Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Perguntas Difíceis
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domingo, 23 de fevereiro de 2014
Experiência
Student: "What do I do to become
wise?"
Guru: "Make good choices"
Student: "How do I make good choices?"
Guru: "Experience"
Student: "How do I get experience?"
Guru: "Bad choices"
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Doente, certamente!
O
medo constante de ficar doente e a interpretação de sensações naturais do
organismo como sinais de uma doença grave são os principais indícios que
caracterizam a hipocondria. Mas, para lá do medo de ter uma doença
física, existe sobretudo uma certeza profunda de estar doente, baseada na
interpretação exagerada dessas percepções corporais banais. De médico em
médico, nem uma ou mesmo várias opiniões clínicas favoráveis serão suficientes
para eliminar esta ansiedade, que assume uma dinâmica que se
aproxima da paranóia.
Sendo uma
perturbação ligada à ansiedade, reflecte uma angústia que, não conseguindo ser
pensada e entendida, se reverte no próprio corpo. O sujeito sente uma espécie
de pânico perante sensações corporais exageradas, mas naturalmente não é capaz
de entender que esse pânico tem raízes inconscientes, que não se relacionam com
o seu corpo. Há muito se sabe que o corpo não se reduz ao orgânico e que é a
dimensão relacional do sujeito que sustenta afinal todas as funções da vida.
Lembramo-nos dos bebés. Antes da aquisição da linguagem e domínio
da palavra, ou seja, antes da aquisição do pensamento propriamente dito, os
bebés expressam-se através do corpo. Contudo, usar o corpo como veículo de
comunicação, mesmo sendo um recurso primitivo, também acontece em pessoas
adultas. Como entender então a génese da capacidade de pensar com a
mente e não com o corpo?
É
a mãe o nosso primeiro “aparelho pensante”. A mãe pensa por nós aquilo que inicialmente
não conseguimos pensar (porque o nosso desenvolvimento ainda não nos permite).
Aqui, se não há uma resposta adequada (empática, contentora e tradutora da ansiedade, afectiva), os elementos
sensoriais, emocionais e tónico-posturais podem ficar desligados entre si e
constituir-se como elementos estranhos e não integrados no pensamento. Estes
elementos passam assim a manifestar-se ilogicamente, sob a forma de uma
inquietação sem nome. No entanto, uma justificação deste género não sossegaria
também o hipocondríaco. A sua convicção é inabalável. Centrado nas suas
queixas, procura a confirmação das suas certezas, até porque não suporta a
incógnita, a angústia do desconhecido e a ambivalência da dúvida.
Sabendo
que é através das incógnitas que nos desenvolvemos e evoluímos (ao procurar
saber mais), diríamos que o
hipocondríaco fica fechado no seu espaço saturado, repetitivo, numa espécie de
ruminação. Pode adiantar-se, assim, que se revela um défice na capacidade de
pensar, não só desde o início da história do seu pensamento mas que se perpetua
pela incapacidade de desbloquear a angústia invasiva, impeditiva da expansão
mental. É, felizmente, possível atenuar o funcionamento hipocondríaco, fundamentalmente através do desenvolvimento de uma relação de confiança e posteriormente da criação da "função pensante" que ficou em suspenso algures lá atrás. Em psicoterapia, através de uma passagem progressiva do “Eu corporal”
para o "Eu pensante”, procurar-se-á dar um novo sentido a estas angústias, que
impedem o bem-estar e a possibilidade de viver uma vida mental, relacional e
social satisfatória.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O Elefante Acorrentado
"Quando eu era pequeno, adorava o circo e
aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o
elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos
outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um
peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de
voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca
cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas. No
entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns
centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me
óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua
força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me
evidente.
O que é que o prende, então? Porque é
que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos,
ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um
professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me
que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
— Se é amestrado, porque é que o
acorrentam?
Não me
lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o
mistério do elefante e da estaca e
só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito
essa pergunta. Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão
inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque
esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso
elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o
elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos
seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para
ele. Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e
no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o
animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino. Esse elefante
enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não
é capaz de o fazer. Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois
de nascer. E o pior é que nunca
mais tornou a questionar seriamente essa recordação. Jamais, jamais tentou pôr
novamente à prova a sua força."
