diferente a mesma realidade ou tema na sua obra.
Não há duas percepções iguais.
Esta
ideia de subjectividade aplica-se não apenas à percepção visual mas também a
muitas outras questões que percepcionamos na nossa realidade do dia-a-dia. É
válida para a ideia-imagem que fazemos de nós próprios mas também para a ideia-imagem
que fazemos dos outros e da vida em geral. Quando fazemos um julgamento sobre
nós ou sobre os outros, nunca podemos considerar-nos juízes imparciais. E por
isso é perigoso ver as coisas a preto ou branco. Pouca coisa será verdade
absoluta no mundo e particularmente nas relações entre as pessoas onde cada um
pensa e interpreta as situações consoante as suas “lentes”. Em última análise,
o que é isso da realidade senão a nossa interpretação? Quantas vezes nos
apercebemos de que a nossa visão das coisas difere daquilo que os outros pensam?
Até as noções de certo ou errado são referenciais que variam muito de pessoa
para pessoa. Na verdade, dificilmente podemos pretender ver a realidade nua e
crua, livre de leituras subjectivas, de opiniões intoxicadas ou de lentes
embaciadas.
Porém,
o que faz de nós quem somos reside também nessa visão única que temos do mundo
e das coisas. É dessa riqueza que nasce ao vermos o mundo de forma diferente
que se faz a massa humana. É por pensarmos todos de forma diferente que nascem
as mais belas ideias. Podemos não ser capazes de apreender a realidade tal e
qual como ela é mas ter esta consciência torna-nos mais livres para poder um
dia ver as coisas de outra perspectiva, para espreitar por detrás do espelho e procurar
se lá se esconde uma outra verdade. Torna-nos também capazes da grande
faculdade de ouvir os outros, de aceitar outras realidades e outros sentires.
De valorizar aquilo que, apesar de nos ser estranho, até pode fazer sentido. Do
outro lado do espelho, para lá daquilo que vemos, está então aquilo que nem
sempre conseguimos ver: um mundo inteiro de outras possibilidades à nossa
espera.
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Metáforas Deliciosas
lembra
daqueles termómetros que usávamos na boca
quando
eramos pequenininhos?
lembra
da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é
em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando
o vidro do termómetro se quebra
o
elemento químico se espalha
e
então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio
se multiplicando
acho
que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor
(Matilde
Campilho, fevereiro)
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Com Cinco Sentidos
![]() |
| ilustração de Justine Brax |
Foram-nos
dados cinco sentidos. Cinco instrumentos maravilhosos sem os quais seria muito
mais difícil relacionarmo-nos com o mundo. São, todos eles, ferramentas
relacionais e, sendo nós “animais relacionais”, quanto melhor usamos essas
ferramentas, mais integrados nos sentiremos. A pergunta que se coloca é: desses
cinco sentidos, com quantos verdadeiramente vivemos a nossa vida?
Olhamos,
mas olhar é diferente de ver. Ver é olhar com interesse e com presença. Estando
verdadeiramente ali. Observar os detalhes do mundo é uma forma de viver o
momento presente, retirando o foco da nossa atenção do passado e do futuro. Ver
o céu, o mar, as árvores. Ver as pessoas.
Precisamos
de escutar, que é diferente de ouvir. Escutar é ouvir com atenção, com
disponibilidade e com abertura de espírito. Parar de priorizar todas as
emoções, pensamentos, crenças e/ou preconceitos com que recebemos, a priori, tudo o que ouvimos. Tudo isso
que carregamos connosco satura-nos o espaço mental de tal forma que não somos
capazes de escutar mais nada. Para escutar é preciso ter espaço dentro de nós
para acolher aquilo que estamos a ouvir. Seja música, seja a palavra do outro
ou as nossas próprias palavras.
Precisamos
de usar bem o nosso tacto. Usá-lo para sentir, que é diferente de tocar. Somos
seres de pele, o órgão mais sensível que temos. Tocar as plantas, os animais, receber
essa energia que arrepia, sentir o frio e o calor, o suave e o áspero, que nos
produzem emoções distintas (ora agradáveis ora desagradáveis) mas que por isso
mesmo nos fazem sentir vivos. Sentir o outro. Abraçar.
Precisamos
de cheirar. O cheiro é armazenador e despoletador de memórias e, por isso, tão
relacional como todos os outros sentidos. Cheirar a terra molhada, a relva
cortada, as flores, o mar, o fumo dos carros ou das chaminés, o cabelo dos
nossos amores e as sardinhas assadas.
