quinta-feira, 26 de março de 2015

Rêverie


Nem tudo é pensamento. Nem tudo é imediatamente analisável e prontamente dotado de um significado e de um sentido. Há coisas que acontecem aquém (ou além?) do pensamento. Sonhamos e pensamos o mundo também com nossas emoções, na fina malha que liga as representações simbólicas. São emoções que, grávidas de significado, procuram trazê-lo à luz para que possam ter um sentido. À arte de sonhar essas emoções com o outro, podemos chamar rêverie. Um termo cunhado por Bion, em 1971. É o que se espera que as mães façam com os seus bebés, muito antes do verbo; é também o que se espera que os psicanalistas possam fazer com os seus analisandos é o que acontece numa relação a dois onde se pode sonhar acordado em conjunto. É a capacidade de estar em ressonância com aquilo que o outro projecta dentro de nós. Para isso é preciso poder viajar e perder-se, livre curso, sem medo do que não se entende. Perder-se entre devaneios, fantasias, sensações corporais, percepções fugazes, imagens, dormências, melodias e tudo o que mais atravesse a nossa mente, ainda que temporariamente sem um sentido. A rêverie é uma bússola, em que o norte é dado pela intuição. É tão importante poder flutuar com o outro, ainda que aparentemente à deriva, enquanto esperamos que, naturalmente, esse sonho a dois ganhe um sentido. Sim, nem tudo é pensamento. Debussy também acreditava que música era o espaço entre as notas.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Certezas Absolutas


Dominados pelo egocentrismo, característica daquele que está centrado em si e no seu ponto de vista, e pela omnipotência, crença de que se pode tudo, na infância e ainda na adolescência temos muitas certezas. Quantos pais já tentaram falar com os filhos recebendo em troca um “Eu é que sei!”? Essas certezas são, nessa altura, protectoras: fonte de segurança e de estabilidade necessárias ao crescimento tranquilo, dada a ainda frágil estrutura emocional de uma criança. Pressupõe-se, no entanto, que uma das tarefas da adolescência é precisamente começar a pôr em causa muitas dessas certezas, o que explica parte da instabilidade emocional vivida nesta fase. Tudo o que era certo e seguro, começa a ser questionado, se bem que, para que isso aconteça, é necessário haver uma estrutura interna minimamente sólida, capaz de aguentar o embate com a realidade cada vez mais óbvia, e que não descompense ao questionar o mundo (externo e interno). Chegando à idade adulta, devemos então ser capazes de assumir que pouco ou nada sabemos que seja absolutamente certo. Temos as nossas crenças, mas crer é diferente de saber. Acreditar nas coisas e em nós é importante, mas a crença deve permitir que haja espaço para que seja questionada ou revista. Assim, a ordem natural do crescimento emocional e do desenvolvimento psíquico é que possamos ir flexibilizando o nosso pensamento de forma a ponderar as nossas certezas e estar disponíveis para aprender com os outros.
No entanto, nem sempre as coisas acontecem assim. Por vezes, os adultos têm tantas ou mais certezas absolutas do que as crianças. Acham-se frequentemente os donos da verdade. E demonstram uma certa tendência tirânica para achar que a sua verdade é a verdade universal. Seja em valores pessoais, políticos ou religiosos, é fácil encontrar pessoas cuja posição perante a vida e os outros não permite qualquer discussão. A certeza é a base do fundamentalismo. Em nome das certezas absolutas foram cometidos alguns dos crimes mais sangrentos da nossa história: elas são o fundamento de todo fanatismo. A certeza de que se está na posse da verdade absoluta revela um modo de pensar rígido e pouco reflexivo, pois se já sabemos a verdade, não precisamos reflectir mais sobre o assunto. Problema resolvido.
Então, ao contrário do que tantas vezes parece, a certeza é irmã da insegurança, ou seja, quanto mais inseguros somos, maior a necessidade de estarmos certos. Seja a respeito de que assunto for. É a incapacidade de tolerar as dúvidas que nos conduz aos dogmas. Claro que a existência parecerá muito mais segura se estivermos convictos de saber as respostas a todas as perguntas, mas isso não corresponde à realidade, muito menos pertence à esfera do pensamento maduro. Sócrates disse-nos, com toda a sabedoria: “só sei que nada sei”. Reduzamo-nos à nossa humilde insignificância e aceitemos que a única forma de atingir o conhecimento é manter a mente aberta e um espírito interrogativo.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Handling