Jorge Bucay in “Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver”
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Pedrinha (Do dito e do não-dito)
Nas relações intersubjetivas, as palavras não substituem nem alternam com as ações, mas fazem parte do reportório das ações. Nas relações interpessoais o que existe são trocas íntimas coloridas, ou trocas superficiais, em que a forma e o momento da troca são tanto ou mais importantes que a própria mensagem. Assim a mãe/pai que proclama um imenso amor pelo seu bebé, mas que - ao mesmo tempo - o mantém numa postura inapropriada, que não o olha e lhe fala num tom agressivo, evidencia no processo relacional duas ações contraditórias. Por um lado, na ação explícita declara que ama a sua criança, mas na ação não- verbal implícita exprime uma rejeição dessa mesma criança. A unidade mente/corpo e a relação implicam assim tanto os sentimentos e as emoções quanto as cognições, tanto os movimentos do corpo como as ações concretas. São assim os encontros intersubjetivos apreendidos na interface da teoria da relação, da neurociência e da biologia.
António Mendes Pedro
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
O conflito de gerações
Há
algum tempo a capa da revista Time apresentou-nos
a “Me Me Me Generation”,
categorizando a juventude actual como extremamente narcísica, individualista e
egocêntrica. Rapidamente se instalou a polémica perante essa capa que correu o
mundo. Em defesa dos jovens se diga que, por exemplo, é mais comum desenvolverem
comportamentos pró-ambientais do que um indivíduo de 50 ou 60 anos. Sendo o
planeta responsabilidade de todos, quem serão os mais individualistas? Há na
juventude, claramente, narcisismo e egocentrismo ‒ o que é diferente de individualismo. É
que os dois primeiros estão intimamente ligados ao processo de crescimento: narcisismo,
porque a identidade própria está em construção e necessita de ser reafirmada; egocentrismo,
porque a imaturidade torna difícil entender as coisas sob outros e diferentes pontos
de vista que não o próprio. Mas individualismo, atitude de não se preocupar com
os outros, será uma acusação injusta, pois se há coisa que caracteriza a
adolescência é a sensibilidade social e a busca de justiça. Vendo bem, quantos
adultos não são igualmente narcísicos e egocêntricos, tendo ficado suspensos no
seu caminho de crescimento pessoal?
Acusações
mediáticas à parte, há sempre tensão entre gerações. É com frequência que
opiniões públicas ou privadas a denegrir as gerações mais novas se fazem ouvir.
Porque se atacam tanto os jovens? Que os jovens possam criticar os “velhos” até
se entende, já que são eles os “miúdos”, inexperientes e justiceiros, para quem
é tão fácil apontar o dedo. Que os adultos respondam na mesma linguagem é que se
torna mais difícil de entender, pois deveriam ter algum entendimento sobre o
que ficou para trás. Será tão fácil esquecer o quanto as gerações sempre
chocaram entre si? Será tão difícil lembrar como os jovens de antigamente
também se diferenciaram dos seus pais? Tudo o que é diferente é estranho, mas
não necessariamente mau. O futuro o dirá.
Todas
as gerações são diferentes das gerações que as precederam. Se o mundo está em permanente
transformação como poderia ser de outra maneira? A verdade é que o ser humano
tem alguma dificuldade em responsabilizar-se pelo que acontece em seu redor mas
somos nós quem define a direcção em que se move o mundo. Para falar sobre
jovens, teremos de sempre de falar um pouco sobre quem foram os pais dos jovens
e de que cultura de valores foi criada para eles, seja em que época for. Se não
gostamos dos jovens que criámos teremos sempre de fazer um mea culpa sobre o mundo que construímos para eles.
Pedrinha (Dos afastamentos)
“De
repente, ela pôs-se a falar e o que dizia não fazia nenhum sentido. Deixei-a
falar e quando se silenciou novamente, perguntei-lhe o que é que me quisera dizer.
Ela baixou o rosto e disse: “Não era nada mesmo. Falei qualquer coisa porque
havia muita intimidade no silêncio. Falei para te afastar, para pôr uma
distância entre nós.”
