Nem tudo é
pensamento. Nem tudo é imediatamente analisável e prontamente dotado de um
significado e de um sentido. Há coisas que acontecem aquém (ou além?) do
pensamento. Sonhamos e pensamos o mundo também com nossas emoções, na fina malha
que liga as representações simbólicas. São emoções que, grávidas de
significado, procuram trazê-lo à luz para que possam ter um sentido. À arte de
sonhar essas emoções com o outro, podemos chamar rêverie. Um termo cunhado por
Bion, em 1971. É o que se espera que as mães façam com os seus bebés, muito
antes do verbo; é também o que se espera que os psicanalistas possam fazer com
os seus analisandos — é o que
acontece numa relação a dois onde se pode sonhar acordado em conjunto. É a
capacidade de estar em ressonância com aquilo que o outro projecta dentro de
nós. Para isso é preciso poder viajar e perder-se, livre curso, sem medo do que
não se entende. Perder-se entre devaneios, fantasias, sensações corporais,
percepções fugazes, imagens, dormências, melodias e tudo o que mais atravesse a
nossa mente, ainda que temporariamente sem um sentido. A rêverie é uma bússola,
em que o norte é dado pela intuição. É tão importante poder flutuar com o outro,
ainda que aparentemente à deriva, enquanto esperamos que, naturalmente, esse
sonho a dois ganhe um sentido.
Sim, nem tudo é pensamento. Debussy também acreditava que música era o espaço
entre as notas.
Transformação é a palavra-chave. Na vida ou há desenvolvimento ou instala-se a decadência. O estacionamento é uma ilusão. Nas palavras de Cervantes, “A estrada é sempre melhor que a estalagem” (António Coimbra de Matos)
quinta-feira, 26 de março de 2015
segunda-feira, 23 de março de 2015
Certezas Absolutas
Dominados pelo egocentrismo, característica daquele que está centrado em si e no seu ponto de vista, e pela omnipotência, crença de que se pode tudo, na infância e ainda na adolescência temos muitas certezas. Quantos pais já tentaram falar com os filhos recebendo em troca um “Eu é que sei!”? Essas certezas são, nessa altura, protectoras: fonte de segurança e de estabilidade necessárias ao crescimento tranquilo, dada a ainda frágil estrutura emocional de uma criança. Pressupõe-se, no entanto, que uma das tarefas da adolescência é precisamente começar a pôr em causa muitas dessas certezas, o que explica parte da instabilidade emocional
vivida nesta fase. Tudo o que era certo e seguro, começa a ser questionado, se bem que, para que isso aconteça, é necessário haver uma estrutura interna minimamente sólida, capaz de aguentar o embate com a realidade cada vez mais óbvia, e que não descompense ao questionar o mundo (externo e interno). Chegando à idade
adulta, devemos então ser capazes de assumir que pouco ou nada sabemos que seja
absolutamente certo. Temos as nossas crenças, mas crer é diferente de saber.
Acreditar nas coisas e em nós é importante, mas a crença deve permitir que haja
espaço para que seja questionada ou revista. Assim, a ordem natural do
crescimento emocional e do desenvolvimento psíquico é que possamos ir
flexibilizando o nosso pensamento de forma a ponderar as nossas certezas e
estar disponíveis para aprender com os outros.
No
entanto, nem sempre as coisas acontecem assim. Por vezes, os adultos têm tantas
ou mais certezas absolutas do que as crianças. Acham-se frequentemente os donos
da verdade. E demonstram uma certa tendência tirânica para achar que a sua
verdade é a verdade universal. Seja em valores pessoais, políticos ou
religiosos, é fácil encontrar pessoas cuja posição perante a vida e os outros
não permite qualquer discussão. A
certeza é a base do fundamentalismo. Em nome das
certezas absolutas foram cometidos alguns dos crimes mais sangrentos da nossa
história: elas são o fundamento de todo fanatismo. A
certeza de que se está na posse da verdade absoluta revela um modo de pensar
rígido e pouco reflexivo, pois se já sabemos a verdade, não precisamos
reflectir mais sobre o assunto. Problema resolvido.