É pelo toque do outro que conhecemos o nosso corpo. Pela ponta dos seus dedos. É nos contornos do corpo do outro que conhecemos os nossos contornos. Dentro do seu abraço. Tudo assim começa e depois assim continua porque o conhecimento não se basta a si mesmo e precisa de ser reforçado em novos e outros re-conhecimentos, em outros toques e outros abraços, que nos marquem a pele e assim nos recordem que somos um todo e que estamos aqui. Sentimo-nos na relação com o outro e mais precisamente na relação com o seu sentir. Se o outro não nos sentir, não conta. Sem isso, na falta desse ‘handling’ (como lhe chama Winnicott), sobra-nos um corpo desconhecido, ou mesmo traumatizado (se, para além ou no lugar da privação, o nosso corpo sofrer outros embates). Não é um estranho que habita em nós mas somos, sim, nós, que habitamos um estranho. O corpo torna-se matéria, desligado da mente e dos afectos; torna-se um meio de transporte, desintegrado, desinvestido e descontrolado; clivado e posto fora do lugar onde pertence — não é mais nosso. Torna-se fonte de mal-estar, de dores várias e que nos são alheias, que não entendemos, pois ele já não mais nos diz respeito. Não pertence a ninguém. Não é nosso e também já não pode ser oferecido ao outro. O toque pode até começar a queimar. E ele, corpo, que nasceu organismo vivo e vibrante, ponte entre nós e o universo, é agora só um pedaço de carne onde habita uma alma ou onde, se calhar, já não habita coisa nenhuma. 

terça-feira, 3 de março de 2015

Elastic Heart


O coração é elástico, músculo que contrai e expande, para nossa sorte. Foi feito assim para não se partir em mil bocados com as lutas que se travam lá dentro. No ringue defrontam-se as partes de nós que não se entendem. Varia a força do embate, do clássico braço de ferro ao combate sujo e ensanguentado. Quanto ao resultado, há partes que ganham, há partes que perdem, há empates técnicos, conforme os dias, as horas, os meses e as estações do ano. Conforme a luz, a lua, os humores e os amores. Conforme sabe-se-lá-o-quê porque isso afinal nem interessa e não há outro remédio senão aguentar esses confrontos na arena do coração. Fazem parte. Onde não há conflito, não há vida, nada se questiona, nada se transforma, nada se acrescenta, nada se avança.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Louco


Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim:
um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia confeccionado
e usado em sete vidas -e corri sem máscara pelas
ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram
para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça
do mercado, um garoto trepado no telhado de uma
casa gritou: "É um louco!".

Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e
minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras. E, como num
transe, gritei:

"Benditos, benditos os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

― Khalil Gibran

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Infinitudes


Não penses que te esqueço. Então ainda não sabes que trago comigo todos aqueles que amo? Não sabes que o coração é infinito e que há tantas formas de amor quantas pessoas há no mundo? É que eu acredito mesmo que o amor liga as almas mesmo quando os corpos não se encontram e os olhos não se cruzam. Não te queiras esquecer de mim. Esquecer é perder. Pelo contrário. Guarda. Guarda e lembra-te e será teu para sempre. Não sabes que quanto mais guardares mais pleno serás? Não sabes que corações cheios são corações vivos? Dizes-me que chegou ao fim e eu acho que começou. O amor não tem tempo e sem tempo não há princípio nem fim. Dizes-me que é difícil e dói. Sim. Mas não esqueças aquilo que dói. Dói porque é importante. Dói porque está vivo. Dói porque é amor. E pelo amor, tudo. Pelo amor, mais. Ele acrescenta-nos sempre.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Fevereiro