Ilustração Clínica (por Elsa Oliveira
Dias)
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Pedrinha (Dos Bons Investimentos)
"A despesa envolvida na psicanálise é excessiva apenas
na aparência. Inteiramente à parte do facto de nenhuma comparação ser possível
entre a saúde e a eficiência restauradas, por um lado, e um moderado dispêndio
financeiro por outro, quando adicionamos os custos incessantes das casas de
saúde e do tratamento médico e contrastamo-los com o aumento de eficiência e de
capacidade de ganhar a vida que resulta de uma análise inteiramente bem
sucedida, temos o direito de dizer que os pacientes fizeram um bom negócio.
Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez."
Freud em "Sobre
o início do tratamento", 1913
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Pedrinha (Dos tributos)
“João dos Santos defendia o sonhar e o pensar para se opor à administração indiscriminada de drogas, que apenas faziam bem aos calos e à queda do cabelo, como ironizava.”
Maria José Vidigal (in João
dos Santos e a Moderna Psiquiatria da Infância)
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Pedrinha (Da função psicanalítica)
“Acredito que a coisa mais importante
seja favorecer, no paciente, o desenvolvimento da capacidade de pensar”
Antonino
Ferro
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Fala-me de amor
O
amor confunde-se. Confunde-se com tantas outras “coisas” sorrateiras. Ou
melhor, as pessoas confundem o amor. É que há amores que não são mais do que uma
ilusão desse sentimento, quando o que realmente sustenta a ligação são emoções
de uma outra natureza e qualidade. Chamamos-lhe amor porque não sabemos que nome
lhe dar. Chamamos-lhe amor, mas o engano não é por mal, somos guiados por
convicção profunda de que amor será.
Mas
em boa verdade não lhe posso chamar amor só porque me sinto tão especial ali, nesse
recanto da vida de alguém. Não lhe posso chamar amor apenas porque
quero/preciso ser amado quando no fim de contas amar pressupõe que, em primeiro
lugar, amor é o meu olhar sobre o outro (que não vive sempre necessariamente na
simetria do olhar que recai sobre mim). Não lhe posso chamar amor quando estou
ali apenas porque quero/preciso de não me sentir só e porque um colinho sabe bem.
Quando assim é, na demanda para colmatar uma falha original e respectiva fome
de afecto, percebemos que afinal qualquer tampa pode servir na nossa panela
desde que lá dentro fique quentinho e ferva. O amor será antes aquela única tampinha para a minha panela.
Também
não podemos chamar-lhe amor quando andamos desesperados a tentar transformar alguém
que “amamos” para nosso gáudio. É: “se isto, isto e isto mudasse, então eu
seria feliz”. Se não amo um ser humano com tudo aquilo que faz dele único e especial,
como posso falar de amor? É precisamente naquilo que nos distingue de todo e
qualquer outro ser deste mundo que reside o amor. Nos pequenos detalhes,
naquilo que frequentemente nem sequer se define ou explica, naquilo que é bom e
particularmente naquilo que é menos bom. É amar o “pacote” inteiro. É o amar,
muitas vezes, “apesar de”.
Se
esse meu olhar de encanto, que distingue uma pessoa de milhões de outras
pessoas, será ou não correspondido na mesma direcção e medida, isso é uma outra
história. Porque para além de toda esta triagem de afectos, é ainda preciso
encontrar do outro lado alguém que não esteja igualmente confundido e que não nos
enrede em mais uma ilusão, chamando também amor a outra coisa qualquer muito
parecida (jurando-o com pensamentos, palavras, actos e omissões).
Entretanto,
em jeito de rodapé, se não der para desatar o nó da confusão, é melhor andar
confundido do que não sentir absolutamente nada e não nos ligarmos a ninguém. Somos
seres relacionais e, assim sendo, pior do que uma relação assente em confusão
será deixar de acreditar/investir no amor e nas pessoas.
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Pedrinha (Das aprendizagens fundamentais)
Fundamentalmente, para que a
psicopatologia não progrida, deve ter-se aprendido: pelo exemplo, a perdoar;
pela ternura, a amar; pela liberdade, a ser espontâneo; pela clareza de
propósitos, a exigir a verdade; pelo entusiasmo, a desejar saber; pela alegria,
a gostar de viver; pelo deslumbramento que desencadeou, a apreciar a beleza.