Também
precisamos de saborear, que é diferente de comer. Saborear é desfrutar, com
prazer. Sem pressa nem avidez. Com tranquilidade e presença. Saborear o
alimento ou saborear um beijo (que também alimenta).
E
eventualmente, se quisermos falar de um sexto sentido, talvez pensar que só se
possa desenvolver se usarmos em pleno os outros cinco. Se vivermos com
presença, com atenção e disponibilidade para o mundo – sabendo ver, escutar, sentir, cheirar e
saborear os momentos e as pessoas. Só assim podemos eventualmente aceder a
algum tipo de insight a que podemos,
então, chamar de intuição.
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segunda-feira, 23 de junho de 2014
Matilde Campilho
Há neste planeta chamado Terra uma mulher com
ar de menina que tem uma sensibilidade de outra galáxia e uma maneira deliciosa
de a verter para palavras. Tem um videopoema que diz:
"É terrível a existência de duas rectas paralelas
Porque
elas nunca se cruzam
E elas
apenas se encontram no infinito"
E então eu digo ainda bem que não foi preciso esperar pelo infinito para a encontrar. Abençoadas as perpendicularidades da minha vida!
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Pedrinha (Das Separações e das Zangas)
Na
última sessão, três meses depois, Celina (11 anos) repetia para o pai sem o
olhar: “Não gosto de ti! Não te quero ver!”.
Eu
intervenho com a tradução latente, para o pai: “ A Celina não quer ver, não
porque não gosta, mas porque gosta mesmo muito do seu pai!...”
O
tom afirmativo e seguro da minha voz ajudou Celina a aceitá-lo. Fica muito
menos tensa e caem-lhe lágrimas em silêncio.
O
pai, que era de facto um homem inteligente e seguro, colabora de modo
excelente. Após um silêncio pergunta-lhe suavemente quando pode ir buscá-la a
casa para lancharem juntos.
Esta
responde: “Lá para Novembro!” (estamos em Agosto). Numa intuição notável, o pai
insiste: “Então talvez logo às cinco da tarde…” – “Bem, não sei! Não sei se
tenho compromissos. Tenho que perguntar à mãe se posso.”
Já
que a mãe e a terapeuta consentem este amor, ele não é mais causa de sofrimento.
Saio do gabinete e deixo-os a combinar pormenores.
Teresa Ferreira in A Defesa da Criança
terça-feira, 17 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Liberdades e Libertações
No dicionário, a definição de liberdade aponta para: “Direito ou
condição de alguém dispor de si, de fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Condição de homem livre. Independência.” É um conceito filosófico que norteia e
simultaneamente intriga a humanidade desde sempre por ser tão fácil perceber
que a ideia de liberdade tem limites e
limitações. O Homem que vive em sociedade sabe que não pode
ser absolutamente livre. Pelo menos no que respeita às normas de conduta e aos
deveres a que não pode fugir. São limites da realidade.
Então de novo olhamos para a filosofia, para
a psicologia e para a psicanálise que, abordando outros vértices da ideia de
liberdade, nos ensinam sobre a “liberdade de ser”. E ensinam-nos sobre ser
autêntico, ser espontâneo, ser eu mesmo independentemente da vontade dos
outros. Falam-nos da liberdade de não assumir uma identidade que não me
pertence unicamente para agradar ao(s) outro(s). Contam-nos sobre o poder de
encontrar a minha própria verdade, pois é a procura
da verdade que nos liberta (sejam verdades sobre nós, sobre os outros, ou sobre
o mundo). O caminho explica-nos que conhecimento é também liberdade. Querer
ser livre de saber e querer saber para ser livre.
Nesta linha, já Descartes dizia que age com mais liberdade quem melhor
compreende as alternativas que antecedem a escolha. E assim, só quem teve a
possibilidade de tactear os vários caminhos possíveis poderá escolher
livremente por onde seguir, quem ser e o que fazer da sua vida. Se sentirmos
que podemos traçar o caminho que quisermos, podemos escolher mais livremente,
de acordo com o nosso desejo. Só nosso. Por outro lado, quando somos
doutrinados desde cedo, quando alguém nos aponta sistematicamente o caminho,
não há outra verdade para além daquela que nos é injectada. Vejam-se os regimes
ditatoriais, que impregnam a mente alheia de dogmas que impedem os indivíduos
de escolher outras alternativas. Não concebem a possibilidade de poder ser,
pensar e fazer diferente. É a total ausência de liberdade. É o pensamento
escravizado logo desde que nasce e que bloqueia à partida toda a expansão da mente.