Escute só.
Isto é muito serio.
Ande,
escute que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito.
Há dez anos atrás o Li** disse que existe uma rachadura em tudo
e que é assim que a luz entra
não sei se entendi.
(…)
O amor é um animal tão mutante,
com tantas divisões possíveis...
Lembra daqueles termómetros que usávamos na boca
quando éramos pequenininhos?
lembra da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando o vidro do termómetro se quebra,
o elemento químico se espalha,
e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio se multiplicando…
acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah, é..
Eu gosto de você...
A luz entrou torta por nós adentro,
Mas olhe..
Eu gosto de você..
(…)
Hoje ainda faz bastante frio.
(...)
A esta hora na Terra é metade Carnaval, metade conspiração,
metade medo, metade fé,
metade folia, metade desespero,
E provavelmente, a esta hora,
uma metade do mundo está dançando, e a outra metade dormindo.
(...)
Eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.
(...)
Escute, isto é serio.
Andamos crescendo juntos, distraidamente.
As árvores crescem connosco.
Nossa pele se estende.
Nosso entendimento teso, também.
(...)
Quanto ao um para um entre nós dois, isso logo se vê.
Não sei nada sobre a paixão,
suspeito que você também não.
Mas começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos:
dois para lá,
e dois para cá.
portanto, escute, isto é muito sério.
Isto é uma proposta ao trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa,
vem comigo achar o metrónomo mágico entre a folhagem.
E no caminho até lá,
vem dançar comigo,
vem.

― Matilde Campilho


https://www.youtube.com/watch?v=VasLnEWnAxY

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Boyhood


― So what's the point?
― Of what?
― I don't know, any of this. Everything.
― Everything? What's the point? I mean, I sure as shit don't know. Neither does anybody else, okay? We're all just winging it, you know? The good news is you're feeling stuff. And you've got to hold on to that.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Acção e Contemplação


Há pessoas que são como cascatas. Atiram-se ao mundo, fazem barulho, e exteriorizam muito. A sua energia está mais dirigida para fora do que para dentro. São pessoas extremamente comunicativas e activas, que expressam com facilidade as suas opiniões e tentam impor suas ideias. São vivaças, ruidosas, expansivas. Fazem propaganda com facilidade. Outras pessoas são como serenos ribeiros. Apresentam uma intensidade diferente na forma de estar e de viver. São minimamente sociáveis mas gostam mais de ouvir do que falar. São mais contidas e mais introspectivas. Não buscam aparecer. Todo o seu corpo fala mais baixinho. Podemos dizer que o primeiro tipo tende mais para a acção, e o segundo, para a contemplação.
Vendo por outro prisma, do lado mais expansivo há, por vezes, o perigo de carência de vida interior, de profundidade e de capacidade de pensar. A pessoa pode agir demais e elaborar pouco, adquirindo pouca consciência de si. Ao querer impor-se demasiado nem sempre escuta o outro e o mundo. Do outro lado, mais recatado, há o perigo de nos tornarmos um poço de águas paradas, há o risco de estagnação. O excesso de introversão pode resvalar para a ruminação ou para o isolamento. Podem mesmo existir sérias dificuldades de expressão e, consequentemente, de afirmação e de capacidade de criar (pela acção).
Contudo, uma vez que na actualidade o agir predomina sobre o contemplar, a falta de reflexividade é o risco mais iminente. A maioria das pessoas, engolidas por um mundo de solicitações constantes do exterior, têm pouco tempo, espaço e disponibilidade para olhar para dentro.  Muitos, principalmente nas gerações mais novas, já não são educados para isso nem sabem como fazê-lo. No entanto, é fundamental serenar para ganhar perspectiva das coisas. De nós e da vida que levamos. Pede-se hoje iniciativa, empreendedorismo, mas o agir sem reflexão prévia não será o melhor caminho. É sempre preciso desconfundir acção e impulso para não embarcarmos numa "fuga para a frente", ou seja, num agir para não pensar.
Por isso, é importante abandonar o bulício urbano por um dia que seja. Encontrar um porto de abrigo e reparar como longe do ruído é mais fácil ganhar visão e escutar o que diz a alma. O objectivo não é permanecer na contemplação, mas sim utilizá-la como trampolim para a acção, uma acção mais verdadeira. Dentro de nós há sempre um anseio pelo equilíbrio. Queremos dar e receber, comunicar e compreender, conseguir agir, poder sentir e saber pensar. Precisamos de uma vida interior rica mas ao mesmo tempo queremos ser capazes de realizar algo que outras pessoas possam reconhecer e receber. Passar a vida a agir sem pensar ou passar vida a pensar sem agir são os dois extremos que devemos, a todo custo, evitar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A dor que me deixaste


Há dores que os outros depositam em nós por não terem capacidade para tomar conta delas. Podemos guardá-las durante algum tempo, podemos tentar transformá-las em algo bom, mas nem sempre é possível. E quando assim é, quando o outro apenas tem para nos dar a sua dor e nada mais, quando o nosso único lugar é não ter lugar, chega a hora de partir. 