António
Coimbra de Matos (in Mais Amor Menos Doença)
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Os recomeços
Costuma
dizer-se que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Que é isto que dá sentido
às coisas, como se fosse o esqueleto que sustenta as histórias. É uma sequência
temporal que se aplica a acções concretas como comer, dormir, tomar banho ou viajar,
mas também a outras facetas mais complexas da vida como relações humanas, empregos
e projectos vários. No limite, aplica-se à nossa própria vida.
Induzidos
pelo ritmo exacto do relógio, já que o próprio dia tem princípio, meio e fim,
sentimos que há um tempo para tudo, que ele está sempre presente. Os ponteiros
correm apressados e fora do nosso controlo, marcando o início e o fim dos
acontecimentos. E assim, no corre-corre do dia-a-dia, podemos facilmente entrar
em piloto automático, fugindo à reflexão e perdendo oportunidades de virar à
esquerda ou à direita em vez de seguir sempre em frente. É muito bom ter um
foco e caminhar em direcção a ele (sem objectivos a nossa existência perderia o
sentido) mas igualmente importante será não perder de vista o que se passa nas
redondezas, tudo aquilo que pode estar por perto e ser ainda melhor.
De
facto, cada dia o sol nasce e cada dia o sol se põe, sabendo nós, de antemão,
que no dia seguinte o sol regressa sempre, trazendo consigo mais uma rodada de
horas para nos oferecer. O próprio dia parece ensinar-nos também que tudo tem
um princípio, um meio e um fim, mas olhando com mais atenção, percebemos que o
que ele verdadeiramente nos ensina é que todos os dias podemos recomeçar. Os
recomeços são momentos de oportunidade que podem surgir num qualquer momento de
qualquer história e essa é a sua magia. A qualquer momento podemos reescrever
tudo, podemos encontrar outros caminhos, outros sentidos e, começar de novo.
Os
recomeços podem ser motivo de alegria ou de medo, mas serão sempre
emocionantes. Porque o recomeço implica sempre alguma mudança, por mais pequena
que seja. E a mudança faz-nos sentir vivos, embora sejamos frequentemente
aversos a ela, persistindo no hábito e naquilo que nos é familiar. Chamamos-lhe
a zona de conforto.
Face
a tudo o que se passa em nosso redor, importa perceber que momentos de crise
são também momentos de recomeço. Momentos de pensar novas possibilidades e
construir algo diferente, mais apropriado ou proveitoso. Mário Quintana dizia que
“a vida jamais continua, ela recomeça”. Quantos recomeços reconhecemos na nossa
história? Eventualmente, nem todos os recomeços terão sido proveitosos, mas a
boa notícia é que a possibilidade de recomeçar nunca acaba, podemos sempre
recomeçar mais uma vez.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Reflexão de Fim de Ano
§ Este ano
termina e estou mais apaixonada pela vida. Tinha conhecimento que vivíamos um
momento de expansão da consciência mas saber é diferente de sentir. Só a
experiência dá vida aos conceitos.
§ Não sei
como será para o ano porque uma das coisas que me atingiu como um raio foi a
noção de IMPERMANÊNCIA, de tudo aquilo que é hoje e que amanhã deixa de ser.
Isto traz-nos ao momento presente, que se torna mais puro e melhor vivido ao
conseguirmos um maior desprendimento do passado (o que doía ontem já não dói
hoje) e maior confiança no futuro (o que dói hoje não irá doer amanhã). Tudo
passa. A energia que desperdiçamos na angústia com aquilo que já lá vai e com
aquilo que há-de vir é demasiada e faz muita falta para vivermos bem o
presente. Como o nome indica, o presente é o momento de estarmos PRESENTES.
§ Essa
impermanência das coisas leva-nos à constatação de que o que parece mau nem
sempre é mau e de que o que parece bom nem sempre é bom. Sou levada a crer que
a nossa existência talvez pressuponha realmente ser-se feliz enquanto cá
estamos. Dizem por aí às vezes que a vida é feita para sofrer mas parece-me
mais que o sofrimento é uma opção, ou seja, que depende da perspectiva do
observador. No quotidiano, está a tornar-se mais fácil ver o lado bom das coisas
aparentemente más e, por incrível que pareça, quanto mais se pratica isto mais
faz sentido. Penso que a esta tendência para nos pacificarmos perante os
obstáculos se pode chamar ACEITAÇÃO. Será tanto mais fácil quanto maior a
confiança de que por trás de uma complicação pode estar uma bênção.