Então, ao contrário do que tantas vezes parece, a certeza é irmã da insegurança, ou seja, quanto mais
inseguros somos, maior a necessidade de estarmos certos. Seja a respeito de que assunto for. É a incapacidade de
tolerar as dúvidas que nos conduz aos dogmas. Claro que a existência parecerá muito mais segura
se estivermos convictos de saber as respostas a todas as perguntas, mas isso não corresponde à realidade, muito menos pertence à esfera do pensamento maduro. Sócrates disse-nos, com toda a sabedoria: “só sei que nada sei”. Reduzamo-nos à nossa humilde insignificância e aceitemos que a única forma de atingir
o conhecimento é manter a mente aberta e um espírito interrogativo.
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quarta-feira, 18 de março de 2015
Handling
É pelo toque do outro que conhecemos o nosso corpo. Pela ponta dos seus dedos. É nos contornos do corpo do outro que conhecemos os nossos contornos. Dentro do seu abraço. Tudo assim começa e depois assim continua porque o conhecimento não se basta a si mesmo e precisa de ser reforçado em novos e outros re-conhecimentos, em outros toques e outros abraços, que nos marquem a pele e assim nos recordem que somos um todo e que estamos aqui. Sentimo-nos na relação com o outro e mais precisamente na relação com o seu sentir. Se o outro não nos sentir, não conta. Sem isso, na falta desse ‘handling’ (como lhe chama Winnicott), sobra-nos um corpo desconhecido, ou mesmo traumatizado (se, para além ou no lugar da privação, o nosso corpo sofrer outros embates). Não é um estranho que habita em nós mas somos, sim, nós, que habitamos um estranho. O corpo torna-se matéria, desligado da mente e dos afectos; torna-se um meio de transporte, desintegrado, desinvestido e descontrolado; clivado e posto fora do lugar onde pertence — não é mais nosso. Torna-se fonte de mal-estar, de dores várias e que nos são alheias, que não entendemos, pois ele já não mais nos diz respeito. Não pertence a ninguém. Não é nosso e também já não pode ser oferecido ao outro. O toque pode até começar a queimar. E ele, corpo, que nasceu organismo vivo e vibrante, ponte entre nós e o universo, é agora só um pedaço de carne onde habita uma alma ou onde, se calhar, já não habita coisa nenhuma.
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terça-feira, 3 de março de 2015
Elastic Heart
O coração é elástico, músculo que contrai e
expande, para nossa sorte. Foi feito assim para não se partir em mil bocados
com as lutas que se travam lá dentro. No ringue defrontam-se as partes de nós
que não se entendem. Varia a força do embate, do clássico braço de ferro ao
combate sujo e ensanguentado. Quanto ao resultado, há partes que ganham, há
partes que perdem, há empates técnicos, conforme os dias, as horas, os meses e
as estações do ano. Conforme a luz, a lua, os humores e os amores. Conforme
sabe-se-lá-o-quê porque isso afinal nem interessa e não há outro remédio senão
aguentar esses confrontos na arena do coração. Fazem parte. Onde não há
conflito, não há vida, nada se questiona, nada se transforma, nada se
acrescenta, nada se avança.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
O Louco
Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim:
um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia confeccionado
e usado em sete vidas -e corri sem máscara pelas
ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram
para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça
do mercado, um garoto trepado no telhado de uma
casa gritou: "É um louco!".
Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e
minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras. E, como num
transe, gritei:
"Benditos, benditos os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
― Khalil Gibran
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Infinitudes
Não penses que te esqueço. Então ainda não
sabes que trago comigo todos aqueles que amo? Não sabes que o coração é
infinito e que há tantas formas de amor quantas pessoas há no mundo? É que eu
acredito mesmo que o amor liga as almas mesmo quando os corpos não se encontram e os olhos não se cruzam.
Não te queiras esquecer de mim. Esquecer é perder. Pelo contrário. Guarda.