― O poema (em prosa) encerra a caminhada de dolorosa consciencialização e libertação, in "a dor que me deixaste" da querida e única Maria João Saraiva.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Engano da Perfeição


Querer ser e fazer melhor é um desejo que funciona como motor do crescimento humano mas a busca da perfeição é uma atitude de natureza totalmente diferente. O perfeccionismo é uma forma rígida e insatisfeita de existir, que encara com severidade e intransigência as falhas ou as dificuldades (as próprias e, consequentemente, as dos outros). Nem sempre é uma escolha pessoal. Os "perfeccionistas" são, vulgarmente, aqueles que mais sofrem. Vivem aprisionados num rigor prepotente, que não admite nada menos que a excelência, mesmo quando sabemos que tudo tem o seu defeito, tudo tem o seu senão. É, bem vistas as coisas, uma atitude resistente à condição humana, condição de imperfeição, já que só o divino cumpre, eventualmente, o ideal de perfeição. Logo, revela alguma omnipotência da nossa parte. Quem pensamos que somos para ambicionar a perfeição? E mais, será que a perfeição nos faria mais felizes? Com certeza que não é por aí. O bem-estar é um estado de espírito independente do grau de "perfeição" de cada um. É por isso que entre o perfeccionismo e o desejo de querer ser melhor há todo um universo de moderação e aceitação. Aceitação de nós próprios, em primeiro lugar. Pois a busca da perfeição é, em primeiro lugar, espelho da falta de amor que temos por nós e que nos leva em busca de um ideal a que queremos corresponder. Mais amor, por favor. Só em amor podemos evoluir de forma bonita e natural.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Canção de Engate


Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás

— António Variações

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Aqui vou eu!


Segunda-feira. 2015. Lua cheia. Não nos podemos esconder mais porque a luz incide hoje em pleno sobre nós. Ilumina a penumbra onde tantas vezes nos escondemos e recorda-nos que é tempo de recomeçar. É que o fim das festas (ou o fim das férias) nem sempre é fácil. Há um pequeno luto que se faz quando o quotidiano retoma o seu curso e as responsabilidades chamam por nós. São as dores da realidade, sempre impiedosa. No entanto, é a realidade (e os limites que nos impõe) que nos permite saborear as festas e as férias e a vida com a alegria de uma criança. Sem ela, tudo perderia a sua riqueza. Pior, sem ela, tudo perderia o norte. A realidade dá-nos direcção, um sentido e um significado. Sem ela, os dias seriam uma sucessão de dias sem conteúdo, conduzindo-nos inevitavelmente à apatia, ao tédio e ao vazio. Pois por mais que neguemos, o ser humano precisa absolutamente de produzir e de criar para se sentir pessoa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Um pouco mais


O melhor do tempo que passa é a transformação que deixa. O melhor de chegar ao fim do ano é sentirmo-nos e sabermo-nos diferentes do seu início. Diferente não é nem melhor, nem pior, nem mais certo, nem mais errado. Não se trata de um juízo de valor nem de uma corrida para chegar a lado nenhum. Diferente é o que é: diferente. É um caminho. Um caminho que se faz, fazendo. Que bom quando cada ano é um pouco mais. Um pouco mais de vida, um pouco mais de mundo. Um pouco mais de história. Um pouco mais de gargalhadas, de encontros, de lágrimas, de despedidas. Um pouco mais de Verão, um pouco mais de Inverno. Um pouco mais de mim, um pouco mais dos outros, um pouco mais de mim nos outros e um pouco mais dos outros em mim. Por vezes um pouco mais de alegria e serenidade, outras vezes um pouco mais de angústia e sofrimento. Seja o que for, é sempre e precisamente o contrário de estagnação. É a constatação do fluxo constante da vida e dos seus vai-e-vens. Obrigado 2014! Que venha 2015!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O melhor presente de Natal