§ A
aceitação anda de mãos dadas com a REFLEXÃO, porque para aceitar tenho que
perceber que sou altamente responsável pelo que me acontece, e com a GRATIDÃO,
pois se eu aceito que coisas menos boas me acontecem e que muitas vezes essas
coisas são indicadoras de que algo melhor está a caminho, torno-me uma pessoa
mais grata por tudo o que gira em meu redor. O inverso disto será praguejar,
culpar os outros ou sentir-me uma vítima do Universo e creio que este é um terreno
pantanoso de onde dificilmente se sai.
§ A
aceitação, a reflexão e a gratidão só podem germinar num pensamento FLEXÍVEL,
capaz de questionar o mundo (interno e externo) e de aceitar perspectivas
divergentes e hipóteses que nos ultrapassem. Flexibilidade dos conceitos e das
ideias. Certezas absolutas são para deitar fora. Conviver com a dúvida é
fundamental (já que a impermanência existe) e para isso precisamos de ser
plásticos. A rigidez torna-nos duros, por vezes implacáveis, connosco e com os
outros.
§ A
flexibilidade ajuda-nos a ver as coisas como um FLUXO contínuo, não
dicotomizando nem polarizando (bom e mau, certo e errado, feliz e infeliz,
passado e futuro). Essa perspectiva permite-nos maior capacidade de integração
das partes no todo. Todo o passado conduz ao presente e ao futuro. Tudo o que
faço hoje se reflecte amanhã. Tudo o que dou agora receberei depois (e tudo o
que não dou naturalmente não receberei). Todo o meu passado me conduziu à
pessoa que sou e me encaminha para a pessoa que serei. A existência é um continuum.
§ Se o
Universo funciona num continuum podemos dizer que, enquanto
indivíduos, estamos todos ligados. É por isso que a UNIÃO e a COOPERAÇÃO devem
prevalecer sobre a competição. Porque todos juntos temos mais força do que
separados. Esta UNIÃO só pode acontecer se não se basear na dependência. Para
haver verdadeira cooperação todos os indivíduos devem possuir AUTONOMIA
(fundamentalmente emocional pois o resto vem por acréscimo). Caso contrário,
uns sugam os outros e numa relação parasita/hospedeiro nada se cria, tudo se
consome.
§ Para além
da questão da força/energia colectiva, importa pensar que se estamos todos
ligados aquilo que eu sou e que eu faço influencia aqueles que se relacionam
comigo. Temos uma esfera de influência em nosso redor e essa consciência
traz-nos RESPONSABILIDADE. Essa responsabilidade não é só para com seres
humanos mas também para com os ANIMAIS e com o PLANETA, a quem também estamos
ligados. Ter noção de que o chão que pisamos é responsabilidade nossa é cada
vez mais fundamental.
§ Como a
LIBERDADE é um pilar da nossa existência (o outro será o AMOR) é preciso
aceitar que há quem não respeite nada disto. O que nos conduz à ideia de que,
sobre estes e outros assuntos, por mais que gostássemos que os outros mudassem
não nos compete a nós interferir na vida alheia. Há uma certa omnipotência
subjacente a isto. A única e a melhor forma de produzir mudança, é sermos nós a
mudar. Para que através da nossa esfera de influência possamos, talvez,
provocar alguma transformação. Pelo exemplo (amor) e não pela crítica/castigo
(guerra).
§ Obrigado
a todos aqueles que eu amo e que me amam (cada vez mais e melhor), que
enriqueceram o meu ano e que fizeram de mim uma pessoa mais atenta, mais grata,
mais genuína, mais afectuosa e mais presente, com o vosso exemplo e amor! Muita
Paz, muita Luz, Saúde e Amor. Feliz 2014!
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Ensaios/Rascunhos
Lembro-me agora de todas as bonecas a quem cortei o cabelo. Mais importante que os brinquedos, são as brincadeiras, ensaios da vida. A imaginação, a concretização e, quantas vezes, o arrependimento (lição aprendida: não se cortam cabelos de cabeça para baixo). Conviver com o brinquedo estragado, lidar com a zanga, elaborar o remorso, poder repará-lo ou aprender a gostar dele mesmo assim. Felizes os que estragaram brinquedos. A propósito de brinquedos, ou não, Feliz Natal!