E perante todos os condicionamentos envolventes,
os limites tornam-se limitações. Estas, se não devidamente questionadas, podem
passar despercebidas toda uma vida. Padrões de funcionamento/pensamento
vincados em nós que nos dão a ilusão de sermos livres quando, em boa verdade,
somos escravos de nós mesmos, sem o sabermos. Portanto podemos dizer que nunca seremos totalmente livres enquanto a
causa/origem dos nossos comportamentos permanecer tantas vezes desconhecida.
São dados excluídos da consciência e aos quais só conseguimos ter acesso depois
de superadas determinadas defesas e resistências (também elas na maioria das
vezes inconscientes).
Contudo, a beleza de tudo isto é que estas
limitações são mais fáceis de ultrapassar do que os limites da realidade (que
nos ultrapassam). Só dependem de nós. Somos nós que nos amarramos a nós mesmos. E quanto mais e melhor conhecermos a nossa verdade
interior, menos escravos seremos dos nossos medos, das nossas crenças, dos
nossos bloqueios. Seremos mais livres dos nossos traumas e das nossas defesas.
E só assim se faz o caminho para uma maior liberdade de ser. Essa, uma vez conquistada, ninguém nos pode tirar. Será, no fim de
contas, a mais nossa, única, e a mais importante de todas.
domingo, 8 de junho de 2014
Retomada do Amadurecimento
segunda-feira, 2 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Vai-te embora, ó medo!
Não
são apenas as crianças que têm medos. O medo é uma emoção humana transversal a
todas as idades e, uma vez ultrapassados os medos do escuro, da trovoada e das
figuras monstruosas do imaginário infantil, podem surgir de outra forma, mais
relacionados com a realidade e com o dia-a-dia nas nossas vidas.
O
medo é por demais evidente quando o nosso organismo reage. Dependendo da
intensidade desse medo, podemos simplesmente sentir um aperto do estômago ou
uma necessidade de respirar fundo, mas também é possível que sintamos disparos
do coração e alterações na respiração culminando, no limite, naquilo que
chamamos um ataque de pânico. O suor pode inundar a pele e podemos sentir dor
em diversas partes do corpo. O medo é visceral e será talvez a mais antiga
emoção humana, por vezes útil, sinalizando o que é perigoso fazer e evitando
desgraças maiores. Foi fundamental para a preservação da espécie e na sua
ausência provavelmente estaríamos extintos há milhares de anos.
Por
outro lado, o excesso de medo pode bloquear-nos a possibilidade de viver coisas
boas. Por medo de sofrer consequências dolorosas (físicas ou psicológicas) podemos
tornar-nos incapazes de muita coisa. Muitas pessoas deixam de ser elas próprias
por medo de não serem gostados tal e qual como são. Outros não se ligam a
ninguém por medo de sofrer mais tarde uma decepção ou abandono. Por outro lado,
estar sempre acompanhado também pode ser uma reacção ao medo, medo de estar só
e de tomar conta de si mesmo. Há quem se recuse a aventurar-se em projectos
pessoais por medo que não corra bem. Sonhos são engavetados e esquecidos.
Os
medos nem sempre são conscientes, ou seja, por vezes não nos sentimos ansiosos
nem a nossa barriga se aperta, mas usamos racionalizações para justificar
porque é que não saímos da nossa zona de conforto. Dizemos: “não me dá jeito”,
“não ligo muito a essas coisas”, “não me interessa”, “estou bem assim”, “não
quero assim tanto”. Por trás, inconscientemente, espreita a verdade escondida,
um medo que não nos deixa avançar e arriscar. O medo do erro, do fracasso, da
punição, da dor, do abandono, da solidão ou da morte, são angústias humanas que
condicionam muitas vezes o caminho que escolhemos. Ou que não escolhemos. O
medo leva-nos a fugir. Ficar quieto também é fugir. E fugir pode ser bom, se isso
nos proteger de um perigo, mas será mau se nos afastar de experiências e vivências
importantes. Há muitas perguntas para as quais não temos resposta. Irá correr
bem? Devo ir por aqui ou por ali? Estou a fazer as coisas da forma certa?