Guarda e lembra-te e será teu para sempre. Não sabes que quanto mais guardares
mais pleno serás? Não sabes que corações cheios são corações vivos? Dizes-me
que chegou ao fim e eu acho que começou. O amor não tem tempo e sem tempo não
há princípio nem fim. Dizes-me que é difícil e dói. Sim. Mas não esqueças
aquilo que dói. Dói porque é importante. Dói porque está vivo. Dói porque é
amor. E pelo amor, tudo. Pelo amor, mais. Ele acrescenta-nos sempre.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Fevereiro
Escute só.
Isto é muito serio.
Ande,
escute que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito.
Há dez anos atrás o Li** disse que existe uma rachadura em tudo
e que é assim que a luz entra
não sei se entendi.
(…)
O amor é um animal tão mutante,
com tantas divisões possíveis...
Lembra daqueles termómetros que usávamos na boca
quando éramos pequenininhos?
lembra da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando o vidro do termómetro se quebra,
o elemento químico se espalha,
e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio se multiplicando…
acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah, é..
Eu gosto de você...
A luz entrou torta por nós adentro,
Mas olhe..
Eu gosto de você..
(…)
Hoje ainda faz bastante frio.
(...)
A esta hora na Terra é metade Carnaval, metade conspiração,
metade medo, metade fé,
metade folia, metade desespero,
E provavelmente, a esta hora,
uma metade do mundo está dançando, e a outra metade dormindo.
(...)
Eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.
(...)
Escute, isto é serio.
Andamos crescendo juntos, distraidamente.
As árvores crescem connosco.
Nossa pele se estende.
Nosso entendimento teso, também.
(...)
Quanto ao um para um entre nós dois, isso logo se vê.
Não sei nada sobre a paixão,
suspeito que você também não.
Mas começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos:
dois para lá,
e dois para cá.
portanto, escute, isto é muito sério.
Isto é uma proposta ao trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa,
vem comigo achar o metrónomo mágico entre a folhagem.
E no caminho até lá,
vem dançar comigo,
vem.
― Matilde Campilho
https://www.youtube.com/watch?v=VasLnEWnAxY
Isto é muito serio.
Ande,
escute que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito.
Há dez anos atrás o Li** disse que existe uma rachadura em tudo
e que é assim que a luz entra
não sei se entendi.
(…)
O amor é um animal tão mutante,
com tantas divisões possíveis...
Lembra daqueles termómetros que usávamos na boca
quando éramos pequenininhos?
lembra da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando o vidro do termómetro se quebra,
o elemento químico se espalha,
e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio se multiplicando…
acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah, é..
Eu gosto de você...
A luz entrou torta por nós adentro,
Mas olhe..
Eu gosto de você..
(…)
Hoje ainda faz bastante frio.
(...)
A esta hora na Terra é metade Carnaval, metade conspiração,
metade medo, metade fé,
metade folia, metade desespero,
E provavelmente, a esta hora,
uma metade do mundo está dançando, e a outra metade dormindo.
(...)
Eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.
(...)
Escute, isto é serio.
Andamos crescendo juntos, distraidamente.
As árvores crescem connosco.
Nossa pele se estende.
Nosso entendimento teso, também.
(...)
Quanto ao um para um entre nós dois, isso logo se vê.
Não sei nada sobre a paixão,
suspeito que você também não.
Mas começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos:
dois para lá,
e dois para cá.
portanto, escute, isto é muito sério.
Isto é uma proposta ao trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa,
vem comigo achar o metrónomo mágico entre a folhagem.
E no caminho até lá,
vem dançar comigo,
vem.
― Matilde Campilho
https://www.youtube.com/watch?v=VasLnEWnAxY
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Boyhood
― So what's the point?
― Of what?
― I don't know, any of this. Everything.
― Everything? What's the point? I mean, I sure as shit don't know. Neither does anybody else, okay? We're all just winging it, you know? The good news is you're feeling stuff. And you've got to hold on to that.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Acção e Contemplação
Há pessoas que são como cascatas.