Pedrinha (Dos brinquedos partidos)
Os pais, que se lamentam porque um brinquedo
foi escangalhado cometem um erro considerável, que demonstra a sua ignorância
acerca de um fenómeno importante: os bocados dos brinquedos escangalhados têm
ainda mais valor para a criança do que os brinquedos inteiros, são-lhe muito
úteis durante muito tempo.
in A
Criança e a Expressão Dramática (Entrevista de Françoise Dolto, psicanalista
de crianças)
sábado, 7 de dezembro de 2013
Não se diz ao triste que se alegre
João
dos Santos, mestre pedagogo, médico e psicanalista português do séc. XX, dizia
que “não há melhor remédio para a tristeza do que chorar”. No entanto, se
alguém chora junto de nós, com quanta facilidade dizemos “deixa lá, não chores”,
sem nos apercebermos como somos chatos quando não damos espaço para o outro
chorar. Mais do que chatos, somos pouco empáticos e mesmo desrespeitosos, pois
respeitar a tristeza de alguém implica aceitar esse sentimento, legitimá-lo e
permitir a sua expressão.
A
verdade é que quando dizemos a alguém para não chorar ou para não ficar triste,
fazemo-lo por nós e não pelo outro. Zangando-se, muitos pais ficam melindrados
ou sentidos com o choro dos seus filhos. Acham que lhes dão tudo do bom e do
melhor e que, assim sendo, eles não têm motivos para chorar, “esquecendo-se”
que todos temos tristezas incompreensíveis. Por vezes mandamos o outro não
chorar porque o choro nos é incómodo, desconfortável ou mesmo perfeitamente
insuportável, espelhando como é difícil suportar a tristeza e o desamparo de
alguém. Aceitar o choro do outro implica aceitar o sofrimento do outro e mais,
recorda-nos de sofrimentos muito nossos, que tantas vezes tentamos esquecer.
Contactar com as partes mais frágeis do outro é contactar também com as nossas,
e é aí, nesse lugar escuro, que pedimos, “não chores”.
É
que para além de não conseguir lidar com o outro que chora, muitos não podem ou
conseguem, eles próprios, chorar. Uns não choram porque nem se apercebem que
estão tristes, o que é algo ainda mais triste. É uma existência robotizada.
Outras pessoas sabem que estão tristes, mas aprenderam a esconder do mundo a
tristeza. Talvez porque em pequeninos ninguém lhes tenha dado liberdade de chorar.
Talvez alguém lhes tenha ensinado (fundamentalmente aos rapazes) que chorar é
sinal de fraqueza. Chorar é também uma questão cultural, mas quantas vezes a
cultura nos oprime e limita nos nossos instintos mais básicos e saudáveis?
Chorar é melhor do que qualquer antidepressivo. Chorar é catártico. Permite
libertar tensão, aliviando a angústia e pondo fora o sofrimento, ao invés de o
guardar cá dentro, como uma espécie de “dor de estimação”.
Como
dizia Luís de Camões, “pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para
ela, diz ao triste que se alegre”. Perante o choro de alguém, em vez de
conselhos, ofereça-se antes um colo ou um abraço, ainda que isso intensifique o
choro. Mais vale pôr para fora do que para dentro. Em psicoterapia, muitas
melhoras acontecem quando alguns pacientes se tornam capazes de chorar. Chorar
é aceitar a nossa humanidade e parar de fugir do sofrimento. Só não sofre quem
está morto.
domingo, 1 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Pedrinha (Do Medo)
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O’Neill
in Abandono Vigiado (1960)
domingo, 24 de novembro de 2013
Contos de Gente
Era uma vez. E depois foram felizes para sempre. É o princípio e
fim de quase todos os contos de fadas que povoam o imaginário das crianças. É
inquestionável a importância dos contos de fadas: ajudam-nos a imaginar, a
sonhar e a desejar. Ensinam-nos sobre o amor e sobre a amizade. Sobre os
afectos. Sobre os valores. Ensinam-nos sobre a coragem e sobre a derrota e a
vitória. Com eles aprendemos também a gerir emoções semelhantes às sentidas nos
enredos da vida real. São fundamentais, os contos de fadas.