Os presentes no Natal fazem parte da nossa cultura. São símbolos de afecto e de pertença, possivelmente associados ao gesto dos Reis Magos, acarretando uma tradição de celebração da família. Mas ao longo dos tempos o ritual acabou confundido e contaminado por fortíssimos apelos ao consumo.
Se isto é verdade entre adultos, mais confuso é para as crianças, obrigando-nos a estar atentos ao que se passa dentro delas e ao que lhes estamos a transmitir, enquanto modelo para a vida. A criança, cada vez mais exposta ao meio consumista, vai expressando o seu desejo de receber um certo presente, mas cabe-nos a nós ter a sensibilidade de decifrar se o que é pedido é realmente uma escolha sua, algo que lhe trará verdadeira satisfação, ou uma imposição/influência do ambiente envolvente (media, grupo de pares, etc.). Ou seja, é importante perceber qual a real motivação da criança quando pede determinado presente.
O que acontece frequentemente é que a criança nem sempre pede um presente que seja verdadeiramente importante para si. Repare-se que não é invulgar a criança ir mudando de ideia a cada anúncio que passa na televisão, ou mesmo consoante aquilo que alguns amigos pediram como presente. Mas esta dúvida é, na verdade, uma falsa dúvida. É fruto do bombardeamento de informações que ela não tem maturidade emocional para gerir, ou fruto da dificuldade em se conhecer a si mesma e aos seus desejos, imitando os outros em alternativa. O que acontece depois é que, ao receber o presente, percebe que afinal não o queria, e este acaba por ser posto de lado.
O melhor presente de Natal (ou de outra coisa qualquer) é um presente que vai ao encontro do desejo autêntico da criança e, em geral, esse desejo está relacionado com os seus afectos mais íntimos e com a sua fase de crescimento (e respectivos desafios). Assim, um menino que tem vários medos pode pedir um conjunto de tanques e soldadinhos, uma menina que começou a montar a cavalo pode pedir uma boneca cavaleira, ou uma criança que acha que ser cientista pode pedir um microscópio. O exemplo não importa, mas ilustra que, em todos os casos, o valor do presente em questão, para a criança, não é aleatório, nem financeiro (pedir o presente mais caro), nem uma imitação, mas sim emocional. Diz respeito às suas vivências: sejam medos, descobertas ou desejos. Isso é o que deve conter num presente. O desejo deve ser o desejo da criança e não o desejo do mercado ou de quem lhe dá um presente (ex: quero que o meu filho seja médico portanto vou oferecer-lhe um estojo médico).

E se, no fim de tudo isto, o presente não é possível por qualquer razão, basta dizer à criança sobre a impossibilidade real de oferecer aquele presente. A vida é feita de limitações e são esses limites que nos ensinam a esperar e que nos permitem sonhar e desejar. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A Beleza das 'Cousas'


Se o que é belo para uns nunca será belo para outros, sendo a beleza um dos conceitos mais subjectivos e voláteis da humanidade, o que é o belo senão aquilo que nos faz felizes? O poema — Alberto Caeiro, com certeza. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

As Fronteiras da Intimidade


Fala-se muito da importância de colocar limites às crianças. Esta expressão ficou bastante associada à imposição de regras, deixando na penumbra outro tipo de limites, tão ou mais importantes: a intimidade e a privacidade de cada um. A intimidade e a privacidade são dois conceitos importantíssimos à estruturação psíquica do sujeito, duas fronteiras básicas da individualidade do ser humano.  
Dentro da mesma casa, ou seja, partilhando espaços físicos, há tendência a confundir o espaço de cada um. Por vezes, os adultos não sabem como é importante ter alguns cuidados, invadindo o espaço das crianças, outras vezes, permitindo em excesso que a criança invada o seu espaço. Se as crianças pudessem defender-se, diriam então: “Pressinto que há coisas minhas que não te dizem respeito e que há coisas tuas que não quero saber; que há momentos e lugares meus onde não podes entrar e momentos e lugares teus que não quero presenciar. Eu ainda não sei muito bem o quê mas tu, que és crescido, ajudas-me com esta tarefa?”
O filtro tem de ser, em primeiro lugar, uma competência dos adultos. É importante respeitar a intimidade da criança, ensinando-a, aos poucos, a reservar (e preservar) tudo aquilo que é seu. Como se ensina isto? Pelo exemplo, como tudo o resto. Se uma criança está na casa de banho, não há que irromper pelo espaço sem pedir licença. Criança ou não criança, o respeito é o mesmo. E antes de entrar no quarto, não custa nada bater à porta e perguntar: “Posso?” É que, por vezes, os adultos têm tanta necessidade de controlar as crianças que as desrespeitam profundamente. Quantos pais já terão lido o diário das suas meninas? Quantos pais já terão espiolhado os telemóveis dos seus filhos? Quantos pais já terão desejado ser confidentes absolutos dos filhos? Não havendo qualquer indício de problemas, para quê e porquê fazê-lo?