Atiram-se ao mundo, fazem barulho, e exteriorizam muito. A sua energia está
mais dirigida para fora do que para dentro. São pessoas extremamente comunicativas
e activas, que expressam com facilidade as suas opiniões e tentam impor suas
ideias. São vivaças, ruidosas, expansivas. Fazem propaganda com facilidade.
Outras pessoas são como serenos ribeiros. Apresentam uma intensidade diferente
na forma de estar e de viver. São minimamente sociáveis mas gostam mais de
ouvir do que falar. São mais contidas e mais introspectivas. Não buscam
aparecer. Todo o seu corpo fala mais baixinho. Podemos dizer que o primeiro
tipo tende mais para a acção, e o segundo, para a contemplação.
Vendo por outro prisma, do lado mais
expansivo há, por vezes, o perigo de carência de vida interior, de profundidade
e de capacidade de pensar. A pessoa pode agir demais e elaborar pouco, adquirindo
pouca consciência de si. Ao querer impor-se demasiado nem sempre escuta o outro
e o mundo. Do outro lado, mais recatado, há o perigo de nos tornarmos um poço
de águas paradas, há o risco de estagnação. O excesso de introversão pode resvalar
para a ruminação ou para o isolamento. Podem mesmo existir sérias dificuldades
de expressão e, consequentemente, de afirmação e de capacidade de criar (pela
acção).
Contudo, uma vez que na actualidade o agir
predomina sobre o contemplar, a falta de reflexividade é o risco mais iminente.
A maioria das pessoas, engolidas por um mundo de solicitações constantes do
exterior, têm pouco tempo, espaço e disponibilidade para olhar para dentro. Muitos, principalmente nas gerações mais novas, já não são educados para isso nem sabem como
fazê-lo. No entanto, é fundamental serenar para ganhar perspectiva das coisas.
De nós e da vida que levamos. Pede-se hoje iniciativa, empreendedorismo, mas o agir sem reflexão
prévia não será o melhor caminho. É sempre preciso desconfundir acção e impulso para não embarcarmos numa "fuga para a frente", ou seja, num agir para não pensar.
Por isso, é
importante abandonar o bulício urbano por um dia que seja. Encontrar um porto
de abrigo e reparar como longe do ruído é mais fácil ganhar visão e escutar o
que diz a alma. O objectivo não é permanecer na contemplação, mas sim
utilizá-la como trampolim para a acção, uma acção mais verdadeira. Dentro de nós há sempre um anseio pelo equilíbrio. Queremos dar
e receber, comunicar e compreender, conseguir agir, poder sentir e saber
pensar. Precisamos de uma vida interior rica mas ao mesmo tempo queremos ser
capazes de realizar algo que outras pessoas possam reconhecer e receber. Passar
a vida a agir sem pensar ou passar vida a pensar sem agir são os dois extremos
que devemos, a todo custo, evitar.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
A dor que me deixaste
Há dores que os
outros depositam em nós por não terem capacidade para tomar conta delas.
Podemos guardá-las durante algum tempo, podemos tentar transformá-las em algo
bom, mas nem sempre é possível. E quando assim é, quando o outro apenas tem para nos dar a sua dor e nada mais, quando o nosso único
lugar é não ter lugar, chega a hora de partir.
― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.
― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O Engano da Perfeição
Querer ser e fazer melhor é um desejo que funciona como motor
do crescimento humano mas a busca da perfeição é uma atitude de natureza
totalmente diferente. O perfeccionismo é uma forma rígida e insatisfeita de
existir, que encara com severidade e intransigência as falhas ou as dificuldades (as próprias e,
consequentemente, as dos outros). Nem sempre é uma escolha pessoal. Os
"perfeccionistas" são, vulgarmente, aqueles que mais sofrem. Vivem
aprisionados num rigor prepotente, que não admite nada menos que a excelência,
mesmo quando sabemos que tudo tem o seu defeito, tudo tem o seu senão. É, bem
vistas as coisas, uma atitude resistente à condição humana, condição de
imperfeição, já que só o divino cumpre, eventualmente, o ideal de perfeição. Logo,
revela alguma omnipotência da nossa parte. Quem pensamos que somos para
ambicionar a perfeição? E mais, será que a perfeição nos faria mais felizes?