O que é de pensar é que embora em todas estas histórias haja
sempre lugar para as desventuras e percalços, o final, no entanto, é sempre inquestionavelmente
feliz e nunca nenhum deles nos conta o que acontece depois. O “felizes para
sempre” é um momento estático, fechado, é a frase que não deixa espaço para
imaginar o que podia acontecer durante os 20 anos que se seguem, encerrando com
o fim do conto todas as angústias. E se quando somos pequenos, acreditar nos
desfechos felizes é o que nos permite andar para a frente com esperança,
crescer é deixar cair a ilusão de que o fim das histórias é incondicionalmente
feliz. Sem mais sobressaltos. Sem mais tropeções. As histórias são felizes
enquanto puderem ser. Ora são mais felizes, ora são menos felizes, ora tornam a
ser mais felizes. Crescer é poder tolerar a dúvida e aceitar que as certezas
pertencem a um mundo que não é humano nem real, mas sim tranquilizadoramente encantado,
pois cá fora a realidade é dinâmica e está sempre em movimento, envolvendo as
pessoas e as suas relações nessas oscilações.
Para lá dos contos de fadas, há no mundo adulto muita literatura
e cinema que assenta igualmente neste ideal de que no fim tudo está bem quando acaba
bem. Aliás, muitas pessoas não toleram uma história cujo final não inclua esse momento
“cor-de-rosa”. Porque aí há uma angústia que fica em aberto. Assim, percebemos
que a problemática dos contos de fadas não se limita às crianças nem aos
adolescentes. Quando falamos nessa fantasia infantil de não querer aceitar a
montanha-russa da nossa existência falamos também duma parte de todos nós,
adultos, que fica mais ou menos presa a um ideal de felicidade que nos
acompanha desde pequenos.
Viver é encarar com optimismo essa realidade que não é
eternamente nem estaticamente cor-de-rosa, aceitando que há muitos outros tons
que pintam as histórias das nossas vidas. São tons vermelhos, laranjas, azuis,
verdes, amarelos. Também há os cinzentos e mesmo os pretos. É, a realidade não
é um conto de fadas. Mas é uma pintura colorida ainda mais interessante, viva e
saborosa do que um conto de fadas. São contos de gente.
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terça-feira, 12 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Pedrinha (Dos Abraços)
"A duração média de um abraço entre duas pessoas é de 3
segundos. Mas os investigadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço
dura 20 segundos há um efeito terapêutico sobre o corpo e mente. A razão é que
um abraço sincero produz uma hormona chamada "oxitocina", também
conhecida como a hormona do amor. Esta substância tem muitos benefícios na
nossa saúde física e mental, ajuda-nos, entre outras coisas, para relaxar, a
sentir segurança e a acalmar os nossos medos e ansiedade. Este maravilhoso
calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa nos nossos
braços"
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Pedrinha (Da Liberdade de Ser)
“A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando se está
desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das
aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se
insuportável, o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei (...) Não mais
sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (…). Isso é o que uma
psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”.
Françoise
Giroud
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Elogio à Consciência dos Momentos Felizes
"Desde cedo que temo a possibilidade de passar
pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem
aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um
tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde,
identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim.
A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que
estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É
essa a minha sorte."
José Luís Peixoto in
Breve partilha da minha sorte infinita
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Impulsividade
Como uma
espécie de relâmpago emocional, todos possuímos e sentimos impulsos. O que
varia é a luminosidade do relâmpago, isto é, o grau em que nos invade o
pensamento, e o barulho do trovão subsequente, ou seja, a capacidade de conter/controlar
esses impulsos.
Ser
impulsivo é um funcionamento psicológico mais associado à infância ou à
adolescência mas tornou-se uma característica relativamente aceite na idade
adulta, muito em parte porque se encontra erradamente associada a uma personalidade
forte. Assim, confunde-se frequentemente impulsividade com autenticidade ou
mesmo com energia/entusiasmo quando podemos ser genuínos e activos sem sermos
impulsivos (ou seja, emocionalmente reactivos). O comportamento impulsivo denuncia
uma dificuldade em tolerar os conflitos internos, nomeadamente, afectos mais
incómodos e desagradáveis como a ansiedade (ou medo), a frustração ou a raiva. Perante
estas emoções, sem uma necessária “digestão” das mesmas (por falta de estrutura
psicológica) ou das situações que as despoletam, agimos impulsivamente. Outras
vezes, pouco tolerantes à dúvida ou à espera (de novo, nada mais que a
ansiedade), agimos, seja por palavras não pensadas, seja num comportamento
irreflectido.