Pensar e questionar não é o problema, pelo contrário. O problema é quando o
medo das respostas não nos deixa abraçar as interrogações com coragem e, assim
sendo, por medo de viver, não vivemos de todo.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Divulgação
Caríssimos, boa tarde!
É com muita alegria que informo que a partir desta semana começarei também a dar consultas (Psicoterapia/ Psicologia Clínica) no coração de Lisboa, que é um coração muito grande e me acolheu com muito carinho. O consultório está situado na Rua Joaquim António de Aguiar (entre Amoreiras e Marquês de Pombal).
Para mais informações, enviar email (s_pracana@hotmail.com) ou comunicar para número na secção dos contactos (acima).
S.
É com muita alegria que informo que a partir desta semana começarei também a dar consultas (Psicoterapia/ Psicologia Clínica) no coração de Lisboa, que é um coração muito grande e me acolheu com muito carinho. O consultório está situado na Rua Joaquim António de Aguiar (entre Amoreiras e Marquês de Pombal).
Para mais informações, enviar email (s_pracana@hotmail.com) ou comunicar para número na secção dos contactos (acima).
S.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Encontros a meio caminho
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segunda-feira, 19 de maio de 2014
Uma Psicanálise do Encontro Educativo
“O diálogo que me foi
construindo como profissional, assente numa dupla filiação em Psicanálise e
Educação, devo-o certamente a João dos Santos e aos momentos em que nas salas
da Universidade, ainda na Pinheiro Chagas, nos encontrávamos com ele, uns com
os outros e com a Psicologia. Nesses encontros João dos Santos fazia entrar sem
cerimónia o mundo grande, a complexidade e o enigma, a cultura e a educação, a
escola e a infância, a pedagogia e a terapia, a psicanálise e a importância de
nos questionarmos a nós próprios.
É uma
curiosa e feliz coincidência que o ano de nascimento de João dos Santos (1913)
seja o ano em que Sigmund Freud publicava o seu trabalho “O interesse
da Psicanálise”, apontando nesse magnífico texto o denominador comum entre
a Psicanálise e a Educação: o facto de ambas reconhecerem a importância
decisiva da infância na evolução do homem. Escreve então : ” A
Psicanálise viu-se obrigada a fazer derivar a vida psíquica do adulto da vida
psíquica da criança e a tomar a sério o adágio popular de que a criança é o pai
do homem. Estudou a continuidade da psique infantil no adulto, identificou as
transformações e as mudanças que se cumprem nesse caminho e encontrou a confirmação
do que já havíamos frequentemente pressentido: a extraordinária importância,
para todo o curso ulterior da vida do homem, das suas experiências infantis e
em particular das que ocorrem nos primeiros anos da infância (…) A contribuição
principal da Psicanálise para a educação é o reconhecimento da importância da
Infância”.
É também
neste texto de 1913 que podemos ler: «O maior interesse da Psicanálise
para a Ciência da Educação funda-se sobre um enunciado que se tornou evidente,
o de que não pode ser educador senão aquele que pode sentir do interior a vida
psíquica infantil e quando nós, adultos, não compreendemos as crianças é porque
deixámos de compreender a nossa própria infância».
Como que
respondendo a este desafio, João dos Santos, psicanalista e pedagogo, pioneiro
do diálogo entre a Psicanálise e a Educação em Portugal, torna o enunciado
freudiano o fundamento da sua obra convidando cada adulto e nele cada educador
a encontrar-se com a criança que guarda dentro de si para que, sentindo
do interior a vida psíquica infantil, possa encontrar-se com a
criança e educar… Educar, é oferecer-se como modelo (JS).
Educação
designa simultaneamente um processo e o resultado desse processo. O processo
consiste num trabalho de formação pelo qual a criança é chamada a desenvolver
as faculdades que a definem como ser humano e o produto deste trabalho de
formação, a bem dizer interminável, é a realização no sujeito das
características constituivas dessa humanidade. Sabemos que o processo educativo
implica um campo de influências múltiplas e recíprocas entre adultos – pais,
professores, educadores – crianças e adolescentes e que o caminho da educação é
pontuado por encontros que vão permitindo a construção do ser e o seu
desenvolvimento. No coração do desenvolvimento está a relação. A complexidade
desta relação é tal que é difícil de dizer o que nela age e o que ela
transforma, mas que é da ordem do encontro, parece indubitável. E se é bem
verdade que todo o encontro humano é um enigma, não temos hoje qualquer dúvida
de que os agentes de transformação são as pessoas e não as estruturas. No
coração do desenvolvimento está a relação e é também a relação que está
no coração do encontro educativo: “Só se educa quando uma relação
humana se estabelece, se desenvolve e se confirma na intimidade de cada uma da
crianças e adultos em presença” (JS).