Com certeza que não é por aí. O bem-estar é um estado de espírito independente
do grau de "perfeição" de cada um. É por isso que entre o
perfeccionismo e o desejo de querer ser melhor há todo um universo de moderação
e aceitação. Aceitação de nós próprios, em primeiro lugar. Pois a busca da
perfeição é, em primeiro lugar, espelho da falta de amor que temos por nós e
que nos leva em busca de um ideal a que queremos corresponder. Mais amor, por
favor. Só em amor podemos evoluir de forma bonita e natural.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Canção de Engate
Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás
— António Variações
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Aqui vou eu!
Segunda-feira. 2015. Lua cheia. Não nos podemos esconder mais
porque a luz incide hoje em pleno sobre nós. Ilumina a penumbra onde tantas
vezes nos escondemos e recorda-nos que é tempo de recomeçar. É que o fim das
festas (ou o fim das férias) nem sempre é fácil. Há um pequeno luto que se faz quando o quotidiano
retoma o seu curso e as responsabilidades chamam por nós. São as dores da
realidade, sempre impiedosa. No entanto, é a realidade (e os limites que nos
impõe) que nos permite saborear as festas e as férias e a vida com a alegria de
uma criança. Sem ela, tudo perderia a sua riqueza. Pior, sem ela, tudo perderia
o norte. A realidade dá-nos direcção, um sentido e um significado. Sem ela, os
dias seriam uma sucessão de dias sem conteúdo, conduzindo-nos inevitavelmente à
apatia, ao tédio e ao vazio. Pois por mais que neguemos, o ser humano precisa
absolutamente de produzir e de criar para se sentir pessoa.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Um pouco mais
O melhor do tempo que passa é a transformação que deixa. O
melhor de chegar ao fim do ano é sentirmo-nos e sabermo-nos diferentes do seu
início. Diferente não é nem melhor, nem pior, nem mais certo, nem mais errado.
Não se trata de um juízo de valor nem de uma corrida para
chegar a lado nenhum. Diferente é o que é: diferente. É um caminho. Um caminho
que se faz, fazendo. Que bom quando cada ano é um pouco mais. Um pouco mais de
vida, um pouco mais de mundo. Um pouco mais de história. Um pouco mais de
gargalhadas, de encontros, de lágrimas, de despedidas. Um pouco mais de Verão,
um pouco mais de Inverno. Um pouco mais de mim, um pouco mais dos outros, um
pouco mais de mim nos outros e um pouco mais dos outros em mim. Por vezes um
pouco mais de alegria e serenidade, outras vezes um pouco mais de angústia e
sofrimento. Seja o que for, é sempre e precisamente o contrário de estagnação.
É a constatação do fluxo constante da vida e dos seus vai-e-vens. Obrigado
2014! Que venha 2015!
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
O melhor presente de Natal
Os presentes no Natal fazem
parte da nossa cultura. São símbolos de afecto e de pertença, possivelmente associados
ao gesto dos Reis Magos, acarretando uma tradição de celebração da família. Mas
ao longo dos tempos o ritual acabou confundido e contaminado por fortíssimos
apelos ao consumo.
Se isto é verdade entre
adultos, mais confuso é para as crianças, obrigando-nos a estar atentos ao que
se passa dentro delas e ao que lhes estamos a transmitir, enquanto modelo para
a vida. A criança, cada vez mais exposta ao meio consumista, vai expressando o
seu desejo de receber um certo presente, mas cabe-nos a nós ter a sensibilidade
de decifrar se o que é pedido é realmente uma escolha sua, algo que lhe trará
verdadeira satisfação, ou uma imposição/influência do ambiente envolvente
(media, grupo de pares, etc.). Ou seja, é importante perceber qual a real
motivação da criança quando pede determinado presente.