Quando há
uma maior possibilidade de introspecção, isto é, de pensar analiticamente sobre
as coisas (as nossas, as dos outros ou as do mundo) torna-se possível funcionar
mais ponderadamente. Pensar implica primeiro conter dentro de nós algumas
emoções mais difíceis (durante maior ou menor quantidade de tempo) e depois
analisá-las e resolve-las internamente sem descarregar imediatamente os
impulsos no exterior (muitas vezes em cima dos outros).
Seres
impulsivos por natureza, os animais, esses sim, regem-se por instintos vários,
mas o Homem é um ser fundamentalmente reflexivo, o que pressupõe essa dita capacidade
de pensar sobre as coisas. No entanto, nem sempre acontece e tudo o que é então
demasiado difícil de ser guardado e pensado dentro de nós (conflitos, dilemas,
receios) é agido. Olhando em redor, nesta época de brandos costumes, dominada
pelos impulsos imediatos ou compulsões, segundo uma apologia consumista “daquilo
que não pode ficar para depois”, as pessoas agem muito e pensam pouco. Não se
pretende ignorar que alguns impulsos humanos conferem cor e sabor à história de
alguém e à história da Humanidade mas a dificuldade que aqui se realça diz
respeito ao funcionamento sistematicamente (estruturalmente) impulsivo, que nos
leva frequentemente pelo caminho errado e, não raras vezes, longe de mais.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
O Eu, o Tu e o Nós
Quando
crescemos em ambientes de pouca afectividade ou fomos insuficientemente
cuidados, tendemos a crescer “coxos”, ou seja, fica a faltar-nos uma estrutura
de confiança e amor-próprio suficientes para sermos emocionalmente autónomos. Como
consequência, facilmente procuraremos alguém que cuide de nós enquanto adultos,
ainda que este movimento seja inconsciente. Por vezes, se o dano for ligeiro,
pode encontrar-se um parceiro suficientemente saudável que nos permita sarar
quase espontaneamente as falhas das nossas relações precoces. Porém, se o dano
for profundo, não só ninguém poderá reparar o que está para trás (nem tem essa
obrigação) como nós próprios seremos obstáculo ao bom funcionamento da relação,
consoante a sofreguidão com que nos grudamos ao outro.
É
vulgar encontrar relações em que um elemento funciona como pai/mãe/bengala/penso-rápido
(e por aí fora) do outro. E há muito frequentemente confusão entre isso e algo
muito belo (e bem diferente) que se chama “amor”. Podemos então falar de
dependência emocional, definindo-a como um padrão persistente de necessidades
emocionais insatisfeitas que se tentam suprir de uma forma desadaptada com
outras pessoas. Quando precisamos do parceiro para nos sentirmos um ser humano
completo, quando toda a nossa vida gira em função de uma relação amorosa,
quando não há nada no mundo que mais importe do que isso, é preciso parar para
pensar. É aquilo que se entende por um amor fusionado, em que não se percebe
onde começa um nem onde acaba o outro. Comunhão, sim, fusão, não.
O
que é ser emocionalmente autónomo? Não é não precisar de ninguém pois isso não
existe. O ser humano é um ser relacional e a escolha de um parceiro faz parte
da condição humana, o lugar onde se coloca o parceiro é que é digno de análise.
A relação mais saudável é aquela em que duas pessoas adultas se sentem, per si, completas, mas que, quando se
juntam, se transbordam mutuamente e criam algo novo. É poder existir no mundo
independentemente da presença constante de alguém ao meu lado. É poder
funcionar no dia-a-dia com entusiasmo e confiança mesmo quando estou sozinho. É
amar-me. É possuir uma existência, personalidade, vontade, gostos e ideais
próprios, e respeitá-los, assim como respeitar/aceitar genuinamente que o meu
parceiro possa ser diferente de mim em todos estes aspectos. É permitir que a
relação seja um sistema aberto e nunca um sistema fechado sobre si mesmo (senão
a relação satura e, sem oxigénio, morre). É existir um Eu, reconhecer um Tu (diferente
e separado do Eu), e sentir o Nós como o produto da soma de ambos.
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