Marcel
Postic no seu livro A relação pedagógica esclarece: “A
relação pedagógica torna-se educativa quando em vez de se reduzir à transmissão
do saber, compromete as pessoas em presença num encontro onde cada um descobre
o outro e se vê a si mesmo e onde começa uma aventura humana pela qual o adulto
vai nascer na criança. João dos Santos não se cansa de o lembrar: “Educar
é basicamente estabelecer uma relação, a relação implica que o objeto de amor
seja investido. Aquele que faz o primeiro movimento deve ter disponibilidade
para receber as descargas afetivas no esboço de comunicação que se estabelece.
A comunicação define-se como energia que passa num certo sentido e no sentido
inverso (…) “A pedagogia e a didática funcionam melhor quando são instrumentos
de comunicação reciproca”(…). No plano pré-educativo da relação básica, como no
plano da educação, a relação deve ser entendida como uma disponibilidade
afetiva para dar e receber amor terno e amor agressivo” (JS).
Parece-me
que a formação de educadores e professores dever dar uma prioridade absoluta à
relação pedagógica, pois que o trabalho educativo é essencialmente um trabalho
de ligação. É um trabalho que se inicia sempre por uma ligação humana, a partir
da qual se torna possível levar o aluno a estabelecer ligações com os objectos
mais distantes que constituem a cultura e os saberes. Toda a relação é sustentada
e animada por processos de identificação recíproca ou mútua e o encontro educativo
não foge a esta regra: ao desejo de apropriação por parte do educando tem que
corresponder um desejo de dádiva do educador. O educador/professor oferece-se
como objeto desejável de aprendizagem e o educando como objeto desejável de
educar. “O encontro não é só obra do acaso, é também obra da disponibilidade
recíproca daqueles que se encontram. O encontro depende da convicção do que de
perene existe nos nossos semelhantes” (JS).
Na relação com os outros, mesmo que
mediada pela transmissão de um conhecimento, como é o caso da escola, não
estamos nunca desimplicados, estamos com a nossa história, feita a nossa
pessoa. Cada um de nós sabe-o, sentiu-o, experimentou-o. Basta que evoquemos o
nosso passado escolar para que surja toda a gama de sentimentos que tecem a
relação com a aprendizagem: angústias e alegrias, entusiasmos e deceções,
proximidade e afastamento, adesões e ruturas. A escola está em cada momento e
em cada sala cheia de fenómenos afetivos, de narrativas de vida silenciosas,
que uns e outros contam, escutam e às quais respondem. Cada momento de
ensino/aprendizagem é a história de um encontro, mais ou menos conseguido,
entre um professor, um aluno e um saber. Cada actor em cena quando convoca o
saber, convoca igualmente em cada um dos seus actos toda a sua pessoa, uma
história de vida e um projecto de vida, melhor ou pior sucedidos, uma memória implícita,
activa, representações, sentimentos, valores, uma ideia de humano, de criança,
de adulto, uma ideia de crescimento, uma ideia de aprendizagem, expectativas,
dúvidas, paixões, violências, desilusões, sucessos e frustrações, desejos de
reconhecimento, pulsões construtivas mas igualmente pulsões destrutivas de
domínio e de controlo. Uma tal implicação é em si mesma constitutiva do
encontro e, sendo inevitável, longe de ser inoportuna é mesmo útil e desejável.
Não encontramos os outros e os outros não se encontrarão connosco senão através
da nossa presença e autenticidade.