O que acontece frequentemente
é que a criança nem sempre pede um presente que seja verdadeiramente importante
para si. Repare-se que não é invulgar a criança ir mudando de ideia a cada anúncio
que passa na televisão, ou mesmo consoante aquilo que alguns amigos pediram
como presente. Mas esta dúvida é, na verdade, uma falsa dúvida. É fruto do
bombardeamento de informações que ela não tem maturidade emocional para gerir,
ou fruto da dificuldade em se conhecer a si mesma e aos seus desejos, imitando
os outros em alternativa. O que acontece depois é que, ao receber o presente, percebe
que afinal não o queria, e este acaba por ser posto de lado.
O melhor presente de Natal
(ou de outra coisa qualquer) é um presente que vai ao encontro do desejo autêntico
da criança e, em geral, esse desejo
está relacionado com os seus afectos mais íntimos e com a sua fase de
crescimento (e respectivos desafios). Assim, um menino que tem vários medos
pode pedir um conjunto de tanques e soldadinhos, uma menina que começou a montar
a cavalo pode pedir uma boneca cavaleira, ou uma criança que acha que ser
cientista pode pedir um microscópio. O exemplo não importa, mas ilustra que, em
todos os casos, o valor do presente em questão, para a criança, não é aleatório,
nem financeiro (pedir o presente mais caro), nem uma imitação, mas sim emocional.
Diz respeito às suas vivências: sejam medos, descobertas ou desejos. Isso é o
que deve conter num presente. O desejo deve ser o desejo da criança e não o
desejo do mercado ou de quem lhe dá um presente (ex: quero que o meu filho seja
médico portanto vou oferecer-lhe um estojo médico).
E se, no fim de tudo isto, o
presente não é possível por qualquer razão, basta dizer à criança sobre a
impossibilidade real de oferecer aquele presente. A vida é feita de limitações
e são esses limites que nos ensinam a esperar e que nos permitem sonhar e
desejar.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
A Beleza das 'Cousas'
Se o que é belo para uns nunca será belo para outros, sendo a
beleza um dos conceitos mais subjectivos e voláteis da humanidade, o que é o
belo senão aquilo que nos faz felizes? O poema — Alberto Caeiro, com certeza.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
As Fronteiras da Intimidade
Fala-se muito da importância de
colocar limites às crianças. Esta expressão ficou bastante associada à
imposição de regras, deixando na penumbra outro tipo de limites, tão ou mais
importantes: a intimidade e a privacidade de cada um. A intimidade e a
privacidade são dois conceitos importantíssimos à estruturação psíquica do
sujeito, duas fronteiras básicas da individualidade do ser humano.
Dentro da mesma casa, ou seja, partilhando
espaços físicos, há tendência a confundir o espaço de cada um. Por vezes, os
adultos não sabem como é importante ter alguns cuidados, invadindo o espaço das
crianças, outras vezes, permitindo em excesso que a criança invada o seu
espaço. Se as crianças pudessem defender-se, diriam então: “Pressinto que há
coisas minhas que não te dizem respeito e que há coisas tuas que não quero
saber; que há momentos e lugares meus onde não podes entrar e momentos e lugares
teus que não quero presenciar. Eu ainda não sei muito bem o quê mas tu, que és
crescido, ajudas-me com esta tarefa?”
O filtro tem de ser, em primeiro
lugar, uma competência dos adultos. É importante respeitar a intimidade da
criança, ensinando-a, aos poucos, a reservar (e preservar) tudo aquilo que é
seu. Como se ensina isto? Pelo exemplo, como tudo o resto. Se uma criança está
na casa de banho, não há que irromper pelo espaço sem pedir licença. Criança ou
não criança, o respeito é o mesmo. E antes de entrar no quarto, não custa nada
bater à porta e perguntar: “Posso?” É que, por vezes, os adultos têm tanta
necessidade de controlar as crianças que as desrespeitam profundamente. Quantos
pais já terão lido o diário das suas meninas? Quantos pais já terão espiolhado
os telemóveis dos seus filhos? Quantos pais já terão desejado ser confidentes
absolutos dos filhos? Não havendo qualquer indício de problemas, para quê e
porquê fazê-lo?