Também os pais devem reservar para si aquilo que é seu. Mas quando confrontados, muitos adultos respondem: “Eu também não me importo que o meu filho entre no meu quarto sem bater, nem que queira saber de tudo da minha vida. Não tenho nada a esconder.” Tudo bem. Mas não acham isso estranho? Não se trata de esconder, mas de valorizar o que é meu e poder distingui-lo do que é do outro. De perceber que estas confusões em nada medem o amor e os afectos, apenas revelam tentativas de controlar angústias que ora são dos adultos, ora das crianças, e que é preciso contê-las de outra forma. Que saibamos que amar o outro é respeitar a sua individualidade, permitir-lhe uma existência diferenciada. Para isso, lutamos contra os nossos medos, se preciso. Pelo direito a não se deixar invadir e respectivo dever de não invadir também.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Olívia


Olha, vou começar! Espero que gostes! Era uma vez uma menina chamada Olívia que vivia num grande palácio. Ela não era uma princesa mas era uma menina muito rica, filha de uns pais muito ricos. No palácio havia todos os luxos possíveis e imaginários e a Olívia passava os seus dias entre cortinados de cetim e porcelanas chinesas, escondendo-se e encontrando-se atrás de todos os objectos que pudessem servir de esconderijo. Sim, não me interrompas, ela é que se encontrava a ela própria porque não havia ninguém à procura dela! Deixa-me continuar a história. Um dia a Olívia cansou-se de se procurar a si mesma e começou a criar teatros de marionetas. Havia três personagens, três colheres de pau roubadas da grande cozinha e transformadas no pescador, na mulher do pescador e na filha do pescador. Mas a Olívia só tinha duas mãos para as três colheres de pau e a plateia dos seus espectáculos (todos os bonecos que tinha) não era muito participativa e também isso acabou por perder a graça. Por esta altura, a Olívia descobriu os livros. Os livros tornaram-se a sua terceira grande companhia. Pelas histórias dos outros a Olívia integrou a sua própria história e coloriu os espaços em branco que ia encontrando. Sim, a Olívia assim não se sentia só. Xiu, deixa-me continuar. Foi assim que a Olívia foi crescendo, graças à sua capacidade de criar e colorir o seu próprio mundo, tão fisicamente despido e tão simbolicamente rico. Foi assim que foi crescendo até poder descobrir o mundo. Até perceber que fora do grande palácio existia um sem fim de possibilidades e de plateias e de olhos interessados em si. E foi quando se tornou mais parte do mundo que se sentiu mais zangada. Não, não é nada estúpido. Foi porque cá fora começou a comparar a vida no palácio com outras vidas e as pessoas do palácio com outras pessoas e percebeu que tinha perdido coisas importantes pelo caminho, não te parece evidente? Desculpa, não queria ser rude. Tomara eu que me fizessem tantas perguntas como tu fazes e que se interessassem tanto como tu te interessas. Não, claro que não estávamos a falar de mim, estávamos a falar da Olívia! Eu só estou a contar uma história!

Give Me Truth


Verdades esperam-nos, serenamente, ao longo do caminho. Não têm a nossa urgência e por isso deixam-se estar, sabendo que tudo tem um tempo mesmo que esse tempo nos pareça fora de tempo. O nosso tempo é diferente do tempo do Universo. Não se sabe muito bem porquê mas é, quase sempre, assim. Pois que seja. Que tarde, mas que chegue, essa coisa da verdade. Outras vezes ela já se tinha mostrado, em sinais de fumo à beira da estrada, mas nós, distraidamente ou propositadamente, não vemos. Mas aí o problema da verdade já não é o tempo que ela demora mas sim a nossa incapacidade de olhar de frente para ela. Pois que seja. Que se olhe tarde, mas que se olhe, por fim, para essa coisa da verdade. Como dizia Thoreau: "rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth". Pois tudo o resto, quando não assenta em verdade, não tem validade.

― Fotografia de Finn Beales, in Mývatn, Islândia