“Não
existe, nem creio que alguma vez exista, uma forma exata de educar, pois que a
sociedade está constantemente a evoluir e a sua própria evolução implica a
negação pela juventude da validade dos princípios educativos imposta pelos
antecessores. Não existem educadores perfeitos, e quando há pretensos
educadores perfeitos, os seus produtos são casos patológicos” pensava
João dos Santos, e tudo quanto aconselhava, no estado atual dos nossos
conhecimentos, precisava, era que “cada um eduque com verdade e
espontaneamente e que os educadores sejam personagens reais e não autómatos
eruditos e sofisticados (…) Se a educação pode ser encarada como um fenómeno
cultural que orienta o diálogo com o educando e os outros educadores, a ação
educativa deve sempre basear-se na relação espontânea, afetiva e instintiva
pois que quem educa são as personagens verdadeiras e não as figuras ideais. Não
se educa com teorias mas com princípios e preconceitos adquiridos na
experiência e no convívio familiar e comunitário, não sendo a educação uma
matéria que se ensine, mas fundamentalmente uma atitude que reflete o confronto
entre as vivências do educando que fomos com o educador que pretendemos ser” (JS).
Que
educadores pretendemos ser?
Escolhermos
ocupar-nos de crianças ou jovens é reencontrar a nossa própria infância e
juventude. Mesmo que não guardemos recordações conscientes, não deixamos
de ser menos habitados por essas idades pois foi lá que nascemos para para a
relação, para a percepção de nós e dos outros. Cada educador revive e transpõe
afetos e sentimentos com origem em lugares do seu passado (mas nem por isso
menos presentes e atuantes no seu mundo interno) para os lugares e relações do
presente e também para a sua relação com o conhecimento e com cada um dos seus
educandos, dos seus alunos. Este é um dos maiores contributos da Psicanálise
para as Ciências da Educação e aquele que João dos Santos, como psicanalista do
encontro educativo, permanentemente nos lembra. Em cada uma das suas histórias
– contador de histórias como gostava de se apelidar – fala-nos deste Outro em
nós, desta nossa parte de enigma, irracional e secreta “Toda a pessoa
guarda um segredo e o segredo do homem é a própria Infância” eda sua
influência nas relações que estabelecemos. Este Outro, dimensão Inconsciente na
terminologia psicanalítica, é o que nos move, o que permanentemente nos escapa
e o que teima em reaparecer em cada um dos nossos encontros educativos. É
importante conhecê-lo, dizendo de outro modo, é importante que nos conheçamos.
“A
motivação para os problemas da criança, escreve João dos Santos, reside na
própria infância de cada um, a experiência infantil acompanha-nos pela vida
fora, e assim, podemos admitir que, tal como a Obra tem uma estrutura de base e
toda a construção um alicerce, também a personalidade tem uma base ou alicerce,
que é a infância. Tal como o edifício depois de acabado, retocado e
experimentado não pode dispensar os alicerces, também a pessoa não pode
mentalmente anular a experiência e as vivências da sua criação. As pessoas
adultas equilibradas guardam saudavelmente certos factos infantis ou juvenis. O
adulto vê a infância e juventude do outro através do imago que ele se fez da
sua própria infância e juventude, para se rever nas suas aspirações
bem-sucedidas ou para reagir contra o fracasso das suas rebeldias. O educador
pensa em termos daquilo que deve ser mas, com frequência, aquilo que o educador
acha que deve ser corresponde à maneira como ele próprio se organizou, quando
criança ou jovem, de acordo ou em desacordo com aquilo que lhe impuseram” (JS).
Como
Ciência do Humano a Psicanálise procura dar voz a este Outro, escutando a
dinâmica do mundo interior, as experiências e personagens que o habitaram e
habitam, trazer compreensibilidade aos comportamentos e atitudes que não se
reduzem nunca apenas ao que dão a ver. Ciência das profundidades, não das
superfícies, a Psicanálise do Encontro Educativo propõe-nos uma
Investigação/ação que toma como objeto a dinâmica dos processos psíquicos que
influenciam a intersubjetividade e as vias através das quais um ser humano se
constrói, se desconstrói e se pode ainda reconstruir, reconhecendo em cada ser
humano um sujeito que ainda não é… paradigma tão caro a João
dos Santos: a educabilidade. Convida-nos a um diálogo entre observação e
auto-observação, à reflexividade e a questionarmos as nossas atitudes e atos
pedagógicos, de uma forma aberta e atenta ao educando. Um convite a que
trabalhando com a criança, o educador trabalhe igualmente sobre si próprio,
para que não fique aprisionado nas malhas da repetição “(…) Os mestres
são modelos, modelos de disponibilidade. Ser ou estar disponível é ter uma
vida interior que se organiza em termos de deixar espaço para a
sensibilidade e para a sabedoria dos outros” (JS).