Também os pais devem reservar para
si aquilo que é seu. Mas quando confrontados, muitos adultos respondem: “Eu
também não me importo que o meu filho entre no meu quarto sem bater, nem que queira
saber de tudo da minha vida. Não tenho nada a esconder.” Tudo bem. Mas não acham isso estranho? Não se trata de esconder, mas de valorizar o que é meu e poder
distingui-lo do que é do outro. De perceber que estas confusões em nada medem o
amor e os afectos, apenas revelam tentativas de controlar angústias que ora são
dos adultos, ora das crianças, e que é preciso contê-las de outra forma. Que
saibamos que amar o outro é respeitar a sua individualidade, permitir-lhe uma
existência diferenciada. Para isso, lutamos contra os nossos medos, se preciso.
Pelo direito a não se deixar invadir e respectivo dever de não invadir também.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Olívia
Olha, vou começar! Espero que gostes! Era uma vez uma menina
chamada Olívia que vivia num grande palácio. Ela não era uma princesa mas era
uma menina muito rica, filha de uns pais muito ricos. No palácio havia todos os
luxos possíveis e imaginários e a
Olívia passava os seus dias entre cortinados de cetim e porcelanas chinesas,
escondendo-se e encontrando-se atrás de todos os objectos que pudessem servir
de esconderijo. Sim, não me interrompas, ela é que se encontrava a ela própria
porque não havia ninguém à procura dela! Deixa-me continuar a história. Um dia
a Olívia cansou-se de se procurar a si mesma e começou a criar teatros de
marionetas. Havia três personagens, três colheres de pau roubadas da grande
cozinha e transformadas no pescador, na mulher do pescador e na filha do
pescador. Mas a Olívia só tinha duas mãos para as três colheres de pau e a
plateia dos seus espectáculos (todos os bonecos que tinha) não era muito
participativa e também isso acabou por perder a graça. Por esta altura, a
Olívia descobriu os livros. Os livros tornaram-se a sua terceira grande
companhia. Pelas histórias dos outros a Olívia integrou a sua própria história
e coloriu os espaços em branco que ia encontrando. Sim, a Olívia assim não se
sentia só. Xiu, deixa-me continuar. Foi assim que a Olívia foi crescendo,
graças à sua capacidade de criar e colorir o seu próprio mundo, tão fisicamente
despido e tão simbolicamente rico. Foi assim que foi crescendo até poder
descobrir o mundo. Até perceber que fora do grande palácio existia um sem fim
de possibilidades e de plateias e de olhos interessados em si. E foi quando se
tornou mais parte do mundo que se sentiu mais zangada. Não, não é nada
estúpido. Foi porque cá fora começou a comparar a vida no palácio com outras vidas
e as pessoas do palácio com outras pessoas e percebeu que tinha perdido coisas
importantes pelo caminho, não te parece evidente? Desculpa, não queria ser
rude. Tomara eu que me fizessem tantas perguntas como tu fazes e que se
interessassem tanto como tu te interessas. Não, claro que não estávamos a falar
de mim, estávamos a falar da Olívia! Eu só estou a contar uma história!
Give Me Truth
Verdades esperam-nos, serenamente, ao longo do
caminho. Não têm a nossa urgência e por isso deixam-se estar, sabendo que tudo
tem um tempo mesmo que esse tempo nos pareça fora de tempo. O nosso tempo é
diferente do tempo do Universo. Não se sabe muito bem porquê mas é, quase
sempre, assim. Pois que seja. Que tarde, mas que chegue, essa coisa da verdade.
Outras vezes ela já se tinha mostrado, em sinais de fumo à beira da estrada, mas nós, distraidamente ou
propositadamente, não vemos. Mas aí o problema da verdade já não é o tempo que
ela demora mas sim a nossa incapacidade de olhar de frente para ela. Pois que
seja. Que se olhe tarde, mas que se olhe, por fim, para essa coisa da verdade. Como dizia Thoreau: "rather than love, than money, than faith, than
fame, than fairness... give me truth". Pois tudo o
resto, quando não assenta em verdade, não tem validade.
― Fotografia de Finn Beales, in Mývatn, Islândia
― Fotografia de Finn Beales, in Mývatn, Islândia
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