A Psicanálise do encontro educativo
ensina-nos sobretudo que a afetividade é indissociável do desenvolvimento da
inteligência e que a palavra que o adulto dirige à criança traz com ela afetos
que ressoam longamente pela vida, pois que as palavras antes de significarem
alguma coisa significam alguma coisa para alguém.
Se como
diz Edgar Morin, em entrevista ao Jornal Le Monde, a missão
essencial da educação e do ensino é a de nos preparar para viver, então os
conhecimentos vitais, do Ensino Básico à Universidade, não serão essencialmente
os conhecimentos “sobre” o Ser Humano mas os de “como” ser Humano. Esse é
também o ensinamento e o desafio que João dos Santos parece lançar a este novo
século e ao educador em cada um de nós."
Santarém,
8 de Novembro 2013
Maria
Teresa Casanova Sá
* Comunicação na Conferência “XXI
Jornadas da Prática Profissional da Escola Superior de Educação de Santarém – O
Segredo do Homem é a própria Infância: pensar em Educação com João dos Santos”,
proferida pela Dra Maria Teresa Casanova Sá, 8 de Novembro de 2013
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Pedrinha (Da Solidão)
A solidão não é
viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a
alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma
planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz.
José
Saramago
terça-feira, 13 de maio de 2014
segunda-feira, 12 de maio de 2014
A Adição
Quando
pensamos em dependências associamos frequentemente à toxicodependência, talvez
a mais debatida nas últimas décadas. Mas aos poucos fomos percebendo outras manifestações
de dependência, expressas no álcool, jogo, alimentos ou sexo. Hoje estendemos
este conceito às compras, aos jogos, à internet e qualquer outro comportamento aparentemente
fora do controlo do indivíduo e/ou que limite e prejudique a sua vida quotidiana.
Chamamos-lhes
dependências, adições (ou comportamentos aditivos), e entendemos por isto quaisquer
acções que o sujeito realize de forma compulsiva, com base num impulso
incontrolável que faz com que não sossegue enquanto não o concretiza (independentemente
de “em quê” irá aplicar esse impulso). Esta problemática acarreta sempre uma
diminuição ou perda de liberdade, pois é-se escravo da compulsão. Sendo
dominado por estes impulsos, o desejo de consumir (seja lá o que for) torna-se
frequentemente mais importante do que a relação com os outros e, inclusivamente,
do que os próprios interesses e necessidades. É possível que esta compulsão
conduza à ruína da vida familiar, social, profissional ou financeira, no
entanto, também há comportamentos aditivos mais mascarados e sem uma forma de prejuízo
tão visível a olho nu.
Os comportamentos aditivos são
comportamentos que visam a procura de prazer imediato. Por norma procura-se com
eles preencher um vazio interno e dissipar algum tipo de mal-estar
psicológico, mais ou menos leve e muitas vezes inconsciente. Contudo, sendo uma solução enganosa, muito rapidamente o prazer se
dissipa e torna a sentir-se vazio ou mal-estar, repetindo-se o comportamento
em busca de novo alívio. No caso da toxicodependência e do alcoolismo é amplamente
conhecido o efeito dos agentes químicos causadores de dependência (física) mas a
compreensão dos mecanismos aditivos (dependência psicológica) exige sobretudo a compreensão das “falhas
afectivas” subjacentes.
A grande maioria dos autores que estudam as
perturbações do comportamento aditivo (e das dependências no geral) falam de uma espécie de falha no desenvolvimento
afectivo mais precoce, normalmente relacionada com dificuldades no processo primário de
separação entre o bebé e a sua mãe (e consequente dificuldade de individuação do sujeito - que, no limite, todos temos em maior ou menor grau). Falam ainda de uma falha na função paterna (o pai “separa” a mãe do seu bebé
introduzindo-se como um terceiro na relação de dependência primordial). Não se
concretizando adequadamente o processo de separação e autonomização (talvez o processo mais delicado na vida do ser humano), dá-se, inconscientemente, uma busca externa, compulsiva, do objecto perdido,
sob a forma de adição.
É,
assim, importante perceber de que é o indivíduo está à procura e,
simultaneamente, do que é que está a fugir, pois a adição serve também para obscurecer
e manter afastadas da consciência as experiências dolorosas. Somos peritos em
manobras de ilusionismo para negar a nossa própria dor, contudo, estando lá, cedo
ou tarde se manifesta.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Sigmund Freud, O Pai
Neste dia, no
ano de 1856, nascia em Freiberg, na Moravia (antigo Império Austríaco, actual
República Checa), Sigmund Schlomo Freud. Sendo inequivocamente um dos
mais importantes e controversos pensadores do século 20, Freud criou, não
apenas um método, mas todo um inovador e aprofundado entendimento da
complexidade do Homem, levando em conta os aspectos conscientes e inconscientes
da sua vida mental. É justamente
designado como "Pai" da Psicanálise, por "dar à
luz" a teoria mais completa para a compreensão do funcionamento mental no Homo Sapiens Sapiens (o Homem que sabe
que sabe). E que tanto sabe que usa (inconscientemente) as melhores manobras de
ilusão na arte de se enganar a si mesmo.
Freud
mostrou-nos, em parte, as "trevas" que carregamos dentro de nós mas
ofereceu-nos igualmente o caminho que nos conduz à "luz". Hoje, a
Psicanálise (e as suas “filhas”, as psicoterapias de inspiração psicanalítica) continua
a ser uma viagem fabulosa que nos oferece o conhecimento, a verdade e a
liberdade. Para os que têm coragem de dobrar o Cabo das Tormentas e enfrentar
os seus Adamastores, grandes Glórias no Horizonte!
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domingo, 4 de maio de 2014
Canção da Ausência
I wanted you but you didn't want me,
So I got to tell you, goodbye, goodbye."
Ou como hoje li por aí: “o vazio absoluto, irremediável rasgão na alma, de não se ter no coração a ideia de Mãe”
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Inteligência Emocional
A
inteligência é um conceito vasto, que tem sido tradicionalmente associado a uma
medida, de seu nome, quociente de inteligência (Q.I.). Tornou-se moda medir e avaliar
o quociente de inteligência como se isso fosse um indicador seguro das nossas
competências e capacidades e de maior/menor sucesso pessoal e profissional. Contudo,
face a alguns dados importantes, a era do Q.I. está a chegar ao fim. Aproximamo-nos
gradualmente da ideia de que há uma forma de inteligência mais importante que
todas as outras, a chamada “inteligência emocional”.
Esta
constatação acerca da pertinência da inteligência emocional significa que nos interessa,
em primeiro lugar, que as pessoas tenham a capacidade de dominar uma série de
processos de ordem emocional para se desenvolverem adequadamente ao longo da
vida. E assim, perante a necessidade de dar um nome ao processo do bom
desenvolvimento psicológico, chamámos-lhe inteligência emocional. É um nome
como outro qualquer (e a palavra “inteligência” continua a “vender” muito bem)
mas o que interessa é que por inteligência emocional se entenda, acima de tudo,
a capacidade de ter uma relação saudável com as nossas emoções e, consequentemente,
com as emoções dos outros. Isto demonstra-se na relação comigo mesmo e com o
mundo, e revela-se também na habilidade de comunicar, de expressar as minhas
ideias e de receber adequadamente as ideias dos outros. Como não vivemos
sozinhos, a capacidade de termos boas relações com os outros é fundamental,
caso contrário, viveremos rodeados de problemas, obstáculos e conflitos.
Pela
possibilidade de recorrermos a capacidades fundamentais como a consciência,
reflexividade, autoconfiança, autonomia, entusiasmo, plasticidade e empatia
(capacidade de me colocar no lugar do outro), tornamo-nos mais competentes em
todas as áreas da nossa vida: pessoal, social, relacional e profissional. Sem
elas, facilmente deprimimos, desmotivamos ou incompatibilizamo-nos, e aí, nem o
Q.I. mais elevado do mundo nos trará felicidade/sucesso. Para triunfar, não basta
competência técnica.
Infelizmente,
o sistema escolar tradicional ainda não ensina nada sobre os afectos nem sobre
ética relacional, permanecendo demasiado preso à noção de inteligência na sua
perspectiva mais quantitativa. Contudo, as emoções treinam-se (ou
desenvolvem-se), preferencialmente, no seio de um bom ambiente familiar
(emocionalmente organizado e desenvolvido). Em acréscimo ou alternativa, podemos felizmente recorrer a uma psicoterapia, psicanálise e/ou a outras formas de reflexão, expressão
e análise. Para nosso bem e para bem dos outros.
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